Rádio

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Coragem!

Não temas, porque eu estou sempre contigo e minha presença não te faltará jamais.
Não temas, porque eu te resgatei e obtive o perdão de todas as tuas faltas.
Não temas, porque dei a minha vida por ti, e sofri tanto pela tua felicidade.
Não temas, porque não me canso jamais de te amar.
Não temas, porque por ocasião de tuas fraquezas eu te chamo a maior generosidade.
Não temas, porque eu te criei para a felicidade, e te salvei para a eternidade.
Não temas, porque me pertences e ninguém te arrancará de minhas mãos.
Não temas, porque nos perigos eu estou lá para te proteger.
Não temas, porque disponho as provações em vista de uma alegria maior.
Não temas, porque já começastes a possuir-me e me possuirás sem fim.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Martírio de São João Batista


A festa da natividade de são João Batista ocorre no dia 24 de junho. Ela faz parte da tradição dos cristãos como esta que celebramos hoje, do martírio de são João Batista. No calendário litúrgico da Igreja, esta comemoração iniciou na França, no século V, sendo introduzida em Roma no século seguinte. A origem da comemoração foi a construção de uma igreja em Sebaste, na Samaria, sobre o local indicado como o do túmulo de são João Batista. 

João era primo de Jesus e foi quem melhor soube levar ao povo a palavra do Mestre. Jesus dedicou-lhe uma grande simpatia e respeito, como está escrito no evangelho de são Lucas: "Na verdade vos digo, dentre os nascidos de mulher, nenhum foi maior que João Batista". João Batista foi o precursor do Messias. Foi ele que batizou Jesus no rio Jordão e preparou-lhe o caminho para a pregação entre o povo. Não teve medo e denunciou o adultério do rei Herodes Antipas, que vivia na imoralidade com sua cunhada Herodíades. 

A ousadia do profeta despertou a ira do rei, que imediatamente mandou prendê-lo. João Batista permaneceu na prisão de Maqueronte, na margem oriental do mar Morto, por três meses. Até que, durante uma festa no palácio daquela cidade, a filha de Herodíades, Salomé, instigada pela ardilosa e perversa mãe, dançou para o rei e seus convidados. A bela moça era uma exímia dançarina e tinha a exuberância da juventude, o que proporcionou a todos um estonteante espetáculo. 

No final, ainda entusiasmado, o rei Herodes disse que ela poderia pedir o que quisesse como pagamento, porque nada lhe seria negado. Por conselho da mãe, ela pediu a cabeça de João Batista numa bandeja. Assim, a palavra do rei foi mantida. Algum tempo depois, o carrasco trazia a cabeça do profeta em um prato, entregando-a para Salomé e para sua maldosa mãe. O martírio por decapitação de são João Batista, que nos chegou narrado através do evangelho de são Marcos, ocorreu no dia 29 de agosto, um ano antes da Paixão de Jesus. 

Ainda segundo o evangelista Marcos, João Batista, antes de ser decapitado, exultou em voz alta: "Agora a minha felicidade será completa; ele deve crescer, eu, ao contrário, diminuirei". Encerraou, com o martírio, a sua missão de profeta precursor do Messias.

sábado, 27 de agosto de 2011

22º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir
Leituras: Js 20, 7-9; Rm 12, 1-2; Mt 16, 21-27


O profeta Jeremias é o grande protagonista da primeira leitura e o guia que nos introduz no evangelho deste domingo. A tradição cristã vislumbrou, na sua vicissitude histórica e interior, uma profecia, e quase uma antecipação da sorte de Jesus, na sua missão de messias e servo sofredor, chamado pelo Pai a ser instrumento de salvação, não somente para o povo de Israel, mas para todos os povos e nações.
Pressuposto desta inteligência espiritual do mistério de Cristo é a convicção de fé que o único desígnio de salvação de Deus foi manifestado gradualmente no AT e realizado plenamente em Jesus, na sua missão, morte e ressurreição. Jesus faz a unidade dos dois testamentos.
A Liturgia da Palavra de hoje pressupõe esta visão de fé. Faz-nos viver de perto um dos momentos mais dramáticos da vicissitude do profeta e daquela de Jesus. Descobrimos entre os dois protagonistas afinidades assustadoras e diferenças profundas, na maneira com a qual eles reagem diante do sofrimento e do perigo extremo, determinados pela escolha de dar resposta fiel e perseverante à própria vocação e missão. Nas experiências do profeta e de Jesus vislumbramos, refletido como num espelho, algo da nossa experiência pessoal, enquanto pessoas chamadas pelo Pai a seguir Jesus no caminho do reino.
Ao lembrar o drama humano e espiritual de Jeremias e de Jesus, poderíamos ficar admirados e até comovidos, como leitores sensíveis de nobres histórias do passado, capazes de tocar nossos sentimentos e de nos edificar. A mãe Igreja, porém, através da liturgia, nos ajuda a descobrirmos que desta mesma história, humana e divina ao mesmo tempo, somos não somente leitores atentos, mas co-protagonistas.
Jesus o afirma claramente, quando admoesta a Pedro que a sorte de todo discípulo, se ele quer tornar-se autêntico, não pode ser diferente da sua própria, nem daquela do profeta. O caminho de Deus é único e sempre o mesmo. Deus continua conosco sua surpreendente história: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). E Paulo, na carta aos Romanos, destaca: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar” (Rm 12,2).
Ao nos afinarmos com a pedagogia de Deus, realizamos a maneira verdadeira de dar culto a Deus no Espírito, como profetizou Jesus à mulher de Samaria (Jo 4, 20-24), e como convém aos que nasceram à vida nova do Espírito pela fé e pelo batismo, segundo o ensinamento do apóstolo (Rm 12, 1-2).
A primeira leitura (Jr 20,7-9) abre, por assim dizer, uma pequena janela sobre a aventura interior do profeta. Pequena certo, mas o suficiente para nos deixar penetrar um pouco nos abismos da alma deste homem, sensível e delicado, chamado por Deus a tornar-se seu porta-voz para anunciar, com determinação e insistência, ao povo e às autoridades religiosas e políticas, as exigências da aliança e a necessidade de uma conversão radical ao Senhor.
Uma palavra “para arrancar e para destruir, para exterminar e para demolir, para construir e para plantar” (Jr 1,10). Esta é a palavra entregue pelo Senhor ao profeta, embora ele tente fazer valer sua inexperiência, por ser jovem e desprovido de eloquência (cf Jr 1, 6). Uma missão desafiadora, que pode basear-se só na promessa de Deus: “Não digas que és jovem... Não temas, diante deles, pois eu estou contigo para te salvar” (Jr 1, 7- 8). Uma palavra destinada inexoravelmente a incomodar os poderes constituídos e mesmo as falsas seguranças religiosas do povo, fundamentadas nas práticas exteriores sem compromisso de vida (cf Jr 7, 1-15).
A violenta reação dos poderes e o abandono, até por parte dos amigos e familiares (cf Jr 12,6), suscita no profeta a sensação que o próprio Deus o tenha abandonado à sua sorte. Daqui repetidas crises interiores sobre a própria vocação de profeta ao serviço do Senhor.
Eu, como cordeiro manso levado ao matadouro, não sabia dos planos homicidas que tramavam contra mim... Mas tu, Senhor dos exércitos, julgas retamente, sondas as entranhas e o coração; a ti confiei minha causa, que eu consiga vingar-me deles” (Jr 11,19-20).
A relação com Deus conhece alternações entre doces intimidades e tons de combate corpo a corpo. Cantos de vitória e queixas por ter sido enganado e seduzido pelo Senhor como por um amante enganador. “Seduziste-me Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder” (Jr 20,7).
Lacerações da alma, dúvidas sofridas mesmo sobre a confiabilidade de Deus, tentação de abandonar o campo, devido às contrariedades suscitadas pelo anúncio fiel da palavra perturbadora do Senhor. Mas é impossível se subtrair ao fogo do Senhor! “A palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro. Disse comigo: ‘Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele’. Senti então dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo; desfaleci, sem forças para suportar” (Jr 20, 8-9).
Mesmo no meio de tamanhas tempestades, o profeta renova sua entrega ilimitada ao Senhor e chega a cantar a vitória que vem de Deus: “Mas o Senhor está comigo como poderoso soldado, meus perseguidores tropeçarão e não me vencerão; sentirão a vergonha do seu fracasso, um rubor eterno e inesquecível” (Jr 20,11).
Revigorado pela fidelidade confirmada de Deus ao seu plano de salvação e pela confiança renovada na vitória final do seu amor misericordioso sobre o mal, Jeremias abre ao final a perspectiva da aliança, “nova e eterna” que o próprio Deus vai estabelecer no futuro com seu povo. Ela será inscrita diretamente no coração das pessoas pelo Espírito, e será implementa por ele mesmo (cf Jr 31, 31-34). No seu trajeto pessoal, trágico e sublime, o profeta experimenta primeiro o alvejar deste novo dia.
carta aos Hebreus interpreta a totalidade da existência de Jesus, desde a misteriosa comunhão do Verbo com o Pai no seio da Trindade até a cruz, como uma oferta sacerdotal ininterrupta, apresentada pelo mesmo Jesus ao Pai, em comunhão de amor com toda humanidade pecadora, para resgatá-la através da nova aliança estabelecida no seu sangue (Hebr 10, 5-14).
O apóstolo João destaca que o processo de interiorização da aliança nova e definitiva em Cristo, morto e ressuscitado, é cumprido pelo Espírito Santo no coração de todo discípulo de Jesus (cf I Jo 2.27).
            Os evangelhos destacam que Jesus renovou continuamente seu compromisso com sua missão em plena adesão à vontade do Pai, passando através repetidas provações, acompanhadas por noites de intensa oração, até o último combate no horto das oliveiras: “Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice: contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 2639). Suas últimas palavras na cruz serão palavras de perdão aos que o estão crucificando e de entrega incondicional ao Pai.
Também o canto confiante do profeta e a dilatação das suas perspectivas sobre o futuro,  serão a meta final de um caminho longo e  atormentado, fruto de repetidas conversões ao Senhor, renovado dom de graça, assim como dom de graça foi sua primeira escolha e consagração como profeta por parte do Senhor, quando ele se encontrava ainda guardado  no ventre de sua mãe (cf Jr 1, 5). 
Este percurso interior, tão aderente ao desígnio misterioso de Deus e tão dramático, é-nos oferecido e partilhado, com excepcional intensidade literária e espiritual, nas chamadas “confissões” de Jeremias que se encontram no seu livro: cc.11; 15; 17; 18; 20. Que cada um tenha a graça e a coragem de se confrontar, com humildade e confiança, com o caminho do profeta!
Estes textos representam não só etapas e aspectos fundamentais da autobiografia interior do profeta, mas vão além. Constituem testemunhos excepcionais de um caminho interior que supera os limites da história individual de Jeremias. Afirmam-se como modelos de todo caminho espiritual.
A história da espiritualidade cristã nos oferece inúmeros exemplos de homens e mulheres, profundamente apaixonados por Deus, que tem atravessado o mesmo deserto e experimentado as mesmas provações. Através deste trajeto eles são conduzidos pelo Senhor à mesma intimidade com ele, intimidade esta possibilitada pelo esvaziamento de toda resistência humana. Estas pessoas tem realizado em si mesmas a passagem do tríduo pascal de Jesus, através da paixão e da morte, assumidas como entrega confiante em Deus, até a ressurreição, à vida nova do Ressuscitado.
O evangelho de hoje mostra como Jesus viveu por primeiro este caminho, assumindo-o em plena consciência e liberdade. Ele o indica também aos discípulos. Somente a transformação do coração deles, cumprida pelo Espírito depois da páscoa, conseguirá conduzi-los à plena sintonia com o mestre. O texto testemunha a incapacidade dos discípulos, interpretada por Pedro, de se conformar a ela.
Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. A “necessidade” da qual Jesus fala, não é a violência dos homens que ele não conseguiria fugir, mas o misterioso desígnio do Pai, que ele pretende assumir plenamente, porque nele se manifesta em plenitude o amor do Pai e o amor de Jesus.
Paradoxo do amor divino que se imola para criar vida! Mistério da fragilidade do homem, que Deus não rejeita, mas resgata!
O mesmo Pedro, declarado pouco antes por Jesus “iluminado pelo Pai,” e “bem-aventurado”, por ter proclamado com confissão de fé autêntica em Jesus “filho do Deus vivo” ( cf Mt 16, 16-18), é afastado por Jesus, porque atua como “Satanás”, aquele que atrapalha seu caminho. Escolhido por Jesus a ser “pedra de fundação” da sua Igreja, Pedro agora se revela, ao invés, como “pedra de tropeço”, pois “não pensa as coisas de Deus mas as coisas dos homens” .
Ele se manifesta ainda totalmente estranho ao caminho de Deus e de Jesus: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” (Mt 16,22-24).
A resposta de Jesus aponta seu próprio caminho, como caminho a ser partilhado por todo discípulo: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 16,24-25). Paulo reafirma a exigência desta reviravolta na maneira de julgar e de atuar por parte do cristão, como condição de viver em maneira coerente com a nova condição de renascidos no Espírito (Rm 12,1-2). 
Viver segundo os novos critérios inspirados pelo Espírito de Jesus, é a maneira de dar o verdadeiro culto a Deus, pois “a glória de Deus é o homem que vive a vida de Deus”(Santo Ireneu).

Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.

Santa Mônica

Mônica nasceu em Tagaste, atual Argélia, na África, no ano 331, no seio de uma família cristã. Desde muito cedo dedicou sua vida a ajudar os pobres, que visitava com freqüência, levando o conforto por meio da Palavra de Deus. Teve uma vida muito difícil. O marido era um jovem pagão muito rude, de nome Patrício, que a maltratava. Mônica suportou tudo em silêncio e mansidão. Encontrava o consolo nas orações que elevava a Cristo e à Virgem Maria pela conversão do esposo. E Deus recompensou sua dedicação, pois ela pôde assistir ao batismo do marido, que se converteu sinceramente um ano antes de morrer. 

Tiveram dois filhos, Agostinho e Navígio, e uma filha, Perpétua, que se tornou religiosa. Porém Agostinho foi sua grande preocupação, motivo de amarguras e muitas lágrimas. Mesmo dando bons conselhos e educando o filho nos princípios da religião cristã, a vivacidade, inconstância e o espírito de insubordinação de Agostinho fizeram que a sábia mãe adiasse o seu batismo, com receio que ele profanasse o sacramento. 

E teria acontecido, porque Agostinho, aos dezesseis anos, saindo de casa para continuar os estudos, tomou o caminho dos vícios. O coração de Mônica sofria muito com as notícias dos desmandos do filho e por isso redobrava as orações e penitências. Certa vez, ela foi pedir os conselhos do bispo, que a consolou dizendo: "Continue a rezar, pois é impossível que se perca um filho de tantas lágrimas". 

Agostinho tornou-se um brilhante professor de retórica em Cartago. Mas, procurando fugir da vigilância da mãe aflita, às escondidas embarcou em um navio para Roma, e depois para Milão, onde conseguiu o cargo de professor oficial de retórica. 

Mônica, desejando a todo custo ver a recuperação do filho, viajou também para Milão, onde, aos poucos, terminou seu sofrimento. Isso porque Agostinho, no início por curiosidade e retórica, depois por interesse espiritual, tinha se tornado freqüentador dos envolventes sermões de santo Ambrósio. Foi assim que Agostinho se converteu e recebeu o batismo, junto com seu filho Adeodato. Assim, Mônica colhia os frutos de suas orações e de suas lágrimas. 

Mãe e filho decidiram voltar para a terra natal, mas, chegando ao porto de Óstia, perto de Roma, Mônica adoeceu e logo depois faleceu. Era 27 de agosto de 387 e ela tinha cinqüenta e seis anos. 

O papa Alexandre III confirmou o tradicional culto a santa Mônica, em 1153, quando a proclamou Padroeira das Mães Cristãs. A sua festa deve ser celebrada no mesmo dia em que morreu. O seu corpo, venerado durante séculos na igreja de Santa Áurea, em Óstia, em 1430 foi trasladado para Roma e depositado na igreja de Santo Agostinho.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

SÃO BARTOLOMEU, APÓSTOLO

Bartolomeu, também chamado Natanael, foi um dos doze primeiros apóstolos de Jesus. É assim descrito nos evangelhos de João, Mateus, Marcos e Lucas, e também nos Atos dos Apóstolos.

Bartolomeu nasceu em Caná, na Galiléia, uma pequena aldeia a quatorze quilômetros de Nazaré. Era filho do agricultor Tholmai. No Evangelho, ele também é chamado de Natanael. Em hebraico, a palavra "bar" que dizer "filho" e "tholmai" significa "agricultor". Por isso os historiadores são unânimes em afirmar que Bartolomeu-Natanael trata-se de uma só pessoa. Seu melhor amigo era Filipe e ambos eram viajantes. Foi o apóstolo Filipe que o apresentou ao Messias.

Até esse seu primeiro encontro com Jesus, Bartolomeu era cético e, às vezes, irônico com relação às coisas de Deus. Porém, depois de convertido, tornou-se um dos apóstolos mais ativos e presentes na vida pública de Jesus. Mas a melhor descrição que temos de Bartolomeu foi feita pelo próprio Mestre: "Aqui está um verdadeiro israelita, no qual não há fingimento".

Ele teve o privilégio de estar ao lado de Jesus durante quase toda a missão do Mestre na terra. Compartilhou seu cotidiano, presenciou seus milagres, ouviu seus ensinamentos, viu Cristo ressuscitado nas margens do lago de Tiberíades e, finalmente, assistiu sua ascensão ao céu.

Depois de Pentecostes, Bartolomeu foi pregar a Boa-Nova. Encerradas essas narrativas dos evangelhos históricos, entram as narrativas dos apócrifos, isto é, das antigas tradições. A mais conhecida é da Armênia, que conta que Bartolomeu foi evangelizar as regiões da Índia, Armênia Menor e Mesopotâmia.

Superou dificuldades incríveis, de idioma e cultura, e converteu muitas pessoas e várias cidades à fé do Cristo, pregando segundo o evangelho de são Mateus. Foi na Armênia, depois de converter o rei Polímio, a esposa e mais doze cidades, que ele teria sofrido o martírio, motivado pela inveja dos sacerdotes pagãos, os quais insuflaram Astiages, irmão do rei, e conseguiram uma ordem para matar o apóstolo. Bartolomeu foi esfolado vivo e, como não morreu, foi decapitado. Era o dia 24 de agosto de 51.

A Igreja comemora são Bartolomeu Apóstolo no dia de sua morte. Ele se tornou o modelo para quem se deixa conduzir pelo outro ao Senhor Jesus Cristo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

SANTA ROSA DE LIMA, VIRGEM, Padroeira da América Latina


Isabel Flores y de Oliva nasceu na cidade de Lima, capital do Peru, no dia 20 de abril de 1586. A décima dos treze filhos de Gaspar Flores e Maria de Oliva. À medida que crescia com o rosto rosado e belo, recebeu dos familiares o apelido de Rosa, como ficou conhecida. Seus pais eram ricos espanhóis que se haviam mudado para a próspera colônia do Peru, mas os negócios declinaram e eles ficaram na miséria.

