Rádio

sábado, 24 de dezembro de 2011

A verdade brotou da terra e a justiça olhou do alto do céu



Desperta, ó homem: por tua causa Deus se fez homem. Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá (Ef 5,14). Por tua causa, repito, Deus se fez homem.

Estarias morto para sempre, se ele não tivesse nascido no tempo. Jamais te libertarias da carne do pecado, se ele não tivesse assumido uma carne semelhante à do pecado. Estarias condenado a uma eterna miséria, se não fosse a sua misericórdia. Não voltarias à vida, se ele não tivesse vindo ao encontro da tua morte. Terias perecido, se ele não te socorresse. Estarias perdido, se ele não viesse salvar-te.

Celebremos com alegria a vinda da nossa salvação e redenção. Celebremos este dia de festa, em que o grande e eterno Dia, gerado pelo Dia grande e eterno, veio a este nosso dia temporal e tão breve.

Ele se tornou para nós justiça, santificação e libertação, para que, como está escrito, “quem se gloria, glorie-se no Senhor” (1Cor 1,30-31).

A verdade brotará da terra (Sl 84,12), o Cristo que disse: eu sou a verdade (Jo 14,6), nasceu da Virgem. E a justiça olhou do alto do céu (cf. Sl 84,12), porque o homem, crendo naquele que nasceu, é justificado não por si mesmo, mas por Deus.

A verdade brotou da terra porque o Verbo se fez carne (Jo 1,14). E a justiça olhou do alto do céu porque todo o dom precioso e toda a dádiva perfeita vêm do alto (Tg 1,17).

A verdade brotou da terra, isto é, da carne de Maria. E a justiça olhou do alto do céu porque o homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu (Jo 3,27).

Justificados pela fé, estamos em paz com Deus (Rm 5,1) porque a justiça e a paz se beijaram (cf. Sl 84,11) por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo, pois a verdade brotou da terra. Por ele tivemos acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus (Rm 5,2). Não disse “de nossa glória”, mas da glória de Deus, porque a justiça não procede de nós, mas olha do alto do céu. Portanto, quem se gloria não se glorie em si mesmo, mas no Senhor.

Eis por que, quando o Senhor nasceu da Virgem, os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14 Vulgata).

Como veio a paz à terra senão por ter a verdade brotado da terra, isto é, Cristo ter nascido em carne humana? Ele é a nossa paz: de dois povos fez um só (cf. Ef 2,14), para que fôssemos homens de boa vontade, unidos uns aos outros pelo suave vínculo da caridade.

Alegremo-nos com esta graça, para que nossa glória seja o testemunho da nossa consciência, e assim nos gloriaremos, não em nós mesmos, mas no Senhor. Por isso disse o Salmista: Vós sois a minha glória que levanta a minha cabeça (Sl 3,4). Na verdade, que graça maior Deus poderia nos conceder do que, tendo um único Filho, fazê-lo Filho do homem e reciprocamente fazer os filhos dos homens serem filhos de Deus?

Procurai o mérito, procurai a causa, procurai a justiça; e vede se encontrais outra coisa que não seja a graça de Deus.

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo

(Sermo 185: PL 38, 997-999)

(Séc. V)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Manifestação do mistério escondido



Único é o Deus que conhecemos, irmãos, e não por outra fonte que não seja a Sagrada Escritura. Devemos, pois, saber o que ela anuncia e compreender o que ensina. Creiamos no Pai como ele quer ser acreditado; glorifiquemos o Filho como ele quer ser glorificado; e recebamos o Espírito Santo como ele quer se dar a nós. Consideremos tudo isso, não segundo nosso próprio arbítrio e interpretação pessoal, nem fazendo violência aos dons de Deus, mas como ele próprio nos ensinou pelas santas Escrituras.

Quando só existia Deus, e não havia ainda nada que existisse com ele, decidiu criar o mundo. Criou-o por seu pensamento, sua vontade e sua palavra; e o mundo começou a existir como ele quis e realizou. Basta-nos apenas saber que nada coexistia com Deus. Não havia nada além dele, só ele existia e era perfeito em tudo. Nele estava a inteligência, a sabedoria, o poder e o conselho. Tudo estava nele e ele era tudo. E quando quis e como quis, no tempo que havia estabelecido, manifestou o seu Verbo, por quem fez todas as coisas.

Deus possuía o Verbo em si mesmo, e o Verbo era imperceptível para o mundo criado; mas fazendo ouvir sua voz, Deus tornou-o perceptível. Gerando-o como luz da luz, enviou como Senhor da criação aquele que é sua própria inteligência. E este Verbo, que no princípio era visível apenas para Deus e invisível para o mundo, tornou-se visível para que o mundo, vendo-o manifestar-se, pudesse ser salvo. O Verbo é verdadeiramente a inteligência de Deus que, ao entrar no mundo, se manifestou como o servo de Deus. Tudo foi feito por ele, mas ele procede unicamente do Pai. Foi ele quem deu a lei e os profetas; e ao fazê-lo, impulsionou os profetas a falarem sob a moção do Espírito Santo para que, recebendo a força da inspiração do Pai, anunciassem o seu desígnio e a sua vontade.

O Verbo, portanto, se tornou visível, como diz São João. Este repete em síntese o que os profetas haviam dito, demonstrando que aquele era o Verbo por quem tinham sido criadas todas as coisas: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus; e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por ele e sem ele nada se fez (Jo 1,1.3). E, mais adiante, prossegue: O mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não quis conhecê-lo. Veio para o que era seu, os seus, porém, não o acolheram (Jo 1,10-11).



Do Tratado contra a heresia de Noeto, de Santo Hipólito, presbítero.

(Cap. 9-12: PG 10, 815-919)

(Séc. III)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Magnificat



E Maria disse: A minh’alma engrandece o Senhor e exulta meu espírito em Deus, meu Salvador (Lc 1,46-47).

O Senhor, diz ela, elevou-me por um dom tão grande e inaudito, que nenhuma palavra o pode descrever e mesmo no íntimo do coração é difícil compreendê-lo. Por isso dedico todas as forças de meu ser ao louvor e à ação de graças, contemplando a grandeza daquele que é eterno, e ofereço com alegria minha vida, tudo que sinto e penso, porque meu espírito rejubila pela divindade eterna de Jesus, o Salvador, que concebi e é gerado em meu seio.

O Poderoso fez em mim maravilhas, e santo é o seu nome! (Lc 1,49).

Estas palavras se relacionam com o início do cântico que diz: A minh’alma engrandece o Senhor. De fato, só a alma em quem o Senhor se dignou fazer maravilhas pode engrandecê-lo e louvá-lo dignamente e dizer, exortando os que compartilham seus desejos e aspirações: Comigo engrandecei ao Senhor Deus, exaltemos todos juntos o seu nome (Sl 33,4).

Quem conhece o Senhor e é negligente em proclamar sua grandeza e santificar o seu nome, será considerado o menor no Reino dos Céus (Mt 5,19). Diz-se que santo é o seu nome porque, pelo seu poder ilimitado, transcende toda criatura e está infinitamente separado de todas as coisas criadas.

Acolhe Israel, seu servidor, fiel ao seu amor (Lc 1,54).

Israel é, com razão, denominado servidor do Senhor, porque, sendo obediente e humilde, foi por ele acolhido para ser salvo, como diz Oséias: Quando Israel era criança, eu já o amava (Os 11,1). Aquele que recusa humilhar-se não pode certamente ser salvo, nem dizer com o Profeta: Quem me protege e me ampara é meu Deus; é o Senhor quem sustenta a minha vida! (Sl 53,6). Mas, quem se fizer humilde como uma criança, esse é o maior no Reino dos Céus (cf. Mt 18,4).

Como havia prometido a nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos para sempre (Lc 1,55).

Trata-se da descendência de Abraão segundo o espírito e não segundo a carne, isto é, não apenas dos filhos segundo a natureza, mas de todos que seguiram o exemplo da sua fé, fossem eles circuncidados ou incircuncisos. Pois o próprio Abraão, ainda incircunciso, acreditou e isto lhe foi imputado como justiça.

A vinda do Salvador foi, portanto, prometida a Abraão e a seus filhos para sempre, isto é, aos filhos da promessa, dos quais se diz: Sendo de Cristo, sois então descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa (Gl 3,29).

É com razão que, antes do nascimento do Senhor e de João, suas mães profetizam, para que, tendo o pecado começado pela mulher, os bens comecem igualmente por ela; e se foi pela sedução de uma só mulher que a morte foi introduzida no mundo, agora é pela profecia de duas mulheres que se anuncia ao mundo a salvação.



