Rádio

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

São João Bosco, presbítero



João Melquior Bosco, nasceu no dia 16 de agosto de 1815, numa família católica de humildes camponeses em Castelnuovo d´Asti, no norte da Itália, perto de Turim. Órfão de pai aos dois de idade, cresceu cercado do carinho da mãe, Margarida, e amparo dos irmãos. Recebeu uma sólida formação humana e religiosa, mas a instrução básica ficou prejudicada, pois a família precisava de sua ajuda na lida do campo. 

Aos nove anos, teve um sonho que marcou a sua vida. Nossa Senhora o conduzia junto a um grupo de rapazes desordeiros que o destratava. João queria reagir, mas a Senhora lhe disse: "Não com pancadas e sim com amor. Torna-te forte, humilde e robusto. À seu tempo tudo compreenderás". Nesta ocasião decidiu dedicar sua vida a Cristo e a Mãe Maria; quis se tornar padre. Com sacrifício, ajudado pelos vizinhos e orientado pela família, entrou no seminário salesiano de Chieri, daquela diocese. 

Inteligente e dedicado, João trabalhou como aprendiz de alfaiate, ferreiro, garçom, tipógrafo e assim, pôde se ordenar sacerdote, em 1841. Em meio à revolução industrial, aconselhado pelo seu diretor espiritual, padre Cafasso, desistiu de ser missionário na Índia. Ficou em Turim, dando início ao seu apostolado da educação de crianças e jovens carentes. Este "produto da era da industrialização", se tornou a matéria prima de sua Obra e vida. 

Neste mesmo ano, criou o Oratório de Dom Bosco, onde os jovens recebiam instrução, formação religiosa, alimentação, tendo apoio e acompanhamento até a colocação em um emprego digno. Depois, sentiu necessidade de recolher os meninos em internatos-escola, em seguida implantou em toda a Obra as escolas profissionais, com as oficinas de alfaiate, encadernação, marcenaria, tipografia e mecânica, repostas às necessidades da época. Para mestres das oficinas, inventou um novo tipo de religioso: o coadjutor salesiano. 

Em 1859, ele reuniu esse primeiro grupo de jovens educadores no Oratório, fundando a Congregação dos Salesianos. Nos anos seguintes, Dom Bosco criou o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora e os Cooperadores Salesianos. Construiu, em Turim, a basílica de Nossa Senhora Auxiliadora, e fundou sessenta casas salesianas em seis países. Abriu as missões na América Latina. Publicou as Leituras Católicas para o povo mais simples. 

Dom Bosco agia rápido, acompanhou a ação do seu tempo e viveu o modo de educar, que passou à humanidade como referência de ensino chamando-o de "Sistema Preventivo de Formação". Não esqueceu do seu sonho de menino, mas, sobretudo compreendeu a missão que lhe investiu Nossa Senhora. Quando lhe recordavam tudo o que fizera, respondia com um sorriso sereno: "Eu não fiz nada. Foi Nossa Senhora quem tudo fez". 

Morreu no dia 31 de janeiro de 1888. Foi beatificado em 1929 e canonizado por Pio XI em 1934. São João Bosco, foi proclamado "modelo por excelência" para sacerdotes e educadores. Ecumênico, era amigo de todos os povos, estimado em todas as religiões, amado por pobres e ricos; escreveu: "Reprovemos os erros, mas respeitemos as pessoas" e se fez , ele próprio, o exemplo perfeito desta máxima.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mensagem de Dom Moacir Silva sobre o “Pinheirinho”

A vida e a dignidade humana estão acima de qualquer outro valor

Desde antes da reintegração de posse do terreno denominado “Pinheirinho”, em São José dos Campos-SP, venho afirmando que “a vida e a dignidade humana estão acima de qualquer outro valor, e por isso necessitam ser respeitadas e promovidas. Tudo o que atenta contra a vida e a dignidade humana precisa ser rejeitado”.

Neste tempo de negociações e ações efetivas dos Poderes judiciário e municipal, a Diocese de São José dos Campos sempre esteve atenta a cada passo e a cada decisão, sempre tendo o cuidado de lembrar a todos os envolvidos que a vida está acima de tudo, que cada ser humano é um filho amado do Deus.

Por meio da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e seu pároco, Padre Ronildo Aparecido da Rosa, toda a comunidade é acompanhada bem de perto. Junto à comunidade sempre foi desenvolvido um trabalho evangelizador e pastoral.

Num primeiro momento, famílias ainda confusas com a rápida saída de suas casas, procuraram abrigo na paróquia, que mesmo sem a estrutura necessária, esteve de portas abertas para cada irmão e irmã que buscou ali um repouso e uma resposta sobre seu futuro.

Esperamos agora que as famílias continuem a receber a assistência necessária para restabelecerem suas vidas e sejam alojadas dignamente.

Neste momento de sofrimento, manifesto minha solidariedade e minha proximidade espiritual às pessoas da comunidade do Pinheirinho. Estou acompanhando bem de perto a atual situação e asseguro minha oração por todos.

São José dos Campos, 24 de janeiro de 2012

Dom Moacir Silva

Bispo Diocesano de São José dos Campos

domingo, 29 de janeiro de 2012

4º DOMINGO DO TEMPO COMUM





Leituras: Dt 18,15-20; Sl 94(95); 1Cor 7,32-35

“Uma nova doutrina e com tal autoridade!” (Mc.1,27)

1. Jesus surpreende, não tanto pelo que ensina, mas pelo modo como ensina: «porque os ensinava com autoridade e não como os escribas» (Mc.1,22). O que está em causa, não é a matéria de ensino; é sobretudo a viva «impressão» que a pessoa de Jesus, causa nos seus interlocutores! A sua autoridade não lhe vem da idade, nem do curso superior, nem do voto do povo, nem de um lugar de poder! Vem-lhe, afinal, de dentro, vem-lhe da coerência do seu testemunho:Ele diz e faz. Ele faz o que diz. A sua Palavra é eficaz e os seus gestos falam por si! Sem dúvida, “o testemunho da vida é a forma simples e espontânea de irradiar valores e a credencial das palavras que se comunicam”[1]!

2. Aqui está um verdadeiro desafio, para todos os educadores, para padres, pais, padrinhos, catequistas e professores: o de uma autoridade “que é mais do que um poder”. Assim o disse, aliás, um conhecido escriba da praça, o psiquiatra Daniel Sampaio. Num artigo publicado há oito dias[2], dizia ele: “Não se pode educar, ensinar ou dirigir sem autoridade! Um pai recebe um poder legítimo para educar; um professor é investido do poder para ensinar; um chefe democrático é escolhido para dirigir. A autoridade, todavia, é mais do que um poder, permite ir mais além se for legitimada pela dignidade pessoal de quem a exerce”. Há muito o tinham dito os Bispos Portugueses, numa Nota sobre a Educação: “A autoridade do «mestre» em educação, passa mais pelo que ele vive e faz e não só pelo que diz. Educar, como processo de conduzir e alimentar, não é substituir-se ao educando: é caminhar com ele. Nesse caminho comum, os modelos e a palavra testemunhada pela vida têm lugar relevante, mesmo insubstituível”[3].

3. Fala-se hoje muito de voltar a dar autoridade aos professores, até de penalizar os pais, que são permissivos na educação dos filhos, de investir na autoridade dos agentes de segurança. E a tentação, para repor a ordem na casa, na escola e na sociedade, pode ser a de um novo autoritarismo! Temos de parar para pensar! Todos reconhecemos que “numa sociedade em que os direitos são sempre realçados e onde não é usual falar de deveres, em territórios onde impera o individualismo e o narcisismo, o exercício da autoridade não é fácil”[4].

4. Todavia, “pais e professores lúcidos sabem que não podem voltar a espancar os mais novos, mas por vezes hesitam no caminho a seguir, deixando instalar a permissividade e o caos, como acontece em muitas casas e em tantas escolas. A pedagogia da submissão acabou, mas a pedagogia da liberdade organizada, tem ainda de fazer o seu caminho. Os adultos que educam ou ensinam, por vezes esquecem como o afeto e a exigência são as armas fundamentais a utilizar junto dos mais novos. Ser exigente sem afeto é introduzir a frieza das regras e dos castigos, onde deveria estar o amor e a compreensão. Ser afectuoso sem exigir, é acolher sem limites e impedir a autonomia e a resistência à frustração. A verdade é que a autoridade, face às crianças, tem de partir de uma base segura de entendimento, onde o mais novo, sinta confiança no mais velho e este esteja disponível para a viagem conjunta que é a construção de uma relação. Os pais com autoridade, sem autoritarismo, são calorosos com os seus filhos e educam com firmeza para a responsabilidade, pois não ignoram que o mais importante é ligar a disciplina ao ensino e ao autocontrolo da criança. Nunca ao medo do castigo, ou ao fantasma da retaliação. Por isso, a educação tem de se preocupar com a formação do caráter dos mais novos, para além do esforço exigido com a melhor aprendizagem dos conteúdos”[5].

5. Falo daqui a cristãos educadores e a educadores cristãos. E lembro-vos mais uma vez: “Na tradição cristã, o testemunho faz parte essencial do anúncio: o ser é o processo mais eficaz e o suporte didáctico mais autêntico do aprender a ser. Por isso se aplica a todo o educador cristão, esta máxima de vida: “crê o que lês, ensina o que crês, vive o que ensinas” (Pontifical da Ordenação de Diácono)[6]”. Esta, e não outra, é a verdadeira força da autoridade do educador cristão, que bem sabe que “a educação é coisa do coração e que só Deus é o seu dono!”[7]



[1] CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Nota Pastoral, Educação: Direito e dever, 6.01.2002, n.14

[2] DANIEL SAMPAIO, A deriva autoritária, in Pública, 22.01.12, pág.49

[3] CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Nota Pastoral, Educação: Direito e dever, n.14

[4] DANIEL SAMPAIO, A deriva autoritária, 49

[5] Ibidem

[6] Cf. CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Nota Pastoral, Educação: Direito e dever, n.14

[7] SÃO JOÃO BOSCO, Epistolário, 4, 209; op. Cit. BENTO XVI, Discurso, 05.06.2005

sábado, 28 de janeiro de 2012

Santo Tomás de Aquino, presbítero e doutor da igreja



Doutor da Igreja, professor de teologia, filosofia e outras ciências nas principais universidades do mundo em seu tempo; frei caridoso, estudioso dos livros sagrados, sucessor na importância teórica de São Paulo e Santo Agostinho. Assim era Tomás d´Aquino, que não passou de um simples sacerdote. Muito se falou, se fala e se falará deste Santo, cuja obra perdura atualíssima ao longo dos séculos. São dezenas de escritos, poesias, cânticos e hinos até hoje lidos, recitados e cantados por cristãos de todo o mundo. 

