Rádio

sábado, 30 de junho de 2012

Empregada doméstica a caminho dos altares


Dora del Hoyo fazia parte do Opus Dei

ROMA, quarta-feira, 20 de junho de 2012 (ZENIT.org) - Dom Javier Echevarria presidiu em Roma, nesta segunda-feira (18), o começo do processo canônico que estudará a vida e as virtudes de Dora del Hoyo. O ato foi celebrado na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma.

Salvadora (Dora) del Hoyo Alonso nasceu num povoado de Castela, na Espanha, em 1914. Depois dos estudos elementares, começou a trabalhar como empregada doméstica, tarefa que exerceu com profissionalismo e alegria até poucas semanas antes de falecer, em 10 de janeiro de 2004.
Em 1939 ela se mudou para Madri. Trabalhou em casa de diversas famílias até que, em 1944, começou a exercer a profissão na Moncloa, residência universitária onde conheceu São Josemaría Escrivá. Em março de 1946, pediu admissão no Opus Dei. Em dezembro daquele ano foi para Roma, onde trabalhou com pessoas do mundo todo.

Desde a sua morte até hoje, mais de trezentas pessoas, a maioria mulheres que exercem a mesma profissão, escreveram sobre o bem que o exemplo cristão de Dora significou nas suas vidas. Constam ainda por escrito numerosos favores atribuídos à sua intercessão.

A abertura desta causa de canonização, de acordo com um comunicado do Opus Dei, se deve a um fenômeno de devoção espontânea que nasce da fé viva do povo de Deus. A Igreja investigará a autenticidade e o fundamento dessa expressão.

Cumpridos os requisitos previstos pelas leis canônicas e verificada a solidez das provas da exemplaridade cristã de Dora, o prelado do Opus Dei, dom Javier Echevarría, decidiu começar a pesquisa processual sobre sua vida e virtudes, constituindo um tribunal.

Durante a cerimônia, o prelado declarou: “Estou cada vez mais convicto do papel fundamental que esta mulher teve e terá na vida da Igreja e da sociedade. O Senhor chamou Dora del Hoyo a se ocupar de tarefas semelhantes àquelas que foram cumpridas por Nossa Senhora na casa de Nazaré”.

“O exemplo cristão desta mulher, com a sua fidelidade à vida cristã, contribuirá para manter vivo o ideal do espírito de serviço e para difundir na nossa sociedade a importância da família, autêntica Igreja doméstica, que ela soube encarnar com o seu trabalho diário, generoso e alegre”.

O significado principal de toda causa de canonização é fazer o bem às pessoas e contribuir para o bem da Igreja. Esta causa permitirá entender melhor a figura de quem viveu a vida cotidiana fazendo dela um contínuo ato de oferecimento a Deus e de serviço alegre nas tarefas do lar.

Caminho aberto

Dora decidiu dedicar a vida a um trabalho que considerava fundamental não só para a família, mas para cada pessoa e para a sociedade inteira. Ela acreditava que o ideal de “um mundo feliz” devia começar pela criação de um lar sereno, caracterizado por um ambiente de harmonia e de bom humor.

Suas colegas testemunham o prestígio profissional de Dora. Ela não se contentava com o cumprimento dos deveres de lavar e cozinhar, mas empregava seus talentos a fundo: desde engomar camisas de jovens universitários à maneira dos anos 40, sem que ninguém pedisse, até preparar um prato especial sem recursos econômicos. Para ela, manter as frigideiras limpas ou servir a mesa eram oportunidades para praticar o amor. Dora queria encontrar a Deus na aparente pequenez, heroica, de oferecer a ele o trabalho bem feito, com carinho, um dia depois do outro, até o final da vida.

Os vários escritos sobre a vida de Dora destacam também o seu bom gosto e elegância. "Um estilo para mulheres que hoje veem no trabalho do lar uma verdadeira profissão. Uma ajuda do céu para enfrentar os mil afazeres diários da gestão e da atenção da casa e das pessoas".

Para informações, blog sobre Dora del Hoyo (em espanhol): http://doradelhoyo.wordpress.com/.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Aprovar o aborto seria um retrocesso jurídico na nossa sociedade (Parte II)


Entrevista com especialista em bioética, Pe. Helio Luciano
Por Thácio Siqueira

BRASILIA, sexta-feira, 22 de junho de 2012 (ZENIT.org) – Ontem publicamos a primeira parte da entrevista que o Pe. Helio concedeu a ZENIT com o fim de ajudar os católicos do Brasil a refletirem sobre o tema do Aborto, que está em pauta para aprovação no nosso país.

Clique aqui para acessar a primeira parte.

O Pe. Helio Luciano é mestre em bioética pela Universidade de Navarra, mestre em Teologia Moral pela Pontificia Universidade Santa Cruz em Roma e membro da comissão de bioética da CNBB.

Publicamos hoje a segunda e última parte da entrevista.

***

ZENIT: O embrião é uma pessoa humana? O que é que comprova isso? E por que ele teria todos os direitos fundamentais de um ser humano, incluindo o direito à vida?

PE. HELIO: A resposta que dou a esta pergunta, que frequentemente se repete, é sempre a mesma: não importa se o embrião é pessoa humana ou não. À primeira vista tal resposta pode parecer polêmica ou até agressiva – mas asseguro que esta não é a minha intenção. A questão é que “ser pessoa” ou “não ser pessoa” é um problema filosófico e jamais poderá ser provado em âmbito científico-positivo. Mas a discussão em relação ao aborto não é uma questão de filosofia, mas de biologia básica.

O que temos, desde a fecundação, independente se é pessoa ou não, é um novo ser humano. Como já dizíamos – temos um novo indivíduo da espécie homo sapiens sapiens, com um DNA único e irrepetível em toda a história da humanidade. Sendo um ser vivo da espécie humana, tem todo o direito de ser respeitado como qualquer outro ser humano. Nas aproximadamente quarenta semanas em que este novo ser humano costuma permanecer dentro do ventre materno, não existe nenhum salto quantitativo ou qualitativo que possa dizer que tenha sofrido uma mudança substancial. Todas as capacidades humanas adquiridas por aquele novo ser, têm como base aquele momento inicial – ou seja, aquela única célula fecundada, que já era um ser humano.

A maioria dos defensores do aborto, hoje, costuma admitir as evidências científicas que comprovam que a partir da fecundação temos um novo ser humano. O que objetam é que este ser humano ainda não seria uma “pessoa humana”. A partir desse pressuposto, as divergências entre os abortistas são grandes. Alguns dirão que este ser humano se tornará “pessoa humana” a partir da formação da placenta, outros dirão que a partir da formação do coração, outros defendem que a personalidade se forma com o sistema nervoso central e por fim, existem os que defendem que se torna “pessoa humana” somente após o nascimento. Estes últimos chegam a defender o que se chama partial-birth abortion, ou seja, “aborto do parcialmente nascido”. Em tal procedimento, assim que se dá o coroamento (coroamento é a aparição da cabeça do feto durante o trabalho de parto), faz-se a sucção do cérebro da criança – certamente aqui se trata de um claro infanticídio.

Todas as tentativas de colocar esse início da “personalidade” em algum momento concreto do desenvolvimento embrionário ou fetal serão sempre arbitrárias. Se colocarmos o início da “personalidade” em alguma função ou órgão, porque não poderíamos dizer que está no começo do exercício da consciência? Alguns autores já afirmam isso e, consequentemente, defendem que o infanticídio – matar crianças que não tenham o exercício de atividade consciente – é moralmente e eticamente válido, pois não seriam “pessoas humanas”.

Por essas discussões é que afirmo que não importa a partir de quando aquele ser humano se tornará pessoa. O importante é que se trata de um ser humano, e que merece todo o respeito e proteção que devemos a qualquer outro ser humano, independente das funções que possa exercer.

ZENIT: Quais são as tragédias que o aborto traz para uma nação que o aprova na sua legislação?

PE. HELIO: A tragédia mais profunda é a instituição de uma “cultura de morte”, que não respeita o sofrimento das mães – muitas são quase induzidas socialmente ou economicamente a realizar o aborto – e nem o direito básico dos próprios cidadãos mais indefesos, aqueles que ainda estão por nascer. É irônico que tais sociedades possuem legislações bastante rigorosas para a defesa de embriões animais, enquanto os seres humanos estão totalmente indefesos. Hoje é mais seguro nascer feto de baleia do que feto humano.

Derivada desta “cultura de morte” nasce uma atitude de egoísmo generalizado – o importante não é mais o “bem comum” da sociedade, mas o individualismo, o bem de cada um. Deixamos de viver em sociedade como modo de nos aperfeiçoarmos como seres humanos sociais que somos, para converter-nos, como dizia Hobbes, em lobos para os outros lobos.

O processo de degradação da sociedade – em todos os pontos de vista – também é uma consequência da chamada “cultura de morte”. Se o Direito, base da civilização ocidental, perde sua raiz profunda que o justifica – ou seja, a natureza humana e a defesa do mais débil – a civilização toda se ressente. A crise – social, econômica, moral – da sociedade atual não é mera coincidência. Será mera coincidência que os países com menor taxa de nascimento e maior índice de aborto – Grécia, Portugal, Espanha e Itália – são aqueles com maior crise econômica?

