Rádio

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A amizade de Deus



Do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo
(Lib. 4,13,4-14,1: Sch 100, 534-540) 
(Séc. II)


Nosso Senhor, o Verbo de Deus, que primeiro atraiu os homens para serem servos de Deus, libertou em seguida os que lhe estavam submissos, como ele próprio disse a seusdiscípulos: Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai (Jo 15,15). A amizade de Deus concede a imortalidade aos que a obtém.

No princípio, Deus formou Adão, não porque tivesse necessidade do homem, mas para ter alguém que pudesse receber os seus benefícios. De fato, não só antes de Adão, mas antes da criação, o Verbo glorificava seu Pai, permanecendo nele, e era também glorificado pelo Pai, como ele mesmo declara: Pai, glorifica-me com a glória que eu tinha junto de ti antes que o mundo existisse (Jo 17,5).

Não foi também por necessitar do nosso serviço que Deus nos mandou segui-lo, mas para dar-nos a salvação. Pois seguir o Salvador é participar da salvação, e seguir a luz é receber a luz.

Quando os homens estão na luz, não são eles que a iluminam, mas são iluminados e tornam-se resplandecentes por ela. Nada lhe proporcionam, mas dela recebem o benefício e a iluminação.

Do mesmo modo, o serviço que prestamos a Deus nada acrescenta a Deus, porque ele não precisa do serviço dos homens. Mas aos que o seguem e servem, Deus concede a vida, a incorruptibilidade e a glória eterna. Ele dá seus benefícios aos que o servem precisamente porque o servem e aos que o seguem precisamente porque o seguem; mas não recebe deles nenhum benefício, porque é rico, perfeito e de nada precisa.

Se Deus requer o serviço dos homens é porque, sendo bom e misericordioso, deseja conceder os seus dons aos que perseveram no seu serviço. Com efeito, Deus de nada precisa, pias o homem é que precisa da comunhão com Deus.

É esta, pois, a glória do homem: perseverar e permanecer no serviço de Deus. Por esse motivo dizia o Senhor a seus discípulos: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15,16), dando assim a entender que não eram eles que o glorificavam seguindo-o, mas, por terem seguido o Filho de Deus, eram por ele glorificados. E disse ainda: Quero que estejam comigo onde eu estiver, para que eles contemplem a minha glória (Jo 17,24).

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A oração é a luz da alma



Das Homílias do Pseudo-Crisóstomo

(Supp., Hom. 6 de precatione: PG 64,462-466)

(Séc. IV)


A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem inter­rupção.

Com efeito, não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas - como o cuidado dos pobres, as obras úteis de misericórdia ou quaisquer outros serviços do próximo - é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas as nossas obras, tempe­radas com o sal do amor de Deus, se tornarão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível.

A oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus, a mediadora entre Deus e os homens. Pela oração a alma se eleva até aos céus e une-se ao Senhor num abraço inefável; como uma criança que, chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível.

A oração é venerável mensageira que nos leva à presen­ça de Deus, alegra a alma e tranqüiliza o coração. Não penses que essa oração se reduza a palavras. Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não provém dos homens, mas é efeito da graça divina, como diz o Apóstolo: Nós não sabemos o que devemos pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis (Rm 8,26).

Semelhante oração, quando o Senhor a concede a al­guém, é uma riqueza que não lhe pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma. Quem a experimentou inflama-se do desejo eterno de Deus, como que de um fogo devorador quê abrasa o coração.

Praticando-a em sua pureza original, adorna tua casa de modéstia e humildade, torna-a resplandecente com a luz da justiça. Enfeita-se com boas obras, quais plaquetas de ouro, ornamenta-se de fé e de magnanimidade em vez de paredes e mosaicos. Como cúpula e coroamento de todo o edifício, coloca a oração. Assim prepararás para o Senhor uma digna morada, assim terás um esplêndido palácio real para o receber, e poderás tê-lo contigo na tua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo da sua presença.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A purificação espiritual por meio do jejum e da misericórdia



Dos Sermões de São Leão Magno, papa

(Sermo 6 de Quadragesima, 1-2: PL 54,285-287)

(Séc. V)


Em todo tempo, amados filhos, a terra está repleta da misericórdia do Senhor (SI 32,5). À própria natureza é para todo fiel uma lição que o ensina a louvar a Deus, pois o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe proclamam a bondade e a onipotência de seu Criador; e a admirável beleza dos elementos postos a nosso serviço requer da criatura racional uma justa ação de graças.