Tomás nasceu em 1225, no castelo de Roccasecca, na Campânia, da família feudal italiana dos condes de Aquino. Possuía laços de sangue com as famílias reais da Itália, França, Sicília e Alemanha, esta ligada à casa de Aragão. Ingressou no mosteiro beneditino de Montecassino aos cinco anos de idade, dando início aos estudos que não pararia nunca mais. Depois, freqüentou a Universidade de Nápoles, mas, quando decidiu entrar para a Ordem de São Domingos encontrou forte resistência da família. Seus irmãos chegaram a trancá-lo num castelo por um ano, para tentar mantê-lo afastado dos conventos, mas sua mãe acabou por libertá-lo e, finalmente, Tomás pôde se entregar à religião. Tinha então dezoito anos. Não sendo por acaso a sua escolha pela Ordem de São Domingos, que trabalha para unir Ciência e Fé em favor da Humanidade. Este sempre foi seu objetivo maior. 

Foi para Colônia e Paris estudar com o grande Santo e doutor da Igreja, Alberto Magno. Por sua mansidão e silêncio foi apelidado de "boi mudo", por ser também, gordo, contemplativo e muito devoto. Depois se tornou conselheiro dos papas Urbano IV, Clemente IV e Gregório X, além do rei São Luiz da França. Também, lecionou em grandes universidades de Paris, Roma, Bologna e Nápoles e jamais se afastou da humildade de frei, da disciplina que cobrava tanto de si mesmo quanto dos outros e da caridade para com os pobres e doentes. 

Grande intelectual, vivia imerso nos estudos, chegando às vezes a perder a noção do tempo e do lugar onde estava. Sua norma de vida era: "oferecer aos outros os frutos da contemplação". Sábios e políticos tentaram muitas vezes homenageá-lo com títulos, honras e dignidades, mas Tomás sempre recusou. Escrevia e publicava obras importantíssimas, frutos de seus estudos solitários desfrutados na humildade de sua cela, aliás seu local preferido. Seus escritos são um dos maiores monumentos de filosofia e teologia católica. 

Tomás D´Aquino morreu muito jovem, sem completar os quarenta e nove anos de idade, no mosteiro de Fossanova, a caminho do II Concílio de Lion, em 07 de março de 1274, para o qual fora convocado pelo papa Gregório X. Imediatamente colégios e universidades lhe prestaram as mais honrosas homenagens. Suas obras, a principal, mais estudada e conhecida, a "Summa Teológica", foram a causa de sua canonização, em 1323. Disse sobre ele, nessa ocasião, o papa João XXII: "Ele fez tantos milagres, quantas proposições teológicas escreveu". É padroeiro das escolas públicas, dos estudantes e professores. 

No dia 28 de janeiro de 1567, o papa São Pio V lhe deu o título de "doutor da Igreja", e logo passou a ser chamado de "doutor angélico", pelos clérigos. Em toda a sua obra filosófica e teológica tem primazia à inteligência, estudo e oração; sendo ainda a base dos estudos na maioria dos Seminários. Para isso contou, mais recentemente, com o impulso dado pelo incentivo do papa Leão XIII, que fez reflorescer os estudos tomistas. 

A sua festa litúrgica é celebrada no dia 28 de janeiro ou no dia 07 de março. Seus restos mortais estão em Tolouse, na França, mas a relíquia de seu braço direito, com o qual escrevia, se encontra em Roma.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

São Timóteo e São Tito, bispos



São Timóteo

O calendário da Igreja volta a homenagear Timóteo, agora juntamente com Tito, por terem ambos vivenciado toda a experiência de São Paulo, escolhendo por este motivo, o dia após a celebração da conversão do apóstolo. Os dois têm suas páginas individuais, destacando suas vidas. 

Um santo muito antigo, venerado há muitos e muitos séculos, morreu no ano de 97. Timóteo era o "braço direito" do apóstolo Paulo, seu grande amigo e companheiro, sendo considerado, ao lado do mestre, como o primeiro e corajoso pregador do cristianismo. Quase sempre evangelizaram juntos, mas por várias vezes, Paulo o mandou como representante, em quase todos os lugares importantes daquela época, enquanto ele próprio abria novos caminhos. 

Timóteo nasceu em Listra, Ásia. Seu pai era grego e pagão, a mãe se chamava Eunice e era judia. Foi educado dentro do judaísmo. Assim, quando o apóstolo Paulo esteve naquela cidade, tanto sua avó, mãe e ele próprio, então com vinte anos, se converteram. A partir daí, Timóteo decidiu que o seguiria e nunca mais se afastou do santo apóstolo. 

Fiel colaborador de Paulo, o acompanhou em suas viagens a Filipos, Tessalônica, Atenas, Corinto, Éfeso e Roma. Exceto quando ele o enviava para algumas missões nas igrejas que tinham fundado, com o objetivo de corrigir erros e manter a paz. Como fez em Tessalônica, com o seu aspecto de rapaz frágil. Porém "que ninguém despreze a tua jovem idade", lhe escreveu Paulo na primeira das duas cartas pessoais. E aos cristãos de Corinto o apresenta assim: "Estou lhes mandando Timóteo, meu filho dileto e fiel no Senhor: manterá em suas memórias os caminhos que lhes ensinei". 

Na Palestina, o apóstolo ficou preso durante dois anos e tudo indica que Timóteo foi seu companheiro nessa situação também. Mas ao final deste período, ele foi colocado em liberdade, enquanto Paulo era levado para Roma. 

Quando Paulo retornou, por volta do ano 66, Timóteo era o bispo de Éfeso e, com este cargo, foi nomeado pelo apóstolo para liderar a Igreja da Ásia Menor. As epístolas de Paulo, à ele endereçadas, viraram pura literatura cristã e se tornaram documentos preciosos de todos os tempos, como leme e bússola para a Igreja. 
Mas, a sua morte nos ilustra muito bem o que era ser cristão e apóstolo naquela época. Durante uma grande festa onde era adorada a deusa Diana, Timóteo se colocou no centro dos pagãos e, tentando convertê-los, iniciou um severo discurso criticando e repreendendo o culto herege. Como resposta, os pagãos o mataram a pedradas e pauladas. 

O apóstolo Paulo, escreveu a segunda carta a Timóteo estando de novo na prisão, a espera de sua morte: "Procure vir para junto de mim". Muitos, de fato, o haviam abandonado; o fiel Tito estava na Dalmácia; o frio o fazia sofrer e ele recomenda a Timóteo; "Traga-me o manto que deixei em Troadi". 


São Tito

Tito veio do mundo pagão e Timóteo veio do mundo judeu. Trabalharam com o apóstolo Paulo, que os liderou sem lhes tirar o brilho. E deu à eles "a gloria de uma perene lembrança", como disse Eusébio de Cesarea no primeiro milênio, e será ainda assim nos outros que se seguirão: toda a Igreja os veneram juntos. Mas suas trajetórias foram tão distintas, que são relatadas em páginas individuais. 

As únicas informações concretas nos são dadas pelas cartas do apóstolo Paulo. Tito era grego e pagão. Ainda jovem se converteu ao cristianismo e se tornou companheiro e inestimável colaborador do apóstolo. Quando Paulo disse a Tito: "Isto deves ensinar, recomendar e reprovar com toda autoridade", fez surgir um outro grande evangelizador, que permaneceu trabalhando ao seu lado. 

Encarregado pelo apóstolo para executar importantes missões, foi uma vez a Jerusalém para entregar a importância duma coleta em favor dos cristãos pobres. . "Meu companheiro e colaborador" como escreveu o apóstolo na segunda carta aos Corintos. Companheiro dos momentos importantes, como a famosa reunião do concílio de Jerusalém, que tratou da necessidade de renovação e diversificação dos ritos devido a evangelização no mundo pagão. Tito, porém, foi também um mediador persuasivo, e entusiasmou Paulo resolvendo uma grave crise entre ele e os Corintos. 

Entre os anos 64 e 65, tendo sido libertado da prisão romana o apóstolo Paulo foi com ele para a ilha de Creta, onde fundou uma comunidade cristã, que confiou à Tito. Mais tarde, visitou a Paulo em Nicópolis. Voltou novamente à Ilha de Creta, onde recebeu uma carta do próprio mestre, Paulo, que figura entre os livros sagrados. Depois, retornou à Roma para se avistar com o apóstolo que o mandou provavelmente evangelizar a Dalmácia, onde seu culto ainda hoje é intenso. 

Segundo a tradição mais antiga, Tito permaneceu como bispo de Creta até sua morte, que ocorreu em idade avançada, por causa natural e não por martírio. Ele teria conservado a virgindade até a morte. São Paulo o chama repetidamente "meu companheiro e colaborador", e na segunda carta aos Corintos, num momento de especial amargura, diz: "Deus me consolou com a chegada de Tito". 

As três cartas escritas pelo apóstolo Paulo a estes dois discípulos têm alto valor, pelo conteúdo exclusivamente pastoral, de tal modo que podem ser consideradas como primeiro guia pastoral dos bispos de todos os tempos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CONVERSÃO DE SÃO PAULO, APÓSTOLO



O martírio de São Paulo é celebrado junto com o de São Pedro, em 29 de junho, mas sua conversão tem tanta importância para a história da Igreja que merece uma data à parte. Neste dia, no ano 1554, deu-se também a fundação da que seria a maior cidade do Brasil, São Paulo, que ganhou seu nome em homenagem a tão importante acontecimento. 

