Rádio

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O significado da maternidade para a sociedade e para a família



JOÃO PAULO II

11ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 10 de Janeiro de 1979

1. Chegou ao fim o tempo do Natal. Passou também a festa da Epifania. Mas as meditações dos nossos encontros das quartas-feiras referir-se-ão ainda ao conteúdo fundamental das verdades que o período natalício todos os anos nos coloca diante dos olhos. Tais verdades aparecem-nos com densidade especial. E necessário tempo para se verem com os olhos abertos do espírito, que tem o direito e a necessidade de meditar a verdade, de contemplar toda a sua simplicidade e profundidade.

Durante a oitava do Natal, a Igreja leva a que dirijamos o olhar do nosso espírito para o mistério da Maternidade. No último dia da oitava, que é também o primeiro dia do ano novo, celebra-se a festa da Maternidade da Mãe de Deus. Deste modo põe-se em evidência «o lugar» da Mãe, «a dimensão» maternal em todo o mistério do nascimento de Deus.

2. Esta Mãe tem o nome de Maria. A Igreja venera-a de modo particular. O culto que Lhe presta supera o culto de todos os outros santos (culto de hiperdulia). Venera-a deste modo porque foi a Mãe; porque foi eleita para ser a Mãe do Filho de Deus; porque àquele Filho, que é o Verbo Eterno, deu no tempo «o corpo», deu num momento histórico «a humanidade». A Igreja insere esta veneração especial da Mãe de Deus em todo o ciclo do ano litúrgico, durante o qual, de modo discreto mas também muito solene, é acentuado — por meio da festa da Anunciação celebrada nove meses antes do Natal, a 25 de Março — o momento da conceição humana do Filho de Deus. Pode dizer-se que durante todo este período, de 25 de Março a 25 de Dezembro, a Igreja caminha com Maria, a qual, como todas as mães, espera a hora do nascimento: o dia do Natal. E durante este tempo Maria «caminha» também com a Igreja. A sua maternal expectativa inscreve-se de modo discreto na vida da Igreja cada ano. Tudo o que sucedeu entre Nazaré, Ain Karin e Belém é o tema da liturgia, da vida da Igreja, da oração — especialmente da oração do rosário — e da contemplação. Hoje já desapareceu do ano litúrgico uma festa especial dedicada à «Virgo Paritura», a festa «da maternal expectação da Virgem», que antigamente era celebrada a 18 de Dezembro.

3. Inserindo deste modo, no ritmo da sua liturgia, o Mistério «da maternal expectação da Virgem», a Igreja medita, projectada sobre o fundo do Mistério daqueles meses que unem a hora do nascimento com a hora da conceição, toda a medida espiritual da maternidade da Mãe de Deus.

Esta maternidade «espiritual» (quoad spiritum) iniciou-se ao mesmo tempo que a maternidade física (quoad corpus). No momento da anunciação, Maria teve este diálogo com o Anunciador: Como poderá ser, se eu não conheço homem? (Lc. 1, 34). Resposta: "O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Altíssimo cobrir-te-á com a sua sombra. Por isso é que o Santo que vai nascer se há-de chamar Filho de Deus" (Lc. 1, 35). Começou ao mesmo tempo que a maternidade física (quoad corpus) a sua maternidade espiritual (quoad spiritum). Esta maternidade encheu assim os nove meses de expectativa da hora do nascimento, como os 30 anos passados entre Belém, Egipto e Nazaré, como também os anos seguintes — durante os quais Jesus, depois de sair da casa de Nazaré, ensinou o Evangelho do Reino — esses anos que terminaram com os acontecimentos do Calvário e com a Cruz. Ali chegou a maternidade «espiritual», em certo sentido, ao seu momento-chave: Ao ver sua Mãe e, junto dela, o discípulo que Ele amava, Jesus disse a Sua Mãe: «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo. 19, 26). Assim, de maneira nova, legou a Sua própria Mãe ao homem: ao homem, a quem transmitiu o Evangelho. Legou-a a cada homem. Legou-a à Igreja no dia do seu nascimento histórico, o dia do Pentecostes. Desde esse dia toda a Igreja a tem como Mãe. E todos os homens a têm como Mãe. Compreendem estes as palavras, pronunciadas do alto da Cruz, como dirigidas a cada um. Mãe de todos os homens. A maternidade espiritual não conhece limites. Prolonga-se no tempo e no espaço. Atinge tantos corações humanos! Atinge as nações inteiras. A maternidade constitui argumento predilecto e talvez o mais frequente para a criatividade do espírito humano. É elemento constitutivo da vida interior de tantos homens! E chave de abóbada da cultura humana. Maternidade: grande, esplêndida, fundamental realidade humana, desde o início chamada com o próprio nome pelo Criador. De novo admitida no Mistério da Natividade de Deus no tempo. Nele, neste Mistério, incluída. Com ele inseparavelmente unida.