Da Exposição sobre o Evangelho de São Lucas, de São Beda Venerável, presbítero,

(Lib. 1, 46-55: CCL 120, 37-39)

(Séc. VIII)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A visitação da Virgem Maria



O Anjo anunciara à Virgem Maria coisas misteriosas. Para fortalecer sua fé com um exemplo, anunciou-lhe a maternidade de uma mulher idosa e estéril, como prova de que é possível a Deus tudo que ele quer.

Logo ao ouvir a notícia, Maria dirigiu-se às montanhas, não por falta de fé na profecia ou falta de confiança na mensagem, nem por duvidar do exemplo dado, mas guiada pela felicidade de ver cumprida a promessa, levada pela vontade de prestar um serviço, movida pelo impulso interior de sua alegria.

Já plena de Deus, aonde ir depressa senão às alturas? A graça do Espírito Santo ignora a lentidão. Manifestam-se imediatamente os benefícios da chegada de Maria e da presença do Senhor, pois quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança exultou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1,41).

Notai como cada palavra está escolhida com perfeita precisão e propriedade: Isabel foi a primeira a ouvir a voz, mas João foi o primeiro a pressentir a graça; aquela ouviu segundo a ordem da natureza, este exultou em virtude do mistério. Ela percebeu a chegada de Maria, ele, a do Senhor; a mulher ouviu a voz da mulher, o menino sentiu a presença do Filho; elas proclamam a graça de Deus, eles realizam-na interiormente, iniciando no seio de suas mães o mistério de misericórdia; e, por um duplo milagre, as mães profetizam sob a inspiração de seus filhos.

A criança exultou, a mãe ficou cheia do Espírito Santo. A mãe não se antecipou ao filho; mas estando o filho cheio do Espírito Santo, comunicou-o a sua mãe. João exultou; o espírito de Maria também exultou. A alegria de João se comunica a Isabel; quanto a Maria, porém, não nos é dito que recebesse então o Espírito, mas que seu espírito exultou. – Aquele que é incompreensível agia em sua mãe de modo incompreensível – Isabel recebe o Espírito Santo depois de conceber; Maria recebeu antes. Por isso, Isabel diz a Maria: Feliz és tu que acreditaste (cf. Lc 1,45).

Felizes sois também vós, que ouvistes e acreditastes, pois toda alma que possui a fé concebe e dá à luz a Palavra de Deus e conhece suas obras.

Esteja em cada um de vós a alma de Maria para engrandecer o Senhor: em cada um esteja o espírito de Maria para exultar em Deus. Embora segundo a natureza haja uma só Mãe do Cristo, segundo a fé o Cristo é o fruto de todos; pois toda alma recebe o Verbo de Deus desde que, sem mancha e libertada do pecado, guarda a castidade com inteira pureza.

Toda alma que alcança esta perfeição, engrandece o Senhor como a alma de Maria o engrandeceu e seu espírito exultou em Deus, seu Salvador.

Na verdade, o Senhor é engrandecido, como lemos noutro lugar: Comigo engrandecei ao Senhor Deus (Sl 33,4). Não que a palavra humana possa acrescentar algo ao Senhor, mas porque ele é engrandecido em nós: a imagem de Deus é o Cristo e assim, quando alguém age com piedade e justiça, engrandece essa imagem de Deus, a cuja semelhança foi criado; e, engrandecendo-a, participa cada vez mais da grandeza divina.



Da Exposição sobre o Evangelho de São Lucas, de Santo Ambrósio, bispo

(Lib. 2, 19. 22-23. 26-27: CCL 14, 39-42)

(Séc. IV)

A dimensão ética na vida do homem



PAPA JOÃO PAULO II

8ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 20 de Dezembro de 1978

1. O nosso encontro de hoje oferece-nos ensejo para a quarta e turma meditação sobre o Advento. O Senhor está perto, recorda-no-lo, todos os dias, a liturgia do Advento. Esta vizinhança do Senhor todos a sentimos: tanto nós, sacerdotes, rezando todos os dias as admiráveis "antífonas maiores" do Advento, como todos os cristãos que procuram preparar os corações e consciências para a Sua vinda. Sei que neste período os confessionários nas igrejas da minha pátria, a Polónia, são assediados, não menos que durante a Quaresma. Penso que assim será certamente também aqui na Itália e em toda a parte onde o espírito de fé faz sentir a necessidade de abrir a alma ao Senhor que está para vir. A alegria maior desta expectativa do Advento é a que vivem as crianças. Lembro-me que elas precisamente gostavam de se apressar nas paróquias da minha pátria para as Missas que se celebram à aurora (chamadas "Rorate...", da palavra com que se inicia a liturgia: Rorate coeli: destilai, ó céus, lá das alturas, o orvalho [Is 45. 8]).

Contavam todos os dias quantos "degraus" faltavam ainda na "escada do céu", pela qual Jesus desceria à terra, para O poderem encontrar à meia-noite do Natal no presépio de Belém.

O Senhor está perto!

2. Há uma semana, falámos já desta aproximação do Senhor. Este foi, com efeito, o tema terceiro das considerações das quartas-feiras, escolhidas para o Advento deste ano. Fomos meditando, referindo-nos aos princípios mesmos da humanidade, isto é ao livro do Génesis, as verdades fundamentais do Advento: Deus criador (Elohim) e nesta criação revela-se simultaneamente a Si mesmo; o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, "é espelho" de Deus no mundo visível criado. Estes foram os primeiros e fundamentais temas das nossas meditações durante o Advento. Depois o terceiro tema que pode resumir-se brevemente na palavra "graça". Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Tim. 2, 4). Deus quer que o homem seja participante da Sua verdade, do Seu amor e do Seu mistério, a fim de poder tomar parte na vida do próprio Deus. "A árvore da vida" simboliza esta realidade já desde as primeiras páginas da Sagrada Escritura. Todavia, encontramo-nos também nas mesmas paginas com outra árvore: o livro do Génesis chama-lhe "árvore do conhecimento do bem e do mal" (Gén. 2, 16). Para que possa comer o fruto da árvore da vida, o homem não deve tocar no fruto da árvore "do conhecimento do bem e do mal". Pode esta expressão parecer lenda arcaica. Mas quanto mais penetramos na "realidade do homem", como nos foi dado deduzi-la da sua história terrena — assim como dela falam a cada um de nós a nossa experiência humana interior e a nossa consciência moral —, tanto mais advertimos que não podemos ficar indiferentes, sacudindo os ombros diante destas imagens bíblicas primitivas. Que enorme carga de verdade existencial, sobre o homem, não incluem elas! Verdade que sente cada um de nós como própria. Ovídio, o antigo poeta romano, pagão, não disse porventura de modo explícito: "Video meliora proboque, deteriora sequor" — Vejo o que é melhor, aprovo-o, mas sigo o que é pior (Metamorfoses. VII. 20). As suas palavras não andam muito longe do que mais tarde escreveu São Paulo: "Não compreendo o que faço, pois não faço aquilo que quero, mas sim aquilo que aborreço" (Cfr. Rom. 7. 15). O homem, depois do pecado original, está entre "o bem e o mal".

"A realidade do homem" — a mais profunda "realidade do homem" — parece desenvolver-se continuamente entre o que desde o princípio foi definido como a "árvore da vida" e aquilo que foi definido como "a árvore do conhecimento do bem e do mal". Por isso, nas nossas meditações sobre o Advento, que dizem respeito às leis fundamentais, às realidades essenciais, não se pode excluir outro tema: aquele que se exprime coro a palavra pecado.

3. Pecado. O catecismo diz-nos, de modo simples e fácil de recordar, que ele é transgressão do mandamento de Deus. O pecado é, sem dúvida, transgressão dum princípio moral, violação duma "norma'' — e sobre isto estão todos de acordo, mesmo os que não querem ouvir falar de "mandamentos de Deus". Também eles estão concordes em admitir que as principais normas morais, os mais elementares princípios de comportamento, sem os quais a vida e a convivência entre os homens não é possível, são precisamente aqueles que nós conhecemos como "mandamentos de Deus" (em particular o quarto, o quinto, o sexto, o sétimo e o oitavo). A vida do homem, a convivência entre os homens, decorre numa dimensão ética, e nisto está a sua característica essencial, e é também a dimensão essencial da cultura humana.

Desejaria contudo que hoje nos concentrássemos naquele "primeiro pecado" que — apesar do que ordinariamente se pensa — é descrito no livro do Génesis com tanta precisão que demonstra toda a profundidade da "realidade do homem" nele encerrada. Este pecado tem origem contemporaneamente "fora" (na tentação) e "dentro". A tentação é expressa nas seguintes palavras do tentador: Deus sabe que, no dia em que o comerdes (o fruto), abrir-se-vos-ão os olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal (Gén. 3, 5). A tentação atinge precisamente aquilo que o Criador plasmou no homem — porque, na realidade, ele foi criado à "semelhança de Deus", o que significa "assim como Deus". Atinge também o desejo do conhecimento que está no homem, o desejo da dignidade. Só que um e outro são falsificados, de maneira que o desejo do conhecimento como o da dignidade — isto é, da semelhança com Deus — são usados, no acto da tentação, para contrapor o homem a Deus. O tentador coloca o homem contra Deus, sugerindo-lhe que Deus é o seu adversário, que procura mantê-lo, ao homem, no estado de ignorância; que procura "limitá-lo" para submetê-lo. O tentador diz: Não, não morrereis; mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, se vos abrirão os olhos e vos tornareis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal (Segundo a antiga tradução: "sereis como deuses") (Gén. 3. 4-5).