Historicamente, toda a civilização que desrespeitou os valores básicos do ser humano, entrou em decadência e desapareceu. O exemplo mais claro foi a degradação do Império Romano – quando deixou de velar pelos valores básicos, tornando-se meramente “populista”, ampliou seu domínio físico, mas perdeu sua força moral. Não foi a invasão dos chamados “povos bárbaros” o que acabou com Roma – este foi só o golpe final que fez cair o que por dentro já estava moralmente destruído.

ZENIT: O senhor já se encontrou com católicos que aprovam o aborto? Eles podem ser considerados pessoas que estão fora da doutrina e da moral católicas?

PE. HELIO: A Igreja é uma realidade divina, mas que também possui leis e autoridades que devem ser respeitadas. Assim como eu não posso, simplesmente, declarar-me membro da Academia Brasileira de Letras – porque é necessário uma série de requisitos para pertencer a esta Academia – ninguém pode por si mesmo, sem cumprir certos requisitos, ser declarado um membro da Igreja. Deste modo, católicos de fato que defendam o aborto não existem e não podem existir. Se alguém defende o aborto, jamais poderá ser considerado um membro da Igreja, ou seja, não pode participar do Corpo de Cristo.

Por outro lado é um fato que existem grupos de pessoas que se dizem católicas – mas não o são de fato – e que ao mesmo tempo defendem o aborto. Quem sabe o grupo mais expressivo seja aquele que se autodenomina “Católicas pelo direito de decidir”. Certamente os membros deste grupo não são de fato católicos, pois defendem algo absolutamente contrário à própria humanidade – o direito de matar um inocente. É verdade, como já dissemos antes, que a liberdade é um bem, mas não é um bem absoluto. Este bem – o da liberdade – está por debaixo do direito mais elementar de todos, o direito à vida, o bem maior defendido pelo Direito.

Neste sentido, por que não criamos grupos como “Católicos pelo direito de assassinar”, ou “Católicos pelo direito de roubar”. Certamente é uma ironia, mas, às vezes, esta se faz necessária para entender o quão absurdo são os argumentos. Assassinar ou roubar também são atos de liberdade, mas nem por isso alguém pode defender esta liberdade como um valor – pois lesaria valores mais altos, o da vida e o direito à propriedade privada. Do mesmo modo quem defende uma liberdade para matar uma criança dentro do ventre materno, lesa o direito à vida desta criança e, deste modo, não tem o direito de reclamar tal liberdade.

ZENIT: Por que o aborto traz uma das penas canônicas mais sérias do direito canônico, segundo o cânon 1398?

PE. HELIO: Dizíamos, em outro ponto da entrevista, que o Direito tem um fundamento natural, ou seja, expressa o verdadeiro modo de ser da humanidade. O Direito da Igreja, chamado “Direito Canônico”, também tem a mesma raiz natural, além, também, de regular matérias que conhecemos por Revelação.

Desde um ponto de vista natural, como víamos antes, trata-se de um crime hediondo: não apenas se está matando a um ser humano inocente e indefeso, mas se está matando o próprio filho na fase da vida que ele mais necessitava da proteção dos pais. Desde um ponto de vista sobrenatural, baseado na Revelação divina, é algo ainda mais grave – o assassinato de um filho de Deus que tinha sido confiado a estes pais.

As penas no Direito – seja civil ou canônico – sempre devem ter um caráter de proteger um bem, ou seja, de evitar um crime, além do caráter medicinal. Falando em relação ao Direito civil, alguns acusam os católicos de serem desumanos quando pedem a punição da mulher que realiza o aborto. A punição existe para prevenir o crime, ou seja, em defesa da vida do indefeso. Despenalizando o aborto perdemos esta proteção importante para a vida do mais débil. Além disso, na maioria das vezes, a mulher que realiza o aborto é a menos culpada deste ato – normalmente ela está em meio a um conjunto de pressões sociais, sentimentais e econômicas. Os principais culpados – e consequentemente os que deveriam ser mais duramente punidos – são aqueles que induzem e realizam o ato ilegal e imoral do aborto.

Em relação ao Direito Canônico, para que se entenda a gravidade da ofensa ao próximo – sendo este “próximo” o próprio filho – e, consequentemente, a gravidade da ofensa a Deus, é reservada a este pecado a pena da excomunhão latae sententiae. Certamente a palavra excomunhão soa forte aos ouvidos da opinião pública e de fato é a pena mais severa da Igreja – desligar um membro da comunhão com a Igreja. Com latae sententiae se indica que a excomunhão é automática, ou seja, quem comete ou induz alguém a cometer um aborto ou participa da execução do mesmo, automaticamente está excluído da comunhão com a Igreja e, consequentemente, com o Corpo de Cristo.

Ainda sendo a pena mais grave da Igreja, a pena de excomunhão não condiz com o aquilo que o imaginário popular interpreta por excomunhão. Trata-se, como foi dito, de uma pena preventiva, educativa e medicinal. Em primeiro lugar, sendo uma pena tão grave, só recai nela quem cometeu com certeza um aborto – se alguém realiza uma tentativa de aborto sem “êxito”, comete um pecado grave, mas não é excomungado. Também só é excomungado quem sabia, ainda que imperfeitamente, da existência de uma pena especial. Além disso, as pessoas que cometeram, induziram ou participaram de um aborto – e consequentemente estão excomungadas – podem pedir e receber o perdão pelo pecado cometido e o levantamento da pena de excomunhão. Cada diocese possui alguns sacerdotes – em algumas dioceses todos os sacerdotes – habilitados para levantar esta pena, dando logicamente alguma penitência especial, para que se entenda a gravidade do pecado cometido. Normalmente a maior penitência para uma mãe que cometeu aborto é o sofrimento que carrega – por toda a vida – por sentir a culpa de ter matado seu próprio filho.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Santo Irineu, bispo e mártir



Padre da Igreja, grego de nascimento, filho de pais cristãos, nasceu na ilha de Esmirna, no ano 130. Foi discípulo de Policarpo, outro Padre e santo da Igreja. Dele Irineu pôde recolher ainda viva a tradição apostólica, pois Policarpo fora consagrado bispo pelo próprio João Evangelista, o que torna importantíssimos os seus testemunhos doutrinais. 

Muito culto e letrado em várias línguas, Irineu foi ordenado por são Policarpo, que o enviou para a Gália, atual França, onde havia uma grande população de fiéis cristãos procedentes do Oriente. Lá, trabalhou ao lado de Fotino, o primeiro bispo de Lyon, que, em 175, o enviou a Roma para, junto do papa Eleutério, resolver a delicada questão doutrinal dos hereges montanistas. Esses fanáticos, vindos do Oriente, pregavam o desprezo pelas coisas do mundo, anunciando o breve retorno de Cristo para o juízo final. 

Contudo tanto o papa quanto Irineu foram tomados pela surpresa da bárbara perseguição decretada pelo imperador Marco Aurélio. Rapidamente, em 177, ela atingiu a cidade de Lyon, ocasionando o grande massacre dos cristãos, todos mortos pelo testemunho da fé. 

Um ano depois, Irineu retornou a Lyon, onde foi eleito e aclamado sucessor do bispo mártir, Fotino. Nesse cargo ele permaneceu vinte e cinco anos. Ocupou-se da evangelização e combateu, principalmente, a heresia dos gnósticos, além das outras que proliferavam nesses primeiros tempos. Obteve êxito, junto ao papa Vitor I, na questão da comemoração da festa da Páscoa, quando lhe pediu que atuasse com moderação para manter a união entre a Igreja do Ocidente e a do Oriente. 

A sua obra escrita mais importante foi o tratado "Contra as heresias", onde trata da falsa gnose, e depois, de todas as outras heresias da época. O texto grego foi perdido, mas existem as traduções latina, armênia e siríaca. 

Importante não só do lado teológico, onde expôs já pronta a teoria sobre a autoridade doutrinal da Igreja, mas ainda do lado histórico, pois documentou e nos apresentou um quadro vivo das batalhas e lutas de então. 

Mais tarde, um outro tratado, chamado "Demonstração da pregação apostólica", foi encontrado inteiro, numa tradução armênia. Além de vários fragmentos de outras obras, cartas, discursos e pequenos tratados. 

Irineu morreu como mártir no dia 28 de junho de 202, em Lyon, e sua festa litúrgica ocorre nesta data. As relíquias de santo Irineu estão sepultadas, junto com os mártires da Igreja de Lyon, na catedral desta cidade.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Os Apóstolos Pedro e Paulo testemunhas do amor de Cristo




JOÃO PAULO II

32ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 27 de Junho 1979


1. «Pretiosa in conspectu Domini mors Sanctorum Eius». Preciosa aos olhos do Senhor é a morte dos Seus fiéis (Sl. 116, 15).

