Rádio

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

São Jerônimo, presbítero e doutor da igreja


É incontestável o grande débito que a cultura e os cristãos, de todos os tempos, têm com este santo de inteligência brilhante e temperamento intratável. Jerônimo nasceu em uma família muito rica na Dalmácia, hoje Croácia, no ano 347. Com a morte dos pais, herdou uma boa fortuna, que aplicou na realização de sua vocação para os estudos, pois tinha uma inteligência privilegiada. Viajou para Roma, onde procurou os melhores mestres de retórica e desfrutou a juventude com uma certa liberdade. Jerônimo estudou por toda a vida, viajando da Europa ao Oriente com sua biblioteca dos clássicos antigos, nos quais era formado e graduado doutor. 

Ele foi batizado pelo papa Libério, já com 25 anos de idade. Passando pela França, conheceu um monastério e decidiu retirar-se para vivenciar a experiência espiritual. Uma de suas características era o gosto pelas entregas radicais. Ficou muitos anos no deserto da Síria, praticando rigorosos jejuns e penitências, que quase o levaram à morte. Em 375, depois de uma doença, Jerônimo passou ao estudo da Bíblia com renovada paixão. Foi ordenado sacerdote pelo bispo Paulino, na Antioquia, em 379. Mas Jerônimo não tinha vocação pastoral e decidiu que seria um monge dedicado à reflexão, ao estudo e divulgação do cristianismo. 

Voltou para Roma em 382, chamado pelo papa Dâmaso, para ser seu secretário particular. Jerônimo foi incumbido de traduzir a Bíblia, do grego e do hebraico, para o latim. Nesse trabalho, dedicou quase toda sua vida. O conjunto final de sua tradução da Bíblia em latim chamou-se "Vulgata" e tornou-se oficial no Concílo de Trento. 

Romano de formação, Jerônimo era um enciclopédico. Sua obra literária revelou o filósofo, o retórico, o gramático, o dialético, capaz de escrever e pensar em latim, em grego, em hebraico, escritor de estilo rico, puro e eloqüente ao mesmo tempo. Dono de personalidade e temperamento fortíssimo, sua passagem despertava polêmicas ou entusiasmos. 

Devido a certas intrigas do meio romano, retirou-se para Belém, onde viveu como um monge, continuando seus estudos e trabalhos bíblicos. Para não ser esquecido, reaparecia, de vez em quando, com um novo livro. Suas violências verbais não perdoavam ninguém. Teve palavras duras para Ambrósio, Basílio e para com o próprio Agostinho. Mas sempre amenizava as intemperanças do seu caráter para que prevalecesse o direito espiritual. 

Jerônimo era fantástico, consciente de suas próprias culpas e de seus limites, tinha total clareza de seus merecimentos. Ao escrever o livro "Homens ilustres", concluiu-o com um capítulo dedicado a ele mesmo. Morreu de velhice no ano 420, em 30 de setembro, em Belém. Foi declarado padroeiro dos estudos bíblicos e é celebrado no dia de sua morte.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

SÃO MIGUEL, SÃO GABRIEL E SÃO RAFAEL, ARCANJOS


O mês de setembro tornou-se o mais festivo para os cristãos, pois a Igreja unificou a celebração dos três arcanjos mais famosos da história do catolicismo e das religiões - Miguel, Gabriel e Rafael - para o dia 29 de setembro, data em que se comemorava apenas o primeiro. 

Esses três arcanjos representam a alta hierarquia dos anjos-chefes, o seleto grupo dos sete espíritos puros que atendem ao trono de Deus e são seus "mensageiros dos decretos divinos" aqui na terra. 

Miguel, que significa "ninguém é como Deus", ou "semelhança de Deus", é considerado o príncipe guardião e guerreiro, defensor do trono celeste e do Povo de Deus. Fiel escudeiro do Pai Eterno, chefe supremo do exército celeste e dos anjos fiéis a Deus, Miguel é o arcanjo da justiça e do arrependimento, padroeiro da Igreja Católica. Costuma ser de grande ajuda no combate contra as forças maléficas. É citado três vezes na Sagrada Escritura, que narramos na sua página. O seu culto é um dos mais antigos da Igreja. 

Gabriel significa "Deus é meu protetor" ou "homem de Deus". É o arcanjo anunciador, por excelência, das revelações de Deus e é, talvez, aquele que esteve perto de Jesus na agonia entre as oliveiras. Padroeiro da diplomacia, dos trabalhadores dos correios e dos operadores dos telefones, comumente está associado a uma trombeta, indicando que é aquele que transmite a Voz de Deus, o portador das notícias. Na sua página, descrevemos com detalhes as suas aparições citadas na Bíblia . Além da missão mais importante e jamais dada a uma criatura, que o Senhor confiou a ele: o anúncio da encarnação do Filho de Deus. Motivo que o fez ser venerado, até mesmo no islamismo. 

Rafael, cujo significado é "Deus te cura" ou "cura de Deus", teve a função de acompanhar o jovem Tobias, personagem central do livro Tobit, no Antigo Testamento, em sua viagem, como seu segurança e guia. Foi o único que habitou entre nós, passagem que pode ser lida na página dedicada a ele. Guardião da saúde e da cura física e espiritual, é considerado, também, o chefe da ordem das virtudes. É o padroeiro dos cegos, médicos, sacerdotes e, também, dos viajantes, soldados e escoteiros. 

A Igreja Católica considera esses três arcanjos poderosos intercessores dos eleitos ao trono do Altíssimo. Durante as atribulações do cotidiano, eles costumam aconselhar-nos e auxiliar, além, é claro, de levar as nossas orações ao Senhor, trazendo as mensagens da Providência Divina. Preste atenção, ouça e não deixe de rezar para eles.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Indonésia: atentado mortal a igreja cristã

Firme condenação do governo e de destacados líderes muçulmanos

SOLO, segunda-feira, 26 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – No último domingo, um terrorista suicida explodiu uma bomba na saída de uma cerimônia religiosa de uma igreja cristã de Kepunton (Solo, Java Central), causando sua morte e a de outra pessoa, bem como 20 feridos.

Líderes religiosos e o governo da Indonésia condenaram este atentado contra a igreja protestante da Bethel Christian Indonesia Church.

Em uma coletiva de imprensa realizada na sede de um destacado grupo islâmico em Jacarta, o secretário executivo da Comissão dos Bispos para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-Religioso, Pe. Antonius Benny Susetyo, pediu “unidade na luta contra o terrorismo”.

“Condenamos este ataque aos fiéis. É um insulto a Deus”, declarou aos jornalistas, segundo informou a agência UcaNews.

Também interveio na coletiva de imprensa o representante da Comissão de Igrejas na Indonésia (PGI), Jeiri Sumampaw, que mostrou sua consternação pela bomba.

“Mais uma vez, as igrejas são objeto de violência”, lamentou o reverendo, quem mostrou também sua surpresa, já que os pastores protestantes locais haviam lhe informado que as relações entre cristãos e muçulmanos na região eram boas.

Por outro lado, Nurson Wahid, presidente do GP Ansor, a ala juvenil do maior grupo islâmico do país, o Nahdlatul Ulama, qualificou o atentado como uma “ação selvagem e imoral”.

O grupo islâmico extremista Cirebon aparece como possível responsável pelo ataque, segundo as primeiras investigações dadas a conhecer pelo presidente indonésio Susilo Bambang Yudhoyono.

O atentado deste domingo é o mais grave de uma série de ataques lançados pelos extremistas islâmicos contra a comunidade cristã do país islâmico mais populoso do mundo.

Na última primavera, a polícia desativou um potente explosivo em uma igreja católica de Jacarta.

Em 2001, no leste de Jacarta, duas bombas atingiram a igreja católica de Santa Ana, em Duren Sawin, e a Huria Christian Protestant Church.

No Natal de 2000, 17 pessoas morreram devido a atentados a bomba contra várias igrejas do país.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

São Vicente de Paulo, presbítero



Vicente de Paulo foi, realmente, uma figura extraordinária para a humanidade. Pertencia a uma família pobre, de cristãos dignos e fervorosos. Nasceu em Pouy, França, no dia 24 de abril de 1581. 

Na infância, foi um simples guardador de porcos, o que não o impediu de ter uma brilhante ascensão na alta Corte da sociedade de sua época. Aos dezenove anos, foi ordenado padre e, antes de ser capelão da rainha Margarida de Valois, ficou preso durante dois anos nas mãos dos muçulmanos. O mais curioso é que acabou sendo libertado pelo seu próprio "dono", que, ao longo desse período, Vicente conseguiu converter ao cristianismo. 

Todos o admiravam e respeitavam: do cardeal Richelieu à rainha Ana da Áustria, além do próprio rei Luís XIII, que fez questão absoluta de que Vicente de Paulo estivesse presente no seu leito de morte. 

Mas quem mais era merecedor da piedade e atenção de Vicente de Paulo eram mesmo os pobres, os menos favorecidos, que sofriam as agruras da miséria. Quando Mazarino, em represália às barricadas erguidas pela França, quis fazer o país entregar-se pela fome, Vicente de Paulo organizou, em São Lázaro, uma mesa popular para servir, diariamente, refeições a duas mil pessoas famintas. 