Saulo, seu nome original, nasceu no ano 10 na cidade de Tarso, na Cilícia, atual Turquia. À época era um pólo de desenvolvimento financeiro e comercial, um populoso centro de cultura e diversões mundanas, pouco comum nas províncias romanas do Oriente. Seu pai Eliasar era fariseu e judeu descendente da tribo de Benjamim, e, também, um homem forte, instruído, tecelão, comerciante e legionário do imperador Augusto. Pelo mérito de seus serviços recebeu o título de Cidadão Romano, que por tradição era legado aos filhos. Sua mãe uma dona de casa muito ocupada com a formação e educação do filho. 

Portanto, Saulo era um cidadão romano, fariseu de linhagem nobre, bem situado financeiramente, religioso, inteligente, estudioso e culto. Aos quinze anos foi para Jerusalém dar continuidade aos estudos de latim, grego e hebraico, na conhecida Escola de Gamaliel, onde recebia séria educação religiosa fundamentada na doutrina dos fariseus, pois seus pais o queriam um grande Rabi, no futuro. 

Parece que era mesmo esse o anseio daquele jovem baixo, magro, de nariz aquilino, feições morenas de olhos negros, vivos e expressivos. Saulo já nessa idade se destacava pela oratória fluente e cativante marcada pela voz forte e agradável, ganhando as atenções dos colegas e não passando despercebido ao exigente professor Gamaliel. 

Saulo era totalmente contrário ao cristianismo, combatia-o ferozmente, por isso tinha muitos adversários. Foi com ele que Estêvão travou acirrado debate no templo judeu, chamado Sinédrio. Ele tanto clamou contra Estevão que este acabou apedrejado e morto, iniciando-se então uma incansável perseguição aos cristãos, com Saulo à frente com total apoio dos sacerdotes do Sinédrio. 

Um dia, às portas da cidade de Damasco, uma luz, descrita nas Sagradas Escrituras como "mais forte e mais brilhante que a luz do Sol", desceu dos céus, assustando o cavalo e lançando ao chão Saulo , ao mesmo tempo em que ouviu a voz de Jesus pedindo para que parasse de persegui-Lo e aos seus e, ao contrário, se juntasse aos apóstolos que pregavam as revelações de Sua vinda à Terra. Os acompanhantes que também tudo ouviram, mas não viram quem falava, quando a luz desapareceu ajudaram Saulo a levantar pois não conseguia mais enxergar. Saulo foi levado pela mão até a cidade de Damasco, onde recebeu outra "visita" de Jesus que lhe disse que nessa cidade deveria ficar alguns dias pois receberia uma revelação importante. A experiência o transformou profundamente e ele permaneceu em Damasco por três dias sem enxergar, e à seu pedido também sem comer e sem beber. 

Depois Saulo teve uma visão com Ananias, um velho e respeitado cristão da cidade, na qual ele o curava. Enquanto no mesmo instante Ananias tinha a mesma visão em sua casa. Compreendendo sua missão, o velho cristão foi ao seu encontro colocando as mãos sobre sua cabeça fez Saulo voltar a enxergar, curando-o. A conversão se deu no mesmo instante pois ele pediu para ser Batizado por Ananias. De Damasco saiu a pregar a palavra de Deus, já com o nome de Paulo, como lhe ordenara Jesus, tornando-se Seu grande apóstolo. 

Sua conversão chamou a atenção de vários círculos de cidadãos importantes e Paulo passou a viajar pelo mundo, evangelizando e realizando centenas de conversões. Perseguido incansavelmente, foi preso várias vezes e sofreu muito, sendo martirizado no ano 67, em Roma. Suas relíquias se encontram na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, na Itália, festejada no dia de sua consagração em 18 de novembro. 

O Senhor fez de Paulo seu grande apóstolo, o apóstolo dos gentios, isto é, o evangelizador dos pagãos. Ele escreveu 14 cartas, expondo a mensagem de Jesus, que se transformaram numa verdadeira "Teologia do Novo Testamento". Também é o patrono das Congregações Paulinas que continuam a sua obra de apóstolo, levando a mensagem do Cristianismo a todas as partes do mundo, através dos meios de comunicação.

Em união com os peregrinos de Nossa Senhora de Guadalupe



JOÃO PAULO II

13ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 24 de Janeiro de 1979

1. Na festa da Epifania lemos a passagem do Evangelho de São Mateus, que descreve a chegada a Belém dalguns Magos do Oriente: Entrando na casa viram o Menino com Maria, sua Mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra (Mt. 2, 11-12).

Já falámos um dia, neste local, dos pastores que encontraram o Menino, o Filho de Deus nascido, que estava deitado na manjedoura (Lc. 2, 16).

Hoje ocupamo-nos mais uma vez dessas personagens que, segundo diz a tradição, eram três: os Reis Magos. O texto conciso de São Mateus exprime bem o que faz parte da substância mesma do encontro do homem com Deus: «prostrando-se adoraram-no». O homem encontra a Deus no acto de veneração, de adoração e de culto. Convém notar que a palavra «culto» (cultus) está em relação íntima com o termo «cultura». A substância mesma da cultura humana, das diversas culturas, compete a admiração, a veneração do que é divino, do que levanta o homem para o alto. Um segundo elemento do encontro do homem com Deus, colocado em realce pelo Evangelho, está encerrado nas palavras: «abriram os cofres e ofereceram-lhe presentes ...». Nestas palavras, indica São Mateus um factor que profundamente caracteriza a substância mesma da religião, entendida ao mesmo tempo como conhecimento e como encontro. O conhecimento só abstracto de Deus não constitui, não forma ainda, tal substância.

O homem conhece a Deus encontrando-se com Ele, e vice-versa encontra-o no acto do conhecimento. Encontra-se com Deus quando se abre diante d'Ele com o dom interior do próprio «eu» humano, para aceitar e receber em troca o Seu Dom.

Os Reis Magos, no momento em que se apresentam diante do Menino que se encontrava nos braços da Mãe, aceitam, na luz da Epifania, o Dom de Deus Encarnado, a sua inefável entrega ao homem no mistério da Encarnação. Ao mesmo tempo, «abrem os seus cofres com os presentes»; trata-se dos dons concretos de que fala o Evangelista, mas sobretudo abrem-se a si mesmos diante d'Ele, com o dom interno do próprio coração. E é este o verdadeiro tesouro por eles oferecido, de que o ouro, o incenso e a mirra constituem somente a expressão exterior. Neste dom consiste o fruto da Epifania: reconhecem a Deus e encontram-se com Ele.

2. Ao meditar assim, juntamente convosco aqui reunidos, aquelas palavras do Evangelho de Mateus, vêm-me ao espírito os textos da Constituição Lumen Gentium, que falam da universalidade da Igreja. O dia da Epifania é a festa da universalidade da Igreja, da sua missão universal. Ora, no Concílio lemos: «O povo de Deus encontra-se em todos os povos da terra, já que de todos recebe os cidadãos, que o são dum reino não terrestre mas celeste. Pois todos os fiéis espalhados pelo orbe comunicam com os restantes por meio do Espírito Santo, de maneira que 'aquele que vive em Roma sabe que os indianos são membros seus'» (Lumen Gentium, 13). Portanto, como o Reino de Cristo não é deste mundo (Cfr. Jo. 18, 36), a Igreja, isto é, o Povo de Deus, levando aqui e acolá este Reino, nada tira ao bem temporal deste ou daquele, mas pelo contrário favorece e acolhe todas as capacidades e todos os recursos e costumes dos povos, enquanto são recomendáveis, e, acolhendo-os, purifica-os, consolida-os e eleva-os. De facto, ela recorda-se bem que há-de «recolher» juntamente com aquele Rei, a que foram dados em herança os povos (Cfr. Sl. 2, 6), e a cuja cidade levam os Magos os seus dons e ofertas (Cfr. Sl. 71 (72), 10; Is. 60, 4-7; Apoc. 21, 24). Este carácter de universalidade, que adorna e distingue o Povo de Deus, é dom do mesmo Senhor, e com ele tende a Igreja católica, eficazmente e sem paragens, a concentrar a humanidade inteira, com todos os seus bens, em Cristo Cabeça, na unidade do Seu Espírito.

«Em virtude desta mesma catolicidade, cada uma das partes traz às outras e a toda a Igreja os seus dons particulares, de maneira que o todo e cada uma das partes aumentam, pela comunicação mútua entre todos e pela aspiração comum à plenitude da unidade. Daí vem que o Povo de Deus ... se recolhe de diversos povos» (Lumen Gentium, 13).

Aqui temos diante dos olhos a mesma imagem, já presente no Evangelho de São Mateus, lido na Epifania; só que se encontra aqui muito ampliada. Cristo, que em Belém, como Menino, recebeu os presentes dos Reis Magos, é ainda e sempre Aquele diante de quem os homens e Povos inteiros «abrem os seus tesouros». Os dons do espírito humano, no acto desta abertura diante de Deus Encarnado, adquirem valor especial, tornam-se os tesouros de várias culturas, riqueza espiritual dos Povos e das Nações, património comum de toda a humanidade. Este património forma-se e alarga-se sempre, através daquela «troca de dons», de que fala a constituição Lumen Gentium. O centro daquela troca é Ele: o mesmo que recebeu os presentes dos Reis Magos. Ele mesmo, que é o Dom visível e encarnado, causa a abertura das almas e aquela troca de presentes, de que vivem não só cada homem, mas também os Povos, as Nações e a Humanidade inteira.

3. Toda a meditação precedente é, em certo modo, introdução e prefácio daquilo que desejo agora dizer.

Amanhã devo começar, com a graça de Deus, uma viagem ao México, a primeira do meu pontificado. Quero nisto seguir o grande Papa Paulo e continuar a tradição por Ele iniciada. Dirijo-me ao México, a Puebla, por ocasião da Conferência Episcopal da América Latina, que inicia os seus trabalhos no próximo sábado na concelebração eucarística do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe. Manifesto já hoje a minha gratidão, tanto aos representantes do Episcopado pelo convite a mim dirigido, como aos representantes das Autoridades Mexicanas, de modo especial ao Presidente da República desse País, pela benévola atitude quanto a esta viagem, que me permite cumprir um dever pastoral tão importante.