Permiti começar eu com estas palavras do Salmo 116 a meditação que hoje desejo dedicar à memória dos Santos Fundadores e Patronos da Igreja Romana. Aproxima-se, de facto, o dia solene de 29 de Junho, em que toda a Igreja, mas sobretudo Roma, recordará os Santos Apóstolos Pedro e Paulo. Este dia fixou-se na memória da Igreja Romana como dia da morte d'Eles; o dia que os uniu com o Senhor, de Quem esperavam a Vinda, observavam a Lei e de Quem receberam «a coroa da vida» (Cfr. 2 Tim. 4, 7-8; Tg. 1, 12).

O dia da morte foi para eles o início da Nova Vida. O Senhor mesmo lhes revelou este início com a própria ressurreição, da qual eles se tornaram testemunhas mediante as palavras e as obras, e também mediante a morte. Tudo junto — as palavras, as obras e a morte de Simão de Betsaida, a quem o Senhor chamou Pedro, e de Saulo de Tarso, que depois da conversão se chamou Paulo — constitui, por assim dizer, o complemento do Evangelho de Cristo, a sua penetração na história da humanidade, na história do mundo, e também na história desta Cidade. Há verdadeiramente que meditar nestes dias, que o Senhor, mediante a morte dos seus Apóstolos, nos permite encher com uma memória especial da vida de ambos.

«Felix per omnes festum mundi cardines / apostolorum praepollet alacriter, / Petri beati, Pauli sacratissimi, / quos Christus almo consecravit sanguine, / ecclesiarum deputavit principes» (Hymnus ad officium lectionis, Hino do Ofício da leitura).

«Brilha por todos os lugares do mundo / a fausta solenidade dos Apóstolos, / do bem-aventurado Pedro e do augusto Paulo, / / que Cristo consagrou com fecundo sangue / e escolheu para chefes das Igrejas».

2. Quando Cristo depois da ressurreição teve com Ele aquela conversa singular, descrita pelo Evangelista João, certamente Pedro não sabia que precisamente aqui — na Roma de Nero --se realizariam as palavras ouvidas então e aquelas mesmas pronunciadas por ele. Cristo perguntou-lhe três vezes «Amas-me?» e Pedro três vezes deu resposta afirmativa. Ainda que à terceira vez Pedro se tenha entristecido (Jo. 21, 17), como nota o Evangelista. Alguns pensam na causa possível desta dor, e supõem que ela se encontra na tríplice negação, recordada a Pedro pela terceira pergunta de Cristo. Seja como for, depois da terceira resposta em que Pedro não só garantiu o seu amor mas apelou humildemente para o que o próprio Cristo sabia a este propósito Senhor, Tu sabes que Te amo (Jo. 21, 15), depois desta terceira resposta seguem as palavras que exactamente aqui, em Roma, se haveriam de realizar um dia. O Senhor diz: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias; mas quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te cingirá e te levará para onde tu não queres (Jo. 21, 18). Estas palavras misteriosas podem-se compreender de maneiras diversas. Todavia o Evangelista sugere o sentido exacto, quando acrescenta que nelas indicou Cristo a Pedro o género de morte com que ele havia de glorificar a Deus (Jo. 21, 19). 

Por isso, o dia da morte do Apóstolo, que depois de amanhã comemoramos, recorda-nos também o cumprimento destas palavras. Tudo o que aconteceu anteriormente — todo o ensinamento apostólico e o serviço à Igreja na Palestina, depois em Antioquia, e por último em Roma — tudo isto constitui o cumprimento daquela tríplice resposta: Senhor, tu sabes que Te amo (Jo. 21, 15). Tudo isto dia após dia, ano após ano, juntamente com todas as alegrias e as exaltações da alma do Apóstolo, quando via o crescimento da causa do Evangelho nas almas, mas também todas as inquietações, as perseguições e as ameaças — começando já desde Jerusalém, quando Pedro foi encarcerado por ordem de Herodes, até à última, em Roma, quando se repetiu a mesma coisa em seguida à ordem de Nero. Mas da primeira vez foi libertado pelo Senhor por meio do Seu Anjo, ao passo que desta já não. Provavelmente completou-se suficientemente, com a vida e o ministério de Pedro, a medida terrena do amor prometido ao Mestre. Podia-se cumprir também esta seguinte parte das palavras então pronunciadas: ... outro te cingirá e te levará para onde tu não queres (Jo. 21, 18).

Segundo a tradição, Pedro morreu na cruz como Cristo, mas tendo a consciência de não ser digno de morrer como o Mestre, pediu para ser crucificado com a cabeça para baixo.

3. Paulo veio a Roma como preso, depois de apelar para César contra a sentença de condenação dada na Palestina (Cfr. Act. 25, 11). Era cidadão romano e tinha direito a este recurso. Por isso, é possível que tenha passado os últimos dois anos de vida na Roma de Nero. Não parou de ensinar, por meio da palavra viva e escrita (as cartas), mas talvez não tenha podido nunca sair da cidade. As suas viagens missionárias, com que abraçara os principais centros do mundo mediterrâneo, estavam terminadas. Cumpriu-se deste modo o prenúncio acerca do instrumento escolhido para levar o Nome do Senhor diante dos povos (Act. 9, 15).

Durante pouco mais de trinta anos a partir da morte de Cristo, da ressurreição e da ascensão ao Pai, a região do Mar Mediterrâneo e portanto a área do Império tinha-se ido povoando com os primeiros cristãos. Tudo isto foi, em parte considerável, fruto da actividade missionária do Apóstolo dos Gentios. E se, entre todas estas solicitudes, não o abandonava o desejo de ser liberto do corpo para estar com Cristo (Flp. 1, 23), foi exactamente aqui em Roma que tal desejo se cumpriu.

O Senhor dirigiu-o para Roma no fim da vida, para ser testemunha do ministério de Pedro não só entre os Hebreus, mas também entre os pagãos, e para levar para lá o testemunho vivo do desenvolvimento da Igreja «até aos confins da terra» (Cfr. Act. 1, 8), de maneira que desenhasse a primeira forma da sua universalidade. O Senhor dispôs que ele, Paulo, Apóstolo infatigável e servidor desta universalidade, passasse os últimos anos da vida aqui, para ser o apoio e o estável ponto de referência para esta mesma universalidade.

«O Roma felix, quae tantorum principum / es purpurata pretioso sanguine, non laude tua, sed ipsorum meritis / excellis mundi pulchritudinem» (Hymnus ad Vesperas, Hino de Vésperas). «O Roma feliz que de tantos príncipes / foste empurpurada com o precioso sangue, / não para tua fama, mas por seus méritos / tu vences toda a beleza do mundo».

4. Aproximando-se o dia 29 de Junho, festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, muitos pensamentos se acumulam na mente e muitos sentimentos no coração. Sobretudo cresce a necessidade da oração, para que o ministério de Pedro encontre nova compreensão na Igreja dos nossos tempos, e para que se amplie cada vez mais a dimensão da universalidade missionária que São Paulo trouxe de modo tão relevante para a história da Igreja Romana, permanecendo aqui na qualidade de preso nos últimos anos da vida.

E o Senhor, que prometeu a Pedro construir a própria Igreja «sobre a Pedra», continue a ser benigno para com esta Pedra que se veio inserir no terreno da Cidade Eterna, tornada fértil com o sangue dos seus Fundadores.

***

Saudações

A vários grupos de peregrinos

Vejo hoje presentes na Audiência numerosos Religiosos entre os quais um grupo de Cónegos Regulares da Imaculada Conceição, reunidos para o Capítulo Geral, e os Superiores das casas da Confederação do Oratório de São Filipe de Néri. A vós, caríssimos Religiosos, e também a todas as Religiosas, um obrigado sincero pelo trabalho que realizais em favor da Igreja, ao mesmo tempo que faço votos por que sejais sempre fervorosos no espírito e testemunhas, alegres e corajosas, de Cristo no mundo.

Apresento a seguir, as boas-vindas aos participantes na reunião de estudo organizada pela Associação Italiana dos Professores Católicos! Que o Divino Mestre ilumine sempre as vossas inteligências com a Sua luz, corrobore as vossas vontades e os vossos corações com a Sua graça, e torne fecundo de bem o vosso generoso compromisso educativo!

Tenho o prazer também de saudar, entre as numerosas peregrinações, as das dioceses de Caltanissetta, de Parma e de Pavia, acompanhadas pelos respectivos Bispos. A todos chegue o meu reconhecido apreço por esta visita; a todos dirijo a minha paternal exortação a que revigoreis a vossa fé cristã junto do Túmulo do Apóstolo Pedro; sobre todos invoco copiosas graças celestes de alegria e de prosperidade, em penhor das quais concedo de coração a minha Bênção.

Aos jovens

E agora urna cordial saudação a todos os jovens e às jovens aqui presentes. Caríssimos, a esperança que representais para a Igreja e para a sociedade realizar-se-á se compreenderdes realmente que, sendo "Jesus Cristo a verdade de todo o homem", a fé n'Ele deve tornar-se a nascente do critério para enfrentar todos os problemas da existência. Exorto-vos, pois, a infundirdes a fé no vosso comportamento em, todas as circunstâncias. Que a minha bênção vos acompanhe.