Apesar de ter sempre pouco tempo para os livros, tinha-o muito quando era para tratar e dar alívio espiritual. Quando convenceu o regente francês de que o povo sofria por falta de solidariedade e de pessoas caridosas para estenderem-lhe as mãos, o rei, imediatamente, nomeou-o para ser o ministro da Caridade. Com isso, organizou um trabalho de assistência aos pobres em escala nacional. Fundou e organizou quatro instituições voltadas para a caridade: a "Confraria das Damas da Caridade", os "Servos dos Pobres", a "Congregação dos Padres da Missão", conhecidos como padres lazaristas, em 1625, e, principalmente, as "Filhas da Caridade", em 1633. 

Este homem prático, firme, dotado de senso de humor, esperto como um camponês, e sobretudo realista, que dizia aos sacerdotes de São Lazaro: "Amemos Deus, irmãos meus, mas o amemos às nossas custas, com a fadiga dos nossos braços, com o suor do nosso rosto", morreu em Paris no dia 27 de setembro de 1660. 

Canonizado em 1737, são Vicente de Paulo é festejado no dia de sua morte, pelos seus filhos e sua filhas espalhados nos quatro cantos do mundo. E por toda a sociedade leiga cristã engajada em cuidar para que seu carisma permaneça, pela ação de suas fundações, que florescem, ainda, nos nossos dias, sempre a serviço dos mais necessitados, doentes e marginalizados.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

São Cosme e São Damião, mártires


Cosme e Damião eram irmãos e cristãos. Na verdade, não se sabe exatamente se eles eram gêmeos. Mas nasceram na Arábia e viveram na Ásia Menor, Oriente. Desde muito jovens, ambos manifestaram um enorme talento para a medicina. Estudaram e diplomaram-se na Síria, exercendo a profissão de médico com muita competência e dignidade. Inspirados pelo Espírito Santo, usavam a fé aliada aos conhecimentos científicos. Com isso, seus tratamentos e curas a doentes, muitas vezes à beira da morte, eram vistos como verdadeiros milagres. 

Deixavam pasmos os mais céticos dos pagãos, pois não cobravam absolutamente nada por isso. A riqueza que mais os atraía era fazer de sua arte médica também o seu apostolado para a conversão dos pagãos, o que, a cada dia, conseguiam mais e mais. 

Isso despertou a ira do imperador Diocleciano, implacável perseguidor do povo cristão. Na Ásia Menor, o governador deu ordens imediatas para que os dois médicos cristãos fossem presos, acusados de feitiçaria e de usarem meios diabólicos em suas curas. 

Mandou que fossem barbaramente torturados por negarem-se a aceitar os deuses pagãos. Em seguida, foram decapitados. O ano não pode ser confirmado, mas com certeza foi no século IV. Os fatos ocorreram em Ciro, cidade vizinha a Antioquia, Síria, onde foram sepultados. Mais tarde, seus corpos foram trasladados para uma igreja dedicada a eles. 

Quando o imperador Justiniano, por volta do ano 530, ficou gravemente enfermo, deu ordens para que se construísse, em Constantinopla, uma grandiosa igreja em honra dos seus protetores. Mas a fama dos dois correu rápida no Ocidente também, a partir de Roma, com a basílica dedicada a eles, construída, a pedido do papa Félix IV, entre 526 e 530. Tal solenidade ocorreu num dia 26 de setembro; assim, passaram a ser festejados nesta data. 

Os nomes de são Cosme e são Damião, entretanto, são pronunciados infinitas vezes, todos os dias, no mundo inteiro, porque, a partir do século VI, eles foram incluídos no cânone da missa, fechando o elenco dos mártires citados. Os santos Cosme e Damião são venerados como padroeiros dos médicos, dos farmacêuticos e das faculdades de medicina.

domingo, 25 de setembro de 2011

26º DOMINGO DO TEMPO COMUM



Leituras: Ez 18, 25-28; Sl 24(25), 4bc-5.6-7.8-9; Fl 2, 1-11; Mt 21, 28-32

“Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (Mt 21, 31)

A liturgia deste 26º domingo do Tempo Comum continua nos apresentando de modo particular a misericórdia e o amor de Deus pelo homem. A primeira leitura, tirada do livro do profeta Ezequiel, apresenta a palavra de Deus comunicada por meio do profeta e dirigida ao povo de Deus que se encontra na amarga experiência do exílio babilônico.

Diante do sofrimento brota uma acusação: “O modo de agir do Senhor não é justo!” (Ez 18, 25). Israel apresenta-se como imagem da condição humana, a qual, diante de um sofrimento aparentemente injusto, procura pleitear sempre a justiça num plano distributivo, isto é, restaurar aquilo que é devido conforme a necessidade de cada um. Certamente, do ponto de vista humano, trata-se de um princípio justo.

Afinal, em sua concepção, Israel tinha motivos para se lamentar: ele era o povo escolhido; havia construído um Templo no qual dia após dia se esmerava em prestar um culto ao Deus verdadeiro. Por que Deus fora tão injusto? Por que Israel estava no exílio?

Israel deve fazer um caminho para compreender que Deus não fora injusto, ele não abandonara jamais o seu povo; quando muito, o que houve foi justamente o contrário. De fato, já o profeta Jeremias alertara que não bastava Israel possuir um Templo e ter uma conduta religiosa expressa através de culto suntuoso (cf. Jr 7, 4ss). Deus deixava claro através desse profeta que era necessário que o Templo e o culto também se refletissem diretamente nas atitudes concretas do povo, especialmente para com os mais fracos da sociedade.

Fica evidente que Israel conheceu sua ruína, em boa parte, porque caiu na tentação dos caminhos fáceis: fechou-se numa liturgia ritualista; reduziu o Templo a um mero fetiche, a um objeto mágico, e o culto que deveria ser a expressão da aliança com Deus, tonou-se apenas um culto de palavras vazias (“Este povo me honra com os lábios...” Is 29,13).

Israel ao proceder de forma artificial acabara por enveredar pelos caminhos dos injustos e dos ímpios (cf. Sl 1). Quantas vezes não estamos também nós nesse caminho? Quantas vezes ao rezar na liturgia o Pai-nosso, por exemplo, as palavras são pronunciadas por nossa boca apenas como uma fórmula vazia de sentido. Quantas vezes invertemos em nosso coração a petição “seja feita a vossa vontade” ao pensarmos em nosso íntimo: “Sim, mas na verdade, ó Deus, o que eu quero mesmo é que o Senhor faça a minha vontade!” (cf. Lc 22, 42)?

Quantas vezes não vivemos num divórcio prático entre celebração e vida? Os profetas, de modo geral, dentre tantas denúncias feitas dos desvios do povo em relação a Deus, evidenciaram o fato das grandes liturgias de Israel terem se esvaziado de conteúdo (cf. Os 6,6) e serem realizadas sem aquilo que realmente importava: o amor a Deus e o amor ao próximo.

Mais uma vez queremos lembrar aqui a afirmação profética do magistério da Igreja: “o gesto litúrgico não é autêntico se não implica um compromisso de caridade, um esforço sempre renovado por ter os sentimentos de Cristo Jesus, e para uma contínua conversão”. (Medellín, 9, 3).

Por isso mesmo Deus coloca a questão sob outra perspectiva: “Não será antes o vosso modo de proceder que não está certo?... ao fazer o mal, é em virtude do mal que [o ímpio] morre...” (v. 25b-26).

Parece que assim como Israel, também nós temos que aprender a praticar aquilo que realmente importa para Deus: o caminho do direito e da justiça seja para com o próximo, seja para com Deus (v. 28). Para aprender esse caminho, é preciso um toque de graça da parte de Deus: “Tudo o que fizeste conosco, com razão o fizestes, pois pecamos contra vós e não obedecemos aos vossos mandamentos. Mas honrai o vosso nome, tratando-nos segundo vossa misericórdia” (Antífona de entrada).

Por isso o salmista apresenta-nos a sua súplica que se torna pedido de toda a comunidade: “Mostra-me teus caminhos, Senhor, ensina-me tuas veredas” (Salmo responsorial; tradução da Bíblia de Jerusalém).

Mais uma vez nos deparamos com a metáfora do “caminho” para indicar a relação filial entre Deus e o seu povo. Um caminho pontilhado de altos e baixos, de desvios e de afastamentos de Deus; mas também um caminho de gratuidade, de perdão e de misericórdia por parte de um Deus que desce (é o tema da segunda leitura) ao encontro do homem para elevá-lo até si: “Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a vossa graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais” (Oração do dia).

Esse caminho de encontro é garantido pelo bem por excelência que Deus nos reservou: o Espírito, concedido por meio de seu Filho (cf. Jo 14; 15; 16) e que habita em todo batizado.

No Evangelho, Jesus propõe aos judeus a parábola dos dois filhos chamados a trabalhar na vinha. A imagem usada por Jesus é uma referência à situação de Israel e da Igreja, o novo Israel.

Na parábola Jesus indaga seus ouvintes sobre qual dos dois irmãos havia realizado a vontade paterna: aquele que declinara o convite do Pai – situação de envergonhar um Pai e totalmente reprovável no filho, especialmente no contexto Palestinense –, mas que ao final, tomado pelo remorso fora trabalhar, ou o outro, que havia concordado com o pai verbalmente, evitando problemas e mantendo uma “fachada” de obediência, mas que de fato decide não ir trabalhar. Todos responderam de modo unânime: o filho que, apesar de ter se pronunciado negativamente e fora até a vinha para o trabalho, este sim, cumprira a vontade do pai. É muito interessante esta imagem da parábola.