Refiro-me neste momento à liturgia da festa da Epifania como também às palavras da Constituição Lumen Gentium, que permitem que nós todos lancemos um olhar para aqueles dons especiais, que o Povo, e a Igreja que está no México, trouxeram e continuam a trazer para o tesouro comum da humanidade e da Igreja.

Quem não ouviu pelo menos falar dos esplendores do México antigo? Da sua arte, dos seus conhecimentos no campo da astronomia, das suas pirâmides e dos seus templos, em que se exprimia a aspiração para o divino, embora imperfeita e ainda não iluminada?

E que dizer das catedrais e igrejas, dos palácios e câmaras, que depois da cristianização ergueram no México artistas mexicanos? Tais edifícios são eloquente expressão da admirável simbiose que o povo mexicano soube realizar entre os melhores elementos do seu passado e os do seu futuro cristão, em que ia então ingressando. O México fez porém novos e grandes progressos na época mais recente. Ao lado das famosas construções de estilo chamado colonial, há hoje os arranha-céus, as grandes estradas, os impressionantes edifícios públicos e as empresas industriais do México moderno. Todavia — e nisto está outro mérito seu no meio do progresso político, técnico e civil moderno, a alma mexicana mostra claramente que deseja ser agora e continuar no futuro a ser cristã: até na sua música popular típica, canta o mexicano a sua eterna saudade de Deus e a sua devoção à Virgem Santa. E em tempos difíceis do passado, agora felizmente vencidos, patenteou o mexicano não só bons sentimentos religiosos mas uma fortaleza e firmeza de fé não indiferente, antes por vezes heróica, como muitos recordarão ainda.

Estou convencido que, diante de Cristo e Sua Mãe, se poderá de novo realizar aquela «abertura e troca de dons», a que o Episcopado da América Latina, eu mesmo e toda a Igreja liga-mos tão grandes esperanças para o futuro.

4. Voltemos ainda à descrição de São Mateus. O Evangelho diz que essa «abertura de dons» dos Reis Magos se realizou em Belém diante do Menino e Sua Mãe.

Acrescentemos que tal situação continua a repetir-se exactamente assim. Não o provam a história do México e a história da Igreja naquela terra? Dirigindo-me lá, alegro-me de maneira especial por ir encontrar-me a seguir as pegadas de tantos peregrinos, que de toda a América, se encaminham para o Santuário da Mãe de Deus em Guadalupe.

Provenho duma terra e dum País, cujo coração bate nos grandes Santuários Marianos, sobretudo no Santuário de Jasna Gora. Desejo uma vez mais, como no dia da inauguração do pontificado, repetir as palavras do maior poeta polaco: «Virgem Santa, que defendes a clara Czestochowa, e resplandeces na Porta Aguda ...».

É o que me permite compreender o Povo, os Povos, a Igreja e o Continente, cujo coração bate no Santuário da Mãe de Deus em Guadalupe.

Espero também que isto me abra o caminho para o coração daquela Igreja, daquele Povo e daquele Continente.

***

Saudações

Aos doentinhos

Quero dirigir uma saudação especial aos enfermos aqui presentes. Quero sobretudo garantir-lhes que o Papa não os esquece, antes sempre lhes reserva um lugar especial no seu coração e nas suas orações. Coragem!

Ao mesmo tempo, desejo formular cordiais votos de pleno êxito em favor do Dia Mundial dos Leprosos, que se realizará também aqui em Roma no dia 28 do corrente, incluindo algumas iniciativas cujo ponto mais alto será a Concelebracão Eucarística, presidida pelo Cardeal Vigário na Basílica de São João de Latrão. Conserve o Senhor e fecunde o trabalho humilde mas esplêndido dos que se dedicam a exterminar este mal terrível. como as Irmãs da Ordem Terceira de São Francisco de Syracuse (E.U.A.), algumas das quais estão aqui presentes. Também neste esforço nos podemos todos mostrar discípulos do nosso Mestre e Senhor, Jesus, que diante dos leprosos adoptou atitudes de bondade, que não ficaram só em compaixão mas levaram a concretas e prodigiosas intervenções salvadoras (cfr. Mc. 1, 40-41).

Sejam fecundados estes votos pela assistência divina, e seja a todos de conforto a minha paternal Bênção Apostólica,

A peregrinos de várias dioceses da Itália

Saúdo agora, com viva cordialidade e paternal afecto a Peregrinação das Dioceses de Civita Castellana, Orte e Gallese e das Dioceses de Nepi e Sutri, presidida pelo próprio Bispo.

Caríssimos, ao expressar-vos o apreço c a satisfação do meu espírito, agradeço-vos esta significativa e agradável visita, que retribuo com votos ardentes. Desejo que todos vós aqui presentes juntamente com todos quantos representais, sejais sempre "fortes na fé" (1 Ped. 5), "exultantes na esperança" (Rom. 12, 12), e afirmadores de verdade e caridade (cfr. Ef. 4, 15), a fim de que possais oferecer, em todos os tempos e em toda a parte, um testemunho sincero, luminoso e convincente de vida, inspirado na Pessoa, na doutrina e no exemplo de Cristo Jesus (cfr. Act. 1, 8).

Corroboro esse auspício com a propiciadora Bênção Apostólica, aplicável também a todas as vossas famílias e às pessoas que vos são queridas.

A peregrinos de algumas paróquias romanas

Acrescento em seguida uma saudação dirigida às peregrinações paroquiais; são hoje especialmente numerosas as dalgumas Paróquias Romanas: a de São Pedro e São Paulo na EUR, a do SS.mo Nome de Maria no Bairro Appio-Latino, e a de São Tomás Moro na Via Tiburtina.

A todos prometo a minha lembrança constante na oração e com afecto a todos abençoo.

A jovens casais

Também hoje estão presentes vários casais de jovens esposos. Apresento-lhes os meus votos e desejo certificá-los duma especial oração minha para que, na vida nova que iniciam juntos, o Senhor os acompanhe e abençoe.

Palavras da Mensagem aos Fiéis do México

Muitos amados irmãos e irmãs a presença das Câmaras da Televisão Mexicana nesta Audiência, oferece-me a agradável oportunidade de enviar uma afectuosa saudação, vinda do fundo da alma, a todos os queridíssimos filhos mexicanos. Sabeis que amanhã, querendo Deus, darei início à primeira viagem do meu Pontificado. Vou ao México inaugurar, com uma celebração eucarística no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, os trabalhos da Terceira Conferência do Episcopado Latino-Americano. Quero manifestar desde já a minha gratidão aos Representantes do Episcopado pelo seu convite e às Autoridades mexicanas, em particular ao Senhor Presidente da República, pela sua benevolência que me permite cumprir um dever pastoral tão importante.

Vou ao México, país moderno, que tem sido e quer ser cristão; cuja alma, até na música popular, canta a saudade eterna de Deus e a devoção à Santíssima Virgem; os seus próprios sentimentos religiosos, a firmeza da sua fé, ficaram bem demonstrados em momentos históricos difíceis, às vezes até de maneira heróica.

Do mesmo modo que na minha terra natal, sinto que o coração bate forte no Santuário da Mãe de Deus. Espero que Guadalupe me abra o caminho para o coração da Igreja, daquele Povo e de todo aquele Continente.

A todos a minha Bênção Apostólica.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

São Francisco de Sales, bispo e doutor da igreja



Francisco de Sales, primogênito dos treze filhos dos Barões de Boisy, nasceu no castelo de Sales, na Sabóia, em 21 de agosto de 1567. A família devota de São Francisco de Assis, escolheu esse para ele, que posteriormente o assumiu como exemplo de vida. A mãe se ocupava pessoalmente da educação de seus filhos. Para cada um escolheu um preceptor. O de Francisco era o padre Deage, que o acompanhou até sua morte, inclusive em Paris, onde o jovem barão fez os estudos universitários no Colégio dos jesuítas. 

Francisco estudou retórica, filosofia e teologia que lhe permitiu ser depois o grande teólogo, pregador, polemista e diretor espiritual que caracterizaram seu trabalho apostólico. Por ser o herdeiro direto do nome e da tradição de sua família, recebeu também lições de esgrima, dança e equitação, para complementar sua já apurada formação. Mas se sentia chamado para servir inteiramente a Deus, por isso fez voto de castidade e se colocou sob a proteção da Virgem Maria. 

Aos 24 anos, Francisco, doutor em leis, voltou para junto da família, que já lhe havia escolhido uma jovem nobre e rica herdeira para noiva e conseguido um cargo de membro do Senado saboiano. Ao vê-lo recusar tudo, seu pai soube do seu desejo de ser sacerdote, através do tio, cônego da catedral de Genebra, com quem Francisco havia conversado antes. Nessa mesma ocasião faleceu o capelão da catedral de Chamberi, e, o cônego seu tio, imediatamente obteve do Papa a nomeação de seu sobrinho para esse posto. 
Só então seu pai, o Barão de Boisy, consentiu que seu primogênito se dedicasse inteiramente ao serviço de Deus. Sem poder prever que ele estava destinado a ser elevado à honra dos altares; e, muito mais, como Doutor da Igreja!

Durante os cinco primeiros anos de sua ordenação, o então padre Francisco, se ocupou com a evangelização do Chablais, cidade situada às margens do lago de Genebra, convertendo, com o risco da própria vida, os calvinistas. Para isso, divulgava folhetos nos quais refutava suas heresias, mediante as verdades católicas. Conseguindo reconduzir ao seio da verdadeira Igreja milhares de almas que seguiam o herege Calvino. O nome do padre Francisco começava a emergir como grande confessor e diretor espiritual. 