Ainda criança, Rosa teve grande inclinação à oração e à meditação, sendo dotada de dons especiais de profecia. Já adolescente, enquanto rezava diante da imagem da Virgem Maria, decidiu entregar sua vida somente a Cristo. Apesar dos apelos da família, que contava com sua ajuda para o sustento, ela ingressou na Ordem Terceira Dominicana, tomando como exemplo de vida santa Catarina de Sena. Dedicou-se, então, ao jejum, às severas penitências e à oração contemplativa, aumentando seus dons de profecia e prodígios. E, para perder a vaidade, cortou os cabelos e engrossou as mãos, trabalhando na lavoura com os pais.

Aos vinte anos, pediu e obteve licença para emitir os votos religiosos em casa e não no convento, como terciária dominicana. Quando vestiu o hábito e se consagrou, mudou o nome para Rosa e acrescentou Santa Maria, por causa de sua grande devoção à Virgem Maria, passando a ser chamada Rosa de Santa Maria.

Construiu uma pequena cela no fundo do quintal da casa de seus pais, levando uma vida de austeridade, de mortificação e de abandono à vontade de Deus. A partir do hábito, ela imprimiu ainda mais rigor às penitências. Começou a usar, na cabeça, uma coroa de metal espinhento, disfarçada com botões de rosas. Aumentou os dias de jejum e dormia sobre uma tábua com pregos. Passou a sustentar a família com as rendas e bordados que fazia, pois seu confessor consentiu que ela não saísse mais de sua cela, exceto para receber a eucaristia. Vivendo em contínuo contato com Deus, atingiu um alto grau de vida contemplativa e experiência mística, compreendendo em profundidade o mistério da Paixão e Morte de Jesus.

Rosa cumpriu sua vocação, devotando-se à eucaristia e à Virgem Maria, cuidando para afastar o pecado do seu coração, conforme a espiritualidade da época. Aos trinta e um anos de idade, foi acometida por uma grave doença, que lhe causou sofrimentos e danos físicos. Assim, retirou-se para a casa de sua benfeitora, Maria de Uzátegui, agora Mosteiro de Santa Rosa, para cumprir a profecia de sua morte. Todo ano, ela passava o Dia de São Bartolomeu em oração, pois, dizia: "este é o dia das minhas núpcias eternas". E assim foi, até morrer no dia 24 de agosto de 1617. O seu sepultamento parou toda a cidade de Lima.

Muitos milagres aconteceram por sua intercessão após sua morte. Rosa foi beatificada em 1667 e tornou-se a primeira santa da América Latina ao ser canonizada, em 1671, pelo papa Clemente X. Dois anos depois, foi proclamada Padroeira da América Latina, das Filipinas e das Índias Orientais, com a festa litúrgica marcada para o dia 23 de agosto. A devoção a santa Rosa de Lima propagou-se rapidamente nos países latino-americanos, sendo venerada pelos fiéis como Padroeira dos Jardineiros e dos Floristas.

Vocação e felicidade

No diálogo Sobre a velhice, de Cícero, maior orador romano, encontra-se este pensamento muito apropriado para quem deseja refletir sobre sua vocação cristã e humana neste mês vocacional: "Vivi de tal forma, que sinto não ter nascido em vão".

Todo ser humano desembarca neste mundo vocacionado a ser humano. Essa é a vocação primeira e fundamental da existência humana. Os caminhos que lhe são propostos, no decurso de sua trajetória, devem conduzi-lo a tal meta. E muitos são os atalhos que ele encontra, cuja escolha depende do seu perfil pessoal e do meio onde se encontra. À medida que seleciona o certo e o percorre, cresce interiormente e integra-se melhor na sua comunidade mediante o serviço e o testemunho. E assim, de opção em opção, concretiza sua missão sobrenatural e histórica, que, conforme a antropologia cristã, faz parte do projeto divino da criação. Quando isso acontece, a pessoa realiza sua vocação e pode fazer suas as palavras de Cícero, porque está vivendo de "tal modo", que tem a certeza de que, no fim, receberá o laurel dos grandes lutadores.
E qual é esse modo? É caminhar atento às solicitações do cotidiano, sem aguardar oportunidade de realizar façanhas notáveis. Estas, às vezes, são pedidas, mas não são o apelo mais comum no trivial da vida.

Entretanto o ser humano também está aqui para ser relativamente feliz, como antecipação da eterna bem-aventurança. E não há como viver a paz do Ressuscitado quando se deixam espaços vazios na sua vida.

D. Geraldo Magella Agnelo
Cardeal Arcebispo Emérito de Salvador

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Mês Vocacional 2011 reflete o "Anúncio da Palavra de Deus que gera vida"

Com o tema “Anunciar a Palavra que gera a vida” e o lema “Eu vim para que todos tenham vida”, a Igreja no Brasil celebra neste em agosto, o mês vocacional 2011. Durante o período a Igreja intensifica o trabalho vocacional nas Igrejas particulares, Congregações Religiosas, Institutos Seculares e Novas Comunidades.
Realizado desde 1983, o mês vocacional tem 28 anos em sintonia com a caminhada da Igreja no Brasil. De acordo com o assessor da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB, padre Deusmar Jesus da Silva, “a Pastoral Vocacional tem procurado estimular o serviço às vocações, realizando Congressos Vocacionais em âmbito nacional”.
A prova disso é que de 1999 até o ano passado, já foram realizados três Congressos Vocacionais. O primeiro refletiu o tema “Vocações e Ministérios para o Novo Milênio”. Em 2003, o 2º Congresso foi realizado tendo como tema “Igreja, povo de Deus a serviço da vida”. E o terceiro, “Discípulos Missionários a serviço das vocações”, no ano passado.Também foram realizados dois anos vocacionais. Em 1983 com o tema “Vem e segue-me” e o 2º com o tema “Batismo, fonte de todas as vocações”.
“Neste ano, com as conclusões do 3º Congresso Vocacional do Brasil e, às luzes do 2º Congresso Latino Americano de Vocações, celebrado em Cartago, Costa Rica, queremos dar novos passos, assumindo nossa responsabilidade como discípulos missionários a serviço das vocações, celebrando o mês vocacional 2011”, comentou padre Deusmar.
Ainda segundo o assessor, com o mês vocacional, todos, ministros ordenados, consagrados e leigos são convocados a anunciar a Palavra de Deus que gera vida. “O mês Vocacional é este tempo forte para que a Pastoral Vocacional, presente nas várias dioceses de nosso país, ajude as pessoas no discernimento vocacional para que encontrem o caminho de sua realização pessoal e a melhor forma de servir ao próximo através dos vários caminhos de santificação na vida cristã”, concluiu o assessor.

Nossa Senhora Rainha


"O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra; por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus". Disse, então, Maria: "Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!" Lc. 1,37-38.

Ainda Lucas, nos Atos dos apóstolos, coloca Maria no meio dos apóstolos, recolhida com eles em oração. Ela constitui o vínculo que mantém unidos ao Ressuscitado aqueles homens ainda não robustecidos pelos dons do Espírito Santo. Pois a sua extraordinária humildade e fé total na palavra do anjo, que fez descer sobre a Terra um Deus ainda mais humilde do que ela. E, através de suas virginais virtudes e pureza de coração, Maria ficou ainda mais próxima de seu Filho.

Maria é Rainha, porque é a Mãe de Jesus Cristo, o Rei. Ela é Rainha porque supera todas as criaturas em santidade. "Ela encerra em si toda a bondade das criaturas", diz Dante na Divina Comédia.

Tudo que se refere ao Messias traz a marca da divindade. Assim, todos os cristãos vêem em Maria a superabundante generosidade do amor divino, que a acumulou de todos os bens. A Igreja convida o povo a invocá-la não só com o nome de Mãe, mas também com aquele de Rainha, porque ela foi coroada com o duplo diadema, de virgindade e de maternidade divina.

A Virgem Maria Rainha resplandece em todos os tempos, no horizonte da Igreja e do mundo, como sinal de consolação e de esperança segura para todos os cristãos, já cobertos pela dignidade real do Senhor através do Batismo.

O Papa Pio XII instituiu em 1955 a festa da Virgem Maria Rainha, como conseqüência daquela de Cristo Rei. Inicialmente era celebrada no dia 31 de maio, mês de Maria, encerrando as comemorações com o coroamento desta singular devoção. O dia 22 de agosto era reservado à homenagem ao Coração Imaculado de Maria. Mas, a Igreja desejando aproximar a festa da realeza de Maria à da sua gloriosa ascenção ao céu, invereteu estas datas a partir da última reforma do seu calendário litúrgico em 1969.

domingo, 21 de agosto de 2011

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA, SOLENIDADE

Uma mulher vestida de sol
Leituras: Ap 11, 19a; 12, 1.3a.10 - 1 Cor 15, 20-27a – Lc 1, 39-56
“Hoje a virgem Maria, mãe de Deus, foi elevada à gloria do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho....” (Prefácio da Festa).