Aos Doentinhos

Queridos doentes: dirijo-vos uma saudação particularmente afectuosa, e recordo-vos as palavras de São Pedro aos primeiros cristãos: "Se fazendo o bem, sofreis com paciência, isto é agradável aos olhos de Deus. Ora, é para isto que fostes chamados, porque Cristo também sofreu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos" (1 Ped. 2, 20-21). São palavras sempre actuais e sempre válidas para vós e para todos! Sirvam-vos elas de luz e de conforto. De coração abençoo-vos a todos.

Aos jovens Casais

Caríssimos jovens casais! Obrigado pela vossa presença!

A vós que iniciais uma nova vida nesta nossa sociedade, não certamente fácil, quero recordar as palavras de São Paulo ao seu discípulo Timóteo: "Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, amor e sabedoria. Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor (...); participa comigo no trabalho do Evangelho, fortificado pelo poder de Deus. Ele nos salvou e nos chamou para a santificação" (2 Tim 1, 79).

Sede também vós corajosos testemunhando a vossa fé e o vosso compromisso de santificação.

A minha bênção vos sustenha neste esforço.

A peregrinos da Nigéria

As minhas especiais boas-vindas vão para a peregrinação da Arquidiocese de Onitska. Deus vos abençoe e a toda a Nigéria.

A um grupo de militares dos Estados Unidos da América

Dirijo uma especial palavra de felicitações aos oficiais e tripulação do porta-aviões "Eisenhower", e aos membros do exército dos Estados Unidos estanciados na Alemanha; assim como aos directores do USO, sob o patrocínio do Clube Católico Americano de Roma, que celebra o seu 35° aniversário de fundação. Que o Senhor vos acompanhe nas vossas actividades de serviço.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Extremistas muçulmanos destroem outra igreja na Nigéria

ROMA, 19 Jun. 12 / 03:13 pm (ACI/EWTN Noticias)

Extremistas muçulmanos tomaram esta terça-feira as ruas de Kaduna (Nigéria) e incendiaram uma igreja após gerarem distúrbios com queimas de pneus e disparos com fuzis AK-47.

Segundo a informação fornecida pela agência Reuters, uma testemunha disse que os extremistas "saíram às ruas, queimaram pneus e dispararam. Incendiaram uma igreja". O homem, que se identificou como Suleiman, indicou que em um momento se viu apanhado em meio da multidão enquanto tentava retornar a sua casa.

Este novo atentado ocorre dois dias depois que a seita muçulmana Boko Haram atacou a Catedral de Cristo Rei, a igreja de Shalom e a igreja evangélica da Boa Nova, deixando 34 mortos e aproximadamente 150 feridos.

Em um comunicado recolhido esta segunda-feira pela cadeia CNN, a seita disse que os ataques são uma represália contra os cristãos. "Que eles saibam que é a hora da vingança. A partir de agora, ou seguem a religião correta ou não haverá paz para eles", ameaçou o grupo extremista.

Na segunda-feira, 18, o Diretor do Escritório de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, criticou duramente os ataques aos templos cristãos. "São horríveis e inaceitáveis os atentados contra várias igrejas cristãs na Nigéria, nos quais morreram dezenas de pessoas", declarou à imprensa italiana.

O sacerdote pediu à comunidade internacional urgentes "ações eficazes contra o terrorismo" porque a violência pode aumentar não só para os cristãos, mas também contra "uma numerosa população desejosa de uma convivência pacífica".

Fortnight for Freedom: Arcebispo de L.A. chama a defender liberdade religiosa nos Estados Unidos

LOS ANGELES, 23 Jun. 12 / 10:34 am (ACI)

O Arcebispo de Los Angeles (Estados Unidos), Dom José Gómez, chamou os americanos a unir-se à campanha Fortnight for Freedom (Duas Semanas pela Liberdade), para proteger o direito à liberdade religiosa que vem sendo ameaçado pelas políticas da Administração de Barack Obama.

"A liberdade religiosa uma liberdade preciosa. Tristemente, também é uma liberdade rara. Três de cada quatro pessoas no mundo vivem em um país onde o governo não protege seu direito para prestar culto e servir o Deus no qual acreditam", assinalou o Prelado em sua última coluna enviada na sexta-feira 22, ao grupo ACI.

Dom Gómez recordou que os cristãos são os fiéis mais perseguidos no mundo, pois em alguns países chegam a “arriscar a sua vida cada vez que vão a Missa".

"Este contexto global põe nosso atual conflito com o governo dos Estados Unidos em perspectiva. Mas é importante recordar: precisamente pelo fato que os fiéis aqui não seja punidos com violência e sejam livres de ir à igreja, não significa que a liberdade religiosa não esteja em perigo", advertiu.

Por isso, disse que a campanha Fortnight for Freedom que teve início nesta quinta-feira , 21, é "um período de oração, sacrifício e testemunho público pela causa da liberdade religiosa. Eu me uno aos meus irmãos na Conferência de Bispos Católicos dos E.U.A no chamado a esta ‘Quinzena pela liberdade’, que terminará no dia 4 de julho, festa da independência do nosso país".

O Arcebispo de Los Angeles recordou que para os fundadores dos Estados Unidos a liberdade religiosa significou não só a liberdade de culto, mas também a "liberdade para estabelecer instituições que nos ajudem a viver nossa fé" e expressar seus valores em debates políticos, procurando persuadir outros "a compartilharem nossas convicções".

Entretanto, advertiu que em anos recentes isto foi se deteriorando "sob constante pressão de elementos anti-cristãos e secularizados na sociedade norte-americana".

"O governo, em todos os níveis, está incrementando a pressão sobre agências da Igreja para contrariar sua crença. A fé e os valores cristãos estão mais e mais representados –nos meios de comunicação, nas cortes, ainda em comentários de altos oficiais do governo- como uma forma de preconceito", indicou.

Inclusive, assinalou o arcebispo, "algumas vezes parece que o cristianismo está chegando a ser o único estilo de vida que não pode ser tolerado tendo um papel em nossa vida pública".

Entretanto, Dom Gómez esclareceu que esta luta não se reduz ao acesso ao aborto e ao controle da natalidade, "porque, infelizmente, ambos estão amplamente disponíveis e acessíveis a qualquer um que queira obtê-los neste país, freqüentemente subsidiados por governos estatais e federal".

"Precisamos ver isto claramente: Nosso presente conflito parte de uma luta cultural mais longa para voltar a definir a América do Norte puramente como uma sociedade secular -- na qual não há uma função pública para as instituições religiosas, exceto se elas servirem os propósitos do governo".

O bispo assinalou ainda que "esta luta já leva um longo tempo. A novidade é que nosso governo -- que tem o dever de proteger a liberdade religiosa -- agora toma partido contra a liberdade da Igreja".

Para isso usa "todo o peso de seus poderes para tratar de ditar os termos sob os quais a Igreja e os crentes católicos podem participar da nossa sociedade".

"Possivelmente pela primeira vez na nossa história, nosso governo está atuando como se os direitos humanos não viessem da mão de Deus, mas como se fossem ‘benefícios’ que o governo pode dar, definir e tirar".

Há gente bem-intencionada "que me pergunta: por que isto é tão importante? por que a Igreja não pode somente comprometer-se e proporcionar planos de saúde que incluem controle da natalidade para nossos empregados? Eles me dizem que se obteria um bem maior se a Igreja pudesse continuar servindo aos pobres em seus hospitais, escolas e caridades".

Entretanto, recordou que os católicos servem os pobres por amor a Cristo e não para agradar um governo. O amor ao Senhor, indicou, "obriga-nos a dar testemunho de que a vida, o matrimônio e a família são sagrados e que é imoral prevenir o nascimento de crianças".

Nesse sentido, advertiu que o "compromisso" que oferece o Governo Obama "nos impede de amar Cristo e de sermos cristãos".

Diante disto, o prelado disse que se fará o que "a Igreja e os cristãos têm feito sempre".

"Nós amamos nossos inimigos e oramos pelos que nos perseguem. Vivemos nossa fé com a liberdade dos filhos de Deus, com um amor que cura e inspira outros. Falamos ao mundo da Boa Nova de que Deus está vivo e de que Ele chama a um grande destino de amor. Nós trabalhamos para criar uma sociedade de mútuo compartilhar, de reconciliação e amor, arraigados na santidade da pessoa humana e da família. De modo que oremos esta semana uns por outros e pelo nosso país", expressou.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Bento XVI: Mundo do trabalho necessita valores cristãos para sair da crise

VATICANO, 22 Jun. 12 / 04:19 pm (ACI/EWTN Noticias)

O Papa Bento XVI assinalou na manhã desta sexta-feira, 22, que o mundo da economia e do trabalho são âmbitos que não podem permanecer alheios à mensagem evangélica, mas ao contrário, necessitam dos valores cristãos para enfrentar dificuldades atuais como a crise econômica que assola vários países, especialmente da Europa.