É necessário, e não uma vez só, meditar esta descrição "arcaica". Não sei se na Sagrada Escritura se podem encontrar muitos outros passos em que a realidade do pecado seja descrita não só na sua forma de origem mas também na sua essência, isto é, onde a realidade do pecado seja apresentada em dimensões tão plenas e profundas, demonstrando como o homem usou contra Deus exactamente o que nele era de Deus. o que devia servir para avizinhá-lo a Deus.

É necessário, e não uma vez só, meditar esta descrição "arcaica". Não sei se na Sagrada Escritura se podem encontrar muitos outros passos em que a realidade do pecado seja descrita não só na sua forma de origem mas também na sua essência, isto é, onde a realidade do pecado seja apresentada em dimensões tão plenas e profundas, demonstrando como o homem usou contra Deus exactamente o que nele era de Deus, o que devia servir para avizinhá-lo a Deus.

4. Porque falamos hoje de tudo isto? Para melhor se compreender o Advento. Advento quer dizer:Deus que vem, porque quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Tim 2, 4). Vem porque criou o mundo e o homem por amor, e estabeleceu com ele a ordem da graça.

Vem contudo "por causa do pecado"
vem "apesar do pecado" 
vem para tirar o pecado.

Não nos admiremos que, na Noite de Natal, não encontre acolhimento nas casas de Belém e tenha de nascer num curral (na gruta que servia de abrigo aos animais).

Por isso, tanto mais importante é o facto de ele vir.

O Advento recorda-nos, todos os anos, que a graça, isto é a vontade de Deus de salvar o homem, tem mais poder que o pecado.

* * *

Saudações

Aos Doentinhos e aos Anciãos

Permiti que dirija agora o meu pensamento especial a vós, doentes e inválidos, que trazeis no vosso corpo ferido c dorido os sinais da paixão do Senhor, e a vós anciãos das barracas da periferia romana. que sois amorosamente assistidos hoje aqui acompanhados — pelas boas Irmãs da Madre Teresa de Calcutá.

Dir-vos-ei com afecto muito especial: sabei suportar o sofrimento com fortaleza cristã, sem nunca perder ânimo. O Senhor está perto de vós: atribuí valor eminente ã vossa dor, santificai-a com os vossos sofrimentos, abandonando-vos com confiança Àquele que misteriosamente vos prova, para saberdes "sofrer com Ele, afim de serdes com Ele glorificados" (cfr. Rom. 8. 17). A alegria do Natal, anunciada pelos anjos aos pastores de Belém, procure-vos conforto e alívio, juntamente com a paz que é o dom mais belo trazido aos homens pelo recém-nascido Redentor. Dê eficácia a estes votos a especial bênção apostólica que de todo o coração concedo a vós e a todos quantos vos assistem.

Aos jovens casais

Saúdo cm seguida os jovens casais que estão aqui presentes. A eles e à nova família cristã dirijo os meus votos. Caríssimos filhos, o Senhor abençoou o vosso amor e acompanha-vos no vosso caminho. Insisti cada vez mais no colóquio com Deus e na santificação da vossa vida, também e exactamente porque o Senhor fez que vos encontrásseis e porque vos uniu.

A todos a minha bênção.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O mundo inteiro espera a resposta de Maria



Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem – tu ouviste – mas do Espírito Santo. O Anjo espera tua resposta: já é tempo de voltar para Deus que o enviou. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia.

Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres. Todos fomos criados pelo Verbo eterno, mas caímos na morte; com uma breve resposta tua seremos recriados e novamente chamados à vida.

Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés.

E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça.

Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta; responde sem demora ao Anjo, ou melhor, responde ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra; profere a tua palavra e concebe a Palavra de Deus; dize uma palavra passageira e abraça a Palavra eterna.

Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe. Que tua humildade se encha de coragem, tua modéstia de confiança. De modo algum convém que tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Neste encontro único, porém, Virgem prudente, não temas a presunção. Pois, se tua modéstia no silêncio foi agradável a Deus, mais necessário é agora mostrar tua piedade pela palavra.

Abre, ó Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Eis que o Desejado de todas as nações bate à tua porta. Ah! se tardas e ele passa, começarás novamente a procurar com lágrimas aquele que teu coração ama! Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. Eis aqui, diz a Virgem, a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38).



Das Homilias em louvor da Virgem Mãe, de São Bernardo, abade

(Hom. 4,8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4, [1966], 53-54)

(Séc. XII)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A economia da Encarnação redentora



A glória do homem é Deus; mas quem se beneficia das obras de Deus e de toda a sua sabedoria e poder é o homem.

Semelhante ao médico que demonstra sua competência no doente, assim Deus se manifesta nos homens. Eis por que o Apóstolo Paulo diz: Deus encerrou todos os homens na desobediência, a fim de exercer misericórdia para com todos (Rm 11,32). Referia-se ao homem que, por ter desobedecido a Deus, perdeu a imortalidade, mas depois obteve misericórdia, recebendo a adoção por intermédio do Filho de Deus.

Se o homem acolhe, sem orgulho nem presunção, a verdadeira glória que procede das criaturas e do criador, isto é, de Deus todo-poderoso que dá a tudo a existência, e se permanece em seu amor, na obediência e na ação de graças, receberá dele uma glória ainda maior, progredindo sempre mais, até se tornar semelhante àquele que morreu por ele.

Com efeito, Cristo se revestiu de uma carne semelhante à do pecado (Rm 8,3) para condenar o pecado e, depois de o condenar, expulsá-lo da carne. Tudo isso para incentivar o homem a tornar-se semelhante a ele, destinando-o a ser imitador de Deus, colocando-o sob a obediência paterna, a fim de que visse a Deus e tivesse acesso ao Pai. O Verbo de Deus habitou no homem e se fez filho do homem, para acostumar o homem a compreender a Deus e Deus a habitar no homem, segundo a vontade do Pai.

Por esse motivo, o sinal de nossa salvação, o Emanuel nascido da Virgem (cf. Is 7,11.14), foi dado pelo próprio Senhor; pois seria ele quem salvaria os homens, já que não poderiam salvar-se por si mesmos. Por isso São Paulo proclama a fraqueza do homem, dizendo: Estou ciente de que o bem não habita em mim (Rm 7,18), indicando que o bem de nossa salvação não vem de nós, mas de Deus. E ainda: Infeliz que sou! Quem me libertará deste corpo de morte? (Rm 7,24). E logo mostra quem o liberta: A graça de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Rm 7,25).

Também Isaías diz: "Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: “Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para nos salvar” (cf. Is 35,3-4). Na verdade, nossa salvação não poderia vir de nós mesmos, mas unicamente do socorro de Deus.



Do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo

(Lib. 3, 20, 2-3: SCh 34, 342-344)

(Séc. II)

domingo, 18 de dezembro de 2011

4º DOMINGO DO ADVENTO



Leituars: 2Sm 7,1-5.8-12.14.16; Sl 88(89); Rm 16,25-27; Lc 1,26-38

"Céus, deixai cair o orvalho; nuvens, chovei o justo; abra-se a terra e brote o Salvador!" (Is 45,7)

Eis! Estamos no último dos quatro Domingos do santo Advento! Estamos já em plena Semana Santa do Natal, iniciada no dia 17 de dezembro. A Igreja, a gora, é toda atenção, toda contemplação do mistério da Encarnação, preparando-separa celebrar o Natal do Senhor. Sua vinda é a nossa salvação, sua chegada é o anúncio da esperança a todos os povos, a toda a humanidade, a anual celebração do seu Natal recorda-nos que nosso Deus não é de longe, mas de perto, de pertinho da humanidade toda e de cada um de nós. O Filho eterno de Pai fez-se homem para encher de Vida divina a nossa existência humana. É esta o Mistério de que fala São Paulo na segunda leitura da Missa de hoje: “Mistério mantido em sigilo desde sempre. Agora, este Mistério dói manifestado e… conforme determinação do Deus eterno, foi levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-las à obediência da fé!” Antes, parecia que Deus era Deus somente de Israel, esquecendo os outros povos, a grande massa da humanidade. Agora, não! Com a aproximação do Santo Natal, contemplamos a benevolência de Deus para toda a humanidade: no segredo do seu coração havia um amoroso e misterioso projeto: salvar toda a humanidade pelo fruto que haveria de vir da raça de Israel, da tribo de Judá, da Casa de Davi.