Como se sabe, são as ações que revelam o mais íntimo de nosso ser e não as palavras. É o que Jesus, de certo modo, também nos mostra neste relato.

Aqui vale a pena um pequeno parêntese: curiosamente estamos nos aproximando das eleições das esferas governamentais. Seria muito interessante utilizar este método ofertado pelo evangelho no momento de escolhermos nossos candidatos: já vimos que quando se trata de discursos, de palavras, os nossos políticos, em sua grande maioria, são imbatíveis. Para separar o joio do trigo é preciso olhar não para os belos discursos, mas para a prática de vida de nossos candidatos e escolher aqueles que apresentaram a maior coerência entre a fala e a ação concreta visando o bem comum.

Em se tratando da revelação do ser, Cristo revelou-se como caminho que conduz ao Pai (Cf. Jo 14, 6) não só em palavras, mas com a própria vida, de fato. Esse aspecto da total revelação de Deus em Jesus na sua auto-doação ao Pai nos é mostrado de modo admirável pelo apóstolo São Paulo na segunda leitura. De fato, Ele o Cristo Senhor que “estando na forma de Deus (tradução da Bíblia de Jerusalém) não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens... abaixou-se, tornando-se obediente até a morte” (Fl 2, 6-8).

“Nascendo na condição humana, renovou inteiramente a humanidade. Sofrendo a paixão, apagou nossos pecados. Ressurgindo, glorioso, da morte, trouxe-nos a vida eterna. Subindo, triunfante, ao céu, abriu-nos as portas da eternidade” (Prefácio IV dos Domingos do Tempo Comum).

É um grande mistério, pois abaixando-se, o Cristo eleva-se ao céu abrindo “para nós a fonte de toda bênção” (cf. Oração sobre as oferendas).

Em Cristo, Deus desceu das alturas e assumiu a baixeza de nossa condição humana. Em tudo semelhante a nós, fora o pecado, o Cristo elevou nossa humanidade à glória da Santíssima Trindade abrindo-nos o caminho para a divindade: “Nisto conhecemos o amor de Deus: Jesus deu sua vida por nós; por isso nós também devemos dar a nossa vida pelos irmãos” (antífona da comunhão)

“Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus. Pois João veio a vós, num caminho de justiça e não crestes nele”. (Mt 21, 31-32).

Jesus proclama a grande misericórdia de Deus. Em todo seu ministério Jesus se fez próximo àqueles que viviam fora dos padrões religiosos da sociedade judaica (cf. Mt 11, 19; Lc 7, 34; Mc 2, 16).

Como terão soado essas palavras de Jesus aos ouvidos dos judeus? Certamente não terão sido acolhidas com tranquilidade, pois Jesus foi simplesmente “politicamente incorreto” dentro das convenções religiosas judaicas de então – e, quem sabe, talvez também em relação às nossas convenções de hoje...

Jesus com suas palavras proclama que Deus não olha para a religião ritualista, mas sim para o essencial, para o coração; afinal, - como diria o Pequeno Príncipe, personagem da obra magistral de Antoine de Saint-Exupéry - “só se vê bem com o coração”!

Jesus certamente não se opõe aos ritos, nem à religião, mas ele chama a atenção para o que é central: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante” (Mt 23, 23).

Jesus também não quer dizer que Deus ama o pecado cometido pelas prostitutas e pelos publicanos, afinal o salário do pecado é morte (cf. Rm 6, 23). Jesus louva, ao invés, o fato destes pecadores arrependidos terem reconhecido a presença de um Deus misericordioso em suas vidas, coisa que os sacerdotes e doutores judeus, em sua pretensa sabedoria e santidade “conquistada” à força do exercício de ritos não conseguiram reconhecer.

Diante deste Evangelho é possível que nos perguntemos: onde hoje está minha vida refletida? Nos pecadores arrependidos e desejosos de experimentar o Deus do perdão e do amor? Ou será que minha vida está refletida numa conduta religiosa que crê conquistar a simpatia de Deus apenas com o esforço pessoal?

“Senhor, eu não sou digno (a) de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo (a)” (Rito da comunhão).

Embora todos sejamos indignos de tal graça, o Senhor olhou para nossa sorte e nos associou ao seu mistério de morte e vida, renovando nossa vida e tornando-nos homens e mulheres novos, dignos: “Ó Deus, que a comunhão nesta Eucaristia renove a nossa vida para que, participando da paixão de Cristo neste mistério, e anunciando a sua morte, sejamos herdeiros da sua glória” (Oração depois da comunhão).

Que nesta liturgia, ao celebrarmos o mistério, possamos todos experimentar o amor e a misericórdia de Deus para conosco e, desse modo, possamos igualmente corresponder a esse amor e essa misericórdia praticando a justiça e a retidão para com o próximo.


Professor Gabriel Frade. Natural de Itaquaquecetuba (São Paulo), Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica.

sábado, 24 de setembro de 2011

Índia: "passividade e negligência" das autoridades

Pároco escreve carta a governo sobre perseguição a cristãos


NOVA DÉLI, quarta-feira, 21 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Depois dos repetidos ataques sofridos pela igreja católica siro-malancar de Nossa Senhora de Hyderabad (Índia), o pároco, Pe. John Felix, escreveu uma carta aberta às autoridades do estado indiano de Andra Pradesh, lamentando o ocorrido.

No texto, o sacerdote afirma que episódios como o de finais de agosto – incêndios de altares, queima de Bíblias, missais, livros de cânticos, crucifixos e ornamentos litúrgicos – “ocorreram somente devido à passividade e à negligência da polícia e de outras autoridades”.

Em sua carta, explica a associação caritativa internacional Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), o Pe. Felix se lamenta pelo fato de que as investigações que se ocupavam dos ataques de 2004 e 2008 tenham sido arquivadas pela polícia sem que se chegasse a nenhuma conclusão.

Em julho de 2004, alguns membros da paróquia – entre eles, um sacerdote – que trabalhavam no terreno em que se estava construindo uma igreja, foram atacados por uma multidão de cerca de 100 pessoas, que os agrediram, insultaram e ameaçaram de morte.

Em junho de 2008, as portas do templo, terminado em 2006, foram fechadas por fora durante um serviço litúrgico, ainda que na igreja houvesse 250 pessoas, inclusive recém-nascidos e doentes.

“Para evitar outros enfrentamentos, seguimos a doutrina do nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, perdoamos e exercitamos o amor ao próximo”, destacou o pároco, fazendo um convite às autoridades para que reabram as investigações passadas e condenem o último incidente ocorrido, porque a paróquia está “sob uma ameaça constante”.

O bispo do lugar, Jacob Mar Barnabas, declarou a AIS que a igreja se encontra atualmente sob proteção da polícia e que a paróquia pretende reparar os danos o quanto antes.

Da mesma forma, pediu aos católicos do mundo inteiro que rezassem pelos seus fiéis, porque “há pessoas que não querem ter a igreja aqui”.

Como igreja católica oriental, a Igreja Siro-Malancar da Índia está em comunhão total com a Santa Sé. Conta com quase 430 mil fiéis.

Emergência

Apesar da difícil situação em que os cristãos indianos vivem, nestes dias a Cáritas está em primeira linha para ajudar as vítimas do terremoto que se verificou no nordeste do país e das inundações do estado de Orissa.

“Estamos muito preocupados pelas devastadoras inundações em Orissa e pelo terremoto que atingiu os estados de Sikkim e a parte norte de Bengala Ocidental”, declarou à agência Fides Anthony Chettri, delegado da Cáritas Índia para a zona nordeste.

O terremoto provocou 74 mortos até agora, centenas de desabrigados e as equipes de resgate têm dificuldades devido às condições meteorológicas adversas. A região mais afetada é a diocese de Darjeeling.

“Estamos em contato com o bispo local para analisar a situação e organizar possíveis intervenções”, afirmou Dom Thomas Menaparampil, arcebispo de Guwahati, ao nordeste da Índia.

“Expressamos nossa solidariedade com as palavras e com a oração, mas estamos preparados também para realizar ações humanitárias coordenadas. Para as áreas atingidas do Nepal e Bhutan, no entanto, os contatos são muito difíceis e será preciso esperar.”

Frente às inundações que arrasaram o estado de Orissa, a Cáritas proporcionou mais de 500 mil rúpias para uma primeira ajuda sanitária imediata às populações atingidas, dado o risco de epidemias, sobretudo no distrito de Puri e de Cuttack.

“O governo, a Igreja e a sociedade civil estão realizando um esforço comum. Voluntários e gente comum estão fazendo o que podem para assistir as vítimas”, contou a Fides o Pe. Manoj Kumar Nayak, encarregado da arquidiocese de Cuttack-Bhubaneswar.

Trabalhando junto ao Catholic relief service, a Igreja local proverá mais de 5.500 alojamentos para os desabrigados internos, independentemente da sua religião, casta ou etnia.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Nota da CNBB: Vencer a corrupção com mobilização social



O Conselho Episcopal Pastoral (CONSEP), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunido em Brasília de 20 a 22 de setembro de 2011, manifesta sua solidariedade e apoio às últimas manifestações populares contra a corrupção e a impunidade, que corroem as instituições do Estado brasileiro.