"A sociedade, a economia, o trabalho não representam âmbitos exclusivamente seculares e muito menos alheios à mensagem cristã; ao contrário, são espaços que devem ser fecundados com a riqueza espiritual do Evangelho", afirmou o Papa Bento diante de uma delegação de empresários da agricultura e da pesca italiana (Coldiretti) com ocasião do congresso desse organismo cujo tema foi "A agricultura familiar para um desenvolvimento sustentável".

O Papa disse que a crise econômica e financeira expõe aos empresários difíceis desafios "que eles estão chamados a enfrentar como cristãos, cultivando um sentido de responsabilidade, profundo e renovado, dando prova de solidariedade e de capacidade de partilhar”. 

“Tendo em conta, ademais, que na base da dificuldade atual econômica há uma crise moral, trabalhem com solicitude para que as instâncias éticas prevaleçam sobre qualquer outra exigência", animou o Papa.

"Neste terreno ético, é necessário que a família, a escola, o sindicato e qualquer outra instituição política, cultural e cívica, desempenhem um importante trabalho de colaboração (...) sobre tudo pelo que se refere aos jovens: estão carregados de perspectivas e esperanças; procuram construir seu futuro com generosidade e esperam que os adultos lhes dêem exemplos válidos e propostas sérias. Não podemos desiludi-los", assinalou.

Por isso, animou os empresários a continuar dando seu testemunho evangélico "ressaltando os valores que fazem da atividade laboral uma ferramenta inapreciável para a convivência justa e humana", como o respeito da dignidade da pessoa, a busca do bem comum, a honradez na gestão dos serviços, a segurança alimentar, a proteção do ambiente e a promoção do espírito de solidariedade.

Nesse sentido, o Papa afirmou que a Igreja nunca é indiferente "à qualidade de vida das pessoas, nem às suas condições de trabalho e adverte a necessidade de cuidar dos seres humanos e dos contextos em que vivem e produzem, para que sejam sempre lugares humanos e humanizantes".

Precisamente na Coldiretti, indicou o Santo Padre "o ensino católico em matéria de ética social teve um de seus laboratórios mais férteis, graças à intuição e às amplas miras de seu fundador, Paolo Bonomi".

"Agora sua missão, permanecendo fiéis aos valores adquiridos, é dialogar com uma sociedade que mudou que aspecto. Que cada um se comprometa, desde o papel que lhe corresponde, a sustentar os interesses legítimos das categorias que representa (...) com o fim de valorizar os aspectos mais nobres e qualificadores da pessoa: o sentido do dever, a capacidade de compartilhar e o espírito de sacrifício, a solidariedade, o cumprimento das justas exigências do repouso e da regeneração corporal e, ainda mais, espiritual", afirmou.

sábado, 23 de junho de 2012

Identidade, santificação e missão: tarefas sacerdotais


O cardeal Mauro Piacenza convida à oração pela santificação do povo de Deus
Por Antonio Gaspari

ROMA, sexta-feira, 15 de junho de 2012 (ZENIT.org) – Sendo hoje Festa do Sagrado Coração de Jesus, Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes, e amanhã, o segundo aniversário do encerramento do Ano Sacerdotal, o cardeal Mauro Piacenza, Prefeito da Congregação para o Clero pede orações pela identidade, a santificação e a missão de todo o povo de Deus.

Em um mundo onde até mesmo a figura do sacerdote parece estar dominada pelo caos, confusão, dúvidas, tentações, o cardeal Piacenza renova a sua fé no Senhor e a sua confiança no bem que os sacerdotes difundem no mundo.

Para conhecer as razões desta fé e desta confiança, ZENIT entrevistou o Prefeito da Congregação para o Clero.

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ZENIT: Qual é o significado de eventos como a Festa do Sagrado Coração de Jesus e o Ano Sacerdotal? O que os une?

CARD. PIACENZA: Certamente, a Missão é a chave para a interpretação dos eventos mencionados. O Ano Sacerdotal, que foi um evento excepcional querido pelo Santo Padre Bento XVI, quis salientar a profunda ligação entre identidade e missão dos sacerdotes, reconhecendo como, os dois elementos, estejam totalmente relacionados entre si: o Sacerdócio ministerial é para a missão e na missão se define a identidade sacerdotal. A Jornada mundial de oração pela santificação dos Sacerdotes é, ao contrário, um evento anual, que cada Igreja particular está chamada a celebrar, mostrando aquela comunhão e reciprocidade na oração, que deve caracterizar todo o povo de Deus, chamado a implorar do Senhor o dom dos Pastores Santos. Além disso, o sacerdócio ministerial está a serviço do comum de todos os batizados, que se realiza, concretamente, na resposta ao chamado universal à santidade.

ZENIT: Mas é necessário portanto uma jornada de oração pela santificação do Clero? E por que justo na Festa do Sagrado Coração?

CARD. PIACENZA: Da oração “nunquam satis”, nunca há suficiente! Orar pela santificação dos Sacerdotes significa, em certo sentido, orar pela santidade de todo o povo de Deus, ao qual todo o ministério está ordenado. É, então, uma oportunidade para favorecer a comunhão e a mútua custódia orante, entre membros do mesmo presbitério, quase em um arco perfeito, que vai da Missa do Crisma à Festa do Sagrado Coração de Jesus, abraçando os mistérios fundamentais da nossa fé e contemplando-os em chave sacerdotal. Finalmente, como afirmado pelo Cura d'Ars, "O Sacerdócio é o amor do Coração de Jesus", seja entendendo aquela necessária intimidade e apropriação que sempre cada sacerdote deve ter com o Senhor, seja indicando o amor e a caridade de Jesus “bom Pastor”, ao qual todo exercício do ministério ordenado deve tender. A caridade pastoral é a verdadeira chave interpretativa desta jornada de oração.

ZENIT: E como se coloca, tudo isso, na perspectiva do Ano da Fé?

CARD. PIACENZA: O Ano da Fé foi escolhido pelo Santo Padre para comemorar dois aniversários importantes, um depende do outro. Primeiro, o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II e, conseqüentemente, o vigésimo aniversário da promulgação do Catecismo da Igreja Católica, que é o Catecismo do Concílio Ecumênico Vaticano II! Novamente, os sacerdotes são chamados a oferecer sua generosa contribuição, também no Ano da Fé, para executar as indicações do Papa, lembrando como, justo na sua missão e na obra de evangelização se reforça a mesma identidade sacerdotal. Ler e, em certo sentido, "redescobrir" o Concílio, em todo o seu significado profético e missionário, é uma das tarefas mais urgentes, hoje, na Igreja.

ZENIT: o senhor acha que o Concílio ainda não seja bem conhecido?

CARD. PIACENZA: Eu acho que a Igreja seja sempre guiada pelo Espírito Santo e que, portanto, textos como aqueles conciliares, também depois de 50 anos, podem e devem continuar a falar a todo o Corpo eclesial, e especialmente a todos os Sacerdotes, evitando com cuidado a tentação, sempre possível, do precoce e superficial "armazenamento". O Concílio, como repetidamente enfatizado tanto pelo Beato João Paulo II, como pelo Santo Padre Bento XVI, é uma "bússola" para o terceiro milênio e, conseqüentemente, para toda obra de evangelização e de nova evangelização. A correta Hermenêutica é condição, e não obstáculo, ao conhecimento do Concílio. Basta pensar, por exemplo, e lembro-me claramente, no impacto que teve a Encíclica Evangelii Nuntiandi, do Servo de Deus, o Papa Paulo VI, na qual já se interpretava, de modo profético para aqueles tempos, o impulso missionário do Concílio.

ZENIT: Eminência, o senhor fala muito sobre a "missão". Mas é esta hoje a emergência na Igreja? Considera que haja um "déficit" missionário?

CARD. PIACENZA: A missão não é uma das "atividades" do Corpo eclesial, mas caracteriza essencialmente a identidade. Sem missão, não há Igreja, e vice-versa! A Igreja é totalmente relativa à missão, ao encontro dos homens, de todo tempo e lugar e de toda cultura, com o Senhor Ressuscitado. Levar a todos o anúncio do Reino e Salvação: esta é a tarefa essencial da Igreja! Tarefa que, nas diversas épocas e circunstâncias, declina-se a modalidades diferentes, mas que conserva sempre o próprio núcleo essencial, constituido pela obediência ao mandamento de Jesus: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura”. Se os homens de Igreja, todos os batizados, e os Sacerdotes em especial, perdessem tal desejo missionário, perderiam um aspecto essencial do batismo e, em certos aspectos, da própria fé cristã.

ZENIT: A carta de convocação, presente no site da Congregação (www.clerus.org) afirma que a Santificação do Clero "não está em contradição com a consciência dos [...] fracassos pessoais, e nem sequer das culpas de alguns que, por vezes, humilharam o sacerdócio aos olhos do mundo”. Pode-se afirmar que “a emergência do clero” acabou?