O que nos deve encantar neste Domingo, caríssimos, não é somente a grandiosidade desse Mistério, dessa surpresa de um Deus que, desde sempre, preocupou-se com todos, com toda a humanidade e não só com Israel… o que nos deve encantar é também o modo como o Senhor realiza o seu desígnio: ele age nos escondido da história humana, no pequenininho de nossas vidas, nas humildes decisões de nossa existência. Pensemos bem! Primeiro, o rei Davi, humilde pastor de Belém, mais novo dos muitos filhos do velho Jessé. E Deus o escolheu: para rei e para dele fazer uma dinastia da qual nasceria o Santo Messias. Davi, que desejava humildemente construir uma Casa, um Templo para o Senhor, fica sabendo que é Deus quem lhe construirá uma Casa, isto é, uma Dinastia, uma descendência, da qual nascerá Aquele bendito Descendente que enche de alegria o nosso coração: “O Senhor te anuncia que te fará uma casa. Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realiza. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre!” Eis a bondade do Senhor, que de um simples pastorzinho fará nascer o Salvador que reina para sempre. Depois, podemos pensar em José, naquele que tinha recebido como prometida em casamento uma virgem mocinha chamada Maria… José, homem simples, moço de Deus. Membro pobre da família real de Davi, simples artesão. Moço de Deus, que vivia na justiça do Senhor, praticando a Lei do Deus de Israel. E o Senhor, misteriosamente o escolhe para ser o esposo daquela na qual se cumprirão as palavras do Senhor. Recordemo-nos do Evangelho segundo São Mateus: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt 1,20-21). Pobre José! Bendito José! Jamais esperaria tal coisa, tal gesto imprevisto do Santo de Israel! Ele, um simples carpinteiro, cuidador, tutor, guardador, de um filho que não seria seu filho! Ele escutaria, doravante, o Filho eterno do eterno Pai, chamá-lo de pai!

Finalmente, pensemos em Maria. Aqui a surpresa de Deus chega ao máximo. Uma jovenzinha pobre, uma virgem sem nome importante, perdida nas montanhas do norte da Terra Santa, em Nazaré da Galiléia. E o Senhor Deus lhe dirige a palavra, faz-lhe a mais estonteante proposta que um pobre filho de Eva jamais escutara: ser, virginalmente, a mãe do Messias, a Mãe do Filho de Deus, a Terra bendita e santa na qual brotaria a Raiz de Jessé, o Rebento prometido; ser a doce a Aurora do Dia sem fim, ser a Estrela d’Alva que prenuncia o Sol eterno! “Alegra-te, Cheia de Graça! O Senhor é contigo, Virgerm Maria! Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus!” São Bernardo de Claraval, no século XII, imaginando este encontro inaudito, entre a Virgem e o Anjo, diz a Nossa Senhora: “Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem, mas do Espírito Santo. O Anjo espera tua resposta. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia. Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres; com uma breve resposta tua seremos chamados à vida! Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés. E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça. Apressa-te, ó virgem, em dar a tua resposta! Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe! Abre, Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. ‘Eis aqui a serva do Senhor, diz a Virgem; faça-se e mim segundo a tua palavra’!”

Eis, caríssimos, irmãos! Tão grande plano de Deus, tão grande salvação, deu-se na simplicidade de vidas humanas que foram dizendo sim ao Senhor, que foram se abrindo para ele nas pequenas e escondidas ocasiões da vida: Maria, a Virgem, José, o pobre descendente de Davi, Davi, o pastor que se tornou rei… E agora – ainda agora – o Senhor vem e nos convida a nós – a mim e a você – a que abramos nossa vida, nosso pequeno cotidiano, para a sua presença. Através de cada um de nós ele deseja continuar a obra de sua salvação, a marca da sua presença neste mundo enfermo e cansado.

Virgem Maria, Mãe de Deus, São José, esposo da virgem, São Davi, rei e profeta, intercedei por nós, para que sejamos dóceis e úteis instrumentos da salvação que Deus hoje quer revelar e atuar no coração dos homens e do mundo. Que através de nossa pobre vida, vivida com disponibilidade, o Senhor Jesus seja visto no nosso mundo tão confuso, tão disperso, tão superficial e ameaçado por tantas trevas. Amém.


Dom Henrique Soares da Costa - Bispo Auxiliar de Aracaju - SE

sábado, 17 de dezembro de 2011

A humildade e a paz



Não te preocupes muito em saber quem é por ti ou contra ti; mas deseja e procura que Deus te ajude em tudo que fizeres.

Tem boa consciência e Deus será tua boa defesa.

A quem Deus quiser ajudar, nenhum mal poderá prejudicar.

Se souberes calar e sofrer, verás certamente o auxílio do Senhor.

Ele sabe o tempo e o modo de te libertar; portanto, entrega-te a ele inteiramente.

A Deus pertence aliviar-nos e tirar-nos de toda confusão.

Às vezes é muito útil, para guardar maior humildade, que os outros conheçam e repreendam nossos defeitos.

Quando o homem, por causa de seus defeitos, se humilha, então facilmente acalma os outros, e desarma os que estão irados contra ele.

O humilde, Deus protege e livra; ao humilde ama e consola. Ao homem humilde se inclina; ao humilde dá-lhe abundantes graças, e depois de seu abaixamento eleva-o a grande honra.

Ao humilde, revela seus segredos, e com doçura o atrai a si e convida.

O humilde, depois de receber uma afronta, conserva sua paz: porque confia em Deus e não no mundo.

Não julgues que fizeste algum progresso se não te consideras inferior a todos.

Primeiro conserva-te em paz; depois poderás pacificar os outros.

O homem pacífico é mais útil do que o letrado.

O homem dominado pelas paixões, até o bem converte em mal e acredita facilmente no mal.

O homem bom e pacífico tudo converte em bem.

Quem está em boa paz não suspeita mal de ninguém. Mas quem é descontente e inquieto, com diversas suspeitas se atormenta: não tem sossego nem deixa os outros sossegar.

Diz muitas vezes o que não devia; e deixa de fazer o que mais lhe conviria.

Preocupa-se com as obrigações alheias e descuida-se das próprias.

Zela, portanto, primeiro por ti mesmo, e depois poderás zelar devidamente por teu próximo.

Bem sabes desculpar e disfarçar tuas faltas, mas não queres aceitar as desculpas dos outros.

Seria mais justo acusares a ti e desculpares teu irmão.

Se queres que te suportem, suporta também os outros.



Do livro “Imitação de Cristo”

(Lib. 2, cap. 2-3)

(Séc. XV)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Criação é dom do Amor de Deus - Papa João Paulo II



PAPA JOÃO PAULO II

7ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 13 de Dezembro de 1978

1. Já pela terceira vez nestes nossos encontros das quartas-feiras, escolho o tema do Advento, seguindo o ritmo da liturgia, que, do modo mais simples e ao mesmo tempo mais profundo, nos introduz na vida da Igreja. O Concílio Vaticano II, que nos deu uma doutrina rica e universal sobre a Igreja, chamou a nossa atenção também para a Liturgia. Por meio dela conhecemos não só o que é a Igreja, mas experimentamos, dia após dia, aquilo de que ela vive. Também nós disso vivemos porque somos a Igreja: "A Liturgia... contribui no mais alto grau para que os fiéis, pela sua vida, exprimam e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja. F. próprio desta, ser humana ao mesmo tempo que divina, visível e dotada de elementos invisíveis, ardente em acção e ocupada na contemplação, presente e no mundo e todavia peregrina" (Const.Sacrosanctum Concilium, 2).

Ora a Igreja vive o Advento e por isso os nossos encontros das quartas-feiras estão centrados em tal período litúrgico. Advento significa "Vinda". Para penetrar na realidade do Advento, procurámos até agora olhar na direcção de quem chega e para quem chega. Falámos portanto dum Deus que, ao criar o inundo, se revela a si mesmo: dum Deus Criador. E na quarta-feira passada falámos do homem. Hoje continuaremos para encontrar resposta mais completa à pergunta: Porquê "o Advento"? Porque vem Deus? Porque quer vir ao homem?

A liturgia do Advento funda-se principalmente sobre textos dos Profetas do Antigo Testamento. Nela fala quase todos os dias o profeta Isaías. Era este, na história do Povo de Deus da Antiga Aliança, especial "intérprete" da promessa, que tal Povo tinha anteriormente obtido de Deus na pessoa do seu tronco de família: Abraão. Como todos os outros profetas, e talvez mais que todos, Isaías reforçava nos seus contemporâneos a fé nas promessas de Deus confirmadas pela Aliança no sopé do monte Sinai. Ensinava sobretudo a perseverança na espera e na fidelidade: Povo de Sião o Senhor virá e fará ouvir a sua voz majestosa para alegria do vosso coração (Cfr. Is. 30, 19.30).

