Mostrando postagens com marcador Gênesis. Solidão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gênesis. Solidão. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Na própria definição do homem está a alternativa entre a morte e imortalidade



JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 31 de Outubro de 1979


1. Convém voltarmos ainda hoje ao significado da solidão original do homem, que se patenteia sobretudo na análise do chamado texto javista de Génesis 2. Permite-nos o texto bíblico, como já verificamos nas precedentes reflexões, pôr em relevo não só a consciência do corpo humano (o homem é criado no mundo visível como «corpo entre os corpos»), mas também a do seu significado próprio.

Tendo em conta a grande concisão do texto bíblico, não se pode, sem mais, ampliar muito este encadeamento. É porém certo que tocamos aqui o problema central da antropologia. A consciência do corpo parece identificar-se neste caso com o descobrimento da complexidade da própria estrutura que, baseada numa antropologia filosófica, consiste afinal na relação entre a alma e o corpo. A narrativa javista com a própria linguagem (isto é, com a sua própria terminologia) exprime-o dizendo: O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo*. E precisamente este homem, «ser vivo», distingue-se em seguida de todos os outros seres vivos do mundo visível. O que leva a concluir a existência deste «distinguir-se» do homem, é exactamente o facto de só ele ser capaz de «cultivar a terra» (Cfr. Gén. 2, 5) e de «a dominar» (Cfr. Gén. 1, 28). Pode dizer-se que a consciência da «superioridade», inscrita na definição de humanidade, nasce desde o princípio baseada num actuar ou comportar-se tipicamente humano. Esta consciência traz consigo especial percepção do significado do corpo em si, percepção que resulta de tocar ao homem «cultivar a terra» e «dominá-la». Tudo isto seria impossível sem uma intuição tipicamente humana do significado do corpo em si.

2. Parece pois necessário falar antes de tudo deste aspecto, deixando para depois o problema da complexidade antropológica em sentido metafísico. Se a descrição original da consciência humana, indicada pelo texto javista, compreende, no conjunto da narrativa, também o corpo, se ela encerra quase o primeiro testemunho do descobrimento da própria corporeidade (e mesmo, como foi dito, a percepção do significado do próprio corpo), tudo isto se revela não com base numa concreta subjectividade do homem que seja bastante clara. O homem é um sujeito não só para a sua autoconsciência e autodeterminação, mas também com base no próprio corpo. A estrutura deste corpo é tal que lhe permite ser o autor duma actividade verdadeiramente humana. Nesta actividade o corpo exprime a pessoa. Ele é portanto, em toda a sua materialidade («formou o homem do pó da terra»), quase penetrável e transparente, de maneira que evidencia quem é o homem (e quem deveria ser) graças à estrutura da sua consciência e da sua autodeterminação. Nisto se apoia a percepção fundamental do significado do corpo em si, que não se pode deixar de descobrir ao analisar a solidão original do homem.

3. Ora, com tal compreensão fundamental do significado do próprio corpo, o homem, como sujeito da antiga Aliança com o Criador, é colocado diante do mistério da árvore do conhecimento. Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim, mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque no dia em que o comeres, certamente morrerás (Gén. 2, 16-17). O significado original da solidão do homem baseia-se em experimentar a existência, existência que ele obteve do Criador. Tal existência humana caracteriza-se precisamente pela subjectividade, que também inclui o significado do corpo. Mas o homem, que na sua consciência original conhece apenas a experiência do existir e portanto da vida, poderia ele compreender o que significou a palavra «morrerás»? Seria capaz de chegar a compreender o sentido desta palavra através da estrutura complexa da vida, que lhe foi dada quando «O Senhor Deus ... lhe insuflou pelas narinas o sopro da vida ...»? É necessário admitir que esta palavra, completamente nova, apareceu no horizonte da consciência do homem antes que ele lhe tivesse nunca experimentado a realidade, e que ao mesmo tempo esta palavra apareceu diante dele como radical antítese de tudo aquilo de que o homem fora dotado.