CARD. PIACENZA: Não. A emergência é antes de mais nada aquela das feridas provocadas das culpas de alguns e, até que as feridas não sejam cicatrizadas, não é possível falar de cura. Certamente todos nós aprendemos uma importante lição do que aconteceu: nunca é possível abaixar a guarda, porque o mal “como leão rugente anda procurando a quem devorar”. Os comuns instrumentos da santificação e um alto nível de espiritualidade são o pressuposto indispensável para desejar um futuro no qual certos episódios não sejam mais do que uma terrível lembrança.

Nunca seremos integralmente santos, nesta fase terrena do Reino, mas certamente podemos e devemos esforçar-nos para uma maior Santidade, através de todas as ferramentas que a Igreja nos oferece, a partir da Palavra e dos sacramentos, para alcançar a vida comunitária e o zelo missionário, para todas as almas. A paixão por anunciar Cristo é a verdadeira “medida” da temperatura da fé de uma época! Que a Virgem Maria nos guarde, Estrela da missão.

[Tradução do Italiano e adaptação por Thácio Siqueira]

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Para alguém ser missionário precisa cultivar a mística da missão


Entrevista com o diretor das Pontifícias Obras Missionárias no Brasil, Pe. Camilo Pauletti
Por Thácio Siqueira

BRASILIA, quinta-feira, 14 de junho de 2012 (ZENIT.org) – No próximo mês, do 12 ao 15 de Julho, acontecerá em Tocantins o 3º Congresso Missionário Nacional, organizado e promovido pelas Pontifícias Obras Missionárias (POM).

Nesse contexto evangelizador missionário ZENIT esteve na sede da POM em Brasília e entrevistou o Pe. Camilo Pauletti, diretor no Brasil das Pontifícias Obras Missionárias.

Publicamos a entrevista a seguir:

***

ZENIT: O que tem significado para o senhor ser o diretor Nacional das Pontifícias Obras Missionárias (POM)?

PE. CAMILO: Ser diretor das POM, é uma grande responsabilidade. Primeiro achei que não era digno, sem este perfil, mas depois refleti que é um chamado a servir e que deveria atender.

ZENIT: O senhor tem tido experiência direta com a missão em outro país?

PE. CAMILO: Minha experiência ad gentes foi em Moçambique na África, nos anos de 1999 a 2004.

ZENIT: O Brasil tem contribuído para a missão Ad Gentes? Temos missionários fora do Brasil?

PE. CAMILO: O Brasil já tem contribuído com a missão ad gentes, mas tem potencial para contribuir mais. Ainda temos dificuldades para olhar além da nossa realidade.

ZENIT: Como é que acontece a preparação de um católico brasileiro para ir de missão Ad Gentes?

PE. CAMILO: A preparação acontece primeiro em nossa casa, isto é, manifestando atitude de serviço em sua comunidade. Depois deve preparar-se para ir ao encontro de outra cultura e ser hóspede na casa do outro. Disposição para escutar e aprender antes de querer evangelizar. Participar de curso para missão ad gentes.

ZENIT: Qualquer um pode ser missionário, ou somente aqueles que forem enviados pelo Bispo, ou pelo Movimento que participa...?

PE. CAMILO: Qualquer um pode ir a missão, mas não deve ir isolado por conta própria, deve ir em nome de uma Igreja ou comunidade que o envia.

ZENIT: Quais são as estruturas missionárias da POM no Brasil?

PE. CAMILO: As POM no Brasil tem uma sede própria em Brasília. Além do diretor, tem quatro secretários nacionais, um de cada Obra Missionária Pontifícia: Propagação da Fé; Infância e Adolescência Missionária; São Pedro Apóstolo e União Missionária. Temos ainda 17 funcionários leigos que atuam na sede. Mas a grande força são os milhares de grupos missionários espalhados pelo país.

ZENIT: O Brasil ainda recebe missionários estrangeiros? Principalmente de quais países?

PE. CAMILO: O Brasil ainda recebe missionários da Europa, América, África e principalmente da Ásia.

ZENIT- O que um católico (jovem, adolescente, criança, adulto, idoso..), com desejos de ser missionário, deveria fazer para seguir essa vocação missionária? Precisa ser padre e freira para ser missionário? Ou um leigo pode ser missionário?

PE. CAMILO: Para alguém ser missionário precisa cultivar a mística da missão. Ter consciência do que significa ir em missão. Profundo respeito pelo diferente. Senso de gratuidade e solidariedade. Saber dialogar e disposição para viver experiência que exige entrega e doação.

ZENIT- Agora em Julho está para acontecer o 3 Congresso Missionário Nacional. Está destinado a quem? Qualquer um pode participar?

PE. CAMILO: O 3º Congresso Missionário Nacional, é um momento de unir as forças missionárias do Brasil. Participam delegados escolhidos por cada Diocese e pelos Conselhos Missionários dos Regionais. Também os representantes das Congregações e Organismos missionários.

Para maiores informações acesse: http://www.pom.org.br/

quinta-feira, 21 de junho de 2012

São Luís Gonzaga, religioso



Luís nasceu no dia 9 de março de 1568, na Itália. Foi o primeiro dos sete filhos de Ferrante Gonzaga, marquês de Castiglione delle Stiviere e sobrinho do duque de Mântua. Seu pai, que servia ao rei da Espanha, sonhava ver seu herdeiro e sucessor ingressar nas fileiras daquele exército. Por isso, desde pequenino, Luís era visto vestido como soldado, marchando atrás do batalhão ao qual seu pai orgulhosamente servia. 

Entretanto, Luís não desejava essa carreira, pois, ainda criança fizera voto de castidade. Quando tinha dez anos, foi enviado a Florença na qualidade de pajem de honra do grão-duque de Toscana. Posteriormente, foi à Espanha, para ser pajem do infante dom Diego, período em que aproveitou para estudar filosofia na universidade de Alcalá de Henares. Com doze anos, recebeu a primeira comunhão diretamente das mãos de Carlos Borromeu, hoje santo da Igreja. 

Desejava ingressar na vida religiosa, mas seu pai demorou cerca de dois anos para convencer-se de sua vocação. Até que consentiu; mas antes de concordar definitivamente, ele enviou Luís às cortes de Ferrara, Parma e Turim, tentando fazer com que o filho se deixasse seduzir pelas honras da nobreza dessas cortes. 

Luís tinha quatorze anos quando venceu as resistências do pai, renunciou ao título a que tinha direito por descendência e à herança da família e entrou para o noviciado romano dos jesuítas, sob a direção de Roberto Belarmino, o qual, depois, também foi canonizado. 

Lá escolheu para si as incumbências mais humildes e o atendimento aos doentes, principalmente durante as epidemias que atingiram Roma, em 1590, esquecendo totalmente suas origens aristocráticas. Consta que, certa vez, Luís carregou nos ombros um moribundo que encontrou no caminho, levando-o ao hospital. Isso fez com que contraísse a peste que assolava a cidade. 

Luís Gonzaga morreu com apenas vinte e três anos, em 21 de junho de 1591. Segundo a tradição, ainda na infância preconizara a data de sua morte, previsão que ninguém considerou por causa de sua pouca idade. Mas ele estava certo. 

O papa Bento XIII, em 1726, canonizou Luís Gonzaga e proclamou-o Padroeiro da Juventude. A igreja de Santo Inácio, em Roma, guarda as suas relíquias, que são veneradas no dia de sua morte. Enquanto a capa que são Luís Gonzaga usava encontra-se na belíssima basílica dedicada a ele, em Castiglione delle Stiviere, sua cidade natal.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Aprendamos a ler o mistério do coração de Cristo



JOÃO PAULO II

31ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 20 de Junho de 1979

1. Depois de amanhã, na próxima sexta-feira, a liturgia da Igreja concentra-se, com adoração e amor particulares, à volta do mistério do Coração de Cristo. Desejo portanto já hoje, antecipando esse dia e essa festa, dirigir juntamente convosco o olhar dos nossos corações para o mistério daquele Coração. Ele falou-me desde a idade juvenil. Todos os anos volto a este mistério no ritmo litúrgico do tempo da Igreja.

É sabido que o mês de Junho é particularmente dedicado ao Coração Divino, ao Sagrado Coração de Jesus. A Ele exprimi-mos o nosso amor e a nossa adoração, por meio da ladainha que fala com particular profundidade dos seus conteúdos teológicos em cada uma das invocações.

Desejo por isso, ao menos brevemente, deter-me em vossa companhia diante deste Coração, ao qual se dirige a Igreja como comunidade de corações humanos. Desejo, pelo menos brevemente, falar deste mistério tão humano, no qual com tanta simplicidade e igual profundidade e força se revelou Deus.

2. Deixemos hoje que falem os textos da liturgia da sexta-feira próxima, começando pela leitura do Evangelho segundo João. O Evangelista refere um facto com a precisão de testemunha ocular.

Então os judeus, visto ser o dia da Preparação, para os corpos não ficarem na cruz ao sábado—pois era grande dia aquele sábado —, pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. Vieram então os soldados e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao segundo dos que tinham sido crucificados com Ele. Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados perfurou-Lhe o lado com uma lança e logo saiu sangue e água (Jo 19, 31-34).

Nem sequer uma palavra sobre o coração.