Quando Cristo estava no mundo várias vezes se referiu às palavras de Isaías. Dizia claramente:Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir (Lc. 4. 21).

3. A liturgia do Advento é de carácter histórico. A expectativa da vinda do Ungido (Messias) foi um processo histórico. Penetrou, com efeito, toda a história de Israel, que foi escolhido precisamente a fim de que preparasse a vinda do Salvador.

As nossas considerações vão porém, em certo modo, além da liturgia quotidiana do Advento. Voltemos portanto à pergunta basilar. Porque vem Deus? Por que motivo quer Ele vir ao homem, humanidade? A estas perguntas buscamos respostas adequadas e buscamo-las nos inícios mesmos, isto é, antes ainda de começar a história do Povo eleito. Este ano, a nossa atenção dirige-se aos primeiros capítulos do livro do Génesis. O advento "histórico" não seria compreensível sem cuidadosa leitura e análise daqueles capítulos.

Por conseguinte, ao buscar uma resposta á pergunta "porquê?" o advento, devemos uma vez mais reler atentamente toda a narrativa da criação do mundo e, em especial, da criação do homem. É significativo (como já tive ocasião de insinuar) que os dias da criação, cada um deles termine com a afirmação "Deus viu que isto era bom"; mas, depois da criação do homem, está: "... viu que isto era muito bom". Esta verificação, como já disse na semana passada, une-se à bênção da criação e sobretudo a uma bênção explícita do homem.

Em toda esta descrição ,está diante de nós um Deus que, para usar a expressão de São Paulo, se compraz da verdade, do bem (Cfr. 1Cor. 13, 6). Onde está a alegria, que promana do bem, ai há amor. E só onde há amor, há a alegria que promana do bem. O livro do Génesis, desde os seus primeiros capítulos, revela-nos Deus que é Amor (embora de tal expressão se venha a servir muito mais tarde São João). Ele é Amor, pois goza com o bem. A criação é, portanto, ao mesmo tempo doação autêntica: onde há amor, há dom.

O livro do Génesis indica o início da existência do mundo e do homem. Interpretando-a, devemos sem dúvida, como fez São Tomás de Aquino, construir uma filosofia consequente do ser, filosofia em que virá expressa a ordem mesma da existência. Todavia o livro do Génesis fala da criação como dom. Deus, criador do mundo visível, é dador; e o homem é aquele que recebe o dom. É aquele para o qual Deus cria o mundo visível, aquele que Deus, desde os inícios, introduz não só na ordem da existência, mas também na ordem da doação. Ser o homem "imagem e semelhança" de Deus significa, além do mais, ser ele capaz de receber o dom, ser sensível a este dom e ser capaz de o retribuir. Exactamente por isso Deus, desde o principio, estabelece com o homem, e só com ele, a aliança. O livro do Génesis revela-nos não só a ordem natural da existência, mas ao mesmo tempo, desde o principio, a ordem sobrenatural da graça. Da graça só podemos falar se admitimos a realidade do Dom. Do catecismo recordemos: a graça é o dom sobrenatural de Deus pelo qual nos tornamos filhos de Deus e herdeiros do céu.

4. Que relação tem tudo isto com o Advento? Podemos com razão perguntar-nos. Respondo: o Advento desenhou-se pela primeira vez no horizonte da história do homem; quando Deus se revelou a Si mesmo como Aquele que se compraz do bem, que ama e que dá. Neste dom ao homem, Deus não se limitou a "dar-lhe" o mundo visível — isto é claro desde o princípio — mas, dando ao homem o mundo visível, Deus quer dar-se-lhe também a Si mesmo, assim como o homem é capaz de dar-se, assim como "se dá a si mesmo" a outro homem: de pessoa a pessoa; isto é, dar-se a Si mesmo a ele, admitindo-o à participação dos Seus mistérios, mais, à participação da Sua vida. Isto pratica-se de modo tangível nas relações entre familiares: marido-esposa, pais-filhos. Eis porque os profetas se referem muitas vezes a tais relações, para mostrarem a verdadeira imagem de Deus.

A ordem da graça é possível só "no mundo das pessoas". Diz respeito ao dom que tende sempre à formação e à comunhão das pessoas; de facto, o livro do Génesis apresenta-nos uma tal doação. A forma, desta "comunhão de pessoas" está nele desenhada desde o princípio. O homem é chamado à familiaridade com Deus, à intimidade e amizade cone Ele. Deus quer estar perto dele. Quer torná-lo participante dos seus desígnios. Quer torná-lo participante da sua vida. Quer torná-lo feliz da sua mesma felicidade (do seu mesmo Ser).

Por tudo isto é necessária a Vinda de Deus, e a expectativa do homem: a disponibilidade do homem.

Sabemos que o primeiro homem, que desfrutava da inocência original e duma especial vizinhança com o seu Criador, não demonstrou essa disponibilidade. A primeira aliança de Deus com o homem foi interrompida, mas não cessou da parte de Deus a vontade de salvar o homem. Não se desfez a ordem da graça, e por isso o Advento dura sempre.

A realidade do Advento é expressa também pelas seguintes palavras de São Paulo: "Deus... querque todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade" (1Tim 2, 4).

Esse "Deus quer" é exactamente o Advento, e encontra-se na base de todos os adventos.

* * *

Saudações

À Academia Sistina

Desejo agora dirigir uma saudação especial ao Senhor Cardeal Palazzini e aos Membros da "Academia Sistina" por ele acompanhados.

Sei que já o meu muito amado Predecessor Paulo VI encontrou modo, o ano passado, de manifestar o Seu apreço pela vossa Associação, nessa altura constituída. Também eu tenho o prazer de confirmar tal sentimento, animando-vos nesta vossa actividade de investigação a respeito da grande figura do Papa Sisto V e, em geral, da promoção cultural e humana no nome e na memória deste ilustre e ainda hoje admirado Pontífice da Igreja Romana.

Convosco Sócios da Academia, desejo também saudar e abençoar os peregrinos que se reuniram aqui, vindos da sua terra natal.

Aos jovens casais

Dirijo depois uma saudação cordial e um augúrio sincero aos jovens esposos que também hoje estão aqui presentes em bons número. Abençoe o Senhor o vosso amor, esteja Ele perto de vós e vos acompanhe durante a vida, que escolhestes percorrer juntos, até à morte.

Aos doentinhos

Uma saudação e uma bênção especial aos doentinhos que estão aqui presentes e a todos os que sofrem. O meu pensamento corre e chega a toda a parta onde a dor física ou moral atormenta e mortifica no mundo seres humanos.

Seguindo as crónicas quotidianas, encontram-se dramas e sofrimentos que apertam o coração. Em especial desejaria recordar todos aqueles que se encontram na aflição por causa duma forma de violência que se tornou, por desgraça, tão frequente nestes últimos anos: a dos sequestros.

É uma praga indigna de Países civilizados, que chegou infelizmente a formas de crueldade que horrorizam.

Em nome de Deus suplico aos responsáveis queiram dar liberdade àqueles que retêm em sequestro e lembro-lhes que Deus castiga as más acções dos homens. Toque o Senhor verdadeiramente os seus corações e leve a que triunfe aquela centelha de humanidade que não pode faltar aos seus ânimos, obtendo-se deste modo remate plausível pala um acto muito lastimoso.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

São João da Cruz, presbítero e doutor da igreja



Seu nome de batismo era Juan de Yepes. Nasceu em Fontivaros, na província de Ávila, Espanha, em 1542, talvez em 24 de junho. Ainda na infância, ficou órfão de pai, Gonzalo de Yepes, descendente de uma família rica e tradicional de Toledo. Mas, devido ao casamento, foi deserdado da herança. A jovem, Catarina Alvarez, sua mãe, era de família humilde, considerada de classe "inferior". Assim, com a morte do marido, que a obrigou a trabalhar, mudou-se para Medina, com os filhos. 

Naquela cidade, João tentou várias profissões. Foi ajudante num hospital, enquanto estudava gramática à noite num colégio jesuíta. Então, sua espiritualidade aflorou, levando-o a entrar na Ordem Carmelita, aos vinte e um anos. Foi enviado para a Universidade de Salamanca a fim de completar seus estudos de filosofia e teologia. Mesmo dedicando-se totalmente aos estudos, encontrava tempo para visitar doentes em hospitais ou em suas casas, prestando serviço como enfermeiro. 