O homem ouviu pela primeira vez a palavra «morrerás», sem ter com ela qualquer familiaridade na experiência feita até então; mas, por outro lado, não podia deixar de associar o significado da morte àquela dimensão de vida de que tinha gozado até esse momento. As palavras de Deus-Javé dirigidas ao homem confirmavam uma dependência no existir, tal que fez do homem um ser limitado e, por sua natureza, susceptível de não-existência. Estas palavras sugeriram o problema da morte de maneira condicional: «No dia em que o comeres ... morrerás». O homem, que ouvira tais palavras, devia encontrar-lhes a verdade na mesma estrutura interior da própria solidão. E, afinal, dependia dele, da sua decisão e livre escolha, se entraria também com a sua solidão no círculo da antítese que lhe revelara o Criador, juntamente com a árvore do conhecimento do bem e do mal, e assim tornaria própria a experiência do morrer e da morte. Ouvindo as palavras de Deus-Javé, deveria o homem compreender que a árvore do conhecimento lançara raízes não só no «jardim do Éden», mas também na sua humanidade. Ele, além disso, deveria compreender que aquela árvore misteriosa escondia em si uma dimensão de solidão, até essa altura desconhecida, da qual o Criador o tinha dotado no âmbito do mundo dos seres vivos, aos quais ele, o homem — diante do Criador mesmo —, tinha «designado com nomes», para chegar a compreender que nenhum deles lhe era semelhante.

4. Quando pois o significado fundamental do seu corpo já se encontrava estabelecido graças à distinção que o separava do resto das criaturas, quando por isso mesmo se tornara evidente que o «invisível» determina o homem mais que o «visível», então apresentou-se diante dele a alternativa, íntima e directamente ligada por Deus-Javé à árvore do conhecimento do bem e do mal. A alternativa entre a morte e a imortalidade, que deriva de Gén. 2, 17, ultrapassa o significado essencial do corpo do homem, pois inclui o significado escatológico não só do corpo, mas da humanidade mesma, distinta de todos os seres vivos, dos «corpos». Esta alternativa refere-se contudo de modo particularíssimo ao corpo criado do «pó da terra».

Para não prolongar mais esta análise, limitamo-nos a verificar que a alternativa entre a morte e a imortalidade entra, desde o princípio, na definição do homem e que pertence «desde o princípio» ao significado da sua solidão diante do próprio Deus. Este significado de solidão, impregnado pela alternativa entre morte e imortalidade, tem ainda um significado fundamental para toda a teologia do corpo.

Com esta verificação concluímos por agora as nossas reflexões sobre o significado da solidão original do homem. Tal verificação, que deriva de modo claro e impressionante dos textos do Livro do Génesis, leva também a reflectir tanto sobre os textos como sobre o homem, que tem provavelmente consciência demasiado débil da verdade que lhe diz respeito e se encontra já expressa nos primeiros capítulos da Bíblia.

* * *

* A antropologia bíblica distingue no homem não tanto «o corpo» e «a alma» quanto «corpo» e «vida». O autor bíblico apresenta aqui a entrega do dom da vida mediante o «sopro», que não deixa de ser propriedade de Deus: quando Deus o tira, o homem volta ao pó, do qual foi feito (cfr. Job. 34, 14-15; Sl. 104, 29 s.).

Saudações

Aos sacerdotes de Santa Rosa de Osos (Colômbia)
Saúdo com profundo afecto os sacerdotes de Santa Rosa de Osos, que vieram acompanhar o seu Bispo a Roma por ocasião da visita "ad limina".
Nas vossas pessoas saúdo todos os irmãos sacerdotes da vossa querida Diocese. Sede constantes na vossa missão pastoral de conduzir os fiéis por caminhos de autêntica fé, de esperança renovada e de caridade solidária. A todos dou de coração uma especial Bênção.

Aos peregrinos da diocese de Nardò (Itália)
Desejo também dirigir uma afectuosa saudação aos numerosos peregrinos da diocese de Nardò, que, sob a direcção do seu Bispo, D. António Rosario Mennonna, pretendem iniciar aqui, em Roma, junto do Papa, o ano mariano diocesano para maior incremento da vida espiritual da comunidade e para a santificação das almas.
Exprimo-vos o meu vivo apreço por esta iniciativa, que envolve todas as forças melhores da vossa comunidade. Sede interiormente dóceis às sugestões maternais que Maria Santíssima não deixará de vos inspirar neste período, a fim de poderdes testemunhar, perante o mundo, a vossa fé, que se concretize na adesão alegre e total às exigências morais da mensagem de Jesus; a vossa caridade generosa e operosa para com todos aqueles que se encontram em necessidade; e a vossa constante esperança no Senhor nosso Jesus Cristo (cfr. 1 Tess 1, 2 s.).
Com estes votos invoco sobre todos, sobre o vosso Pastor e sobre os Presidentes das Câmaras das administrações municipais da diocese, a abundância das graças do Senhor e concedo-vos, de coração, a minha Bênção Apostólica.