Em 1599, foi nomeado Bispo auxiliar de Genebra; e, três anos depois, assumiu a titularidade da diocese. Seu campo de ação aumentou muito. Assim, Dom Francisco de Sales fundou escolas, ensinou catecismo às crianças e adultos, dirigiu e conduziu à santidade grandes almas da nobreza, que desempenharam papel preponderante na reforma religiosa empreendida na época com madre Joana de Chantal, depois Santa, que se tornou sua co-fundadora da Ordem da Visitação, em 1610. 

Todos queriam ouvir a palavra do Bispo, que era convidado a pregar em toda parte. Até a família real da Sabóia não resistia ao Bispo-Príncipe de Genebra, que era sempre convidado para pregar também na Corte. 

Publicou o livro que se tornaria imortal: "Introdução à vida devota". Francisco de Sales também escreveu para suas filhas da Visitação, o célebre "Tratado do Amor de Deus", onde desenvolveu o lema : "a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida". Os contemporâneos do Bispo-Príncipe de Genebra não tinham dúvidas a respeito de sua santidade, dentre eles Santa Joana de Chantal e São Vicente de Paulo, dos quais foi diretor espiritual. 

Francisco de Sales faleceu no dia 28 de dezembro de 1622, em Lion, França. O culto ao Santo começou no próprio momento de sua morte. Ele é celebrado no dia 24 de janeiro porque neste dia, do ano de 1623, as suas relíquias mortais foram trasladadas para a sepultura definitiva em Anneci. Sua beatificação, em 1661, foi a primeira a ocorrer na basílica de São Pedro em Roma. Foi canonizado quatro anos depois. Pio IX declarou-o Doutor da Igreja e Pio XI proclamou-o o Padroeiro dos jornalistas e dos escritores católicos. Dom Bosco admirava tanto São Francisco de Sales que deu o nome de Congregação Salesiana à Obra que fundou para a educação dos jovens.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Santificar o começo do dia

15 de agosto de 1966-por ocasião dos exercícios em Aríccia.

O argumento que vos convido a meditar é este: santificar o começo do dia. De manhã, quando o céu se apresenta sereno, espera-se um dia maravilhoso. Assim em nosso íntimo, pela manhã, haja serenidade recebendo da graça do Senhor um novo dia e a graça de poder enchê-lo de méritos. Noite a noite levai até o céu os méritos alcançados no dia. Muitos negociantes talvez não ganhem nada no dia, mas vós fazendo bem tudo o que deveis fazer, todas as noites podereis mandar para o céu o conjunto dos méritos do dia. 

Deve-se também dizer que não é somente o dia que serve para merecer para a eternidade, mas também à noite. Como nos alimentamos para manter-nos no serviço de Deus, igualmente há a obrigação de dormir e descansar. Por isso dizemos: “Abençoai-nos, ó Senhor, a nós e ao alimento que vamos tomar...”, e iniciando assim ou estando já na cama: “para manter-nos no vosso santo serviço”. O que se diz do alimento se diz também do descanso. Tomar o alimento que é necessário para a vida é mérito. E Jesus tomava o seu alimento, Jesus tomava o seu descanso, o seu sono. Está escrito no Evangelho. Mas oferecê-lo ao Senhor, torna-se um mérito. Por isso não pensemos somente em oferecer ao Senhor os méritos alcançados no dia, mas também o próprio descanso. Ofereçamos tudo ao Senhor, as vinte e quatro horas, totalmente vividas para ele. 

Como devemos agradecer ao Senhor para que todas essas horas do dia mereçam e enriqueçam a alma de méritos, cada vez maiores! Quando a alma é orientada mais perfeitamente para Deus — com amor sempre mais intenso — então cada coisa se torna mais preciosa: o que se refere às vossas obrigações, a oração e todas as atividades do dia. 

Comecemos bem o dia. É um sacrifício que se tem de fazer. Outros descansam além da conta. Mas para regular a nossa vida, à noite se vá cedo à cama, e se levanta cedo pela manhã. Sim, na medida justa, porque se o dia não começou bem, não enriquecerá a alma como devia enriquecê-la. Depois de termos descansado, cumpramos os deveres de piedade, da oração, desde o momento em que oferecemos o dia ao despertar, até as outras práticas de piedade. 

O segredo do dia é o início do dia; o segredo, isto é, a chave. E o que fazer? A missa, a meditação, a comunhão, quando se pode. E depois, as outras práticas de piedade, ou orações que estais acostumadas a fazer. Começai o dia com o Senhor. Então se começa com as graças de Deus para a viagem do dia. Quando temos de fazer uma viagem um pouco longa, nos fornecemos do necessário, pelo menos do dinheiro e do alimento para o dia. Assim durante as 24 horas devemos preparar-nos e ter conosco as graças do Senhor, porque não sabemos o que será o dia, que tentações encontraremos, que dificuldades poderemos ter etc. Fornecer-se do necessário para o caminho do dia. 

O que assegura um bom dia, um dia santo, é a oração. Então falemos em primeiro lugar da missa. Na vossa condição, se podeis participar dela cada dia, muito bem! Participar! A missa é a oração maior, do máximo valor, portanto, demos sempre suma importância à missa. 

O que é a missa, isto é, o sacrifício realizado por nosso Senhor Jesus Cristo no Calvário? A primeira parte da missa é a que se chama a liturgia da Palavra, ele nos serve de tema de meditação. Pode-se fazer a meditação à parte, como geralmente acontece. Na primeira parte da missa há a liturgia da Palavra, do início até o Credo inclusive, quando o Credo é recitado segundo a liturgia. Devemos considerar bem as palavras do intróito [antífona de entrada], a leitura, o evangelho, e os versículos nele incluídos. Meditá-los bem, compreendê-los sempre melhor, sentir que o Senhor quer que nossa mente se eleve a pensamentos divinos. O intróito [antífona de entrada], e o próprio oremos, a leitura e o evangelho, servem para reforçar e viver com pensamentos divinos, com pensamentos da Sagrada Escritura. 

Seria grande mérito ler o evangelho, a leitura e, podendo-se, também toda a Escritura. Entretanto, se não há sempre tempo, leiamos ao menos aquelas partes das Escrituras que vem no Lecionário. Estas partes são as principais, portanto, consideremo-las, leiamo-las atentamente, não só, mas aprofundemo-las, aprofundemos as palavras da leitura e do evangelho que cotidianamente ouvimos na missa. A palavra de Deus não é a palavra do homem, não é a palavra de um santo, mas é a palavra de Deus. Por mais que um homem seja sábio, a palavra da Escritura é de valor imensamente superior. Portanto, sigamos a palavra de Deus na missa, lendo-as até antes. 

Mas a missa não dispensa das orações comuns começando pelo Ângelus. Embora as orações sejam breves, não devem faltar, elas se referem às necessidades do dia. E se não se pode participar da missa por alguma razão, que pelo menos as orações sejam recitadas com atenção, com fé, com humildade. Sim, para começarmos bem o dia! 

A segunda parte refere-se à liturgia eucarística e, portanto, ao sacrifício realizado no Calvário, o oferecimento de Jesus, o oferecimento da sua vida ao Pai Celeste. Jesus! É útil participar ao sacrifício da missa com Maria. Como Maria estava aos pés da cruz, e como assistiu, como viu, quando o Filho de Deus encarnado expirou na cruz. Se estivermos acompanhados com ela, temos mais graças, mais intimidade, maior compreensão do sacrifício da missa, o qual é para adoração ao Pai Celeste, agradecimento ao Pai Celeste, satisfação dos pecados ao Pai Celeste e súplicas das graças ao Pai Celeste. Os quatro fins que tem a missa. 

Sigamos bem a liturgia como é apresentada hoje, segundo o Concílio Vaticano II, que conheceis muito bem. E é bom querer, ou ao menos podendo, completar o sacrifício, isto é, receber a hóstia santa. Então temos o viático do dia que nos serve para cumprir as coisas mais santamente e no meio de muitas dificuldades e também de sofrimentos. Jesus está conosco e nós estamos com Jesus e vivemos unidos a ele. Portanto, por maiores que sejam as dificuldades do dia, estamos com Jesus. Estou com Jesus e Jesus está comigo, isto nos consola sempre. E quando chega algum temor, ou desconforto, ou dificuldade, estamos com Jesus e Jesus está conosco. 

Depois, a meditação, que pode ser mais breve ou mais longa. Penso, porém, que já foi explicado muitas vezes o que é a meditação. Não é muito fácil fazer a meditação. É uma oração em que devemos agir, isto é, pôr em movimento o nosso ser e, portanto, a mente, a vontade, o coração. É todo o ser que é acionado para a santificação do dia. Não é simples leitura. Uma coisa é leitura espiritual, outra é meditação. Pode acontecer que se comece com a leitura, e geralmente se começa lendo uma passagem de um livro adapto. Mas, a parte principal da meditação é refletir, considerar, fazer nossas aquelas verdades que foram lidas. Segue-se o exame de consciência para verificar se fizemos o que era aconselhado no livro. Depois, os propósitos e a oração para cumpri-los. Após a reflexão e os propósitos vem à oração. Muitos aconselham empregar a metade do tempo para a leitura e as reflexões e a outra metade para a oração. Com efeito, podemos fazer muitos propósitos, mas sem a graça e o conforto do Senhor durante o dia, fracassamos muitas vezes. Então, oremos! Mas, sou distraído! dirá alguém. Então se és distraído, procura recolher-te, e se for difícil recolher-te, reze o terço para ocupar uma parte do tempo ou todo o tempo da meditação. 

De manhã, com a meditação, organizemos o dia. Que farei? Como o farei? Isto, aquilo, este sacrifício, aquela dificuldade que me espera, o trabalho que vou encontrar, os sofrimentos ou as coisas que são de conforto. Em suma, prever as condições e andamento do dia, o que cada um pode prever que lhe aconteça. Geralmente se leva uma vida ordinária, a de ontem, a de hoje e a de amanhã, portanto, podemos estabelecer e fazer o programa do dia. E como fazê-lo? Pensar aos vários deveres, programá-los para os cumprir bem e depois orar para termos sucesso: deste modo o dia terá bom êxito. Este conjunto que quer dizer? É como um exame preventivo. À noite se fará um exame retrospectivo do dia, mas pela manhã as almas de vida interior fazem um exame preventivo: deverei fazer isto, deverei fazer aquilo. Se houver uma dificuldade, deverei tomar esta ou aquela medida... Então façamos o exame preventivo: como farei as coisas do dia, uma a uma, como dispô-las de maneira que não perca o tempo. E durante o dia os méritos aumentam. 