Ordenou-se sacerdote aos vinte e cinco anos, mudando o nome. Na época, pensou em procurar uma Ordem mais austera e rígida, por achar a Ordem Carmelita muito branda. Foi então que a futura santa Tereza de Ávila cruzou seu caminho. Com autorização para promover, na Espanha, a fundação de conventos reformados, ela também tinha carta branca dos superiores gerais para fazer o mesmo com conventos masculinos. Tamanho era seu entusiasmo que atraiu o sacerdote João da Cruz para esse trabalho. Ao invés de sair da Ordem, ele passou a trabalhar em sua reforma, recuperando os princípios e a disciplina. 

João da Cruz encarregou-se de formar os noviços, assumindo o cargo de reitor de uma casa de formação e estudos, reformando, assim, vários conventos. Reformar uma Ordem, porém, é muito mais difícil que fundá-la, e João enfrentou dificuldades e sofrimentos incríveis, para muitos, insuportáveis. Chegou a ser preso por nove meses num convento que se opunha à reforma. Os escritos sobre sua vida dão conta de que abraçou a cruz dos sofrimentos e contrariedades com prazer, o que é só compreensível aos santos. Aliás, esse foi o aspecto da personalidade de João da Cruz que mais se evidenciou no fim de sua vida. 

Conta-se que ele pedia, insistentemente, três coisas a Deus. Primeiro, dar-lhe forças para trabalhar e sofrer muito. Segundo, não deixá-lo sair desse mundo como superior de uma Ordem ou comunidade. Terceiro, e mais surpreendente, que o deixasse morrer desprezado e humilhado pelos seres humanos. Para ele, fazia parte de sua religiosidade mística enfrentar os sofrimentos da Paixão de Jesus, pois lhe proporcionava êxtases e visões. Seu misticismo era a inspiração para seus escritos, que foram muitos e o colocam ao lado de santa Tereza de Ávila, outra grande mística do seu tempo. Assim, foi atendido nos três pedidos. 

Pouco antes de sua morte, João da Cruz teve graves dissabores por causa das incompreensões e calúnias. Foi exonerado de todos os cargos da comunidade, passando os últimos meses na solidão e no abandono. Faleceu após uma penosa doença, em 14 de dezembro de 1591, com apenas quarenta e nove anos de idade, no Convento de Ubeda, Espanha. 

Deixou como legado sua volumosa obra escrita, de importante valor humanístico e teológico. E sua relevante e incansável participação como reformador da Ordem Carmelita Descalça. Foi canonizado em 1726 e teve sua festa marcada para o dia de sua morte. São João da Cruz foi proclamado doutor da Igreja em 1926, pelo papa Pio XI. Mais tarde, em 1952, foi declarado o padroeiro dos poetas espanhóis.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Santa Luzia, virgem e mártir






Somente em 1894 o martírio da jovem Luzia, também chamada Lúcia, foi devidamente confirmado, quando se descobriu uma inscrição escrita em grego antigo sobre o seu sepulcro, em Siracusa, Nápoles. A inscrição trazia o nome da mártir e confirmava a tradição oral cristã sobre sua morte no início do século IV. 

Mas a devoção à santa, cujo próprio nome está ligado à visão ("Luzia" deriva de "luz"), já era exaltada desde o século V. Além disso, o papa Gregório Magno, passado mais um século, a incluiu com todo respeito para ser citada no cânone da missa. Os milagres atribuídos à sua intercessão a transformaram numa das santas auxiliadoras da população, que a invocam, principalmente, nas orações para obter cura nas doenças dos olhos ou da cegueira. 

Diz a antiga tradição oral que essa proteção, pedida a santa Luzia, se deve ao fato de que ela teria arrancado os próprios olhos, entregando-os ao carrasco, preferindo isso a renegar a fé em Cristo. A arte perpetuou seu ato extremo de fidelidade cristã através da pintura e da literatura. Foi enaltecida pelo magnífico escritor Dante Alighieri, na obra "A Divina Comédia", que atribuiu a santa Luzia a função da graça iluminadora. Assim, essa tradição se espalhou através dos séculos, ganhando o mundo inteiro, permanecendo até hoje. 

Luzia pertencia a uma rica família napolitana de Siracusa. Sua mãe, Eutíquia, ao ficar viúva, prometeu dar a filha como esposa a um jovem da Corte local. Mas a moça havia feito voto de virgindade eterna e pediu que o matrimônio fosse adiado. Isso aconteceu porque uma terrível doença acometeu sua mãe. Luzia, então, conseguiu convencer Eutíquia a segui-la em peregrinação até o túmulo de santa Águeda ou Ágata. A mulher voltou curada da viagem e permitiu que a filha mantivesse sua castidade. Além disso, também consentiu que dividisse seu dote milionário com os pobres, como era seu desejo. 

Entretanto quem não se conformou foi o ex-noivo. Cancelado o casamento, foi denunciar Luzia como cristã ao governador romano. Era o período da perseguição religiosa imposta pelo cruel imperador Diocleciano; assim, a jovem foi levada a julgamento. Como dava extrema importância à virgindade, o governante mandou que a carregassem à força a um prostíbulo, para servir à prostituição. Conta a tradição que, embora Luzia não movesse um dedo, nem dez homens juntos conseguiram levantá-la do chão. Foi, então, condenada a morrer ali mesmo. Os carrascos jogaram sobre seu corpo resina e azeite ferventes, mas ela continuava viva. Somente um golpe de espada em sua garganta conseguiu tirar-lhe a vida. Era o ano 304. 

Para proteger as relíquias de santa Luzia dos invasores árabes muçulmanos, em 1039, um general bizantino as enviou para Constantinopla, atual território da Turquia. Elas voltaram ao Ocidente por obra de um rico veneziano, seu devoto, que pagou aos soldados da cruzada de 1204 para trazerem sua urna funerária. Santa Luzia é celebrada no dia 13 de dezembro e seu corpo está guardado na Catedral de Veneza, embora algumas pequenas relíquias tenham seguido para a igreja de Siracusa, que a venera no mês de maio também.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

NOSSA SENHORA DE GUADALUPE, PADROEIRA DA AMÉRICA LATINA






Como toda aparição de Nossa Senhora, a que é venerada hoje é emocionante também. Talvez esta seja uma das mais comoventes, pelo milagre operado no episódio e pela dúvida lançada por um bispo sobre sua aparição a um simples índio mexicano. 

Tudo se passou em 1531, no México, quando os missionários espanhóis já haviam aprendido a língua dos indígenas. A fé se espalhava lentamente por essas terras mexicanas, cujos rituais astecas eram muito enraizados. O índio João Diogo havia se convertido e era devoto fervoroso da Virgem Maria. Assim, foi o escolhido para ser o portador de sua mensagem às nações indígenas. Nossa Senhora apareceu a ele várias vezes. 

A primeira vez, quando o índio passava pela colina de Tepyac, próxima da Cidade do México, atual capital, a caminho da igreja. Maria lhe pediu que levasse uma mensagem ao bispo. Ela queria que naquele local fosse erguida uma capela em sua honra. Emocionado, o índio procurou o bispo, João de Zumárraga, e contou-lhe o ocorrido. Mas o sacerdote não deu muito crédito à sua narração, não dando resposta se iria, ou não, iniciar a construção. 

Passados uns dias, Maria apareceu novamente a João Diogo, que desta vez procurou o bispo com lágrimas nos olhos, renovando o pedido. Nem as lágrimas comoveram o bispo, que exigiu do piedoso homem uma prova de que a ordem partia mesmo de Nossa Senhora. 

Deu-se, então, o milagre. João Diogo caminhava em direção à capital por um caminho distante da colina onde, anteriormente, as duas visões aconteceram. O índio, aflito, ia à procura de um sacerdote que desse a unção dos enfermos a um tio seu, que agonizava. De repente, Maria apareceu à sua frente, numa visão belíssima. Tranqüilizou-o quanto à saúde do tio, pois avisou que naquele mesmo instante ele já estava curado. Quanto ao bispo, pediu a João Diogo que colhesse rosas no alto da colina e as entregasse ao religioso. João ficou surpreso com o pedido, porque a região era inóspita e a terra estéril, além de o país atravessar um rigoroso inverno. Mas obedeceu e, novamente surpreso, encontrou muitas rosas, recém-desabrochadas. João colocou-as no seu manto e, como a Senhora ordenara, foi entrega-las ao bispo como prova de sua presença. 

E assim fez o fiel índio. Ao abrir o manto cheio de rosas, o bispo viu formar-se, impressa, uma linda imagem da Virgem, tal qual o índio a descrevera antes, mestiça. Espantado, o bispo seguiu João até a casa do tio moribundo e este já estava de pé, forte e saudável. Contou que Nossa Senhora "morena" lhe aparecera também, o teria curado e renovado o pedido. Queria um santuário na colina de Tepyac, onde sua imagem seria chamada de Santa Maria de Guadalupe. Mas não explicou o porquê do nome. 

A fama do milagre se espalhou. Enquanto o templo era construído, o manto com a imagem impressa ficou guardado na capela do paço episcopal. Várias construções se sucederam na colina, ampliando templo após templo, pois as romarias e peregrinações só aumentaram com o passar dos anos e dos séculos. 