A vários grupos de língua alemã
Saúdo também de maneira especial a grande peregrinação diocesana de Hildesheim, presidida pelo Bispo Auxiliar D. Henrich Pachowiak; saúdo também os peregrinos das Dioceses de Mainz, Limburg e Fulda, assim como os leitores, aqui presentes, da revista familiar "Leben und Erziehen" (Viver e educar).
A vossa peregrinação a Roma e a vossa oração junto do túmulo dos Apóstolos e dos santos, têm por objectivo não só a recordação venerável de defuntos que um dia fizeram grandes coisas por Cristo e pela Igreja, mas dirigem-se, antes de tudo, a irmãos na fé, insignes e exemplares, que hoje vivem na glória e na contemplação beatífica de Deus. A vossa peregrinação é solene confissão da Comunhão dos Santos, que não é algo passado, mas um presente vivo. A Festividade de amanhã, festividade de Todos os Santos, recorda-nos isto mais uma vez. Deus, que é um Deus de vivos, vos encha com o desejo forte de atingir o alto ideal da santidade, graças ao qual também a nossa vida deve encontrar um dia n'Ele a sua total plenitude. E o que vos desejo de coração a todos com a minha Bênção Apostólica.

Aos jovens
Uma saudação particularmente afectuosa para todos os jovens, que também hoje aqui vieram numerosos alegrar esta Audiência geral. Caríssimos, agradeço-vos de coração esta vossa significativa presença, sinal de doação a Cristo, e de comunhão com o seu Vigário na terra. As generosas aspirações do vosso ânimo proporcionam-me sempre muita alegria. Celebrando a Igreja, amanhã, a festa de Todos os Santos, convido-vos, queridos jovens, a dirigir o vosso pensamento para as realidades indefectíveis, razão da nossa esperança, e a tirar exemplo e conforto de quem seguiu o Senhor com adesão heróica, e quer agora ajudar-nos a percorrer com coragem a mesma estrada de salvação. A todos concedo uma especial Bênção.

Aos doentes
Desejo assegurar a todos vós, doentes, que estou particularmente perto de vós, com o coração e a prece, consciente de quão precioso é o vosso sacrifício, o qual, elevando e reforçando os vossos ânimos, é ao mesmo tempo fonte de muita graça para toda a Igreja. Concluindo-se hoje o mês do Rosário, apraz-me convidar-vos a tirar inspiração, alegria e conforto desta oração tão cara à tradição cristã. Dirigi constantemente o vosso olhar para a Virgem Santíssima: ela, que é a Mãe das Dores e também a Mãe da Consolação, pode compreender-vos até ao fundo e socorrer-vos.
Olhando para Ela, rezando-Lhe, obtereis que o vosso tédio se torne serenidade, a vossa angústia se mude em esperança, e o vosso sofrimento se transforme em amor. Acompanho-vos com a minha Bênção, que de boa vontade faço extensiva a todos aqueles que vos assistem.

Aos jovens Casais
E agora dirijo-me a vós, queridos jovens casais, para vos apresentar as minhas paternais felicitações, que são ao mesmo tempo convite à confiança e à alegria. A alegria, desabrochada nos vossos corações com a graça do Sacramento, vos acompanhe por toda a vida e vos ajude a vencer as tentações que derivam do egoísmo, o grande inimigo da união familiar. Fazei que as novas famílias — nascidas do vosso livre consentimento, vivificado e tornado oferta de amor pela presença de Cristo — sejam sempre acompanhadas da vontade constante e recíproca de bem; permaneçam sólidas na rocha da unidade e da fidelidade; sejam ricas daquelas virtudes cristãs que fundam e garantem a prosperidade do lar doméstico. Acompanho estes votos com a minha Bênção.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O significado da solidão original do homem




JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 10 de Outubro de 1979

1. Na última reflexão do presente ciclo, chegámos a uma conclusão introdutória, tirada das palavras do Livro do Génesis, sobre a criação do homem como macho e fêmea. A estas palavras, ou seja, ao «princípio», referiu-se o Senhor Jesus na sua conversa sobre a indissolubilidade do matrimónio (Cfr. Mt. 19, 3-9; Mc. 10, 1-12). Mas a conclusão, a que chegámos, não termina ainda a série das nossas análises. Deve-mos, de facto, reler a narração do primeiro e do segundo capítulo do Livro do Génesis num contexto mais largo, que nos permitirá estabelecer uma série de significados do texto antigo, a que se referiu Cristo. Hoje reflectiremos portanto sobre o significado da solidão original do homem.