A crescente interpelação da sociedade para melhor qualificar, social e eticamente, os seus representantes e outros poderes constituídos, se expressou como nova forma significativa do exercício da cidadania. Reveladora dessa consciência cidadã foi, além das atuais marchas contra corrupção, a mobilização durante a Semana da Pátria, que recolheu mais de 150 mil petições via internet em favor da campanha “Vamos salvar a Ficha Limpa”, fruto de ação popular que, neste mês completa um ano.

Atentos para que estas mobilizações se resguardem de qualquer moralismo estéril, incentivamos sua prática constante, com objetivos democráticos, a fim de que, fortificadas, exijam do Congresso Nacional uma autêntica Reforma Política, que assegure a institucionalidade do País.

O Estado brasileiro deve fazer uso dos instrumentos legais para identificar, coibir e punir os responsáveis por atos de corrupção. Sem comprometimento ético, no entanto, será impossível banir de nosso meio a longa e dolorosa tradição de apropriação do Estado, por parte de alguns, para enriquecimento de pessoas e empresas.

Neste sentido, insistimos nas propostas apresentadas, em nota conjunta da CNBB com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no dia da Pátria:

“Para tornar vívido o sentimento de independência em cada brasileiro, devem os poderes eleger PRIORIDADES que reflitam a vontade da população, destacando-se: no Executivo, a necessidade de maior transparência nas despesas, a efetiva aplicação da lei que versa sobre esse tema, bem como a aplicação da “Lei da Ficha Limpa” aos candidatos a cargos comissionados, que também deveriam ser reduzidos.

No Legislativo, a extinção das emendas individuais ao Orçamento, a redução do número de cargos em comissão, o fim do voto secreto em todas as matérias e uma reforma política profunda, extirpando velhas práticas danosas ao aperfeiçoamento democrático.

No âmbito do Judiciário e do Ministério Público, agilidade nos julgamentos de processos e nos inquéritos relativos a crimes de corrupção e improbidade por constituírem sólida barreira à impunidade, bem como o imediato julgamento da Ação Declaratória de Constitucionalidade sobre a Lei Complementar n. 135/2010 (Ficha Limpa)”.

Que o Espírito Santo ilumine todos os que, no exercício de sua cidadania, trabalham pela construção de um Brasil novo, justo, solidário e democrático.

Brasília-DF, 22 de setembro de 2011

P – Nº 0913/11

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Dom Sergio Arthur Braschi
Bispo de Ponta Grossa
Vice-Presidente da CNBB Ad hoc

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

SÃO MATEUS, APÓSTOLO E EVANGELISTA


No tempo de Jesus Cristo, na época em que a Palestina era apenas uma província romana, os impostos cobrados eram onerosos e pesavam brutalmente sobre os ombros dos judeus. A cobrança desses impostos era feita por rendeiros públicos, considerados homens cruéis, sanguessugas, verdadeiros esfoladores do povo. Um dos piores rendeiros da época era Levi, filho de Alfeu, que, mais tarde, trocaria seu nome para Mateus, o "dom de Deus". Um dia, depois de pregar, Jesus caminhava pelas ruas da cidade de Cafarnaum e encontrou com o cruel Levi. Olhou-o com firmeza nos olhos e disse: "Segue-me". Levi, imediatamente, levantou-se, abandonou seu rendoso negócio, mudou de vida, de nome e seguiu Jesus. 

Acredita-se, mesmo, que tal mudança não tenha realmente ocorrido dessa forma, mas sim pelo seu próprio e espontâneo entusiasmo no Messias. Na verdade, o que se imagina é que Levi havia algum tempo cultivava a vontade de seguir as palavras do profeta e que aquela atitude tenha sido definitiva para colocá-lo para sempre no caminho da fé cristã. 

Daquele dia em diante, com o nome já trocado para Mateus, tornou-se um dos maiores seguidores e apóstolos de Cristo, acompanhando-o em todas as suas caminhadas e pregações pela Palestina. São Mateus foi o primeiro apóstolo a escrever um livro contando a vida e a morte de Jesus Cristo, ao qual ele deu o nome de Evangelho e que foi amplamente usado pelos primeiros cristãos da Palestina. Quando o apóstolo são Bartolomeu viajou para as Índias, levou consigo uma cópia. 

Depois da morte e ressurreição de Jesus, os apóstolos espalharam-se pelo mundo e Mateus foi para a Arábia e a Pérsia para evangelizar aqueles povos. Porém foi vítima de uma grande perseguição por parte dos sacerdotes locais, que mandaram arrancar-lhe os olhos e o encarceraram para depois ser sacrificado aos deuses. Mas Deus não o abandonou e mandou um anjo que curou seus olhos e o libertou. Mateus seguiu, então, para a Etiópia, onde mais uma vez foi perseguido por feiticeiros que se opunham à evangelização. Porém o príncipe herdeiro morreu e Mateus foi chamado ao palácio. Por uma graça divina fez o filho da rainha Candece ressuscitar, causando grande espanto e admiração entre os presentes. Com esse ato, Mateus conseguiu converter grande parte da população. Na época, a Igreja da Etiópia passou a ser uma das mais ativas e florescentes dos tempos apostólicos. 

São Mateus morreu por ordem do rei Hitarco, sobrinho do rei Egipo, no altar da igreja em que celebrava o santo ofício da missa. Isso aconteceu porque não intercedeu em favor do pedido de casamento feito pelo monarca, e recusado pela jovem Efigênia, que havia decidido consagrar-se a Jesus. Inconformado com a atitude do santo homem, Hitarco mandou que seus soldados o executassem. 

No ano 930, as relíquias mortais do apóstolo são Mateus foram transportadas para Salerno, na Itália, onde, até hoje, é festejado como padroeiro da cidade. A Igreja determinou o dia 21 de setembro para a celebração de são Mateus, apóstolo.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Santos André Kim Taegón e Paulo Chóng Hasang e seus companheiros, mártires


A Igreja coreana tem, talvez, uma característica única no mundo católico. Foi fundada e estabelecida apenas por leigos. Surgiu no início de 1600, a partir dos contatos anuais das delegações coreanas que visitavam Pequim, na China, nação que sempre foi uma referência no Extremo Oriente para troca de cultura. 

Ali os coreanos tomaram conhecimento do cristianismo. Especialmente por meio do livro do grande padre Mateus Ricci, "A verdadeira doutrina de Deus". Foi o leigo Lee Byeok que se inspirou nele para, então, fundar a primeira comunidade católica atuante na Coréia. 

As visitas à China continuaram e os cristãos coreanos foram, então, informados, pelo bispo de Pequim, de que suas atividades precisavam seguir a hierarquia e organização ditada pelo Vaticano, a Santa Sé de Roma. Teria de ser gerida por um sacerdote consagrado, o qual foi enviado oficialmente para lá em 1785. 

Em pouco tempo, a comunidade cresceu, possuindo milhares de fiéis, Porém começaram a sofrer perseguições por parte dos governantes e poderosos, inimigos da liberdade, justiça e fraternidade pregadas pelos missionários. Tentando acabar com o cristianismo, matavam seus seguidores. Não sabiam que o sangue dos mártires é semente de cristãos, como já dissera o imperador Tertuliano, no início dos tempos cristãos. Assim, patrocinaram uma verdadeira carnificina entre 1785 e 1882, quando o governo decretou a liberdade religiosa. 

Foram dez mil mártires. Desses, a Igreja canonizou muitos que foram agrupados para uma só festa, liderados por André Kim Taegon, o primeiro sacerdote mártir coreano. Vejamos o seu caminho no apostolado. 

André nasceu em 1821, numa família da nobreza coreana, profundamente cristã. Seu pai, por causa das perseguições, havia formado uma "Igreja particular" em sua casa, nos moldes daquelas dos cristãos dos primeiros tempos, para rezarem, pregarem o Evangelho e receberem os sacramentos. Tudo funcionou até ser denunciado e morto, aos quarenta e quatro anos, por não renegar a fé em Cristo. 

André tinha quinze anos e sobreviveu com os familiares, graças à ajuda dos missionários franceses, que os enviaram para a China, onde o jovem se preparou para o sacerdócio e retornou diácono, em 1844. Depois, numa viagem perigosa vivida, tanto na ida quanto na volta, num clima de perseguição, foi para Xangai, onde o bispo o ordenou sacerdote. 

Devido à sua condição de nobre e conhecedor dos costumes e pensamento local, obteve ótimos resultados no seu apostolado de evangelização. Até que, a pedido do bispo, um missionário francês, seguiu em comitiva num barco clandestino para um encontro com as autoridades eclesiásticas de Pequim, que aguardavam documentos coreanos a serem enviados ao Vaticano. Foram descobertos e presos. Outros da comunidade foram localizados, inclusive os seus parentes. 

André era um nobre, por isso foi interrogado até pelo rei, no intuito de que renegasse a fé e denunciasse seus companheiros. Como não o fez, foi severamente torturado por um longo período e depois morto por decapitação, no dia 16 de setembro de 1846 em Seul, Coréia. 