Em breves e sublimes palavras, a liturgia nos oferece o cerne do mistério que a Igreja contempla e celebra hoje na Solenidade de Nossa Senhora Assunta ao céu. Ela canta a intrínseca e inseparável relação da Virgem Maria com Cristo, morto e ressuscitado e, ao mesmo tempo, com o povo de Deus peregrino na história, e que de Cristo é o corpo vivo. Este povo peregrino fica caminhando na esperança rumo à vinda gloriosa do mesmo Cristo, consolado e fortalecido nas suas tribulações pelo exemplo e a intercessão da Bem-Aventurada Virgem.
Ao celebrarmos o mistério da Ressurreição e Ascensão de Jesus Cristo junto ao Pai, já realizado plenamente em Maria, Mãe de Deus e mãe nossa, junto com a Igreja vislumbramos nela a meta do nosso caminho, vivenciado ainda através das provações do deserto da história, fortalecidos, porém, pela esperança da vitória final sobre os sofrimentos e a morte; vitória esta que já resplandece na história e no rosto de Maria Assunta.
Cristo Jesus subiu aos céus e preparou, no reino eterno, um lugar para sua mãe, a Santa Virgem, aleluia”: canta a Antífona das Primeiras Vésperas da Solenidade. Cristo Jesus, ressuscitado dos mortos “como primícias dos que morreram” (1 Cor 15,20 – primeira leitura), cumpre primeiro em sua mãe a sua páscoa, que é também o destino e a meta de todos os membros do seu corpo. A Leitura breve das Primeiras Vésperas, introduz a solenidade com as palavras do apóstolo na carta aos Romanos e que evidenciam como, no plano de Deus, a meta do caminho está potencialmente já inserida no primeiro passo do próprio caminho da salvação: “Aqueles que Deus predestinou, também os chamou; e aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou” (Rm 8,30 ).
Na carta aos Efésios Paulo sublinha com vigor o dinamismo da ressurreição participada em Cristo: “Deus manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez assentar à sua direita nos céus... Com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, em Cristo Jesus, a fim de mostrar nos tempos vindouros a extraordinária riqueza da sua graça, pela sua bondade para conosco” (Ef 1,20.2, 6-7).
Maria, por primeiro, foi assunta por graça ao céu em alma e corpo, na integridade da sua pessoa, superando os laços da morte, no exemplo e em solidariedade a seu filho, Jesus ressuscitado.  Ela nos antecipou ao chegar à meta; tornou-se, de tal modo, sinal certo do caminho a percorrer e do objetivo a alcançar que nos é prometido por graça.
O vidente do apocalipse, com seu olhar profético, antecipa na luz da fé o futuro do povo de Deus e orienta nossos passos para aquela meta: “Abriu-se o templo de Deus que está no céu e apareceu no templo a arca da aliança.... Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Ap. 11,19a; 12.1).
A visão profética deixa vislumbrar aquilo que na experiência sofrida do dia a dia daqueles que acreditam no Senhor e o seguem, fica escondido e constitui um desafio sempre novo à fé e à esperança de seus seguidores. Em Cristo morto e ressuscitado, que é o verdadeiro templo de Deus (cf Jo, 2, 21-22), foi inaugurada a aliança nova e definitiva. A “arca”, guardada no segredo, na tenda de Moisés e no templo de Salomão em Jerusalém, como símbolo da aliança, agora se torna visível, no céu. A liturgia identifica a arca com Maria, pois ela guarda em si mesma e revela ao mundo a aliança vivente que é o próprio Cristo.
A “arca da aliança”, no Antigo Testamento simbolizava o compromisso de Deus em favor do seu povo, a presença fiel com a qual ele o acompanhava em todas as suas aventuras, alegres e tristes. Continha também as indicações de vida (as duas tábuas da Lei), que o povo devia seguir para responder de maneira digna à sua vocação de povo escolhido e chamado à liberdade.
Lucas, no evangelho de hoje, descreve a visita de Maria à sua prima Isabel nos mesmos termos de festa e alegria com os quais a arca de Deus foi acolhida por parte do rei Davi na cidade de Jerusalém, que se torna daquele momento em diante a “cidade santa”, a “cidade do Senhor” (2 Sam 6). Maria é a verdadeira arca da aliança enquanto, depois de ter recebido na fé e gerado na carne o filho de Deus (São Leão Magno), o apresenta ao mundo novo dos simples de coração, como o menino João, que reage dançando de alegria ao aproximar-se de Jesus, ainda escondido no ventre de sua mãe. 
Os cantos de agradecimentos e de louvor de Isabel e de Maria interpretam não somente os sentimentos das duas mães, fecundas por graça, mas também a alma profunda de toda a história renovada. Esta presença do Senhor no meio do seu povo o sustenta em seu caminho e no seu combate.
No céu aparece o segundo grande sinal: “uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas”. A mulher no seu esplendor de luz, aparece já capaz de dominar as mutabilidades da história, simbolizadas pela lua posta debaixo dos pés. Mas ela se encontra ao mesmo tempo na condição de extrema fragilidade, pelo fato de estar grávida e estar nas dores do parto. Diante dela se posiciona o dragão com a intenção de devorar o filho que está para nascer. Ele porém, será posto a salvo junto de Deus, e a mulher acolhida no deserto, como Israel no seu caminho para a terra prometida.
A tradição da Igreja, desde os Padres dos primeiros séculos, reconhece no símbolo desta mulher, gloriosa e frágil ao mesmo tempo, as etapas de realização da mesma e única Palavra de Deus que cumpre seu dinamismo ao longo da história da salvação. Nela vislumbra a comunidade de Israel da qual nasce o messias; a Igreja que gera o Cristo em cada cristão pela pregação do evangelho e pela fé; enfim, vê também Maria que acolhe Cristo na sua fé e o gera segundo a carne.
No contexto da celebração da Solenidade de Maria Assunta ao céu, o texto hoje proclamado nos orienta a contemplar em conjunto a experiência de Maria e o caminho de fé da Igreja e de cada cristão e cristã.
A Igreja celebra a Virgem Maria como a “Mãe de Deus” e do seu unigênito Jesus Cristo, por ter dado ao Verbo de Deus sua própria carne. Hoje aquela mesma carne é glorificada e acolhida na plenitude da vida de Deus. Quando confessamos na fé que Maria foi Assunta junto de Deus em alma e corpo, falamos da integridade da sua pessoa, com todos seus sentimentos e sua existência humana de mulher. Ela viveu deixando-se guiar em plena obediência e liberdade de amor pelo Espírito, que a tornou fecunda da vida mesma de Deus.
O cântico do “Magnificat”, centro do evangelho de hoje, constitui o reconhecimento humilde e alegre por parte de Maria das maravilhas cumpridas por Deus na sua vida pessoal, e ainda mais na história do seu povo e em prol da inteira família humana.
A obra mais maravilhosa cumprida pelo Pai, e objeto da contemplação de hoje, porém, é a própria Maria. Seu primeiro “sim”, expressão de fé incondicionada ao surpreendente anúncio do anjo em Nazaré, desemboca no “sim”, pronunciado no grito silencioso da alma transpassada pela espada da dor, aos pés da cruz. De Nazaré ao calvário, ela acompanhou com renovada entrega de si mesma o caminho do Filho, guardando no seu coração sem entender, o que acontecia, e sempre confiando na fidelidade de Deus às suas promessas. “Eles, porém, não compreenderam a palavra que ele lhes dissera... Sua mãe, porém, conservava a lembrança de todos estes fatos em seu coração” (cf Lc 2, 50.51).
Enquanto contempla e celebra em Maria esta obra maravilhosa de Deus, a Igreja reconhece nela seu próprio inicio e modelo, pela fé e o amor com os quais ela consentiu ao chamado de Deus, chamado que a conduziu até a plenitude do reino no céu. 
O Concílio Vaticano II, na constituição Lumen Gentium, que trata do mistério da Igreja, da sua identidade e da sua missão, dedica o inteiro capítulo oitavo à Bem-Aventurada Virgem Maria no mistério de Cristo e da Igreja. O dogma da assunção de Maria ao céu em corpo e alma foi definido em maneira explícita pelo papa Pio XII no ano 1950, mas ele estava enraizado na tradição espiritual da Igreja e no culto dos fiéis, desde os primeiros séculos. Renovando e enriquecendo o ensino dos Padres da Igreja e da sua tradição secular à luz do dogma, o Concílio oferece à inteligência espiritual da Igreja e à piedade dos fiéis novos horizontes, que nos fazem descobrir ainda melhor o lugar privilegiado de Maria no mistério de Cristo e da Igreja e o grande dom que ela constitui na vida de cada um de nós. 
O Concílio destaca esta profunda proximidade de Maria com a experiência humana e espiritual do inteiro povo de Deus, apresentando-a como “mãe da igreja”. Pela profunda unidade com todos os membros da Igreja, Maria “é saudada também como membro super-eminente e de todo singular da Igreja, como seu tipo e modelo excelente na fé e na caridade. E a Igreja católica, instruída pelo Espírito Santo, honra-a com afeto de piedade filial como mãe amantíssima” ( LG 53). 
Partilhando a mesma sorte de combate e de graça, o povo cristão, com o instinto profundo da fé, desde sempre tem sentido a Virgem Maria como sua intercessora junto do Pai e do seu Filho unigênito.
O grande horizonte teológico delineado pelo Concílio com suas reflexões sobre a Virgem Maria no mistério de Cristo e da Igreja, e as riquezas espirituais oferecidas pela liturgia das variadas festas marianas, constituem uma preciosa oportunidade para renovar e valorizar os tesouros de autêntica devoção, que o povo de Deus tem criado e guardado ao longo dos séculos, sobretudo na América Latina e no Brasil.
Como o batismo, que nos conforma ao Cristo morto e ressuscitado, nos impele a viver na terra com a tensão da vida plena em Deus, assim, ao celebrarmos a elevação à gloria do céu da Virgem Maria, mãe do filho de Deus, pedimos ao Senhor com a Igreja: “dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória” (Oração do dia).

Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.

sábado, 20 de agosto de 2011

São Bernardo de Claraval, abade e doutor da Igreja


Bernardo nasceu na última década do século XI, no ano 1090, em Dijon, França. Era o terceiro dos sete filhos do cavaleiro Tecelim e de sua esposa Alícia. A sua família era cristã, rica, poderosa e nobre. Desde tenra idade, demonstrou uma inteligência aguçada. Tímido, tornou-se um jovem de boa aparência, educado, culto, piedoso e de caráter reto e piedoso. Mas chamava a atenção pela sabedoria, prudência, poder de persuasão e profunda modéstia.