2. O ponto de partida para esta reflexão vem-nos directamente das seguintes palavras do Livro do Génesis: Não é conveniente que o homem (macho) esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele (Gén. 2, 18). Deus-Javé que pronuncia estas palavras. Fazem parte da segunda narrativa da criação do homem e provêm portanto da tradição javista. Como já recordámos precedentemente, é significativo que no texto javista, a narrativa da criação do homem (macho) seja um trecho completo (Gén. 2, 7), que precede a narrativa da criação da primeira mulher (Gén. 2, 21-22), além disso, significativo que o primeiro homem ('adam), criado do «pó da terra», só depois da criação da primeira mulher seja definido como «macho» ('is). Assim portanto, quando Deus-Javé pronuncia as palavras a respeito da solidão, refere-as à solidão do «homem» enquanto tal, e não só à do macho.

É difícil porém, só com base neste facto, chegar muito longe tirando conclusões. Apesar disso, o contexto completo daquela solidão de que fala o Génesis 2, 18, pode convencer-nos que se trata aqui da solidão do «homem» (macho e fêmea) e não apenas da solidão do homem-macho, causada pela falta da mulher. Parece, por conseguinte, com base no contexto inteiro, que esta solidão tem dois significados: um que deriva da própria criatura do homem, isto é, da sua humanidade (o que é evidente na narrativa de Gén. 2), e o outro que deriva da relação macho-fêmea, o que é evidente, em certo modo, com base no primeiro significado. A análise particularizada da descrição parece confirmá-lo.

3. O problema da solidão manifesta-se unicamente no contexto da segunda narrativa da criação do homem. A primeira não conhece este problema. Nesta aparece o homem criado num só acto como «macho e fêmea» (Deus criou o homem à sua imagem ... criou-os homem e mulher (Gén. 1, 27). A segunda narrativa que, segundo já mencionámos, fala primeiro da criação do homem e, só depois, da criação da mulher da «costela» do macho, concentra a nossa atenção em o homem «estar só». Isto apresenta-se como problema antropológico fundamental, anterior, em certo sentido, ao problema apresentado pelo facto de tal homem ser macho e fêmea. Este problema é anterior não tanto no sentido cronológico quanto no sentido existencial: é anterior «por sua natureza». Tal se revelará também o problema da solidão do homem do ponto de vista da teologia do corpo, se conseguirmos fazer uma análise profunda da segunda narrativa da criação em Génesis 2.

4. A afirmação de Deus-Javé, «não é conveniente que o homem esteja só», aparece, não só no contexto imediato da decisão de criar a mulher («vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele»), mas também no contexto mais amplo de motivos e circunstâncias, que explicam mais profundamente o sentido da solidão original do homem. O texto javista liga primeiramente a criação do homem com a necessidade de cultivar a terra (Gén. 2, 5), o que, na primeira narrativa, corresponde à vocação de encher e dominar a terra (Cfr. Gén. 1, 28). Além disso, a segunda narrativa da criação fala de o homem ser colocado no «jardim do Éden», e deste modo introduz-nos no estado da sua felicidade original. Até este momento o homem é objecto da acção criadora de Deus-Javé, que ao mesmo tempo, como legislador, estabelece as condições da primeira aliança com o homem. Já com este recurso é sublinhada a subjectividade do homem. Esta encontra nova expressão quando o Senhor Deus, após ter formado da terra todos os animais dos campos e todas as aves dos céus, os conduziu até junto do homem (macho), a fim de verificar como ele lhes chamaria (Gén. 2, 19). Logo o primitivo significado da solidão original do homem é definido em função dum «test» específico, ou dum exame a que o homem é sujeito diante de Deus (e em certo modo também diante de si mesmo). Graças a esse «test», o homem toma consciência da própria superioridade, quer dizer, de não poder colocar-se em igualdade com nenhuma outra espécie de seres vivos sobre a terra.