Quantas pessoas perdem tempo! Não nos percamos em coisas inúteis, mas santifiquemos cada minuto. Digamos: cada minuto. Devem fazer-se aquelas coisas que servem para a convivência social, certamente, e por social entendemos, quer na família, quer na paróquia, quer na sociedade em geral. Sim, é preciso dispor bem tudo, como estais nas circunstâncias em que vos encontrais. Certamente, é preciso pôr sempre um aumento de fé. Quero dizer que para vós que estais no mundo, é preciso ter uma graça mais abundante do que para as pessoas que levam a vida no claustro. Estas pessoas têm tudo ordenado, e já sabem como as coisas do dia se apresentam; mas na vossa vida, estas coisas se apresentam inesperadamente. Vós deveis praticar mais virtudes, em comparação com a vida do claustro. Sim, é grande o mérito de viver segundo a obediência, segundo as disposições, segundo as regras dos Institutos regulares. Mas agora que, segundo o Concílio, sois também Instituto regular religioso, para vós a prática da pobreza, da castidade, da obediência é mais difícil. Portanto, pela manhã precisai prever o dia e estabelecer como agir. Porque pensando, por exemplo, na observância da pobreza, quantas circunstâncias diversas entre uma pessoa e outra! Por isso, é útil prever pela manhã. Prever como viver castamente, delicadamente, e como praticar a obediência. 

É necessário, além disso, que na oração se peça ao Senhor a graça de observar os votos que foram emitidos: a pobreza, a castidade e a obediência; mas durante o dia, pormenorizadamente; nas várias circunstâncias. Ás vezes, pode-se praticar com perfeição. Há pessoas que são verdadeiramente edificantes e dão boa impressão. São como pessoas que difundem o odor religioso, santo, o perfume da graça que têm no seu íntimo. Temos de considerar as dificuldades, mas pedir o aumento da graça mais do que os que estão na vida do claustro. Dizer ao Senhor que temos necessidade de graças mais abundantes, maiores, para que o dia seja santificado. Tanto mais que há muita liberdade de escolha em muitas coisas. Então que haja luz que nos guie, que nunca haja capricho. Muitas vezes se prefere fazer uma coisa mais simples comparada com outra mais difícil, mas destinada a dar maiores frutos. É preciso que haja oração particular para vós, no sentido de pedir as graças particulares para vós, durante o dia. 

Quando já estamos bem fornecidos do que é necessário para fazer a viagem do dia, então comecemos o dia com o trabalho, com as obras às quais somos chamados. Sim, para viverdes verdadeiramente na vossa condição de Instituto religioso leigo. Ele vos colocou numa ordem de vida de grande riqueza de graças e de méritos na hora da morte. Oh! Como estareis contentes por terdes abraçado esta vida e por a terdes vivido bem! Que riquezas de méritos e, portanto, de prêmio. Viveis no meio do mundo! Parece que viveis como os outros, mas existe uma diferença muito importante entre a vida cristã e a vida consagrada, é diferença grande, profunda. E vós superais a vida cristã. Mas nas vossas circunstâncias, a vossa vida se enriquece de méritos imensos, superiores. 

Certamente fareis bons propósitos neste curso de exercícios. 

Todos juntos, unidos, oremos pelo progresso: Que estes dias tragam a todos e a cada um de vós grande bem e grande alegria. Desde o dia em que eu soube a data em que fareis os exercícios, sempre vos encomendei na missa. E assim oremos todos juntos, consideremo-nos unidos, para fazermos todos juntos força junto de Deus, para obtermos abundância e riqueza de dons, de graça e de consolação. 

(Pe. Alberione, Meditazioni per consacrate secolari)

domingo, 22 de janeiro de 2012

3º DOMINGO DO TEMPO COMUM



Leituras: Jn 3,1-5.10; Sl 24(25); 1Cor 7,29-31; Mc 1,14-20

“O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo!” (Mc 1,15)
"Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens." (Mc 1,17)

Nestes inícios do Tempo Comum, a Liturgia apresenta-nos também os inícios do Evangelho segundo Marcos. Hoje Jesus aparece inaugurando seu ministério público. Suas palavras são consoladoras: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo!” Eis! A esperança de Israel até que enfim iria realizar-se: o Messias, o Salvador esperado estava chegando para instaurar o Reino! Com Jesus, com sua Pessoa, seus gestos e sua pregação, o Reinado de Deus, a proximidade do Santo de Israel, seria realmente tocada pelo povo de Deus. É isso o Reino de Deus: em Jesus, Deus fez-se próximo, Deus veio acolher, consolar, indicar o caminho, salvar! Em Jesus, o Filho amado, Deus veio revelar sua paternidade, debruçando-se sobre o aflito, o pobre, o pecador. Chegou o Reino: Deus veio consolar o seu povo!

Mas, há algo surpreendente nesse alegre anúncio de Jesus: logo após afirmar que o Reino chegou, o Senhor intima o povo: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” Por que Jesus dá esta ordem? Os israelitas não estavam esperando o Reino? Por que precisam se converter? Caríssimos: o Reino que Jesus veio trazer não é de encomenda, não é sob medida, como gostaríamos. O Senhor não vem nos trazer um Deus à nossa medida, à medida do mundo, um deus moderninho para consumo das nossas necessidades, interesses e expectativas. No mundo do fácil, do prático e do descartável, gostaríamos de um deusinho assim… Jesus nos grita: “Convertei-vos! Crede no Evangelho!” O Reino somente será Boa-Notícia para quem abrir-se à surpresa inquietante do Deus que Jesus anuncia. Acolher a novidade, a Boa-notícia, o Evangelho, acolher esse Deus que chega, exige que saiamos de nós mesmos, como os ninivitas que, escutando o apelo de Jonas, converteram-se! Mais tarde, Jesus irá criticar duramente o seu povo: “Os habitantes de Nínive se levantarão no Julgamento, juntamente com esta geração, e a condenarão, porque eles se converteram pela pregação de Jonas. Mas aqui está algo mais do que Jonas!” (Mt 12,41). Como é atual a Palavra deste Domingo! Cheios de nós, adormecidos e satisfeitos com nossos pensamentos, com nossa lógica cômoda e pagã, jamais poderemos acolher o Reino em nós e experimentar sua alegria e sua paz! Não esqueçamos, caros em Cristo: a primeira palavra do Senhor no Evangelho é “convertei-vos!” Não é possível domar Jesus, não é possível um cristianismo sob medida! Não é por acaso que o Evangelho de hoje começa falando da prisão de João Batista, aquele santo profeta que preparou a vinda do Reino. O Reino sofre violência; violência do mundo, violência do nosso coração envelhecido pelo pecado, da nossa razão tanta vez fechada para a luz do Cristo. Por isso mesmo, logo após apresentar o apelo de Jesus, são Marcos nos fala da vocação dos quatro primeiros discípulos. Certamente, esse chamado deve ser compreendido de modo muito particular como referindo-se à vocação sacerdotal, que faz dos chamados “pescadores de homens”. Mas, esse chamamento indica também a vocação de todo cristão: seguir Jesus no caminho da vida. Nesse sentido, a lição é clara: seguir Jesus exige deixar tudo, deixar-se e colocar a vida em relação com o Senhor! Somente assim poderemos acolher o Reino!

Nunca esqueçamos, irmãos: diante da urgência de estar com Jesus, de viver unido a ele, de acolher sua pessoa, tudo o mais é relativo! Daí a advertência de São Paulo na segunda leitura de hoje: “O tempo está abreviado. Então que, doravante os que têm mulher vivam como se não tivessem, os que choram, como se não chorassem e os que estão alegres, como se não estivessem; os que fazem compras como se não possuíssem; e os que usam do mundo, como se dele não estivessem gozando. Pois passa a figura deste mundo”. Aqui, não se trata de desvalorizar o mundo e o que de belo e de bom há nele. Trata-se, sim, de colocar as coisas na sua real perspectiva, na perspectiva do Infinito de Deus e da urgência do Reino. O mundo atual, com sua cultura pagã, deseja que esqueçamos os verdadeiros valores, que absolutizemos aquelas coisas que são relativas, que deixemos de lado aquilo que realmente importa. E o que importa? Escutai, caríssimos: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo mais vos será acrescentado!” (Mt 6,33). Somos chamados a abrir nossa existência, abrir nosso coração, nossa vida, nossos valores para o Cristo que nos traz o Reino do Pai do Céu! Mas somente poderemos acolhê-lo de fato se nos colocarmos diante dele com um coração de pobre, com a consciência de que precisamos realmente do Senhor, que, sozinhos, não nos realizaremos, não seremos felizes, não alcançaremos a verdadeira vida!

É triste perceber hoje quantos cristãos se sentem tão à vontade nessa sociedade consumista, secularizada, pagã e satisfeita consigo própria. Esses, infelizmente, jamais experimentarão a doçura do Reino, que somente poderá ser compreendido por quem chorou, quem teve fome e sede de justiça (isto é de amizade com Deus), quem foi puro, que foi perseguido… É por isso que tantas vezes ouviremos, nos domingos deste ano, o Senhor afirmar que somente poderá compreender e acolher o Reino quem tiver um coração de pobre.

Caríssimos, convertamo-nos! Levemos a sério que o modo de pensar e sentir de Deus não são o nosso! Tenhamos a coragem de nos deixar por Cristo. São Jerônimo, comentando a atitude dos quatro primeiros discípulos chamados pelo Senhor, afirma: “A verdadeira fé não conhece hesitação: imediatamente ouve, imediatamente crê, imediatamente segue…” Seja assim a nossa fé no Senhor, seja assim nossa adesão ao nosso Salvador! Então, seremos felizes de verdade, porque perceberemos que o que Cristo nos trouxe é uma Boa Notícia, a melhor de todas: Deus nos ama, caminha conosco e, no seu bendito Filho, nos convida à amizade íntima com ele, nesta vida e por toda eternidade! Amém.