O local se tornou um enorme santuário, que abriga a imagem de Nossa Senhora na famosa colina, e ainda se discute o significado da palavra Guadalupe. Nele, está guardado o manto de são João Diego, em perfeito estado, apesar de passados tantos séculos. Nossa Senhora de Guadalupe é a única a ser representada como mestiça, com o tom de pele semelhante ao das populações indígenas. Por isso o povo a chama, carinhosamente, de "La Morenita", quando a celebra no dia 12 de dezembro, data da última aparição. 

Foi declarada padroeira das Américas, em 1945, pelo papa Pio XII. Em 1979, como extremado devoto mariano, o papa João Paulo II visitou o santuário e consagrou, solenemente, toda a América Latina a Nossa Senhora de Guadalupe.

domingo, 11 de dezembro de 2011

3º DOMINGO DO ADVENTO



Leituras: Is 61,1-2.10-11; Lc 1,46-54; 1Ts 5,16-24; Jo 1,6-8.19-28

«O Deus da Paz vos santifique totalmente, para que todo o vosso ser – espírito, alma e corpo – se conserve puro, para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo» (I Tes.5,23)!

1. Deus não nos quer a meias! Não nos quer, por partes. Quer-nos inteiros, de corpo e alma, bonitos por fora, belos por dentro. Ele quer que todo o nosso ser, carne e espírito, corpo e alma, das mãos aos pés, dos pés à cabeça, da cabeça ao coração, se conserve puro, isto é, capaz de amar e de ser amado! E todo o nosso ser é puro, quando transparece a beleza e a santidade do amor de Deus! Na pessoa humana, este amor é, ao mesmo tempo, espiritual e carnal, “abarca o corpo e o corpo exprime o amor espiritual” (Familiaris Consortio, 21). Por outras palavras, não há nada na linguagem corporal, da afectividade e do amor, que, ao tocar o corpo, não toque também a alma! Temos de o saber: “Nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é a pessoa, que ama, no seu todo, de que fazem parte o corpo e a alma. Somente quando corpo e alma se fundem numa unidade, é que a pessoa se torna plenamente ela própria”(Bento XVI, DCE 5).

2. Assim, por exemplo, as palavras, os sentimentos, os desejos, e quaisquer gestos de ternura, devem sempre comunicar a verdade inteira do amor humano e transparecer a beleza do amor divino! Um gesto de carícia, um beijo, o contacto com o corpo de alguém, significa também e sempre tocar a própria alma do outro, fazer vibrar as cordas do nosso coração, numa aproximação que nos afecta totalmente.

3. A pureza de coração, a chamada «castidade», é, no fundo, o amor que anda de mãos dadas com a verdade! “A castidade – uma palavra “maldita” do nosso tempo – não pode ser vista como “corte” e “castigo”, mas como«educação e treino para superar toda a mentalidade de tipo apropriador e dominador, em relação a outra pessoa. Opõe-se frontalmente àquela mentalidade, que tende a usar e abusar de todas as coisas, como se fôssemos únicos donos de nós mesmos, do nosso corpo, e das nossas pulsões, e também das pessoas e do mundo que nos rodeia» (Carlo Maria Martini). A santificação de todo o nosso ser, «espírito, alma e corpo», implica, portanto, que todas as palavras e gestos da nossa afectividade “devam ser orientados, elevados e integrados pelo amor, que é o único a torná-los verdadeiramente humanos”. Rui Veloso canta uma bela música, onde diz: “Amar é o verbo revelado / Pela boca da divindade / Só deve ser invocado / Em caso de necessidade! (…) Não invoquem o amor em vão / É pecado, como deitar fora o pão /”.Eu não diria melhor, para falar de «pureza de coração», do domínio de si ao dom de si.

4. Esta pureza de coração, de intenções e actos, exige, portanto, uma limpeza diária, uma atenção constante. Por isso, a segunda palavra desta semana é «revisão de vida», dos pensamentos, das palavras, dos actos e omissões. Era isso que São Paulo recomendava quando nos dizia: «Avaliai tudo e guardai o que for bom». Aprendamos, pois, a fazer o “exame de consciência” diariamente, ao deitar, e antes de adormecer, para chegarmos a esta séria revisão de vida e examinarmos a nossa vida no amor. Pais e filhos podem ajudar-se mutuamente, colocando algumas perguntas, no silêncio do quarto, para responderem, cada qual, diante de Deus.

5. Irmãos e irmãs: Deus, que vem até nós, não é apenas uma pessoa importante! Ele é tudo. E, por isso, pede-nos tudo: espírito, alma e corpo. E só quando Deus é tudo em nós, é que todo o nosso ser se torna puro!Eis então duas palavras a gravar esta semana: pureza e revisão de vida. São atitudes do coração, que nos ajudam a construir a família, sobre o alicerce sólido do amor e da comunhão!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O homem "imagem de Deus" - Papa João Paulo II



PAPA JOÃO PAULO II

6ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 6 de Dezembro de 1978

Irmãs e Irmãos caríssimos

Volto ao assunto de terça-feira.

1. Para penetrar na plenitude bíblica e litúrgica do significado do Advento, é preciso seguir duas direcções. É necessário "tornar a subir" aos inícios, e ao mesmo tempo descer em profundidade. Já o fizemos, pela primeira vez, na quarta-feira passada, escolhendo para tema da nossa meditação as primeiras palavras do livro do Génesis: No princípio criou Deus (Beresit tiara Elohim). Quase no fim do desenvolvimento do tema da outra semana, fizemos também notar que, para entender o Advento no seu primeiro significado, se requer que nos introduzamos também no tema do "homem". O significado pleno do Advento deriva da reflexão sobre a Realidade de Deus que cria — e criando se revela a Si mesmo (esta é a primeira e fundamental revelação, e também a primeira e fundamental verdade do nosso Credo). O pleno significado do Advento deriva ao mesmo tempo da profunda reflexão sobre a realidade do homem. Desta segunda realidade que é o homem um pouco mais nos aproximaremos durante a presente meditação.

2. Há uma semana detivemo-nos nas palavras do livro do Génesis, em que o homem é definido imagem e semelhança de Deus. Necessário se torna reflectir com maior intensidade sobre os textos que disso falam. Fazem parte do primeiro capítulo do livro do Génesis, em que a descrição da criação do mundo é apresentada na sucessão de sete dias. A narrativa da criação do homem, no sexto dia, diversifica-se um pouco das descrições precedentes. Nestas somos testemunhas só do acto da criação, expresso com as palavras: Disse Deus - seja...; quando se trata do homem, o autor inspirado quer primeiro colocar em evidência a intenção e o desígnio do Criador (de Deus-Elohim); lemos de facto: Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança (Gén. 1, 26). Como se o Criador entrasse em Si mesmo; como se, criando, não só chamasse do nada à existência com a palavra "seja", mas como se, de modo particular, tirasse o homem do mistério do seu próprio ser. Isto é compreensível, porque não se trata somente do Ser, mas da Imagem. A imagem deve "espelhar", deve, em certo modo, quase reproduzir "a substância" do seu Protótipo. O Criador diz, além disso: à nossa semelhança. É óbvio que não se deve entender como um "retrato" mas como um ser vivo, que viva uma vida semelhante à de Deus.

Só depois destas palavras, que testemunham, por assim dizer, o desígnio de Deus-Criador, a Bíblia fala do acto mesmo da criação do homem:

Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher (Gén. 1, 27).

Esta descrição completa-se com a bênção. Há portanto: o desígnio, o acto mesmo da criação, e a bênção:

Abençoando-os, Deus disse-lhes: Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra (Gén. 1, 28).

As últimas palavras da descrição, Deus, vendo toda a sua obra considerou-a muito boa (Gén. 1, 31), parecem ser o eco desta bênção.

3. Certamente o texto do Génesis é dos mais antigos: segundo os especialistas da Bíblia, foi escrito cerca do século IX antes de Cristo. Contém a verdade fundamental da nossa fé, o primeiro artigo do Credo apostólico. A parte do texto, que apresenta a criação do homem, é estupenda na simplicidade e ao mesmo tempo na profundidade. As afirmações que ela encerra correspondem à nossa experiência e ao nosso conhecimento do homem. É claro para todos, sem distinção de ideologia sobre a concepção do mundo, que o homem — embora pertencendo ao mundo visível, à natureza — se diferencia dalgum modo da mesma natureza. De facto, o mundo visível existe "para ele" e ele "exerce o domínio"; embora seja, em vários modos, "condicionado" pela natureza, ele "domina-a". Domina-a, com a força do que ele é, das suas capacidades e faculdades de ordem espiritual, que o distinguem do mundo natural. São exactamente estas faculdades que constituem o homem. Sobre tal ponto o livro do Génesis é extraordinariamente preciso. Definindo o homem "imagem de Deus", evidencia aquilo que faz que o homem seja homem; aquilo que faz que seja um ser distinto de todas as outras criaturas do mundo visível.