Na verdade, como diz o texto, o homem impôs os nomes para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem lhes desse (Ibid). O homem designou com nomes todos os animais domésticos, todas as aves dos céus e todos os animais ferozes; contudo—termina o autor — o homem (macho) não encontrou para si uma auxiliar adequada (Gén. 2, 20).

5. Toda esta parte do texto é, sem dúvida, preparatória da narrativa da criação da mulher. Esta parte do texto possui contudo significado próprio e profundo, mesmo independentemente desta criação. É o seguinte: o homem criado encontra-se, desde o primeiro momento da sua existência, diante de Deus quase à busca da própria «entidade». A verificação de o homem «estar só» no meio do mundo visível e, em especial, entre os seres vivos, tem nesta busca significado negativo, na medida em que exprime o que ele «não é». Apesar disso, a verificação de não se poder essencialmente identificar com o mundo visível dos outros seres vivos (animalia) tem, ao mesmo tempo, aspecto positivo para esta busca primária: embora esta verificação não seja ainda uma definição completa, constitui todavia um dos seus elementos. Se aceitamos a tradição aristotélica, na lógica e na antropologia, seria necessário definir este eleento como «género próximo» (genus proximum).

6. O texto javista consente-nos todavia descobrir ainda novos elementos naquele admirável trecho, em que o homem se encontra só, diante de Deus, sobretudo para exprimir, através duma autodefinição, a própria autoconsciência, como primitiva e fundamental manifestação de humanidade. O autoconhecimento acompanha o conhecimento do mundo, de todas as criaturas visíveis, de todos os seres vivos a que o homem deu nomes para afirmar em confronto com eles a própria diversidade. Assim portanto, a consciência revela o homem como o ser que possui a faculdade cognoscitiva a respeito do mundo visível. Com este conhecimento que o faz sair, em certo modo, fora do próprio ser, ao mesmo tempo o homem revela-se a si mesmo em toda a peculiaridade seu ser. Está não apenas essencialmente mas subjectivamente só. Solidão, de facto, significa também subjectividade do homem, a qual se forma através do autoconhecimento. O homem está só, porque é «diferente» do mundo visível, do mundo dos seres vivos. Analisando o texto do Livro do Génesis, tornamo-nos, em certo sentido, testemunhas do modo como o homem «se distingue», diante de Deus-Javé, de todo o conjunto dos seres vivos (animalia) como o primeiro acto de autoconhecimento, e de como, por conseguinte, se revela a si mesmo e ao mesmo tempo se afirma no mundo visível como «pessoa». Aquele processo delineado de modo tão enérgico em Génesis 2, 19-20, processo de busca duma definição de si mesmo, não leva só a indicar — voltando nós à tradição aristotélica — o genus proximum, que no capítulo 2.° do Génesis é expresso com as a palavras «deu os nomes», a que corresponde específica» que é, segundo a definição de Aristóteles, noûs, zoón noetikon. Tal processo leva também à primeira delineação do ser humano como pessoa humana, com a própria subjectividade sua característica.

Interrompamos aqui a análise do significado da solidão original do homem. Retomá-la-emos daqui a uma semana.
***

Saudações

Aos participantes na XXVII Assembleia geral da União das Superioras-Maiores da Itália (USMI)
Estão presentes na Audiência cerca de 600 Superioras-Gerais e Provinciais, que participam na XXVII Assembleia geral da União das Superioras-Maiores da Itália (USMI) subordinada ao tema: "Presença pastoral dos religiosos na Igreja hoje na Itália e o seu carisma específico".

Agradeço a vossa presença, tão significativa e merecedora de uma Audiência particular. Infelizmente os múltiplos e fatigantes compromissos deste período de tempo não mo permitiram.

Exorto-vos, caríssimas Irmãs, a meditar sempre, com amor e com generosidade, nos grandes documentos que dizem respeito à vossa vida: o capítulo sexto da Constituição Conciliar Lumen Gentium, o Decreto Perfectae Caritatis e a Carta Apostólica Evangelica Testificatio. Aquilo que maiormente tinha a peito comunicar-vos e a todas as Religiosas, manifestei-o recentemente nos discursos que pronunciei a 1 de Outubro em Maynooth na Irlanda, e a 7 de Outubro no Santuário da Imaculada Conceição, em Washington.