4. Nos primeiros dias do meu ministério na sé romana de São Pedro tive o prazer de encontrar-me com um Homem ao qual, desde aquele momento, fiquei a sentir-me particularmente unido. Permiti-me que não pronuncie aqui o nome dessa Pessoa, cuja autoridade na vida da Nação italiana é tão grande, e cujas palavras também eu ouvi no último dia do ano com atenção unida ao reconhecimento. Eram simples, profundas e cheias de solicitude pelo bem do homem, da Pátria e da humanidade inteira, da juventude em particular. Perdoar-me-á o meu Egrégio Interlocutor se, embora não dizendo o Seu Nome, tomo dalgum modo a liberdade de referir-me às palavras que durante aquele primeiro encontro lhe ouvi. * Eram palavras que diziam respeito à mãe: à sua mãe. Depois de tantos anos de vida, de experiência, de lutas políticas e sociais, recordava ele a sua mãe como aquela a quem, juntamente com a vida, deve ainda o que forma o início e o esqueleto da história do seu espírito. Ouvi essas palavras com sincera comoção. Conservei-as na memória e não as esquecerei nunca. Eram para mim como anúncio, e ao mesmo tempo um apelo.

Não falo aqui da minha mãe, porque a perdi cedo demais; mas sei que a ela devo as mesmas coisas, que o meu Ilustre Interlocutor expressou de modo tão simples. Por isso me permito referir-me àquilo que Lhe ouvi.

5. E falo hoje deste assunto para cumprir o que anunciei há uma semana. Então disse que devemos estar em expectativa ao lado de cada mãe; que devemos circundar com particular assistência a maternidade e o grande acontecimento a ela ligado, a concepção e o nascimento do homem, que se coloca sempre na base da educação humana. A educação apoia-se sobre a confiança naquela que deu a vida. Esta confiança não a podemos nunca expor a perigos. No tempo do Natal, a Igreja coloca diante dos olhos do nosso espírito a Maternidade de Maria, e faz isso no primeiro dia do novo ano. Faz isso também para colocar em evidência a dignidade de cada mãe, para definir e recordar o significado da maternidade, não só na vida de cada homem mas também em toda a cultura humana. A maternidade é a vocação da mulher. É vocação eterna e é também vocação contemporânea. «A Mãe que tudo compreende e de coração abraça cada um de nós»: são palavras duma canção, cantada pela juventude na Polónia, palavras que me vêm ao espírito neste momento; a canção anuncia, em seguida, que o mundo hoje, de maneira especial, «tem fome e sede» daquela maternidade, que «física» e «espiritualmente» é a vocação da mulher, assim como o é de Maria.

É necessário fazer tudo para que a dignidade desta esplêndida vocação não fique destruída na vida interior das gerações novas; para que não seja diminuída a autoridade da mulher-mãe na vida familiar, social e pública, e em toda a nossa civilização: em toda a nossa legislação contemporânea, na organização do trabalho, nas publicações, na cultura da vida quotidiana, na educação e no estudo. Em todos os campos da vida.