Na mesma ocasião, foram martirizados cento e três homens, mulheres, velhos e crianças, sacerdotes e leigos, ricos e pobres. De nada adiantou, pois a jovem Igreja coreana floresceu com os seus mártires. Em 1984, o papa João Paulo II, cercado de uma grande multidão de cristãos coreanos, canonizou santo André Kim Taegon e seus companheiros, determinando o dia 20 de setembro para a celebração litúrgica.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Cara a cara com uma igreja mártir

Dom Tejado fala do mistério sacerdotal na Albânia

ROMA, domingo, 18 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – A Igreja na Albânia sofreu uma perseguição massiva e violenta sob o ditador comunista Enver Hoxa. Mas o comunismo, diferente do laicismo, não foi capaz de arrancar Deus do coração do povo, afirma um assessor do Vaticano que começou seu ministério sacerdotal na Albânia.

Dom Segundo Tejado Muñoz, subsecretário do Pontifício Conselho Cor Unum, relembra o seu primeiro destino ministerial como a melhor época da sua vida.

Ele falou com o programa de televisão Deus chora na Terra, da Catholic Radio and Television Network (CRTN), em colaboração com Ajuda à Igreja que Sofre, sobre o que um sacerdote deve aprender ao exercer o ministério entre pessoas que arriscaram a vida pela fé.

- Você chegou na Albânia logo depois da morte de Enver Hoxa. Como foi essa experiência?

Dom Tejado: Eu fui para a Albânia trabalhar e ajudar nas primeiras etapas do estabelecimento da Igreja depois da queda do comunismo. Eu não sabia nada da Albânia porque a Espanha tinha pouca relação com os Bálcãs. A minha experiência foi maravilhosa; difícil, mas maravilhosa. Eu entendi que Deus tinha me chamado para ir para a Albânia. É um país muito pobre e eu encontrei um povo necessitado; nos países comunistas, as pessoas muitas vezes ficam contra a fé, mas na Albânia não. O povo respeitava a minha condição sacerdotal. Foi o início da Igreja. O papa foi lá em 1994 e consagrou os primeiros bispos. Foi uma experiência muito boa, mas muito difícil também, porque a Igreja foi perseguida e teve que começar de novo, começar a falar de Jesus, falar do Senhor e organizar toda a Igreja.

- O que foi mais chamativo na chegada à Albânia?

Dom Tejado: Eu vi uma população e uma Igreja que tinha sofrido muito na época comunista, mas a perseguição não destruiu uma coisa no coração deles. Era uma coisa que vinha do céu. Na era comunista eles diziam que o céu estava fechado.

- O país era totalmente ateu. Como é que ainda havia sementes de fé?

Dom Tejado: O comunismo não conseguiu destruir a esperança das pessoas. Aqui nos nossos países, a secularização destruiu essa esperança no nosso coração. Lá, mesmo com o comunismo, o senso de Deus foi mantido. Você pode falar de Deus com aquele povo de uma forma que não consegue na nossa sociedade secularizada, onde as pessoas não encontram nem em Deus nem na fé nada de importante nem interessante. Quem ficou embaixo dos regimes comunistas sabe discutir e se abrir para Deus.

- Os católicos albaneses sofreram uma perseguição muito dura?

Dom Tejado: Eles sofreram muito, a Igreja na Albânia é uma Igreja mártir. Eles continuaram unidos a São Pedro, ao papa, e aquilo foi muito importante para eles. Enver Hoxa pediu para a Igreja católica na Albânia virar uma igreja nacional, como na China, mas os bispos e os padres se negaram. "Nós vamos permanecer em união com Pedro, com o papa". E por isso eles foram perseguidos e sofreram uma situação terrível.

- Esses testemunhos influenciaram a sua vocação de padre?

Dom Tejado: Ah, claro! Quando você fala com os perseguidos, alguma coisa fica em você. Você fica cara a cara com uma pessoa que arriscou a vida por Cristo; isso é muito importante para um padre, arriscar a vida por Cristo e pela Igreja.

- Que riscos, por exemplo?

Dom Tejado: Eu sou chamado a arriscar a vida todo dia por Cristo, fazer a vontade dele. É uma experiência espiritual. Se você conhece uma pessoa que correu riscos não um dia, mas a vida inteira, por Cristo, você se pergunta por que não fazer o mesmo e oferecer a vida por completo a Cristo. Isso é muito importante para um padre... E não só para um padre, mas para todo cristão.

- Uma parte de você ficou na Albânia?

Dom Tejado: A metade do meu coração. Eu fiquei lá nove anos. Foi o meu primeiro destino como padre, e, como primeiro destino, eu me lembro dele com muito carinho. Foi um período muito bonito da minha vida, o melhor. De verdade, e também pelas dificuldades, as cruzes, que Cristo permitiu na minha vida. Ele me tornou mais humilde, e ser humilde, você sabe...

- A Madre Teresa veio da Albânia. Até que ponto ela é importante para a Igreja católica de lá?

Dom Tejado: A Madre Teresa é uma figura muito importante para todos nós. Ela nasceu em Skopje, a parte albanesa da Macedônia. Para os albaneses, ela é muito especial porque, depois da queda do comunismo, os albaneses estavam perdendo a esperança. A mensagem da Madre Teresa, "nada é impossível para Deus", é uma mensagem que eu trouxe de lá, e é uma mensagem para todas as pessoas. Se nós temos esse tipo de modelos na nossa vida, nada é impossível para nós se estamos com Deus. A visita do papa e da Madre Teresa, como dizem os albaneses, foi como se o céu se abrisse de novo. A era comunista tinha fechado o céu, e a Madre Teresa e o papa abriram o céu outra vez.

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Esta entrevista foi realizada por Mark Riedemann para "Deus chora na terra", um programa rádio-televisivo semanal produzido por Catholic Radio and Television Network, (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.

domingo, 18 de setembro de 2011

Papa: como perceber Deus?

É uma "capacidade que existe em nós"

Por Alexandre Ribeiro

ROMA, domingo, 18 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Em uma transmissão na TV pública alemã ARD nesse sábado, o Papa explicou a razão da viagem que realizará à Alemanha nos dias 22 a 25 deste mês.

“Não é turismo religioso e muito menos um show”, disse. “Do que se trata, diz o lema destes dias: Onde está Deus, aí há futuro. Deve se tratar do fato de que Deus volte ao nosso horizonte, este Deus com frequência totalmente ausente, de quem no entanto necessitamos tanto”.

“Talvez vocês me perguntem – prosseguiu o Papa: ‘Mas Deus existe? E se existe, Ele se ocupa verdadeiramente de nós? Podemos chegar até Ele?”

“Sim, é verdade: não podemos colocar Deus sobre a mesa, não podemos tocá-lo como um utensílio ou pegá-lo com a mão, como um objeto qualquer”.

“Devemos desenvolver novamente a capacidade de percepção de Deus, capacidade que existe em nós. Podemos intuir algo da grandeza de Deus na grandeza do cosmos.”

“Podemos utilizar o mundo através da técnica, porque ele está construído de maneira racional. Na grande racionalidade do mundo podemos intuir o espírito do criador do qual provém, e na beleza da criação podemos intuir algo da beleza, da grandeza e também da bondade de Deus”, disse o Papa.

“Na Palavra das Sagradas Escrituras podemos escutar palavras de vida eterna que não vêm simplesmente dos homens, mas vêm d’Ele, e nelas escutamos sua voz.”

“E finalmente – afirmou Bento XVI –, quase vemos Deus também no encontro com as pessoas que foram tocadas por Ele.”

“Não penso só nos grandes: de Paulo a Madre Teresa, passando por Francisco de Assis; mas penso em tantas pessoas simples das quais ninguém fala. No entanto, quando nos encontramos com elas, delas emana algo de bondade, sinceridade, alegria, e sabemos que aí está Deus e que Ele também nos toca.”

Por isso – prosseguiu o pontífice –, neste dias queremos nos empenhar para voltar a ver Deus, para voltar nós mesmos a sermos pessoas pelas quais entre no mundo uma luz de esperança, que é luz que vem de Deus que nos ajuda a viver”.

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM



Leituras: Is 55, 6-9; Sl 144 (145) 2-3.8-9.17-18; Fl 1, 20c-24.27a; Mt 20, 1-16ª

Eis como os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos... Mt 20, 16.

A Igreja nos oferece neste vigésimo quinto domingo do Tempo Comum algumas leituras que contém imagens muito belas sobre o agir de Deus.

A primeira grande imagem é aquela ofertada pela leitura do profeta Isaías – e que será retomada em de alguma forma pelo Evangelho: Deus, ao falar através do profeta, põe em relevo a metáfora do “caminho”: “Vossos caminhos não são os meus caminhos... Quanto os céus estão acima da terra, tanto meus caminhos estão acima dos vossos caminhos” (Primeira leitura vv. 8-9).

Embora essa afirmação possa, à primeira vista, ter o sabor de um Deus distante que não se digna em descer até os caminhos da humanidade, a realidade é bem outra: na verdade ele mesmo se faz caminho para toda a humanidade (“Eu sou o caminho, a verdade e a vida!” Jo 14, 6).

Já no Antigo Testamento o termo caminho - e seus similares - aparece com uma grande freqüência e quase sempre diz respeito à relação entre Deus e Israel: Israel ora se aproxima de Deus, ora se afasta dele tomando outros caminhos.