Quando sua mãe morreu, seus irmãos quiseram seguir a carreira militar, enquanto ele preferiu a vida religiosa, ouvindo o chamado de Deus. Na ocasião, todos os familiares foram contra, principalmente seu pai. Porém, com uma determinação poucas vezes vista, além de convencê-los, trouxe consigo: o pai, os irmãos, primos e vários amigos. Ao todo, trinta pessoas seguiram seus passos, sua confiança na fé em Cristo, e ingressaram no Mosteiro da Ordem de Cister, recém-fundada.

A contribuição de Bernardo dentro da ordem foi de tão grande magnitude que ele passou a ser considerado o seu segundo fundador. No seu ingresso, em 1113, eram apenas vinte membros e um mosteiro. Dois anos depois, foi enviado para fundar outro na cidade de Claraval, do qual foi eleito abade, ficando na direção durante trinta e oito anos. Foi um período de abundante florescimento da Ordem, que passou a contar com cento e sessenta e cinco mosteiros. Bernardo sozinho fundou sessenta e oito e, em suas mãos, mais de setecentos religiosos professaram os votos.

Bernardo viveu uma época muito conturbada na Igreja. Muitas vezes teve de deixar a reclusão contemplativa do mosteiro para envolver-se em questões que agitavam a sociedade. Foi pregador, místico, escritor, fundador de mosteiros, abade, conselheiro de papas, reis, bispos e também polemista político e tenaz pacificador. Nada conseguia abater ou afetar sua fé, imprimindo sua marca na história da espiritualidade católica romana.

Ao lado dessas atividades, nesse mesmo período teve uma atividade literária muito expressiva, em quantidade de obras e qualidade de conteúdo. Tornou-se o maior escritor do seu tempo, apesar de sua saúde sempre estar comprometida. Isso porque Bernardo era um religioso de vida muito austera, dormia pouco, jejuava com freqüência e impunha-se severa penitência.

Em 1153, participando de uma missão em Lorena, adoeceu. Percebendo a gravidade do seu estado, pediu para ser conduzido para o seu Mosteiro de Claraval, onde pouco tempo depois morreu, no dia 20 de agosto do mesmo ano. Foi sepultado na igreja do mosteiro, mas teve suas relíquias dispersadas durante a Revolução Francesa. Depois, sua cabeça foi entregue para ser guardada na catedral de Troyes, França.

São Bernardo de Claraval, canonizado em 1174, recebeu, com toda honra e justiça, o título de doutor da Igreja em 1830.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Carta de São Francisco aos Dirigentes dos Povos (CtDir)

"Assis - Itália, setembro de 1221

A todas as potestades e cônsules, juízes e dirigentes de toda a Terra e a todos quantos chegar esta carta, Frei Francisco, vosso servo pequenino e desprezível no Senhor Deus, deseja saúde e paz.

Considerai e vede que o dia da morte se aproxima. Rogo-vos, pois, com reverência, como posso, por causa dos cuidados e solicitudes que tendes deste mundo, não esqueçais o Senhor, porque todos aqueles que O esqueceram e se afastam de seus mandamentos são malditos e por Ele são entregues ao esquecimento. E quando chegar o dia da morte, todas as coisas que julgavam ter, ser-lhes-ão tiradas. E quanto mais sábios e poderosos forem neste mundo, tanto maiores tormentos suportarão no inferno. Por isso, aconselho-vos firmemente, meus senhores, que preterido todo o cuidado e solicitude, recebais benignamente o santíssimo corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua santa memória. Prestai tanta honra ao Senhor, no meio do povo a vós confiado, que toda a tarde, se anuncie por um pregoeiro ou por outro sinal, que todo o povo renda louvores  e graças ao Senhor Deus Onipotente. E se isso não fizerdes, sabei que deveis prestar contas no juízo, diante de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Aqueles que guardarem junto de si este escrito e o observarem, saibam-se benditos pelo Senhor Deus."