Agora, gostaria apenas de sugerir, a vós Superioras, a firmeza e a delicadeza necessárias neste momento. Mostrai-vos principalmente mães, sensíveis e esclarecidas, nunca irritadas nem de maneira alguma amarguradas, mas santamente intrépidas em sugerir a voz do Vigário de Cristo, de modo que nenhuma irmã se sinta oprimida ou marginalizada, mesmo no caso de ter errado.
Também a vós repito o que disse na Irlanda:

"Deveis ser corajosas nas vossas empresas apostólicas, não vos deixando abater nem deprimir pelas dificuldades, pela diminuição de pessoal e pela insegurança do futuro. Lembrai-vos sempre que o primeiro dever apostólico é a vossa santificação" (Discurso em Maynooth, 1 de Outubro de 1979).
A minha Bênção Apostólica vos acompanhe e conforte de modo particular.

Aos participantes no Diálogo Católico-Pentecostal
Meus queridos participantes no Diálogo Romano Católico-Pentecostal, bem-vindos outra vez a Roma. Faz sete ano agora que este esforço de mútua compreensão e reconciliação existe, e desejo assegurar-vos que lhe dedico o mais vivo interesse e piedosa protecção.

Se nós cristãos devemos alcançar a unidade desejada por nosso Senhor, somos chamados à "busca em comum da verdade no pleno sentido evangélico e cristão" (Redemptor Hominis, 6). Estais contribuindo para isso com o vosso trabalho desta semana. O Senhor vos alude nele e com a luz do seu Santo Espírito vos permita conhecer e experimentar a sua verdade, a sua graça e o seu amor.

Aos Membros do Conselho Geral extraordinário da Companhia de Maria e a grupos de peregrinos franceses
Dirijo uma cordial e afectuosa saudação aos membros do Conselho Geral extraordinário da Companhia de Maria, mais conhecida com o nome de Congregação dos Padres Monfortinos. Saúdo o Reverendo Padre-Geral, os seus Assistentes, os Superiores provinciais e, através deles, todos aqueles que se dão a Deus e ao serviço da Igreja segundo o espírito de São Luís Maria Grignon de Monfort, que me é pessoalmente muito querido.

Há um ano, e também recentemente durante esta última viagem, falei muito da vida sacerdotal e da vida religiosa. Meditai nestes pensamentos, queridos Filhos, pois valem também para vós, com as suas exigências. Tereis assim a certeza de ser fiéis à Igreja. Sede fiéis ao espírito do vosso Santo fundador, à fonte inesgotável de espiritualidade que ele nos deixou, ensinando-nos o sentido da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. Segundo a sua palavra: "Abri a porta a Jesus Cristo", em cada um de vós, primeiro, pela vossa vida de oração, e depois nos outros, pela vossa vida missionária. E por isso, sede sempre dóceis às lições interiores da Virgem Imaculada, à qual vos recomendo, com uma especial Bênção Apostólica.

Numerosos peregrinos representam hoje as dioceses de Clermont-Ferrand e de Moulins. Sejam bem-vindos. Faço votos por que aprofundem o sentido de Igreja a fim de que depois sintam mais convicção e mais generosidade na sua vida cristã. Abençoo-os de todo o coração.

Aos Membros do Conselho Mundial da Ordem Franciscana Secular
E agora uma particular saudação a vós, Membros da Ordem Franciscana Secular mais conhecida por Ordem Terceira, que tivestes nestes dias, em Assis, a II Assembleia Plenária. Sei que, convosco, estão alguns Observadores Anglicanos aos quais tenho o prazer de dar cordiais boas-vindas.

A todos dirijo a minha palavra sincera de apreço pela vontade que demonstrais em confirmar-vos cada vez mais nos valores evangélicos da Regra Franciscana; quero sobretudo encorajar-vos a que prossigais simples e alegremente no vosso genuíno testemunho cristão oferecido ao mundo.