O Evangelista fala só da lançada do costado, de que saiu sangue e água. A linguagem da descrição é quase médica, anatómica. A lança do soldado feriu sem dúvida o coração, para verificar se o condenado já estava morto. Este coração — este coração humano — parou de trabalhar. Jesus cessou de viver. Ao mesmo tempo, contudo, esta anatómica abertura do coração de Cristo depois da morte — não obstante toda a «aspereza» histórica do texto — leva-nos a pensar também a nível de metáfora. O coração não é só órgão que condiciona a vitalidade biológica do homem. O coração é símbolo. Fala de todo o homem interior. Fala do interior espiritual do homem. E a tradição logo descobriu este sentido da descrição joanina. Aliás, em certo sentido, o próprio Evangelista levou a isso, quando, referindo-se à atestação da testemunha ocular que era ele mesmo, se referiu ao mesmo tempo a esta frase da Sagrada Escritura:

Hão-de olhar para Aquele que trespassaram (Jo. 19, 37; Zc. 12, 10).

Assim, na realidade, olha a Igreja; assim olha a humanidade. E eis que, no Trespassar da lança do soldado todas as gerações dos cristãos aprenderam e aprendem a ler o mistério do Coração do Homem Crucificado, que era e é Filho de Deus.

3. Diversa é a medida do conhecimento que deste mistério, no decurso dos séculos, adquiriram muitos discípulos e discípulas do Coração de Cristo. Um dos protagonistas neste campo foi certamente Paulo de Tarso, convertido de perseguidor em Apóstolo. Também ele nos fala na liturgia de sexta-feira próxima com as palavras da carta aos Efésios. Fala como homem que recebeu grande graça, porque lhe foi concedido anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo e elucidar a todos qual a economia do Mistério escondido desde tempos antigos em Deus, que tudo criou (Ef. 3, 8-9).

Aquela «riqueza de Cristo» e ao mesmo tempo aquele «eterno desígnio de salvação» de Deus é dirigido pelo Espírito Santo ao «homem interior», para que assim Cristo habite pela fé nos vossos corações (Ef. 3, 16-17). E quando Cristo, com a força do Espírito Santo, habitar pela fé nos nossos corações humanos, então seremos capazes de compreender com o nosso espírito humano (quer dizer, exactamente com este «coração») qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo, e conhecer a sua caridade que excede toda a ciência ... (Ef. 3, 18-19).

Para tal conhecimento conseguido com o coração, com cada coração humano, foi aberto, no fim da vida terrestre, o Coração Divino do Condenado e Crucificado .no Calvário.

Diversa é a medida deste conhecimento por parte dos corações humanos. Diante da força das palavras de Paulo, interrogue-se a si mesmo cada um de nós sobre a medida do próprio coração. ...Tranquilizaremos os nossos corações diante d'Ele, sabendo que, se o nosso coração nos condena, Deus é maior que os nossos corações e conhece todas as coisas ...(1 Jo. 3, 19-20). O Coração do Homem-Deus não julga os corações humanos. O Coração chama. O Coração «convida». Com este fim foi aberto com a lança do soldado.

4. O mistério do coração abre-se através das feridas do corpo; abre-se o grande mistério da piedade, abem-se as entranhas de misericórdia do nosso Deus (São Bernardo, Sermo LXI, 4; PL 183, 1072).

Cristo diz na liturgia de sexta-feira: aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração (Mt. 11, 29).

Talvez uma só vez, com palavras suas, tenha o Senhor Jesus apelado para o seu coração. E salientou este único traço: «mansidão e humildade». Como se dissesse que só por este caminho quer conquistar o homem; que mediante «a mansidão e a humildade» quer ser o Rei dos corações. Todo o mistério do Seu reinar se exprimiu nestas palavras. A mansidão e a humildade cobrem, em certo sentido, toda a «riqueza» do Coração do Redentor, da qual escreveu São Paulo aos Efésios. Mas também aquela «mansidão e humildade» o desvelam plenamente; e melhor nos permitem conhecê-lo e aceitá-lo; tornam-no objecto de admiração suprema.

A bela ladainha ao Sagrado Coração de Jesus é composta de muitas palavras semelhantes — além disso, das exclamações de admiração pela riqueza do Coração de Cristo. Meditemo-las com atenção nesse dia.

5. Assim, no fim deste fundamental ciclo litúrgico da Igreja — que se iniciou com o primeiro domingo do Advento, e passou pelo tempo do Natal, depois pelos da Quaresma e da Ressurreição, até ao Pentecostes, ao Domingo da Santíssima Trindade e ao Corpo de Deus — apresenta-se discretamente a festa do Coração de Jesus. Todo este ciclo se fecha definitivamente n'Ele; no Coração do Deus-Homem. D'Ele irradia cada ano toda a vida da Igreja.

Este Coração é «fonte de vida e de santidade».

Apelo

Em favor dos Refugiados Indochineses

Impelido pela caridade de Cristo — "Caritas Christi urget nos" — quero elevar esta tarde a minha voz para vos convidar a dirigirdes o vosso pensamento e o vosso coração para o drama que se está a desenrolar nas terras e nos mares distantes do Sudeste asiático, e que atinge centenas de milhares de irmãos e irmãs nossos. Eles andam à procura de uma pátria, porque os Países que inicialmente os acolheram chegaram aos limites das próprias possibilidades, enquanto as ofertas de inserção definitiva noutras terras até agora são insuficientes.

Por isso, o projecto de uma conferência internacional de Países interessados — e qual é o País que pode sentir-se estranho a esta tragédia não pode deixar de ser encorajado. Oxalá tal conferência se realize o mais depressa possível! A Santa Sé faz votos por que este encontro leve os Governos a tomarem disposições eficazes para o acolhimento, o trânsito e o alojamento definitivo dos refugiados indochineses.

Presto homenagem à acção já empreendida por alguns Países, como também por organizações internacionais e muitas iniciativas particulares. Mas o problema tem amplidão tal que não se pode deixar por muito tempo gravar o seu peso apenas sobre alguns. Faço apelo à consciência da humanidade, para que todos assumam a sua parte de responsabilidade, povos e governantes, em nome duma solidariedade que ultrapassa as fronteiras, as raças e as ideologias.

A comunidade da Igreja já realizou uma grande obra de caridade, de assistência mútua, e eu congratulo-me do coração com isso. Mas ela pode e, estou certo, quer fazer ainda mais. Os Pastores, nas suas dioceses, não deixarão de encorajar os fiéis, recordando-lhes, em nome do Senhor, que cada homem, cada mulher e cada criança em necessidade são o nosso próximo. As paróquias, as organizações católicas, as comunidades religiosas e também as famílias cristãs, encontrarão modo de exprimir a sua caridade para com os refugiados. Comprometa-se cada um pessoalmente a realizar um gesto concreto na medida da sua generosidade e da sua criatividade inspirada pelo amor.

Saudações

Aos Assistentes Eclesiásticos Diocesanos da Juventude da Acção Católica

Dirijo agora um pensamento afectuoso aos Assistentes Eclesiásticos Diocesanas da Juventude da Acção Católica que nestes dias se encontram reunidos em Roma para o seu Congresso. Caríssimos, agradeço-vos a vossa presença, mas sobretudo agradeço-vos o vosso compromisso em favor dos jovens, para a sua maturidade humana e a sua formação cristã. Que o Senhor vos acompanhe, vos ilumine e vos ampare sempre. Imitai Jesus, Mestre e Amigo, para a salvação espiritual e moral dos vossos jovens!

Aos Missionários do Preciosíssimo Sangue

Saúdo em seguida os Missionários do Preciosíssimo Sangue, com as Adoradoras do Sangue de Cristo, que acompanham uma numerosa peregrinação organizada por ocasião do 25° aniversário da Canonização do seu Fundador, São Gaspar do Búfalo.

Na recordação gloriosa do seu apaixonado Fundador, exorto-os a meditarem sempre com generoso compromisso o Mistério do Sangue de Cristo, derramado pela salvação da humanidade.

A Peregrinos italianos

As minhas boas-vindas também à numerosa peregrinação das Dioceses de Calvi e Teano, acompanhada pelo próprio Bispo. Caríssimos, sinto-me contente por vos saber unidos ao vosso Bispo; escutai-o, segui-o e amai-o, porque quem está com o Bispo está com o Papa e está com Jesus Cristo!

Aos pequeninos e aos jovens

Meninos e jovens muito queridos! Uma palavra de afecto particular desejo dirigir-vo-la a vós, que sois sempre numerosos e alegres.

Começastes as vossas férias de verão e certamente sentis-vos muito contentes! Também eu estou contente por vós, e convosco!

Gozai as vossas férias! Mas procurai também que elas sejam um período de compromisso constante e corajoso para vos tornardes melhores. Que as vossas distracções, a vossa estadia no campo ou na praia, os vossos passeios e a vossa despreocupada alegria, estejam sempre unidos ao propósito da bondade, na amizade com Jesus Eucarístico, como meditámos na solenidade do Corpo de Deus.

Acompanhe-vos a minha oração e a minha Bênção.