Frei Francisco

domingo, 14 de agosto de 2011

20º Domingo do Tempo Comum

Mulher, grande é a tua fé!
Leituras: Is. 56, 1.6-7; Rm 11, 13-15;.29-32; Mt 15, 21-28
“Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!” E desde este momento sua filha ficou curada. (Mt 15,28). 
Eis que por fim, esta mãe sofrida pela sorte da filha, esta mulher estrangeira e pagã, estranha ao povo de Israel, à sua dignidade de povo de Deus e à sua religiosidade, elementos que constituem a identidade e o orgulho dos judeus diante dos outros povos, com sua fé confiante e perseverante, conduz Jesus a superar toda discriminação das pessoas diante da aliança do Senhor, na base da raça, do sexo e da religião.
A cura imediata da filha é a prova visível da potência da fé dos simples de coração e da salvação que vem de Jesus. Assim como, ao contrário, por falta de fé dos seus concidadãos, Jesus tinha experimentado a impossibilidade de realizar algum milagre e cura em Nazaré (Mc 6,5-6). 
Com a presença de Jesus, a fé nele constitui a única condição e a verdadeira maneira de participar na herança “dos filhos” de Abraão, e de pertencer ao povo de Deus. Paulo chegará a formular com clareza este eixo central da boa nova de Jesus, na carta aos Gálatas: “Abraão confiou em Deus e isso lhe foi anotado como crédito. Compreendei que filhos de Abraão são os que têm fé. A escritura previa que os pagãos obteriam justiça pela fé, e assim Deus antecipa para Abraão a boa noticia: ‘por ti, todas as nações serão abençoadas’. Assim os que crêem são abençoados com Abraão que teve fé” (Gl 3, 6-9- trad. Bíblia do peregrino). 
A fé não somente insere na linhagem espiritual de Abraão, fazendo dos que crêem filhos/as dele, mas os faz “filhos/as de Deus” pela união deles a Cristo, condição que não anula as distinções entre as pessoas, mas supera toda discriminação na única família de Deus. Nesta única família, unida pela mesma fé, se realiza a promessa da fecundidade feita por Deus a Abraão: “Vós todos  sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, pois, todos vós, que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois vós sois um só em Cristo Jesus. E se vós sois de Cristo, então sois descendentes de Abraão, herdeiros segundo a promessa” (Gl 3, 26-29).
A visão do apóstolo nos oferece a perfeita realização da profecia de Isaías (Is 56,1.6-7- primeira leitura) sobre a acolhida dos pagãos em Jerusalém, cidade santa de Deus, a incorporação deles no povo de Deus, e a participação até o culto no templo, cume da identidade dos israelitas e seu direito exclusivo. Na pessoa de Jesus o templo se torna “casa de oração para todos os povos” (cf. Mt 21, 13; Jo 2, 19-22), posto que Ele, Jesus, é o verdadeiro o templo vivo.
Talvez não nos surpreenda muito a escassa sensibilidade dos discípulos diante da imploração sofrida da mãe da menina doente, que chega a ponto de pedir para que Jesus simplesmente a e para não mais incomodá-los (Mt 15,23). A mesma atitude eles tinham expressado diante do povo faminto, que estava seguindo e escutando a Jesus havia três dias (cf Mt 14,15).
O que nos toca profundamente, porém, é o silêncio inicial com que Jesus reage ao grito implorante da mulher: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio. Mas Jesus não lhe respondeu palavra alguma” (Mt 15, 22-23).  Trata-se do mesmo Jesus que, não só toma cuidado e cura todo doente que o procura, mas que mais de uma vez, toma ele mesmo a iniciativa de curar uma pessoa, sem que ela tivesse até mesmo manifestado algum pedido de socorro! Todo mundo lembra, por exemplo, da cura da mulher encurvada, efetuada na sinagoga em dia de sábado (cf. Lc 13,10-17), ou a cura do homem da mão paralisada, nas mesmas condições (cf. Lc 6,6-9).  
O misterioso silêncio inicial de Jesus, com certeza estimula a insistência da mulher.  Sobretudo nos deixa vislumbrar o mistério do “tempo oportuno”, preordenado pelo Pai, em vista da plena manifestação da ação de Jesus como Messias e salvador. Aquele tempo que São João chama de a “hora de Jesus”, e que o próprio Jesus espera com ansiedade e determinação, enquanto se identifica com sua paixão, morte e ressurreição.
Por ocasião das núpcias de Caná ele responde com determinação à sua mãe que o solicitava a intervir em prol dos noivos que se encontravam em dificuldade: “Que queres de mim mulher? Minha hora ainda não chegou” (Jo 2, 3-4). A fé confiante de sua mãe, faz com que de fato Jesus “antecipe” a sua hora: “Sua mãe disse aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (2,5). A água transformada em vinho marcou o inicio dos sinais de Jesus, manifestou a sua “glória “e despertou a fé dos discípulos. (cf Jô 2, 11-12). 
No encontro de Jesus com a mulher pagã, assim como nas núpcias de Caná, nos deparamos com a mesma pedagogia divina acerca dos tempos de desenvolvimento da semente do reino. Tempos estes que só o Pai conhece. Jesus assume esta mesma pedagogia do Pai e ensina aos discípulos a assumi-la na própria vida. No caminho espiritual, a espera, e até mesmo os atrasos, dizem os Padres da Igreja, aumenta o desejo e faz com que se chegue a encontrar o amado com maior intensidade e alegria. 
A capacidade de esperar na fidelidade de Deus e de perseverar na esperança comprova a qualidade da fé e do amor. “Os desejos santos crescem com a demora; mas se diminuem com o adiamento, não são desejos autênticos”, afirma São Gregório Magno (Hom. sobre os evangelhos, 25, 4-5; em Lit das Horas Vol. 3, 1436). 
A insistência perseverante na oração filial, à qual nos convida Jesus, não é uma barganha comercial com Deus, com o intuito de dobrá-lo às nossas supostas necessidades ou desejos. É a expressão do amor confiante que alcança o coração do Pai. E Ele providencia o que é melhor para seus filhos e filhas. “Pedi e vos será dado; buscai e vos será aberto; pois todo o que pede recebe; o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá... Ora se vós, que sois maus sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedem” (Mt 7, 7-8.11). Pode-se notar que S. Lucas, em lugar de “coisas boas”, coloca “o Espírito santo”. Isto diz que o Pai nos concede como dom mais precioso o seu próprio Espírito, e com o Espírito a verdadeira relação filial para cumprir sua santa vontade. 
O exemplo dos grandes amigos de Deus e potentes intercessores para o povo junto dele, nos abrem o caminho na direção desta atitude interior. Abraão (Gn 18,17-33), Moisés (Ex 32,7-14), e o próprio Jesus, que pela sua submissão ao Pai foi arrancado do poder da morte (cf. Heb 5,7) e agora, glorificado, vive para sempre junto do Pai e intercede por nós (cf. Hebr 7,25). A mulher cananéia, declara Jesus, pertence a esta família de autênticos filhos e filhas de Deus e de potentes intercessores: “Mulher, grande é a tua fé. Seja feito como tu queres!”. 
Uma segunda razão ainda mais complexa daquela do silêncio inicial de Jesus está no reconhecimento da prioridade de Israel no anúncio do reino de Deus, segundo a Aliança estabelecida com os pais e as promessas feitas a Abraão, aos patriarcas e aos profetas. O reconhecimento desta prioridade de Israel, junto com seu aperfeiçoamento na comunidade nascida da cruz de Cristo, é um critério basilar de toda a Escritura. Isso determina a unidade do projeto salvífico de Deus que se manifesta na unidade do Antigo e do Novo testamento. Segundo a fé cristã, Jesus é o centro e o cumprimento deste plano divino, que faz da história humana a história da realização do projeto salvífico de Deus, a história da salvação. 
O segundo passo de Jesus no seu diálogo com a cananéia o afirma: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15, 24).
Correntes consistentes do pensamento entre os letrados e as autoridades religiosas de Israel tinham transformado a prioridade da eleição e a missão de testemunha de Israel, derivante da aliança, em “privilegio exclusivo”, e a observância material das normas da Torá, em mecanismos automáticos de salvação. Contra estas presunções reagem os profetas e o próprio Jesus, que, enquanto reconhece a primazia da eleição de Israel, derruba as barreiras impróprias erigidas pelos homens, colocando ao invés a fé da pessoa no centro da relação com Deus. 
A mesma comunidade dos discípulos de Jesus, porém, teve que trilhar um longo caminho para superar o preconceito contra os pagãos, e precisou de uma longa viagem interior iluminada pelo Espírito Santo, como atestam os Atos dos Apóstolos e as Cartas de Paulo, para entrar definitivamente na perspectiva universalista de Jesus. A redação do texto de Mateus, proclamado hoje parece refletir a fadiga inicial da mesma comunidade. 
A tentação de se considerar exclusivos depositários da verdade do Senhor está hoje totalmente ausente das nossas comunidades? Somos acolhedores das pessoas que estão em busca do sentido da vida, com os mesmos sentimentos de generosa acolhida que Jesus Ressuscitado transmitiu aos discípulos? 
A narração do encontro com a mulher pagã, nos oferece em maneira plástica as etapas e a gradualidade do caminho percorrido pelo próprio Jesus, e que se torna exemplar pelos discípulos: do silêncio inicial, à menção dos pagãos como “cachorinhos”, à insistência perseverante da mulher, até a proclamação da grandeza da sua fé, que abre a porta à salvação expressa na cura da filha. 
Esta é de fato uma perspectiva muito parecida com aquela que Jesus exalta no centurião romano (Mt 8, 10-12).
A fundamentação da pertença ao reino de Deus na fé e sua extensão de Israel aos pagãos e a todos os seres humanos em Cristo, para que nele tenham salvação, constituem o âmago do evangelho do Novo Testamento e a herança essencial da Igreja de todos os tempos. Israel e os pagãos recebem em igualdade de condições a misericórdia de Deus, e delas vivem (Rm 11, 32).
Isto, todavia, se encontra com o mistério da recusa por parte da maioria do povo de Israel, primeiro destinatário das promessas de Deus. O “pequeno resto” que aceita, fica como testemunha da fidelidade de Deus e da esperança alimentada por todos em Cristo.  
O feito da recusa de Israel, junto com a permanência da sua eleição e missão, interpelará ao longo dos séculos e até hoje, a consciência da Igreja num nível teológico, assim como marcará as relações sociais e religiosas entre os cristãos e os judeus, muitas vezes conflituosas, até as tragédias do anti-semitismo do século vinte. 
Paulo, mesmo na angústia da sua consciência de filho de Israel e discípulo de Jesus, proclamado Messias e Senhor de toda a humanidade, declara com força: “os dons e a vocação de Deus são irrevocáveis” (Rm 11,29 ). Os capítulos 9-11 da carta aos Romanos, da qual provêm a segunda leitura de hoje, dá testemunho deste tormento interior diante do duplo mistério, da recusa de Israel por uma parte e da fidelidade absoluta de Deus à sua aliança com os pais de Israel e de Jesus.
O Concílio Vaticano II, na Constituição Dei Verbum, pôs em luz mais uma vez a unidade e a irrevogabilidade da Aliança de Deus e seu cumprimento pleno em Cristo: a Igreja está caminhando nos trilhos de Israel rumo ao cumprimento do reino de Deus com a vinda gloriosa de Cristo. 
Foi superada definitivamente a idéia teológica, difusa em certos ambientes cristãos, e que teve também graves consequências práticas na história, que a Igreja “substituiu” Israel no plano de Deus. 
A Declaração “Nostra Aetate” do mesmo concílio, reafirmou em maneira clara como “a Igreja de Cristo reconhece que os primórdios da fé e de sua eleição já se encontram nos patriarcas, em Moisés e nos profetas, segundo o mistério salvífico de Deus”. Reconhece a existência de “um grande patrimônio espiritual comum aos cristãos e aos judeus”, e por isso encoraja ambas as partes a fomentar e aprofundar o conhecimento e o apreço recíproco. Impelida pelo amor evangélico, reprova toda perseguição contra os judeus, como contra quaisquer homens, e qualquer manifestação anti-semita, (NAE n. 4). 
O papa João Paulo II, além de visitar a Sinagoga de Roma em 1986, pela primeira vez, por parte de um papa, chamou os judeus de “nossos irmãos maiores”, não por um ato de gentileza formal devida à hospitalidade que estava recebendo, mas como reconhecimento solene das comuns raízes nas quais afunda o mistério de Israel e o da Igreja.  
O magistério pastoral de João Paulo II, assim como o do papa Bento XVI, através de gestos de alto valor simbólico e dos seus ensinamentos, continuam encorajando os cristãos a recuperar o sentido da comum pertença ao único desígnio salvífico de Deus, e por isso a instaurar também novas e fraternas relações no comum testemunho ao amor de Deus.
Tudo isso faz parte da maneira de ser cristãos hoje, da nossa espiritualidade, do nosso estilo de vida, como filhos de Abraão e irmãos no Senhor.



Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Santa Clara de Assis, virgem


Clara nasceu em Assis, no ano 1193, no seio de uma família da nobreza italiana, muito rica, onde possuía de tudo. Porém o que a menina mais queria era seguir os ensinamentos de Francisco de Assis. Aliás, foi Clara a primeira mulher da Igreja a entusiasmar-se com o ideal franciscano. Sua família, entretanto, era contrária à sua resolução de seguir a vida religiosa, mas nada a demoveu do seu propósito.

No dia 18 de março de 1212, aos dezenove anos de idade, fugiu de casa e, humilde, apresentou-se na igreja de Santa Maria dos Anjos, onde era aguardada por Francisco e seus frades. Ele, então, cortou-lhe o cabelo, pediu que vestisse um modesto hábito de lã e pronunciasse os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

Depois disso, Clara, a conselho de Francisco, ingressou no Mosteiro beneditino de São Paulo das Abadessas, para ir se familiarizando com a vida em comum. Pouco depois foi para a Ermida de Santo Ângelo de Panço, onde Inês, sua irmã de sangue, juntou-se a ela.

Pouco tempo depois, Francisco levou-as para o humilde Convento de São Damião, destinado à Ordem Segunda Franciscana, das monjas. Em agosto, quando ingressou Pacífica de Guelfúcio, Francisco deu às irmãs sua primeira forma de vida religiosa. Elas, primeiramente, foram chamadas de "Damianitas", depois, como Clara escolheu, de "Damas Pobres", e finalmente, como sempre serão chamadas, de "Clarissas".

Em 1216, sempre orientada por Francisco, Clara aceitou para a sua Ordem as regras beneditinas e o título de abadessa. Mas conseguiu o "privilégio da pobreza" do papa Inocêncio III, mantendo, assim, o carisma franciscano. O testemunho de fé de Clara foi tão grande que sua mãe, Ortolana, e mais uma de suas irmãs, Beatriz, abandonaram seus ricos palácios e foram viver ao seu lado, ingressando também na nova Ordem fundada por ela.

A partir de 1224, Clara adoeceu e, aos poucos, foi definhando. Em 1226, Francisco de Assis morreu e Clara teve visões projetadas na parede da sua pequena cela. Lá, via Francisco e os ritos das solenidades do seu funeral que estavam acontecendo na igreja. Anteriormente, tivera esse mesmo tipo de visão numa noite de Natal, quando viu, projetado, o presépio e pôde assistir ao santo ofício que se desenvolvia na igreja de Santa Maria dos Anjos. Por essas visões, que pareciam filmes projetados numa tela, santa Clara é considerada Padroeira da Televisão e de todos os seus profissionais.

Depois da morte de são Francisco, Clara viveu mais vinte e sete anos, dando continuidade à obra que aprendera e iniciara com ele. Outro feito de Clara ocorreu em 1240, quando, portando nas mãos o Santíssimo Sacramento, defendeu a cidade de Assis do ataque do exercito dos turcos muçulmanos.