Nesse sentido, a tradução da Bíblia de Jerusalém intitula significativamente de “dois caminhos” a seguinte passagem do livro do Deuteronômio: “Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade. Se ouves os mandamentos de Yahweh teu Deus, andando em seus caminhos e observando seus mandamentos, seus estatutos e suas normas, viverás e te multiplicarás (...). Contudo, se o teu coração se desviar e não ouvires e te deixares seduzir e te prostrares diante de outros deuses, e os servireis, eu hoje vos declaro: é certo que perecereis!” (Dt 30, 15s).

Como se vê, caminho é também uma metáfora para indicar o grande mistério da liberdade humana perante o dom da vida e a morte, e é também imagem de um mistério ainda maior: a relação de gratuidade entre Deus e o homem.

De fato, de sua parte Deus deixa bem claro que deseja a vida de todo homem e mulher. Ele espera que o homem escolha o caminho da vida, o que não significa que ele fique totalmente impassível diante do sofrimento humano: “Eu sou a salvação do povo, diz o Senhor. Se clamar por mim em qualquer provação eu o ouvirei e serei seu Deus para Sempre” (Antífona da Entrada) e “Abandone o ímpio seu caminho, e o homem mau seus pensamentos e volte a Yahweh, pois terá compaixão dele, ao nosso Deus, porque é rico em perdão” (primeira leitura v. 7).

Aquele que fez a experiência de enveredar pelo caminho que conduz ao distanciamento de Deus e dos irmãos e, ao cair em si, reencontra a luz e a misericórdia de Deus pode, com maior razão, elevar a voz com o salmista, o qual reconhece a benignidade de Deus ao cantar: “Misericordioso e cheio de piedade é o Senhor!” (Salmo responsorial).

Não é um acaso que uma das primeiras denominações que os cristãos usaram para nomear a realidade da Igreja fosse a palavra “caminho”. Os cristãos não são aqueles que uma vez tendo aceitado a fé estão imunes às tentações, ao pecado. São, ao invés, aqueles que não obstante suas limitações seguem em seu caminho tendo o olhar fixo no Oriente, isto é, no Cristo Senhor que estende sua mão para aquele que invoca seu nome.

Nesse sentido, a Didaqué, um documento cristão muito antigo e que se refaz provavelmente ao ensinamento dos apóstolos, começa sua catequese justamente com a imagem dos dois caminhos: “Existem dois caminhos, um de vida e um de morte, mas há uma grande diferença entre esses dois caminhos. O caminho da vida, então, é este: Primeiro, amarás a Deus que te fez, em segundo lugar, amarás o próximo como a ti mesmo, e não farás para o outro o que não queres que seja feito a ti.” (Didaqué, 1)

Essa idéia de um caminho de vida está bem expressa na Oração do dia: “Ó Pai, que resumistes toda a lei no amor a Deus e ao próximo, fazei que, observando o vosso mandamento, consigamos chegar um dia à vida eterna”.

No Evangelho, a parábola dos trabalhadores da vinha retoma, ainda que indiretamente, a idéia do caminho. Dessa vez, a percorrer o caminho não são os trabalhadores. Estes são apresentados como que à espera numa praça. No texto, é o pai de família que sai cedo de sua casa, enveredando-se pelo caminho em busca de trabalhadores.

A narração é bem conhecida: ao labor são chamados diversos trabalhadores em diferentes horas do dia. Ao final da jornada, ao contrário do que se esperaria, aqueles que trabalharam menos tempo recebem a mesma quantia daqueles que trabalhavam desde o início do dia.

Assim como nos tempos de Jesus, essa parábola soa ainda hoje aos nossos ouvidos como algo desconcertante... A tal ponto que se tivéssemos que aplicar essa parábola em nossas relações econômicas, certamente seríamos taxados de injustos.

Aqui gostaríamos de fazer menção ao premiado filme “As Vinhas da Ira” (The Grapes of Wrath), baseado no livro homônimo escrito pelo americano John Steinbeck. O filme narra uma “parábola dos trabalhadores da vinha às avessas”, do momento que explora o aspecto da violência e da injustiça que uma família de trabalhadores sofre ao ser expulsa de suas terras. A partir dessa expulsão, a família se vê na necessidade de peregrinar pelos Estados Unidos em busca de trabalho. Ao longo de boa parte do filme se narram os sofrimentos destas pessoas, ludibriadas e exploradas por proprietários de terra inescrupulosos.

Mas ao que parece a parábola não tem intenção de tratar propriamente de questões relativas à justiça social. A parábola quer mostrar o caminho de Deus ofertado para os homens. Trata-se antes de qualquer coisa de um caminho de retidão e de amor.

É por isso que é o pai de família (trad. Bíblia de Jerusalém) que sai em busca de trabalhadores, e não o contrário. Ao encontrá-los combina o preço justo que era pago por uma jornada de trabalho. Por qual motivo esse pai de família sairia mais vezes em busca de mais trabalhadores para a sua vinha? Seria a propriedade tão grande assim? A parábola nada diz. Quem sabe talvez ele busque mais trabalhadores por outro motivo... É o que parece surgir na próxima cena, quando ao percorrer o caminho que levava à praça ele encontra o último grupo de operários e pergunta: “Por que ficais aí o dia inteiro sem trabalhar?”. A resposta não se faz esperar: “Ninguém nos contratou...”.

Podemos apenas imaginar um trabalhador dos nossos dias, com família, desesperado para trabalhar, quem sabe para comprar comida, pois já nada mais há em casa para se comer. O que passa no coração de um desempregado que procura um dia inteiro trabalho e ao chegar o final do dia, sem nada encontrar, pensa em seu filhinho e que talvez não tenha em casa leite sequer para encher uma mamadeira... “Ninguém nos contratou...”

Eis uma chave de interpretação possível: Deus enxerga os corações. Deus conhece as necessidades reais do homem e age com bondade e gratuidade extremadas. Deus vê a necessidade de seus filhos.

Os outros trabalhadores, contratados por um preço combinado e aceito, são tomados pelo desconcerto e protestam contra o dono da vinha. Curiosamente, a resposta do proprietário desse vinhedo traz um elemento interessante: “Amigo, não fui injusto contigo. Não combinamos um denário? (...) Não tenho o direito de fazer o que quero com o que é meu?” (v. 13s).

Apesar das reclamações dos trabalhadores da primeira hora, o dono os chama ainda de amigos e lhes faz ver que suas motivações são outras; são aquelas de cumprir uma justiça verdadeira através de um ato de bondade e amor para com os mais fracos.

Para trabalhar nessa vinha – imagem de Israel e do novo Israel, isto é, a Igreja – é preciso viver no espírito do Evangelho: “Somente vivei vida digna do evangelho de Cristo”(segunda leitura v. 27).

Nesse sentido, vale a pena recordar o ano de 1988, quando o Papa João Paulo II publicava a exortação apostólica pós-sinodal Chritifideles Laici, sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo. O início desse belo documento usa justamente imagem da parábola de Mateus sobre a vinha do Senhor. Diante dos desafios que a sociedade nos impõe, mais do que nunca são necessários trabalhadores para o Reino. Trabalhadores que por um chamado divino devem contribuir para fazer visível o caminho que leva ao Pai, que é Cristo Senhor.

Para isto, não bastam as próprias forças, mas é necessário estar alimentados pela Palavra e pela Eucaristia: “(...) para que possamos conseguir (...)o que proclamamos pela fé” e para que, ao final, possamos colher os frutos da redenção (Oração sobre as oferendas e Oração depois da comunhão).

[Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo), que originalmente assina esta Seção, está em viagem à Itália para compromissos de sua comunidade. Ele retorna em outubro. Os comentários deste período estão sob sua curadoria.]

terça-feira, 13 de setembro de 2011

São João Crisóstomo, Bispo e Doutor da Igreja


João Crisóstomo foi um grande orador do seu tempo. Todos os escritos dizem que multidões se juntavam ao redor do púlpito onde estivesse discursando. Tinha o dom da oratória e muita cultura, uma soma muito valiosa para a pregação do cristianismo. 

João nasceu no ano 309, em Antioquia, na Síria, Ásia Menor, procedente de família muito rica considerada pela sociedade e pelo Estado. Seu pai era comandante de tropas imperiais no Oriente, um cargo que cedo causou sua morte. Mas a sua mãe, Antusa, piedosa e caridosa, agora santa, providenciou para o filho ser educado pelos maiores mestres do seu tempo, tanto científicos quanto religiosos, não prejudicando sua formação. 

O menino, desde pequeno, já demonstrava a vocação religiosa, grande inteligência e dons especias. Só não se tornou eremita no deserto por insistência da mãe. Mas, depois que ela morreu, já conhecido pela sabedoria, prudência e pela oratória eloqüente, foi viver na companhia de um monge no deserto durante quatro anos. Passou mais dois retirado numa gruta sozinho, estudando as Sagradas Escrituras e, então, considerou-se pronto. Voltou para Antioquia e ordenou-se sacerdote. 

Sua cidade vivia a efervescência de uma revolta contra o imperador Teodósio I. O povo quebrava estátuas do imperador e de membros de sua família. Teodósio, em troca, agia ferozmente contra tudo e contra todos. Membros do senado estavam presos, famílias inteiras tinham fugido e o povo só encontrava consolo nos discursos e pregações de João, chamado por eles de Crisóstomo, isto é,: "boca de ouro". Tanto que foi o incumbido de dar à população a notícia do perdão imperial. 