É este um critério fundamental.

Devemos fazer tudo para que a mulher mereça o amor e a veneração. Devemos fazer tudo para que os filhos, a família e a sociedade vejam nela aquela dignidade que na mesma viu Cristo.

Mater genetrix, spes nostra!

* * *

* É obviamente compreensível a reserva do Papa nesta passagem do discurso pronunciado num contexto e num ambiente particulares. Não cremos, porém, que contrarie a delicadeza do Santo Padre o facto de explicitarmos aqui o seu pensamento, como aliás já o fizeram vários outros órgãos de informação: João Paulo II referia-se ao Presidente da República Italiana, Sandro Pertini. (Ndr. -12.1.79).

Saudações

Às Obras para o Auxílio das Igrejas Orientais

Dirijo uma saudação cordial aos dirigentes das Entidades agregadas à "Reunião das Obras para o Auxílio das Igrejas Orientais", que se encontram em Roma nestes dias para organizar, e garantir execução mais prática, aos planos de intervenção e de assistência em favor das comunidades cristãs dependentes da Sagrada Congregação para as Igrejas Orientais.

O Papa, caríssimos, conhece a sensibilidade e a generosa dedicação com que satisfazeis este encargo missionário, respeitando, e defendendo ao mesmo tempo, o princípio de prioridade que têm o anúncio e a difusão da Mensagem Evangélica. Deste modo a vossa acção, silenciosa e benéfica, ao mesmo tempo que presta homenagem à do missionário, facilita a realização da mesma e torna-a instrumento de promoção humana c cristã. Acompanho, com sentimentos de vivo reconhecimento e com votos de serena prosperidade, a Bênção Apostólica, que torno extensiva a quantos têm mérito, juntamente convosco, no desenvolvimento desse nobre encargo.

À Paróquia de Santa Maria Auxiliadora e aos Focolarinos

Uma saudação especial aos fiéis da paróquia romana de Santa Maria Auxiliadora. na Via Tuscolana, como também às Voluntárias do Movimento dos "Focolares", reunidas em Roma para o seu congresso anual sobre o tema: "A presença de Jesus no irmão".

A estes dois grupos especialmente numerosos, como também a todos os vários grupos que participam neste encontro, exprimo de coração o meu agradecimento pela visita, a minha palavra de incentivo quanto ao compromisso tomado de vida cristã, e os meus votos de todas as felicidades para o ano há pouco começado.

Aos Doentinhos

Mas desejo reservar uma palavra especial, embora brevíssima, para os enfermos e para aqueles que estão em ansiedade devido às precárias condições da própria saúde.

Ao agradecer-vos a vossa visita, caríssimos irmãs e irmãos, exorto-vos a ver no vosso sofrimento, com renovada fé e amor, o Crucifixo. Acompanhem-vos os meus votos de todo o conforto, valorizados pela Bênção Apostólica, que torno extensiva àqueles que vos são caros.

Aos jovens Casais

Por fim, não posso esquecer os jovens casais, aos quais dirijo de coração as minhas boas-vindas.

A liturgia que segue o tempo natalício apresenta à nossa reflexão a vida oculta, em Nazaré, da Sagrada Família e, de modo particular, Nossa Senhora que medita no seu coração as palavras que dizem respeito a Jesus (cfr. Lc. 2, 19, 51).

Eis, caríssimos filhos, o segredo para progredir na vossa união e no vosso afecto recíproco. Volvei sempre com o pensar à graça do sacramento, por vós mesmos celebrado, que tornou presente Jesus nas vossas almas com as suas lições, isto é, com as suas palavras de vida eterna. Meditando nessas palavras, encontrareis ânimo e apoio para a vossa vicia.

De coração vos abençoo.

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