No dia 11 de agosto de 1253, algumas horas antes de morrer, Clara recebeu das mãos de um enviado do papa Inocêncio IV a aguardada bula de aprovação canônica, deixando, assim, as sua "irmãs clarissas" asseguradas. Dois anos após sua morte, o papa Alexandre IV proclamou santa Clara de Assis.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

São Lourenço, diácono e mártir


No ano 257, o imperador romano Valeriano ordenou uma perseguição contra os cristãos. No início, parecia mais branda do que a imposta por Décio. Ela tinha mais uma conotação repressora, porque proibia as reuniões dos cristãos, fechava os acessos às catacumbas, exilava os bispos e exigia respeito aos ritos pagãos. Mas não obrigava a renegar a fé publicamente. Entretanto, no ano seguinte, Valeriano ordenou que os bispos e padres fossem todos mortos.

Lourenço, na ocasião, era o arcediácono, do papa Xisto II, isto é, o primeiro dos sete diáconos a serviço da Igreja de Roma. Dados de sua vida, anterior a esse período, nunca foram encontrados. Porém devia ter uma boa formação acadêmica, pois seu cargo era de muita responsabilidade e importância. Depois do papa, era Lourenço o responsável pela Igreja. Iss quer dizer que ele era o assistente do papa nas celebrações e na distribuição da eucaristia. Mas, além disso, era o único administrador dos bens da Igreja, cuidando das construções dos cemitérios, igrejas e da manutenção das obras assistenciais destinadas ao amparo dos pobres, órfãos, viúvas e doentes.

A partir do decreto de Valeriano, os bispos começaram a ser executados e um dos primeiros foi Cipriano de Cartago, que morreu em 258. Logo em seguida foi a vez de o papa Xisto II ser executado, junto com os outros seis diáconos.

Conta a tradição que Lourenço conseguiu conversar com o papa Xisto II um pouco antes dele morrer. O papa ter-lhe-ia pedido para que distribuísse aos pobres todos os seus pertences e os da Igreja também, pois temia que caíssem nas mãos dos pagãos. Lourenço foi preso e levado à presença do governador romano, Cornélio Secularos, justamente para entregar todos os bens que a Igreja possuía. Lourenço pediu um prazo de três dias, pois, como confessou, a riqueza era grande e tinha de fazer o balanço completo. Obteve o consentimento.

Assim, rapidamente distribuiu tudo aos pobres e, quanto aos livros e objetos sagrados, cuidou para que ficassem bem escondidos. Em seguida, reuniu um grupo de cegos, órfãos, mendigos, doentes e colocou-os na frente de Cornélio, dizendo: "Pronto, aqui estão os tesouros da Igreja". Irado, o governador mandou que o amarrassem sobre uma grelha, para ser assado vivo, e lentamente. O suplício cruel não demoveu Lourenço de sua fé. Segundo uma narrativa de santo Ambrósio, Lourenço teria ainda encontrado disposição e muita coragem para dizer ao seu carrasco: "Vira-me, que já estou bem assado deste lado".

Lourenço morreu no dia 10 de agosto de 258, rezando pela cidade de Roma. A população mostrou-se muito grata a são Lourenço, que, pelo seu feito, é chamado de "príncipe dos mártires". Os romanos ergueram, ao longo do tempo, tantas igrejas em sua homenagem que nem mesmo são Pedro e são Paulo, os padroeiros de Roma, possuem igual devoção.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)




Edith Stein nasceu na cidade de Breslau, Alemanha, no dia 12 de outubro de 1891, em uma próspera família de judeus. Aos dois anos, ficou órfã do pai. A mãe e os irmãos mantiveram a situação financeira estável e a educaram dentro da religião judaica.

Desde menina, Edith era brilhante nos estudos e mostrou forte determinação, caráter inabalável e muita obstinação. Na adolescência, viveu uma crise: abandonou a escola, as práticas religiosas e a crença consciente em Deus. Depois, terminou os estudos com graduação máxima, recebendo o título de doutora em fenomenologia, em 1916. A Alemanha só concedeu esse título a doze mulheres na última metade do século XX.

Em 1921, ela leu a autobiografia de santa Teresa d´Ávila. Tocada pela luz da fé, converteu-se e foi batizada em 1922. Mas a mãe e os irmãos nunca compreenderam ou aceitaram sua adesão ao catolicismo. A exceção foi sua irmã Rosa, que se converteu e foi batizada no seio da Igreja, após a morte da mãe, em 1936.

Edith Stein começou a servir a Deus com seus talentos acadêmicos. Lecionou numa escola dominicana, foi conferencista em instituições católicas e finalizou como catedrática numa universidade alemã. Em 1933, chegavam ao poder: Hitler e o partido nazista. Todos os professores não-arianos foram demitidos. Por recusar-se a sair do país, os superiores da Ordem do Carmelo a aceitaram como noviça. Em 1934, tomou o hábito das carmelitas e o nome religioso de Teresa Benedita da Cruz. A sua família não compareceu à cerimônia.

Quatro anos depois, realizou sua profissão solene e perpétua, recebendo o definitivo hábito marrom das carmelitas. A perseguição nazista aos judeus alemães intensificou-se e Edith foi transferida para o Carmelo de Echt, na Holanda. Um ano depois, sua irmã Rosa foi juntar-se a ela nesse Carmelo holandês, pois desejava seguir a vida religiosa. Foi aceita no convento, mas permaneceu como irmã leiga carmelita, não podendo professar os votos religiosos. O momento era desfavorável aos judeus, mesmo para os convertidos cristãos.

A Segunda Guerra Mundial começou e a expansão nazista alastrou-se pela Europa e pelo mundo. A Holanda foi invadida e anexada ao Reich Alemão em 1941. A família de Edith Stein dispersou-se, alguns emigraram e outros desapareceram nos campos de concentração. Os superiores do Carmelo de Echt tentaram transferir Edith e Rosa para um outro, na Suíça, mas as autoridades civis de lá não facilitaram e a burocracia arrastou-se indefinidamente.

Em julho de 1942, publicamente, os bispos holandeses emitiram sua posição formal contra os nazistas e em favor dos judeus. Hitler considerou uma agressão da Igreja Católica local e revidou. Em agosto, dois oficiais nazistas levaram Edith e sua irmã do Carmelo de Echt. No mesmo dia, outros duzentos e quarenta e dois judeus católicos foram deportados para os campos de concentração, como represália do regime nazista à mensagem dos bispos holandeses. As duas irmãs foram levadas em um comboio de carga, junto com outras centenas de judeus e dezenas de convertidos, ao norte da Holanda, para o campo de Westerbork. Lá, Edith Stein, ou a "freira alemã", como a identificaram os sobreviventes, diferenciou-se muito dos outros prisioneiros que se entregaram ao desespero, lamentações ou prostração total. Ela procurava consolar os mais aflitos, levantar o ânimo dos abatidos e cuidar, do melhor modo possível, das crianças. Assim ela viveu alguns dias, suportando com doçura, paciência e conformidade a vontade de Deus, seu intenso sofrimento, e dos demais.

No dia 7 de agosto de 1942, Edith Stein, Rosa e centenas de homens, mulheres e crianças foram de trem para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Dois dias depois, em 9 de agosto, foram mortas na câmara de gás e tiveram seus corpos queimados.

A irmã carmelita Teresa Benedita da Cruz foi canonizada em Roma, em 1998, pelo papa João Paulo II, que indicou sua festa para o dia de sua morte. A solenidade contou com a presença de personalidades ilustres, civis e religiosas, da Alemanha e da Holanda, além de alguns sobreviventes dos campos de concentração que a conheceram e de vários membros da família Stein. No ano seguinte, o mesmo sumo pontífice declarou santa Edith Stein, "co-Padroeira da Europa", junto com santa Brígida e santa Catarina de Sena.