Dom Henrique Soares da Costa - Bispo Auxiliar de Aracaju - SE


sábado, 21 de janeiro de 2012

Santa Inês, virgem e mártir



O nome "Agnes", para nós Inês, em grego significa pura e casta, enquanto em latim significa cordeiro. Para a Igreja, Santa Inês é o próprio símbolo da inocência e da castidade, que ela defendeu com a própria vida. A idéia da virgindade casta foi estabelecida na Igreja justamente para se contrapor à devassidão e aos costumes imorais dos pagãos. Inês levou às últimas conseqüências a escolha que fez à esses valores. É uma das Santas mais antigas do cristianismo. Sua existência transcorreu entre os séculos três e quatro, sendo martirizada durante a décima perseguição ordenada contra os cristãos, desta vez imposta pelo terrível imperador Diocleciano, em 304. 

Inês pertencia à uma rica, nobre e cristã família romana. Isso lhe possibilitou receber uma educação dentro dos mais exatos preceitos religiosos, o que a fez tomar a decisão precoce de se tornar "esposa de Cristo". Tinha apenas 13 anos quando foi denunciada como cristã. 

Dotada de uma beleza incomum, recebeu inúmeros pedidos de casamento, inclusive do filho do prefeito de Roma. Aliás, essa foi a causa que desencadeou seu suplício e uma violenta perseguição contra os cristãos. A narração que nos chegou conta que o rapaz, apesar das negativas da jovem, tentava corteja-la. Seu pai indignado com as constantes recusas que deixavam seu filho inconsolável, tentou forçar que Inês aceitasse seu filho como esposo, mas tudo em vão. Numa certa tarde de tempestade, o rapaz tentou toma-la nos braços, mas foi atingido por um raio e caiu morto aos seus pés. Quando o prefeito soube, procurou Inês com humildade e lhe implorou que pedisse a seu Deus pela vida de seu filho. Ela erguendo as mãos e voltando os olhos para o céu orou para que Nosso Senhor trouxesse o rapaz de volta à vida terrena, mostrando toda Sua misericórdia. O rapaz voltou e percebendo a santidade de Inês se converteu cristão. Porém, seu pai, o prefeito, viu aquela situação como um sinal de poder dos cristãos e resolveu aplicar a perseguição, decretada por Diocleciano, de modo implacável. 

Inês, segundo ele, fora denunciada e por isso teria de ser enviada para a prisão. Mesmo assim, ela nunca tentou se livrar da pena em troca do casamento que fora proposto em nome do filho do prefeito e muito menos negou sua fé em Cristo. Preferiu sofrer as terríveis humilhações de seus carrascos, que estavam decididos a fazê-la mudar de idéia através da força. Arrastada violentamente até a presença de um ídolo pagão, para que o adorasse, Inês se manteve firme em suas orações à Cristo. Depois foi levada à uma casa de prostituição, para que fosse possuída à força, mas ninguém ousou tocar sequer num fio de seu cabelo, saindo de lá na mesma condição de castidade que chegou. 

Cada vez mais a situação ficava fora do controle das autoridades romanas e o povo estava se convertendo em massa. Para aplacar os ânimos Inês foi levada ao Circo e condenada à fogueira, mas o fogo prodigiosamente se abriu e não a queimou. Assim, o prefeito decretou que fosse morta por decapitação a fio de espada, naquele exato momento. Foi dessa maneira que a jovem Inês testemunhou sua fé em Cristo. 

Seu enterro foi um verdadeiro triunfo da fé; seus pais, levaram o corpo de Inês, e o enterraram num prédio que possuíam na estrada que de Roma conduz a Nomento. Nesse local, por volta do ano de 354, uma Basílica foi erguida a pedido da filha do imperador Constantino, em honra à Santa. Trata-se de uma das mais antigas de Roma, na qual encontram-se suas relíquias e sepultura. Na arte, Santa Inês é comumente representada com uma ovelha, e uma palma, sendo que a ovelha sugere sua castidade e inocência. 

Sua pureza martirizada faz parte, até hoje, dos rituais da Igreja. Todo ano, no dia de sua veneração, em 21 de janeiro, é realizada na Basílica de Santa Inês, fora dos muros do Vaticano, uma Missa solene onde dois cordeirinhos brancos, ornados de flores e fitas são levados para o celebrante os benzer. Depois os mesmos são apresentados ao Papa, que os entrega a religiosas encarregadas de os guardar até a época da tosquia. Com sua lã são tecidos os pálios que, na vigília de São Pedro e São Paulo, são colocados sobre o altar da Basílica de São Pedro. Posteriormente esses pálios são enviados à todos os arcebispos do mundo católico ocidental e eles os recebem em sinal da obediência que devem à Santa Sé, como centro da autoridade religiosa.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

São Sebastião, mártir



A reprodução do martírio de São Sebastião, amarrado a uma árvore e atravessado por flechas é uma imagem milhares de vezes retratada em quadros, pinturas e esculturas, por artistas de todos os tempos. Entretanto, nem todos sabem que o destemido Santo não morreu daquela maneira. O suplício das flechas não lhe tirou a vida, resguardada pela fé em Cristo. Vejamos como tudo aconteceu. 

Sebastião nasceu em Narbônia, na Gália, atual França, mas foi criado por sua mãe em Milão, na Itália, de acordo com os registros de Santo Ambrósio. Pertencente a uma família cristã, foi batizado ainda pequenino. Mais tarde, tomou a decisão de engajar-se nas fileiras romanas e chegou a ser considerado um dos oficiais prediletos do imperador Diocleciano. Contudo, nunca deixou de ser um cristão convicto e protetor ativo dos cristãos. 

Ele fazia tudo para ajudar os irmãos na fé, procurando revelar o Deus verdadeiro aos soldados e aos prisioneiros. Secretamente, Sebastião conseguiu converter muitos pagãos ao cristianismo. Até mesmo o governador de Roma, Cromácio, e seu filho Tibúrcio foram convertidos por ele. Em certa ocasião, Sebastião foi denunciado, pois estava contrariando o seu dever de oficial da lei. Teve então, que comparecer ante ao imperador para dar satisfações sobre o seu procedimento. 

O imperador da época era ninguém menos que o sanguinário Diocleciano, que lhe dispensara admiração e confiara nele, esperando vê-lo em destacada posição no seu exército, numa brilhante carreira e por isso considerou-se traído. Levado à sua presença, Sebastião não negou sua fé. O imperador lhe deu ainda uma chance para que escolhesse entre sua fé em Cristo e o seu posto no exército romano. Ele não titubeou, ficou mesmo com Cristo. A sentença foi imediata: deveria ser amarrado a uma árvore e executado a flechadas. 

Após a ordem ser executada, Sebastião foi dado como morto e ali mesmo abandonado, pela mesma guarda pretoriana que antes chefiara. Entretanto, quando uma senhora cristã foi até o local à noite, pretendendo dar-lhe um túmulo digno encontrou-o vivo! Levou-o para casa e tratou de suas feridas até vê-lo curado. 

Depois, cumprindo o que lhe vinha da alma, ele mesmo se apresentou àquele imperador anunciando o poder de Nosso Senhor Jesus Cristo e censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos, acusando-o de inimigo do Estado. Perplexo e irado com tamanha ousadia, o sanguinário Diocleciano o entregou à guarda pretoriana após condena-lo, desta vez, ao martírio no Circo. Sebastião foi executado então com pauladas e boladas de chumbo, sendo açoitado até a morte, no dia 20 de janeiro de 288. 

Os algozes cumpriram a ordem e, para evitar a sua veneração, foi jogado numa fossa, de onde a piedosa cristã Santa Luciana o tirou, para sepulta-lo junto de São Pedro e São Paulo. Posteriormente, em 680, as relíquias foram transportadas solenemente para a Basílica de São Paulo Fora dos Muros, construída pelo imperador Constantino. Naquela ocasião em Roma a peste vitimava muita gente, mas a terrível epidemia desapareceu na hora daquela transladação. Em outras ocasiões foi constatado o mesmo fato; em 1575 em Milão, e em 1599 em Lisboa, ambas ficando livres da peste pela intercessão do glorioso mártir São Sebastião 

No Brasil, diz a tradição, que no dia da festa do padroeiro, em 1565, ocorreu a batalha final que expulsou os franceses que ocupavam a cidade do Rio de Janeiro, quando São Sebastião foi visto de espada na mão entre os portugueses, mamelucos e índios, lutando contra os invasores franceses calvinistas. 

Ele é o protetor da Humanidade, contra a fome, a peste e a guerra e é claro do cartão postal do Brasil, a cidade maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A alma de todo o movimento ecuménico



JOÃO PAULO II

12ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 17 de Janeiro de 1979

Tem amanhã início a Semana Mundial de Orações pela Unidade dos Cristãos. Desejo, por isso, hoje, reflectir convosco sobre este importante tema que empenha todos os baptizados, pastores e fiéis (Cfr. Unitatis Redintegratio, 5), cada um segundo a própria capacidade, a própria função e o lugar que ocupa na Igreja.

1. Este problema empenha de modo especial o Bispo desta antiga Igreja de Roma, fundada sobre a pregação e o testemunho do martírio dos Santos Pedro e Paulo. O serviço a prestar à unidade é dever primordial do ministério do Bispo de Roma.

Por isso me alegra saber que na nossa Diocese de Roma, como em tantas outras dioceses do mundo, esta Semana foi cuidadosamente organizada com o fim de nela envolver a todos: as paróquias, as comunidades religiosas, as organizações católicas, as escolas, os grupos juvenis, e também os ambientes de sofrimento, como os hospitais. Alegra-me saber que onde quer que isso é possível, se procura organizar também orações comuns com os outros irmãos cristãos, em harmonia de sentimentos, a fim de que, em obediência à vontade do Senhor, possamos crescer na fé, a caminho da unidade plena, para a edificação do corpo de Cristo, até que cheguemos todos à unidade da fé — como escreve o Apóstolo Paulo aos primeiros cristãos de Éfeso — e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef. 4, 13).