Faço minha, portanto, a aprovação dada à Regra pelo Papa Paulo VI, de venerada memória, pouco antes da sua morte, com o Breve Seraphicus Patriarcha, e faço votos por que muitos Leigos possam encontrar nela um válido ponto de referência para a edificação da própria vida quotidiana no único fundamento seguro que é Jesus Cristo (cfr. 1 Cor 3, 11).

Em penhor destes votos e como sinal da minha benevolência, concedo, de coração, a todos vós e a todos aqueles que dignamente representais, a propiciadora Bênção Apostólica.

Aos Jovens
Uma cordial saudação a vós Jovens, que, como sempre, fazeis vibrar esta Praça de São Pedro com a vossa exuberante alegria.

Agradeço-vos esta vossa visita e o conforto que ela me proporciona ao ver-vos assim tão entusiastas na manifestação da vossa fé em Cristo e ao mesmo tempo, tão perto do seu Vigário na terra.

Fazendo eco aos meus encontros com os vossos companheiros da Irlanda e dos Estados Unidos da América, e aos repetidos apelos à justiça, à liberdade e à paz, que por ocasião da minha recente viagem apostólica dirigi, exorto-vos sobretudo, a vós filhos da nova geração, a que estejais sempre na vanguarda, com aquele ardor que sabeis pôr em tudo o que é grande e nobre, na defesa e na promoção destes inalienáveis valores, indispensáveis a cada cristão que ambiciona seguir seriamente a Cristo. Seja-vos de ajuda neste esforço o exemplo de Cristo e a sua corroborante assistência.

Aos Doentes
A vós doentes, que trazeis no vosso corpo e no vosso espírito as chagas de Cristo (Gál 6, 17), dirijo de modo muito particular, a minha paterna, afectuosa e abençoadora palavra.

Agredeço-vos a vossa preciosa presença, que oferece ao olhar de todos nós um testemunho sofrido de fortaleza cristã. de coragem e de fé: virtudes estas que vos amparam nas duras provas a que fostes misteriosamente chamados e. ao mesmo tempo, fazem reflectir os outros no verdadeiro significado desta vida terrena tão frágil e efémera, e tão incompreensível sem uma fé superior. Por conseguinte, vós sois os benfeitores da humanidade. O Senhor vos recompense e vos conforte no vosso sofrimento.

Aos jovens Casais
Uma especial saudação vai agora para os jovens esposos, que depois do seu matrimónio vieram junto do Papa receber a Bênção para a sua união matrimonial e para a família que nascerá.

Ao mesmo tempo que vos felicito e vos expresso bons votos por este passo decisivo, que permanecerá no centro da vossa vida, agradeço terdes vindo aqui testemunhar perante a comunidade cristã a beleza e a grandeza do Sacramento, instituído por Jesus para santificar o amor e torná-lo estável. Oxalá o vosso exemplo seja para os mais jovens um apelo salutar aos princípios cristãos, os únicos que podem garantir ao lar doméstico a verdadeira e duradoira felicidade.
A minha Bênção vos acompanhe sempre.

Aos neo-sacerdotes do Pontifício Colégio Germânico-Húngaro
Desejo, nesta audiência, dar boas-vindas muito cordiais aos neo-sacerdotes do Pontifício Colégio Germânico-Húngaro, acompanhados pelos seus pais, familiares e amigos.

Felicito-vos de coração, como meus jovens colaboradores no sacerdócio, pela animosa decisão de consagrardes a vossa vida, como sacerdotes, totalmente ao serviço de Cristo e da Igreja. Quem puder compreender, compreenda! (Mt 19, 12). Estas palavras do Senhor valem hoje mais do que nunca para a eleição da função sacerdotal. A vossa vocação e antes de tudo uma graça, um dom, que deve ser aceite, certamente, com alegria e disposição para o sacrifício. Vós fizeste-lo assistidos pela graça de Deus. Uma das vossas tarefas mais importantes será agora cuidar com zelo e guardar diligentemente esse dom precioso. Só assim será deveras fecunda a vossa tarefa sacerdotal nas comunidades. Oxalá os vossos pais e os vossos familiares continuem ao vosso lado no futuro e vos acompanhem com as suas orações.

A vós, a eles, aos vossos amigos e a todo o Colégio, concedo, em união espiritual, a minha especial Bênção Apostólica.

LEITURA ORANTE: A perda é salvação

Quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. Preparo-me para a Leitura Orante, rezando com todos os que, nesta rede da...