domingo, 7 de agosto de 2011

19º Domingo do Tempo Comum



“Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo!”
Leituras: 1 Rs 19,9a.11-13; Rm 9,1-5; Mt 14, 22-33
“Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta” ( 1 Rs 19,13a). “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente, tu és o filho de Deus” (Mt 14,33). 
Duas cenas de calma e serenidade quase paradisíacas, que acabam de concluir a atribulada travessia do deserto por parte do profeta Elias, e a longa noite dos discípulos, cheia de angústia ao lutar contra as ondas do lago agitadas pela tempestade. Apesar desse quadro, os protagonistas das duas histórias estão gozando tranqüilidade e paz profunda: dom surpreendente que acompanha o inesperado e íntimo encontro com o Senhor, que até pouco antes parecia estar ausente, surdo e mudo perante os seus gritos de medo e de ajuda. 
Por um lado as cenas marcam o cume da condescendência de Deus para com o seu profeta Elias, e a intensa manifestação da senhoria de Jesus sobre os agitados acontecimentos da história, para com os discípulos. Por outra parte, a mudança radical do cenário marca o ponto de chegada do longo processo de conversão do profeta ao Senhor, assim como do crescimento da frágil fé de Pedro e dos demais discípulos. O medo paralisante de pouco antes se traduz na solene profissão de fé que proclama Jesus “Filho de Deus”. Quantas vezes Jesus, ao encerrar o encontro com um homem ou com uma mulher que vai em busca dele, confiante em sua ajuda, declara: “Vai, a tua fé te salvou!” (cf. Mc 5,34; Mt 15, 28). O Senhor abre para nós o mesmo trilho!
A profissão de fé dos discípulos nos coloca em cheio na plena luz da páscoa; páscoa que celebramos hoje, assim como em todo domingo, para que ilumine e oriente a partir de uma perspectiva interior nossos dias. Eles se sucedem uns aos outros, aparentemente iguais na repetição da rotina, e não raramente provados por feridas e fatigas sem saída. A luz do Ressuscitado os resgata do “não sentido”, e os faz lugar do possível encontro com o Senhor.
A Igreja nos acompanha com o dom da Palavra de Deus e com o pão de vida da Eucaristia, para que nos tornemos companheiros da longa trajetória interior de Elias e dos discípulos, partilhando com eles a mesma força transformadora da fé e a intimidade para com o Senhor, que caracterizam toda autêntica relação com ele. 
O breve trecho do 1 livro dos Reis, proclamado na primeira leitura, nos apresenta apenas a conclusão da complicada história humana e interior de Elias, o primeiro dos profetas históricos de Israel. Ele é apresentado pela mesma escritura do AT e do NT, como modelo de tantos homens de Deus, chamados por ele a tornar-se seus amigos e corajosas testemunhas, na defesa da justiça em prol dos pobres, na recuperação das exigências da aliança estabelecida por Deus com Israel, na espera da vinda do Messias que vai restabelecer as condições para cumprir a originária aliança.
A compreensão profunda da extraordinária experiência de Deus, vivenciada pelo profeta na gruta do monte Horéb, pressupõe uma leitura atenta e partícipe da fascinante aventura humana e espiritual de Elias, narrada nos capítulos 18-19 do 1 livro dos reis. À sua luz se compreende a colocação desta história em conjunção com a narração da noite de Jesus mergulhado em profunda oração na montanha, e sua ida em socorro dos discípulos em dificuldade dentro do barco no meio da tempestade. Na complexidade das intrigas e das paixões humanas, se desvela a secreta pedagogia com que Deus dirige a história, chama e forma seus profetas para guardar e alcançar o cumprimento do seu projeto de vida. 
Talvez seja útil lembrar alguns pontos salientes deste trajeto interior de Elias, para iluminar um pouco nosso próprio caminho existencial. Poderia nos ajudar também a entender porque a sua figura se tornou tão emblemática na tradição da própria Escritura, na tradição judaica posterior, naquela cristã, sobretudo na sua vertente mística, e até mesmo na tradição muçulmana. Cada uma delas se reconhece num ou no outro aspecto da sua experiência espiritual, como num espelho. 
No momento mais alto da revelação da identidade e da missão de Jesus na transfiguração, ele aparece dialogando sobre o cumprimento da sua tarefa de messias sofredor com Moisés e Elias, os dois eixos do projeto salvífico de Deus na aliança, que está para se realizar na sua morte e ressurreição (cf Lc 9, 30-31).
O profeta, com zelo ardente pela pureza da fé de Israel com a violência de todo fundamentalista religioso (1 Rs 18,20-40), foi progressivamente transformado pelo próprio Senhor, através de uma série de despojamentos interiores, sempre mais sofridos e radicais. O Senhor lhe ordena de morar no deserto, onde aprende a se alimentar confiando na providência divina: os corvos trazem o pão e a torrente de água o sacia por um tempo limitado. O Senhor o envia a morar em terra pagã, sustentado por uma pobre viúva em Sarepta (1 Rs 17, 2-24).  
O profeta pretende defender Deus com a matança dos profetas de Baal (1 Rs 18, 16-40). Foge para o deserto para salvar-se da vingança da rainha Jezabel, cai no extremo desânimo, o Senhor o socorre alimentando-o através de seu anjo, e o fortalece para cumprir seu caminho até a montanha do Senhor (1 Rs 19, 1-8).
O Senhor o interpela como profeta refugiado na gruta da montanha. Ele se queixa de estar correndo riscos mortais pelo Senhor, e reivindica mais uma vez o feito de ficar sozinho para defendê-lo (1 Rs 19, 10.14). Em resposta o Senhor lhe ordena de “sair da gruta” em que está amparado, para ficar diante dele que está para passar diante dele ( 1 Rs 19, 9-11; 13-14)).   
A gruta em que está refugiado, mais que na rocha da montanha, está escavada na realidade em seu pequeno mundo ideológico, onde falta o ar livre da vida e a visão ampla da realidade. O Senhor faz sair Elias deste túmulo de morte, e o faz nascer à vida nova. O murmúrio suave e brando é a habitação verdadeira do Senhor. A sua voz profunda é o silêncio que chega ao coração. Elias pode somente entrever a face do Senhor através do manto que cobre seu rosto, como a mão protetora de Deus cobriu o rosto de Moisés, na montanha do Sinai, para protegê-lo da luz insustentável da sua glória, concedendo-lhe o privilégio de contemplá-lo somente pelas costas (cf  Ex 33, 18-23). 
Elias sai deste encontro radicalmente transformado (1 Rs 19, 9-14). Recebe a nova missão de promover a vida do povo, em Israel e em Damasco, e de transmitir seu carisma de profeta a Eliseu (1 Rs 19, 15-18). Somente quem tem em si mesmo a vida do Senhor pode transmitir vida. 
Iniciada como fuga diante do poder prepotente da rainha Jezabel, a aventurosa viagem de Elias se transforma numa verdadeira peregrinação interior rumo ao centro de si mesmo, mais que uma transferência forçada de lugar geográfico para outro, com a finalidade de esconder-se. Marca o retorno às origens espirituais de Israel a descida do profeta nas profundidades do seu coração, onde encontra a verdadeira habitação do Senhor e a linfa vital da sua missão de profeta ao serviço do Deus da aliança e da vida. 
Através da pedagogia, severa e doce ao mesmo tempo, dos progressivos despojamentos de si, o Senhor molda o seu profeta, até fazê-lo digno de encontrá-lo na intimidade e na paz, como supremo dom de graça. Está superada toda manifestação de força que se impõe, simbolicamente expressa pelos impetuosos elementos naturais do vento violento e forte que quebra as montanhas, ou do terremoto e do fogo ( cf  1 Rs 19,11-12). Tais sinais tinham acompanhado a manifestação de Deus a Moisés e ao povo junto do Monte Sinai no momento de estipular a aliança (cf Ex 19,16-24). Desaparece também toda pretensão de fazer-se como defensor de Deus e quase seu protetor! 
Deus não precisa de defensores, mas de testemunhas da sua graça e da salvação que vem dele. Testemunhas que, antes de mais nada, sabem escutar o testemunho interior do próprio Espírito do Senhor que fala dentro de nós, nos atrai a si próprio, nos fortalece, e nos sugere o que  é importante de verdade a se dizer, diante do tribunal da história ( cf Mt 10, 17-20).  
Apreender o caminho espiritual, deixando-nos guiar pelo próprio Senhor e a ser moldados pela sua pedagogia purificadora e libertadora, em tempo de marcado individualismo e protagonismo também na busca espiritual, é uma herança preciosa que nos vem do profeta e do próprio Jesus: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27).  
Enquanto com a fórmula “Sou eu”, Jesus evoca o poder do nome divino (cf Ex 3, 14-15) pelo qual ele domina o mal, como deixam vislumbrar seu caminhar em cima das ondas e a calma da tempestade, ele vai encontro dos discípulos, como um pai que cuida da sua criança assustada, os encoraja, e igualmente encoraja Pedro na fraqueza da sua fé, já que ele segura prontamente em sua mão respondendo a seu grito de ajuda, sobe no barco e a tempestade se acalma. 
A tradição cristã reconheceu neste evento, junto com a multiplicação dos pães, a imagem da Igreja na sua travessia ao longo da história, alimentada e sustentada pelo próprio Jesus. Na fé ela sabe e experimenta que Jesus não abandona os navegantes, assim como sabe que é ele mesmo a fortalecer a fé de Pedro e a garantir que o barco alcance seu destino, “para o outro lado do mar”, segundo o projeto de Deus.  
Precisamos aprender o estilo da condescendência divina e da sua misericórdia solidária, num tempo em que cada um eleva o tom da voz para deixar-se ouvir, no atual show permanente e confuso das idéias e das propostas, onde se fica acentuando as cores de suas fardas e das suas bandeiras para afirmar seus princípios éticos, políticos, religiosos. Isto significa aprender com o profeta Elias a descer do monte Carmelo, lugar da matança dos profetas, e aprender a peregrinar com ele os duros trilhos do deserto até o monte Horeb, o lugar do encontro no silêncio com o Senhor e com as fontes da verdadeira vida. A mística não fecha a pessoa num mundo vazio, pelo contrário, a constrói com a mesma energia de Deus e a faz capaz de reconhecer e de cuidar do seu rosto divino, presente em toda pessoa e em toda situação. 
Estas passagens espirituais e culturais constituem um desafio permanente no caminho pessoal e das comunidades cristãs de todo tempo. É difícil fazer próprio o estilo de Deus e de Jesus. 
Depois que ele multiplicou os pães, o povo queria fazê-lo rei, destaca João, como que para garantir a continuidade da bonança material inesperada (Jo 6,15). Jesus, porém, refugiou-se sozinho na montanha, onde, numa noite de intensa oração face a face com o Pai, confirma sua escolha ao serviço do reino. Desta íntima relação com o Pai, ele desce em socorro potente e caridoso dos discípulos. Mas eles mesmos, observa S. Marcos, “ainda não tinham entendido nada a respeito dos pães, mas seu coração estava endurecido” (Mc 6, 52). 
A Igreja conhece bem o tesouro da fé que nos anima, embora exposta a tantas fragilidades diante das provações da vida. Por isso nos convida a rezar com confiança o Pai, para que o nosso coração de filhos e filhas seja por ele mesmo fortalecido e alcancemos a tranqüilidade e a intimidade da casa paterna que esperamos: “Deus eterno e todo poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia a herança que prometestes” (Oração do dia).
A Oração Eucarística VI-B (Deus conduz sua Igreja pelo caminho da salvação) interpreta muito bem esta consciência viva da Igreja e a firme esperança que a anima em seu caminho.

Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.