Aos doentinhos

E agora a minha saudação dirige-se aos queridos doentinhos, presentes nesta Audiência. No domingo passado, celebrámos a solenidade do Corpo e do Sangue do Senhor, do Emanuel, que significa Deus connosco, presente sob as aparências do pão e do vinho. Cristo, imutável nos seus sentimentos de ternura e de misericórdia, como já outrora ao longo dos caminhos da Palestina, da presença silenciosa, ou até eloquentíssima da Hóstia consagrada ainda hoje dirige às multidões e em particular aos doentes e aos que sofrem as confortantes palavras: "Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei" (Mt 11, 28).

Fazei vosso este convite. Acolhei-o no vosso coração, com a minha Bênção.

Aos jovens Casais

Os meus votos mais fervorosos aos jovens casais, aqui reunidos para verem o Papa e receberem a sua Bênção para o próprio lar nascente.

Também a vós, caríssimos filhos, que recebestes recentemente, mediante o sacramento do matrimónio, um tesouro de graça, confiado a um frágil vaso de argila, desejo dirigir um pensamento encorajador, sugerido da festa do Corpo e do Sangue de Cristo, celebrada recentemente.

Jesus Eucaristia está à vossa disposição para vos socorrer com a sua presença, para vos fortificar com o seu perene sacrifício rústico sempre renovado, para vos alegrar com a sua doce comunhão. Que em Jesus Eucarístico o vosso amor seja puro, generoso, e fiel. Acompanhe-vos nos generosos propósitos a minha Bênção.

A um grupo da América do Norte

Desejo ainda dar especiais boas vindas aos Membros da Comissão de Religião e Arte da América. E-me grato afirmar que também eu, como o meu predecessor Paulo VI, desejo ver continuar o diálogo de salvação da Igreja coin os artistas do mundo, e ver fielmente expresso na arte o transcendente humanismo que reflecte uma visão total da pessoa humana. Estou-vos grato pela vossa generosa colaboração nesta causa, e invoco sobre vós e as vossas famílias excelsas bênçãos de alegria e paz.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Quando celebrar?/4: A Liturgia das Horas (CIC, 1174-1178)


Rubrica de teologia litúrgica aos cuidados do Pe. Mauro Gagliardi
Mauro Gagliardi*

ROMA, quarta-feira, 13 de junho de 2012 (ZENIT.org) - A seção litúrgica do Catecismo da Igreja Católica (CIC), dentro do parágrafo dedicado ao «Quando celebrar?», dedica algum espaço para o «Ofício divino», hoje chamado «Liturgia das Horas» (LdH). A LdH é parte integrante do Culto divino da Igreja, não um mero apêndice dos sacramentos. É sagrada Liturgia no sentido verdadeiro e próprio. Na LdH, como naquela sacramental (especialmente a Liturgia Eucarística, da qual o Ofício é como que uma extensão), cruzam-se duas dinâmicas: «do alto» e «do baixo».

Considerada «do alto», a LdH foi trazida à terra pelo Verbo, quando encarnou-se para redimir-nos. Por isso o Ofício divino define-se como «o hino que se canta no Céu por toda a eternidade», introduzido «no exílio terreno» pelo Verbo encarnado (cf. Pio XII, Mediator Dei: EE 6/565; também: Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium [SC], n. 83). Podemos cantar os louvores de Deus porque Deus mesmo nos habilita a isso e nos ensina como fazê-lo. Neste primeiro significado, a LdH representa a reprodução, obrada pela Igreja peregrina e militante, do canto dos espíritos celestes e dos beatos, que formam a Igreja gloriosa do Céu. É por esta razão que o lugar onde os monges, os frades e os cónegos se reúnem para rezar o Ofício tomou o nome de «coro»: ele quer reproduzir visivelmente as ordens angelicais e os coros dos santos, que constantemente louvam a majestade de Deus (cf. Is 6,1-4; Ap 5,6-14). Portanto, o coro está estruturado de forma circular não para facilitar o olhar-se mutuamente enquanto se celebra a LdH, mas para representar «o Céu que desce à terra» (Bento XVI, Sacramentum Caritatis, n. 35), que ocorre quando se celebra o Culto divino.

Em segundo lugar, a LdH reflete uma dinâmica que «de baixo» vai em direção «ao alto»: é um movimento com o qual a Igreja terrena louva, adora, agradece o seu Senhor e lhe pede favores, ao longo de todo o período do dia. A cada momento recebemos benefícios do Senhor, por isso é justo que agradeçamos por eles a cada hora do dia. É por isso que Santo Tomás de Aquino concebe a oração como um ato que, pertencendo à virtude da religião, está relacionada à virtude da justiça (cf. S. Th. II-II, 80, 1, 83, 3). Com o «Prefácio» da S. Missa, podemos dizer que «na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação» louvar o Senhor a cada momento do dia.

Primeiramente Cristo deu o exemplo de incessante oração, dia e noite (cf. Mt 14,23; Mc 1,35; Hb 5,7). O Senhor também recomendou orar sempre, sem nunca se cansar (cf. Lc 18,1). Fiel às palavras e ao exemplo do seu Fundador (cf. 1 Ts 5,17; Ef 6,18), desde a época apostólica a Igreja desenvolveu a própria oração cotidiana segundo um ritmo ordenado que cobrisse toda a jornada, assumindo de forma nova as práticas litúrgicas do templo de Jerusalém. É certo que as duas horas canônicas principais (Laudes e Vésperas) surgiram também com relação aos dois sacrifícios cotidianos do templo: o matutino e o vespertino. Também as orações da Terceira, Sexta e Nona correspondem a tantos outros momentos de orações da praxi judaica. No dia de Pentecostes, os apóstolos estavam reunidos em oração na Hora Terceira (At 2,15). São Pedro teve a visão da toalha de mesa que descia do céu, enquanto estava em oração sobre um terraço pela Hora Sexta (cf. At 10,9). Em outra ocasião, Pedro e João subiam ao templo para rezar na Hora Nona (cf. At 3,1). E não esqueçamos que Paulo e Silas, fechados numa prisão, oravam cantando hinos a Deus por volta da meia-noite (cf. At 16,25).

Não é de admirar, então, que já no final do I século, o Papa são Clemente conseguisse recordar: «Temos que fazer com ordem tudo aquilo que o Senhor nos ordenou fazer durante os períodos especificados. Ele nos prescreveu fazer as ofertas e as liturgias e não de forma aleatória ou sem ordem, mas nas circunstâncias e horários estabelecidos» (Aos Coríntios, XL, 1-2). A Didaquê (cf. VIII, 2) recomenda recitar o Pai Nosso três vezes por dia, algo que atualmente a Igreja faz nas Laudes, Vésperas e na S. Missa. Tertuliano interpreta assim tal tradição antiga: «Nós rezamos, no mínimo, pelo menos três vezes por dia, dado que somos devedores dos Três: do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (De oratione, XXV, 5). No Ocidente, o grande ordenador do Ofício divino foi São Bento de Núrsia, que aperfeiçoou o uso anterior da Igreja de Roma.

Do que foi dito, surgem pelo menos duas considerações fundamentais. A primeira é que a LdH, já que essencialmente cristocêntrica, é profundamente eclesial. Isto implica que, como Culto público da Igreja, a LdH está fora da arbitrariedade do indivíduo e é regulada pela hierarquia eclesiástica. Além disso, ela é uma leitura eclesial da Sagrada Escritura, porque os salmos e as leituras bíblicas são interpretadas pelos textos dos Padres, dos Doutores e dos Concílios, como também das orações litúrgicas compostas pela Igreja mesma(cf. CIC, 1177). Como Culto público, a LdH também tem um componente visível e não apenas interno. Ela é a união de oração e gestos. Se é verdade que «a mente tem que concordar com a voz» (cf. CIC, 1176), também é verdade que o Culto não se celebra somente com a mente, mas também com o corpo (cf. S. Th. II-II , 81, 7). Por isso a Liturgia inclui cantos, recitações verbais, gestos, genuflexões, prostrações, inclinações, incensações, paramentos, etc. Isto também se aplica ao Ofício divino. Além disso, o carácter eclesial da LdH é tal que por sua natureza ela «está destinada a se tornar a oração de todo o povo de Deus» (CIC, 1175). Neste sentido, se é verdade que o Ofício pertence especialmente aos ministros sagrados e aos religiosos – e a Igreja particularmente confia-lhes isso – sempre envolve toda a Igreja: os fiéis leigos (tanto quanto lhes seja possível participar), as almas do Purgatório, os beatos e os anjos nos seus diversos grupos. Cantando os louvores de Deus, a Igreja terrena se une àquela celeste e se prepara para alcançá-la. Assim, a LdH «é realmente a voz da mesma Esposa que fala ao Esposo, ainda mais, é a oração de Cristo, com o seu Corpo, ao Pai» (SC, n. 84, cit. no CIC, 1174).

* Don Mauro Gagliardi é Professor titular no Pontifício Ateneu "Regina Apostolorum", Professor convidado na Universidade Europeia de Roma, Consultor do Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice e da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.