Alguns anos se passaram, a fama do santo só crescia e, quando morreu o bispo de Constantinopla, João foi eleito para sucedê-lo. Constantinopla era a grande capital do Império Romano, que havia transferido o centro da economia e cultura do mundo de então para a Ásia Menor. Entretanto para João era apenas um local onde o clero estava mais preocupado com os poderes e luxos terrenos do que os espirituais. Lá reinavam a ambição, a avareza, a política e a corrupção moral. Como bispo, abandonou, então, os discursos e dispôs-se a enfrentar a luta e, como conseqüência, a perseguição. 

Arrumou inimigos tanto entre o clero quanto na Corte. Todos, liderados pela imperatriz Eudóxia, conseguiram tirar João Crisóstomo do cargo, que foi condenado ao exílio. Mas essa expulsão da cidade provocou revolta tão intensa na população que o bispo foi trazido de volta para reassumir seu cargo. Entretanto, dois meses depois, foi exilado pela segunda vez. Agora, já com a saúde muito debilitada, ele não resistiu e morreu. Era 14 de setembro de 407. 

Sua honra só foi limpa quando morreu a família imperial e voltou a paz entre o clero na Igreja. O papa ordenou o restabelecimento de sua memória. O corpo de João Crisóstomo foi trazido de volta a Constantinopla em 438, num longo cortejo em procissão solene. Mais tarde, suas relíquias foram trasladadas para Roma, onde repousam no Vaticano. Dos seus numerosos escritos destacasse o pequeno livro "Sobre o sacerdócio", um clássico da espiritualidade monástica. São João Crisóstomo é venerado um dia antes da data de sua morte, em 13 de setembro, com o título de doutor da Igreja, sendo considerado um modelo para os oradores clérigos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Santíssimo Nome de Maria, memória



A Liturgia celebra hoje, 12 de setembro, o Nome Santíssimo da Virgem Maria (Miryam, em hebraico). O objetivo dessa festa é que os fiéis possam se recomendar a Deus, de modo especial, por intercessão de Sua Santíssima Mãe, as necessidades da Igreja e as próprias necessidades, e agradecer a Deus pelas graças recebidas por intermédio de Sua Mãe. Esta festa foi concedida na Espanha em 1513 e espalhou-se por todo o país; em 1683 o Papa Inocêncio XI a estendeu para toda a Igreja do Ocidente, como um ato de ação de graças pelo levantamento do cerco de Viena e a derrota dos turcos por João Sobieski, rei da Polônia. Na época ela foi estabelecida para o domingo dentro da oitava da Natividade de Nossa Senhora; hoje se celebra na data do triunfo de Sobieski. 

O nome de uma pessoa é algo muito importante na Bíblia, pois representa a própria pessoa. Certamente São Joaquim e Santa Ana foram inspirados pelo Céu para escolher esse Nome à Virgem que seria um dia a Mãe do Redentor e nossa Mãe. 

São Lucas registra: “O nome da Virgem era Maria”. O anjo enviado por Deus diz a ela: “não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus”. Segundo os mariólogos o nome Miryam pode ter origens diversas: “Uns derivam o nome da raiz mery, da língua egípcia e significa mui amada. Outros dizem que provém do siríaco e quer dizer senhora, opinião de pouca solidez. A sentença mais freqüente é a que o deriva do hebraico. Dentro desta língua cabem muitas interpretações. Assim se enumeram as seguintes: “Mar amargo e rebelião; Gota do mar; Senhor de minha linhagem; Estrela do Mar; Esperança; Excelsa ou sublime; Pingue, Robusta; Amargura e Mirra”. O Cônego José Vidigal, citando Fraine, diz que “apesar de sessenta tentativas que já foram feitas a etimologia científica do nome de Maria continua incerta”. 

Mais importante do que o significado exato desse Nome, é que é um Nome Poderoso, por ser o da Mãe de Deus; e que deve ser invocado sempre. O Padre Antônio Vieira diz: “Só vos digo que invoqueis o nome de Maria quando tiverdes necessidade dele; quando vos sobrevier algum desgosto, alguma pena, alguma tristeza; quando vos molestarem os achaques do corpo, ou vos não molestarem os da alma; quando vos faltar o necessário para a vida ou desejardes o supérfluo para a vaidade; quando os pais, os filhos, os irmãos, os parentes se esquecerem das obrigações do sangue; quando vo-lo desejarem beber a vingança, o ódio, a emulação, a inveja; quando os inimigos vos perseguirem, os amigos vos desampararem, e donde semeastes benefícios, colherdes ingratidões e agravos; quando os maiores vos faltarem com a justiça, os menores com o respeito, e todos com a proximidade; quando vos inchar o mundo, vos lisonjear a carne, e vos tentar o demônio, que será sempre e em tudo; quando vos virdes em alguma dúvida ou perplexidade, em que vós não saibais resolver nem tomar conselho; quando vos não desenganar a morte alheia, e vos enganar a própria, sem vos lembrar a conta de quanto e como tendes vivido e ainda esperais viver; quando amanhecer o dia, sem saberdes se haveis de anoitecer, e quando vos recolherdes à noite, sem saber se haveis de chegar à manhã; finalmente, em todos os trabalhos, em todas as aflições, em todos os perigos, em todos os temores, e em todos os desejos e pretensões, porque nenhum de nós conhece o que lhe convém; em todos os sucessos prósperos ou adversos, e muito mais nos prósperos, que são os mais falsos e inconstantes; e em todos os casos e acidentes súbitos da vida, da honra, da fazenda, e, principalmente, nos da consciência, que em todos anda arriscada, e com ela a salvação. E como em todas estas coisas, em cada uma delas necessitamos de luz, alento e remédio mais que humano, se em todas e cada uma recorrermos à proteção e amparo da mãe das misericórdias, não há dúvida que, obrigados da mesma necessidade, não haverá dia, nem hora, nem momento em que não invoquemos o nome de Maria”. (apud Con. Vidigal)São Bernardo, Dr. da Igreja dizia e rezava assim: “Seguindo-a não te desviarás”: 

“Maria é essa Estrela esplêndida que se eleva sobre a imensidão do mar, brilhando pelos próprios méritos, iluminando por seus exemplos. Ó tu, que te sentes, longe da terra firme, levado pelas ondas deste mundo, no meio dos temporais e das tempestades, não desvies o olhar da luz deste Astro, se não quiserdes perecer. Se o vento das tentações se elevar, se o recife das provações se erguer na tua estrada, olha para a Estrela, chama por Maria. Se fores sacudido pelas vagas do orgulho, da ambição, da maledicência, do ciúme, olha para a Estrela, chama por Maria. Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, que não se afaste de teu coração; e, para obter o auxílio da sua oração, não te descuides do seu exemplo de vida. Seguindo-a, terás a certeza de não te desviares; suplicando-lhe, de não desesperar; consultando-a, de não te enganares. Se ela te segurar, não cairás; se te proteger, nada terás de temer; se te conduzir, não sentirás cansaço; se te for favorável, atingirás o objetivo.”   

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br

sábado, 10 de setembro de 2011

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM



Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos...

Leituras: Eclo 27, 33 – 28, 9; Rm 14, 7-9; Mt 8, 21 -35


“Quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim?” (Mt 18,21). À pergunta de Pedro, Jesus responde estendendo a já generosa concessão do apóstolo, até o infinito horizonte divino da medida sem medida. “Até sete vezes?.... Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (18,22). Na linguagem bíblica, estes números têm significado simbólico: indicam plenitude, totalidade. Jesus os multiplica por si mesmos, acentuando o paradoxo. Ele sugere que a medida autêntica da misericórdia e do perdão recíproco não se encontra no homem. Sua nascente é divina, está no próprio Pai, por isso não aguenta cálculos e medidas estabelecidas segundo razoáveis critérios humanos de proporção entre culpa, arrependimento e perdão. 

O céu do Pai inicia na terra dos homens, quando eles se reconhecem e se sustentam como irmãos, na fragilidade do pecado assim como no perdão recebido por Deus e partilhado. Jesus abre o caminho com seu constante compromisso de solidariedade e de misericórdia para com os marginalizados, os pobres, os pecadores, os adversários hostis que procuram sua morte.

A parábola que apresenta a estranha maneira de acertar as contas do patrão com seus empregados se faz carne na vida e na morte de Jesus. Na cruz, Jesus invoca: “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

Para os discípulos, tal perspectiva é extraordinário dom de graça, potencialidade a desenvolver, chamado desafiador a seguir, tendo os olhos fixos em Jesus, que revelou o coração do Pai, e sustentados pelo exemplo de tantas testemunhas do passado e do presente, que os precederam no seguimento do mestre divino.

“Se amais os que vos amam, que graça alcançais?.... Muito pelo contrário, amai vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca. Será grande a vossa recompensa, e sereis filhos do Altíssimo, pois ele é bom para com os ingratos e com os maus. Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 32. 35-36).