São conhecidas as numerosas tentativas que a ciência fez — e continua a fazer — nos vários campos, para demonstrar os laços do homem com o mundo natural e a sua dependência deste, com o fim de o inserir na história da evolução das diversas espécies. Se bem que respeitemos tais investigações, não podemos limitar-nos a elas. Se analisamos o homem no mais profundo do seu ser, vemos que ele mais se diferencia do mundo da natureza do que a ele se assemelha. Neste sentido procedem também a antropologia e a filosofia, quando procuram analisar e compreender a inteligência, a liberdade, a consciência e a espiritualidade do homem. O livro do Génesis parece ir contra todas estas experiências da ciência, e, falando do homem como "imagem de Deus", dá a entender que a resposta ao mistério da sua humanidade não se encontra no caminho da semelhança com o mundo da natureza. O homem parece-se mais com Deus do que com a natureza. Neste sentido diz o Salmo 62, 6: Vós sois deuses, palavras que depois retomará Jesus (Cfr. Jo 10, 34).

4. Esta afirmação é audaz. Requer-se fé para aceitá-la. Todavia a razão, sem preconceitos, não se opõe a tal verdade sobre o homem; pelo contrário, vê nela um complemento do que resulta da análise da realidade humana, e sobretudo do espírito humano.

É muito significativo que já o mesmo livro do Génesis, na longa narrativa da criação do homem, obriga o homem — o primeiro homem criado (Adão) — a fazer semelhante análise. O que nela Lemos pode "escandalizar" alguns, devido ao modo arcaico de expressão, mas ao mesmo tempo é impossível não admirar a actualidade dessa narração, quando se repara no ponto essencial do problema.

Eis o texto:

O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo. Depois o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, ao oriente, e nele colocou o homem que havia formado. O Senhor Deus fez desabrochar da terra toda a espécie de árvores belas à vista e de saborosos frutos para comer, a árvore da vida ao meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal .Um rio nascia no Éden e ia regar o jardim, dividindo-se, a seguir, em quatro braços...

O Senhor levou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e também para o guardar... Depois o Senhor disse: Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele. Então, o Senhor Deus, após ter formado da terra todos os animais dos campos e todas as aves dos céus, conduziu-os até junto do homem, a fim de verificar como ele os chamaria, para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem lhes desse. O homem designou com nomes todos os animais domésticos, todas as aves dos céus e todos os animais ferozes; contudo não encontrou para ele uma auxiliar adequada (Gén. 2, 7-20).

A que coisa assistimos nós? A isto: o primeiro "homem" efectua o primeiro e fundamental acto de conhecimento do mundo. Ao mesmo tempo, este acto permite-lhe conhecer-se e diferençar-se a si mesmo, "o homem", de todas as outras criaturas, e sobretudo daquelas que como "seres vivos" — dotados de vida vegetativa e sensitiva — mostram proporcionalmente a maior semelhança com ele, "com o homem", dotado também ele de vida vegetativa e sensitiva. Poder-se-ia dizer que este primeiro homem faz o que ordinariamente executa todo o homem de qualquer época; quer dizer: reflecte sobre o próprio ser e pergunta-se quem é ele.

Resultado de tal processo cognoscitivo é a verificação da diferença fundamental e essencial: sou diverso. Sou mais "diverso" do que "semelhante". A descrição bíblica termina: o homem não encontrou para ele uma auxiliar adequada (Gén. 2, 20).

5. Porque falamos hoje de tudo isto? — Fazemo-lo para melhor compreender o mistério do Advento, para o compreender partindo dos seus fundamentos — e assim penetrar com maior profundidade no nosso cristianismo.

O Advento significa "a Vinda".

Se Deus "vem" ao homem, fá-lo porque no seu ser humano preparou uma "dimensão de expectativa" por meio da qual o homem pode "acolher" a Deus, é capaz de o fazer.

Já o livro do Génesis, e sobretudo este capitulo, o explica quando, falando do homem, afirma que Deus o criou... à sua imagem (Gén. 1, 27).

* * *

Saudações

Aos doentinhos

Dirijo agora um pensamento cordial aos doentes para dizer que estou perto deles com particular afecto, para os exortar vivamente a que ofereçam o seu precioso sofrimento ao Senhor, como participação na obra da Sua Redenção e meio seguro de purificação, elevação e mérito para as suas almas; c, por último, para os certificar de que os recordo na oração ã Virgem Santíssima Imaculada, a fim de que eles sintam sempre a sua valiosa protecção e sejam confortados pelo seu maternal sorriso.

Aos jovens casais

Vão ainda uma ardente saudação, um sincero augúrio e uma bênção especial para os jovens casais, presentes nesta Audiência geral.

Benvindos, caros esposos, à casa do Pai Comum! A vós, que recebestes o "grande Sacramento" do Matrimónio, como o define o Apóstolo Paulo, desejamos cordialmente que o vivais "em Cristo e na Igreja".

Sede bons, sede piedosos, sede verdadeiramente cristãos; e o Senhor vos ampare e acompanhe com a sua graça.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA



Mais uma festa de Nossa Senhora a figurar no calendário civil de feriados. Alguém se pergunta:onde está a famigerada secularização da Sociedade moderna que relegou para os rincões privados das Igrejas as festas e celebrações? A história não caminha linearmente e os fatos não recebem de todos a mesma interpretação. 

No interior da fé cristã, a festa mariana adquire sentido próprio, só inteligível e vivenciado por quem participa da vida da comunidade religiosa. Em termos católicos, descortina-se belíssimo significado na celebração litúrgica. No fundo da reflexão teológica, está o plano salvador de Deus. Somos humanidade, livre, consciente, entregue às próprias decisões. Os caminhos permanecem abertos. Deus não nos criou e nos determinou para realizar um projeto de antemão traçado, mas dotou-nos de liberdade. E liberdade implica risco. E aconteceu o pior. A história nos ensina como andamos perdidos com projetos loucos até o dia de hoje. Nos cálculos generosos dos paleontólogos, a humanidade já conta com milhões de anos de racionalidade. E imperam por todos os lados infinitas irracionalidades. Basta parar um minuto sequer e indagar: por que as guerras? Por que tanta violência nas cidades? Por que a fúria consumista que nos coisifica, especialmente em tempos natalinos? Por que a loucura destruidora da natureza, da biodiversidade? E por que a insânia das megalópoles cuja vida se faz sempre mais desumana e ameaçada? Poderíamos multiplicar ao infinito a história e geografia de nossas irracionalidades. 
E que faz Deus? Pela revelação e ação profunda, misteriosa põe-se continuamente a incentivar-nos a caminhar noutra direção. Seu plano de salvação resume-se num só mandamento: amar a Deus como fonte última de amor, pois Deus é amor, e embalado por este amor amar os demais seres humanos. Projeto maravilhoso, ousado, implantado no fundo coração de toda criatura, mas freqüentemente obscurecido pelo egoísmo pessoal e social. Não contente com a silenciosa ação no íntimo humano, enviou o Filho para traduzir em pessoa, mensagem e ações a concretização desse plano de amor. E as pessoas se medirão em bondade, em pureza, em grandeza de alma pela maior ou menor proximidade do amor. 

Quando falamos de Imaculada Conceição não nos restringimos a um privilégio da intimidade de Maria, mas proclamamos que uma mulher, como ninguém, se associou ao projeto divino do amor em tal grau de identificação que não lhe tisnou o coração, desde o alvorecer da existência, nenhuma mancha. Anuncia-nos, sendo ela pura criatura, a beleza de podermos também nós, não na mesma medida por culpa de nossas misérias, assumir o projeto de criar uma sociedade em que a lei fundamental seja o amor. 

Por mais secularizada que se torne a sociedade, nunca afetará a grandeza espiritual de alguém que consagrou toda a vida, sem desvio, sem regatear, a realizar em si e em todos os que a cercavam a maravilha de uma sociedade de comunhão e justiça amorosa. E que essa criatura seja mulher adquire ainda maior relevância cultural. 

A tradição grega e semita, fundida na cultura ocidental, traz a pecha de machista. Nos grandes projetos imaginamos sempre um homem à frente. Para enxertar o desígnio salvífico na árvore da história, o sim de Maria se fez necessário e o primeiro dado. Depois dele viemos nós. Esta festa ultrapassa os redutos restritos da Igreja católica e se torna momento cultural de chamado para os homens dedicarem-se à construção da civilização do amor, já que uma mulher lá no albor de tal projeto disse sim tão fecundo que até hoje ressoa no símbolo do dia santo e feriado.

Pe. João Batista Libânio , sj