A busca da unidade deve penetrar todos os níveis da vida da Igreja, envolver todo o povo de Deus, para chegar finalmente a uma concorde e unânime profissão de fé.

2. Instrumento privilegiado para a participação na busca da unidade de todos os cristãos é a oração. O próprio Jesus Cristo nos deixou o seu último desejo de unidade expresso numa oração ao Pai: para que todos sejam um só; como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que também eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste (Jo. 17, 21).

Também o Concílio Vaticano II nos recomendou vivamente a oração pela unidade dos cristãos, definindo-a «alma de todo o movimento ecuménico» (Unitatis Redintegratio, 8). Do mesmo modo que a alma dá vida ao corpo, assim também a oração dá vida, coerência, espírito e finalidade ao movimento ecuménico.

Antes de mais, a oração coloca-nos perante o Senhor, purifica-nos nas intenções, nos sentimentos, no nosso coração, e produz aquela «conversão interior» sem a qual não há verdadeiro ecumenismo (Cfr. Unitatis Redintegratio, 7).

A oração lembra-nos, ainda, que a unidade, em definitivo, é um dom de Deus, dom que devemos pedir e para o qual nos devemos preparar a fim de que nos seja concedido. Assim, também, a unidade, como todo o dom, como toda a graça, depende de Deus, que usa de misericórdia (Rom. 9, 16). Uma vez que a reconciliação de todos os cristãos «excede as forças e os dotes humanos» (Unitatis Redintegratio, 24), a oração contínua e fervorosa exprime a nossa esperança, que não engana, e a nossa confiança no Senhor que renovará todas as coisas (Cfr. Rom. 5, 5;Apoc. 21, 5).

3. Mas a acção de Deus pede a nossa resposta, cada vez mais fiel, cada vez mais completa. E pede-a, também e sobretudo, para a construção da unidade de todos os cristãos.

Este ano, o tema da Semana de Oração pela unidade chama a nossa atenção precisamente para o exercício de algumas virtudes fundamentais da vida cristã. Colocai-vos ao serviço uns dos outros, para a glória de Deus. Este tema é tirado de uma passagem da Primeira Carta de Pedro (1 Ped. 4, 7-11). O apóstolo dirige-se a algumas comunidades da diáspora, do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Bitínia, da Ásia, num momento de particulares dificuldades. Exorta estas comunidades à fé cristã e afirma que o fim de todas as coisas está próximo (1 Ped. 4, 7). O tempo que vivemos é o tempo escatológico, isto é, o tempo que vai da redenção realizada por Cristo até ao Seu retorno glorioso. É preciso, portanto, viver em expectativa activa. Neste contexto o apóstolo Pedro recomenda-nos a sobriedade para nos dedicarmos à oração, pede que conservemos a caridade, «uma grande caridade», que pratiquemos a hospitalidade, quer dizer, a abertura e a dedicação generosa aos irmãos, de modo especial aos marginalizados e aos emigrados, pede que vivamos segundo a graça recebida e que coloquemos esta graça ao serviço dos outros, como bons administradores da multiforme graça de Deus.

Ouvir fielmente estes conselhos e traduzi-los na prática, por um lado, purifica as relações entre as pessoas porque a caridade cobre a multidão dos pecados (1 Ped. 4, 8), e por outro, torna mais sólida a comunidade, reforça-a e fá-la crescer. Trata-se de um verdadeiro exercício da busca da unidade. O tema propõe-nos viver, o mais possível, juntos, a herança que é comum aos cristãos. Os contactos, a cooperação, o amor recíproco e o mútuo serviço, levam-nos a conhecermo-nos melhor uns aos outros, a redescobrirmos o que temos em comum, e também a vermos o que ainda nos separa. Além disso, estes contactos impelem-nos a encontrar os caminhos para superar as divergências.

O Concílio Vaticano II levou-nos a notar que da cooperação se pode facilmente aprender «como se aplana o caminho para a unidade dos Cristãos» (Unitatis Redintegratio, 12). De facto, a oração, a mútua caridade, o serviço de uns para com os outros, constróem a comunhão entre os cristãos e encaminham-nos para a plena unidade.

4. Nesta semana a nossa oração pela unidade dos cristãos deve ser sobretudo oração de agradecimento e de impetração. Sim, devemos agradecer ao Senhor, que suscitou entre todos os cristãos o desejo da unidade (Cfr. Unitatis Redintegratio, 1), e que abençoou esta busca, que se dilata e se aprofunda cada vez mais.

Nestes últimos tempos, a Igreja católica instaurou relações fraternas com todas as outras Igrejas e Comunidades eclesiais, relações que queremos continuar e aprofundar com confiança e com esperança. Com as Igrejas ortodoxas do Oriente o diálogo da caridade fez-nos redescobrir uma comunhão quase plena, embora ainda imperfeita. É motivo de conforto ver que esta nova atitude de compreensão não se limita só aos maiores responsáveis das Igrejas locais, pois a mudança das relações no plano local é indispensável para todo o progresso ulterior.

A prática das virtudes, a que nos chama esta semana de orações, pode, além disso, fazer brotar novas experiências criativas de unidade.

A este propósito, desejo recordar que está para abrir-se um diálogo teológico entre a Igreja Católica e as Igrejas do Oriente de tradição bizantina, com o fim de eliminar as dificuldades que ainda impedem a concelebração eucarística e a plena unidade. Este é um momento importante e para ele imploramos a ajuda de Deus. Estão a decorrer, igualmente, desde há tempos, diálogos com os irmãos do Ocidente, anglicanos, luteranos, metodistas, reformados, tendo sido possível encontrar consoladoras convergências sobre temas que no passado foram motivo de profundos contrastes. Além disso, estabeleceram-se úteis relações com o Conselho Ecuménico das Igrejas e com outras organizações cristãs confessionais e interconfessionais. O caminho, porém, não terminou, e deve-mos continuá-lo para alcançar a meta. Renovemos, por isso, a nossa oração ao Senhor, a fim de que a todos os cristãos dê luz e força para que façam tudo quanto estiver ao seu alcance para que se possa chegar, o mais depressa possível, à plena unidade na verdade. Assim, praticando a verdade, cresceremos em todas as coisas pela caridade n'Aquele que é a Cabeça, o Cristo. É por Ele que o Corpo inteiro, coordenado e unido, por meio de todas as junturas, opera o seu crescimento orgânico, segundo a actividade de cada uma das partes, a fim de se edificar na caridade (Ef. 4, 15-16).

5. E agora, queridos irmãos e irmãs, unamo-nos em oração e façamos nossas as intenções acima expostas, com as seguintes invocações, a que todos sois convidados a responder: ouvi-nos, Senhor!

— No espírito de Cristo, nosso Senhor, oremos pela Igreja Católica, pelas outras Igrejas e por toda a humanidade.

Todos: Ouvi-nos, Senhor!

— Oremos por todos os que sofrem perseguições por causa da justiça, e por todos os que trabalham pela liberdade e pela paz.

Todos: Ouvi-nos, Senhor!

— Oremos pelos que exercem um ministério na Igreja, pelos que têm particulares responsabilidades na vida social e por todos os que estão ao serviço dos pequenos e dos fracos.

Todos: Ouvi-nos, Senhor!

— Peçamos a Deus, para nós próprios, a coragem da perseverança no nosso empenhamento pela realização da unidade de todos os cristãos.

Todos: Ouvi-nos, Senhor!

Senhor nosso Deus, nós confiamos em Vós. Concedei-nos a graça de agirmos como é do Vosso agrado, e de sermos fiéis servidores da Vossa glória. Ámen.

Esperando que, durante a semana pela unidade, continueis a rezar por estas intenções, de coração vos dou a Bênção Apostólica.

***

Saudações

Aos doentinhos

Quero dirigir uma saudação muito particular aos doentes aqui presentes.

Caríssimos Irmãos e Irmãs, desejo-vos de coração o alívio dos vossos sofrimentos e sobretudo a conformidade da vossa dor com a de Jesus Cristo, que, graças precisamente à Paixão, se tornou o nosso bendito Salvador. Prometendo recordar-vos na oração para quê o Senhor esteja perto de vós com a sua assistência e o seu conforto, concedo-vos a minha afectuosa Bênção Apostólica.

Aos jovens casais

Também os jovens casais devem receber a minha saudação especial. Seja o matrimónio para vós a feliz ocasião para uni verdadeiro e comum progresso humano e cristão, e seja fecundo o vosso amor em vidas novas para a Igreja e a sociedade. O Senhor vos proteja sempre e acompanhe-vos também a minha paterna Bênção Apostólica.

Aos diocesanos de Diano-Teggiano

Entre os grupos presentes neste encontro, merece uma palavra especial a peregrinação da diocese de Diano-Teggiano. presidida pelo seu Bispo.

Filhos caríssimos, viestes retemperar a vossa fé junto do Túmulo do Apóstolo Pedro. Saúdo-vos cordialmente e exorto-vos a alimentar sempre a vossa fé com a audição da Palavra de Deus, com a reflexão, com o estudo e sobretudo com a oração. Sede sempre — como recomenda São Pedro — "fortes na fé" (1 Ped. 5, 9).

Acompanhe-vos e sustente-vos a minha bênção, que de coração torno extensiva aos que vos são queridos.

Aos pescadores e operários de Burano

Dirijo um pensamento afectuoso aos pescadores e operários provenientes de Burano, bela ilhota da Lagoa de Veneza.

Caríssimos, sede sempre fiéis às vossas tradições religiosas, e mantende sempre alto o nome de "cristãos".

Regressando às vossas famílias e ao vosso trabalho, sede portadores de propósitos generosos de vida cristã cada vez mais consciente e mais autêntica. O Papa está ao vosso lado e abençoa-vos de coração.