O exemplo de Jesus se torna ensino dado com autoridade e palavra eficaz. Dele nasce uma nova geração de homens e mulheres que vivem na própria carne a qualidade de vida, própria de Deus, tornando-se “seus filhos e filhas”, segundo a sublime palavra de Jesus. A gratuidade do amor até o perdão e o amor aos inimigos são atitudes e gestos divinos. “O amor, diz São Bernardo, basta a si mesmo... É para seu mérito, seu próprio prêmio. Além de si mesmo, amor não exige motivo nem fruto. Seu fruto é o próprio ato de amar. Amo porque amo, amo para amar”. (Dos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, 83,4; LH IV; na festa de São Bernardo)

Através dos gestos de misericórdia e de perdão dos discípulos de Jesus, manifesta-se a incomensurável misericórdia do Pai, e se atua o reino de Deus na terra.

O amor radical de Deus para com o homem se transforma no amor radical do homem para com seu próximo. O agir humano se transforma no agir divino. A pessoa, renovada em Cristo, torna-se tanto mais rica em humanidade quanto mais divinamente orientada.

A comunidade para a qual Mateus escreve seu evangelho, com o fim de iluminar-lhe a vida, é a mesma que tinha nascido pela potência do Espírito no dia de Pentecostes em Jerusalém, e que tinha levantado a admiração de todo o povo pela união profunda entre seus membros, embora provindos de nações, línguas, culturas e experiências tão diferentes. Esta comunhão profunda entre os irmãos se tornou motivo de louvor ao Senhor e de atração de novos irmãos, enquanto “o Senhor acrescentava cada dia ao seu número os que seriam salvos” (At 2, 46-47).

Com o decorrer do tempo e o ampliar-se do número dos novos discípulos, as relações entre os irmãos de origem judia e os de origem pagã se tornam complicadas ao nível pessoal, (cf At 6,1: queixas dos gregos e instituição dos 7 diáconos), assim como na interpretação da missão e do ensino de Jesus, o Messias de Deus e o Salvador (cf At 10-11: missão privilegiada de Israel e extensão do chamado aos pagãos).

Os Atos dos Apóstolos testemunham abundantemente os desafios e o difícil caminho que a jovem comunidade cristã é chamada a enfrentar, sob o discernimento do Espírito, sob a colaboração dos irmãos, e a direção dos apóstolos. Eles mesmos – como atestam as experiências de Pedro, de Paulo e de Tiago, testemunhadas pelos Atos dos Apóstolos e pelas Cartas de Paulo – foram submetidos pelo Senhor a repetidas passagens de conversão interior e de mudanças de estilo nas relações recíprocas.

A comunidade experimenta a fragilidade da fé: dúvidas sobre a fidelidade à Lei de Moisés e a passagem à pessoa de Jesus, o cumprimento da Lei, as faltas relativas à caridade, o peso dos prejulgamentos, a pretensão de possuir em exclusividade os dons do Espírito.

Existe amplo espaço para tensões, faltas, misericórdia e... perdão recíproco! 

Como reagir? Mateus indica o caminho, propondo a parábola de Jesus. A generosa acolhida do irmão que falha, acompanhada pelo perdão recíproco, é condição essencial para viver o perdão do Pai, que é a substância da boa nova anunciada por Jesus, e por ele entregue como fundamento do novo povo de Deus. Deixar-se guiar por esta atitude generosa do Pai faz da comunidade dos discípulos a casa de Deus na terra.

O contraste entre a enorme dívida perdoada ao empregado por parte do patrão, movido por compaixão, e, por outro lado, a incapacidade do empregado beneficiado, de quitar a pequena soma devida a ele por seu companheiro, destaca a absoluta gratuidade do perdão do Pai, e como o perdão recíproco constitui uma real participação ao estilo do Pai por parte da comunidade. A comunidade cristã se configura como comunidade de perdoados, que o Espírito do Ressuscitado (cf Jo 20, 22-23) faz capazes de se perdoar reciprocamente, preanunciando assim profeticamente a reconciliação definitiva de todos na casa do Pai.

A oração entregue por Jesus aos discípulos é muito mais do que uma extraordinária fórmula de oração brotada do coração do Filho bem amado. Ela exprime a profunda identidade da comunidade cristã, que vive a boa nova do perdão do Pai, invocado, recebido e partilhado. “Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome.... E perdoa-nos as nossas dívidas como também nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6, 9.12).

Através da experiência do perdão e da reconciliação, cada dia a comunidade está aprendendo que “nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou-nos seu filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, devemos, nós também, amar-nos uns aos outros ” (1 Jo 4, 10-11; cf Rm 5, 8-12).

A Igreja, que “é em Cristo como que o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Constituição Lumen Gentium n.1), celebra a si mesma no Sacramento da Penitência e reconciliação.

A mesma Igreja está bem consciente que assumir e fazer próprio o estupefativo comportamento divino é fruto do nosso mergulhar no mistério pascal de Cristo e não do nosso esforço de autodesenvolvimento moral. É a graça que junto com ela pedimos como presente da eucaristia de hoje: “Ó Deus, que a ação da vossa eucaristia penetre todo o nosso ser, para que não sejamos movidos por nossos impulsos, mas pela graça do vosso sacramento” (Oração depois da comunhão).

De fato, os impulsos nos empurram para outra direção. Para a direção que aparentemente parece satisfazer a sede de se afirmar e dominar o outro, quando na realidade nos prende dentro de um processo sem fim de autodestruição e de morte. “Se ele que é um mortal, guarda rancor, quem é que vai alcançar perdão para os seus pecados? Lembra-te do teu fim e deixa de odiar; pensa na destruição e na morte e persevera nos mandamentos” (Eclo 28, 5-6). Ao contrário, o perdão concedido ao irmão que nos ofende abre ao perdão de Deus: “Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim, quando orares, teus pecados serão perdoados” (Eclo 28, 2).

Se a nossa vida está de verdade orientada para o Senhor, nada nos separa dele, quaisquer que sejam os acontecimentos da vida. Mesmo na morte, ficamos em relação com o Senhor da vida. A partir desta relação profunda com o Senhor, reencontramos plenamente os irmãos (2 Leitura – Rm 14, 7-9).

Dois chefes leigos de estado, o da Itália e o da Croácia, nações que no passado se combateram duramente em sangrentas guerras e vinganças, há poucos dias (4 de setembro 2011), falando em nome dos respectivos povos, traduziram em termos políticos de alto valor, o ensino de Jesus. Depois de ter reconhecido cada um as culpas da própria nação, proclamaram: “Agora nos perdoamos reciprocamente o mal que fizemos uns aos outros”.

Com o apóstolo Paulo, poderíamos afirmar que esta maneira de relacionar-nos, imitando o estilo de Deus, é o verdadeiro culto no Espírito ao Senhor, pois nela se manifesta a maneira nova de pensar, de julgar e de agir, que leva consigo a conformação a Cristo (cf Rm 12, 1-2).

De fato esta é a atitude que pede o próprio Jesus: “Portanto, se estiveres para trazer tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e depois virás apresentar tua oferta” (Mt 5, 24).

A reforma litúrgica promovida pelo Concílio e aprovada pelo Papa Paulo VI tem introduzido como parte integrante da celebração eucarística o gesto de nos saudarmos uns aos outros como um sinal de reconciliação e de paz, antes de aproximar-se ao altar para receber a santa comunhão. É um gesto exigente e profético na sua simplicidade. É importante que seja cumprido com participação interior e devoção, como se convém aos irmãos e irmãs que se aproximam à mesa do Senhor.

Com o magnífico Salmo responsorial (Sl 102,1-12), contemplamos o coração de Deus, tão promissório pela bondade, a fidelidade e o amor que continua nos acompanhando no nosso caminho, assim como guiou nossos pais. A complicada história da aliança o testemunha. “Bendize, ó minha alma ao senhor, e todo meu ser seu santo nome... Pois ele te perdoa toda culpa e cura toda tua enfermidade... Não fica sempre repetindo as suas queixas, nem guarda eternamente seu rancor... Quanto os céus por sobre a terra se elevam, tanto é grande o seu amor aos que o temem...” (Sl 102, 1-4; 9-12). Desta magnífica história, por sua graça, somos hoje os protagonistas, junto com o Senhor. Deste salmo de louvor, os novos compositores.

Movida por esta consciência, cheia de maravilha e de gratidão, a Igreja, com a reforma litúrgica depois do Concílio, tem elaborado pela primeira vez na história da liturgia duas Orações Eucarísticas (a 7a e a 8a do Missal Romano), nas quais o tema-guia do louvor e do agradecimento ao Pai é o dom da reconciliação e do perdão em Cristo e entre os irmãos. Os dois textos litúrgicos merecem profunda atenção, sendo uma rica fonte de oração e de catequese.

Transformando o evangelho de hoje em oração cheia de esperança, o prefácio da Oração VIII canta: “No meio da humanidade, dividida em contínua discórdia, sabemos por experiência que sempre levais as pessoas a procurar a reconciliação. Vosso Espírito Santo move os corações, de modo que os inimigos voltem à amizade, os adversários se dêem a mão e os povos procurem reencontrar a paz”.

Temos a percepção que as perspectivas a nós oferecidas pela palavra do Senhor nos superem demais? Possa nos sustentar a sábia palavra de um homem de Deus, rico da sua experiência: “Guarda pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo de tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem, e tua alma se deleitará na fartura... Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará” (São Bernardo, Sermão 5,3, sobre o Advento do Senhor; LH I, I semana do Advento, quarta-feira).