O retorno, porém, desses dias.que os mistérios da salva­ção humana marcaram de modo mais especial e que prece­dem imediatamente a festa da Páscoa, exige que nos prepa­remos com maior cuidado por meio de uma purificação espiritual.

Na verdade, é próprio da solenidade pascal que a Igreja inteira se alegre com o perdão dos pecados. Não é apenas nos que renascem pelo santo batismo que ele se realiza, mas também naqueles que desde há muito são contados entre os filhos adotivos.

É, sem dúvida, o banho da regeneração que nos torna criaturas novas; mas todos têm necessidade de se renovar a cada dia para evitarmos a ferrugem inerente à nossa condi­ção mortal, e não há ninguém que não deva se esforçar para progredir no caminho da perfeição; por isso, todos sem exceção, devemos empenhar-nos para que, no dia da reden­ção, pessoa alguma seja ainda encontrada nos vícios do passado.

Por conseguinte, amados filhos, aquilo que cada cristão deve praticar em todo tempo, deve praticá-lo agora com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzin­do os alimentos, mas sobretudo abstendo-se do pecado.

A estes santos e razoáveis jejuns, nada virá juntar-se com maior proveito do que as esmolas. Sob o nome de obras de misericórdia, incluem-se muitas e louváveis ações de bondade; graças a elas, todos os fiéis podem manifestar igualmente os seus sentimentos, por mais diversos que se­jam os recursos de cada um.

Se verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, nenhum obstáculo impedirá nossa boa vontade. Quando os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14), proclamavam bem-aventurado, não só pela virtude da benevolência mas tam­bém pelo dom da paz, todo aquele que, por amor, se com­padece do sofrimento alheio.

São inúmeras as obras de misericórdia, o que permite aos verdadeiros cristãos tomar parte na distribuição de es­molas, sejam eles ricos, possuidores de grandes bens, ou pobres, sem muitos recursos. Apesar de nem todos poderem ser iguais na possibilidade de dar, todos podem sê-lo na boa vontade que manifestam.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2012



"Prestemos atenção uns aos outros, 
para nos estimularmos ao amor e às boas obras" 
(Hb 10,24)

Irmãos e irmãs! 

A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito, este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal. 

Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10,24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal. 

1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão 

O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12,24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6,41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3,1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4,9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o fato de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66). 

A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118,68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16,19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29,7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5,4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança. 

O fato de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje se é muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9,8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18,15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5,11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6,1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24,16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1,8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22,61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós. 

2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade 

O fato de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14,19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15,2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1Cor 10,33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã. 

Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1Cor 12,25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e onipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5,16). 

3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade 

Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1Cor 12,31 – 13,13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4,18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras. 

Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12,21; 1Tm 6,18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12,10). 

Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6,10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica. 

Vaticano, 3 de Novembro de 2011

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Campanha da Fraternidade sobre saúde pública será aberta na Quarta-feira de Cinzas



O secretário geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Ulrich Steiner, abre, na Quarta-feira de Cinzas, 22, às 14h, na sede da Conferência, em Brasília (DF), a Campanha da Fraternidade-2012. O tema proposto para a Campanha deste ano é “Fraternidade e Saúde Pública” e o lema “Que a saúde se difunda sobre a terra”, tirado do livro do Eclesiástico.

O ministro da saúde, Alexandre Rocha Santos Padilha, confirmou sua presença. Além dele, participarão do ato de abertura da CF o sanitarista Nelson Rodrigues dos Santos; o Gestor de Relações Institucionais da Pastoral da Criança e membro do Conselho Nacional de Saúde, Clovis Boufleur, e o cirurgião e membro da equipe de assessoria da Pastoral da Saúde do Conselho Episcopal Latino-americano, André Luiz de Oliveira. O ato é aberto à imprensa.

A CF-2012 tem como objetivo geral “refletir sobre a realdiade da saúde no Brasil em vista de uma vida saudável, suscitando o espírito fraterno e comunitário das pessoas na atenção aos enfermos e mobiliza por melhoria no sistema público de saúde”.

Realizada desde 1964, a Campanha da Fraternidade mobiliza todas as comunidades catóilcas do país e procura envolver outros segmentos da sociedade no debate do tema escolhido. São produzidos vários materiais para uso das comunidades com destaque para o texto-base, produzido por uma equipe de especialistas.

A Campanha acontece durante todo o período da quaresma que, segundo o secretário geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, “é o caminho que nos leva ao encontro do Crucificado-ressuscitado”.

Na apresentação do texto-base, dom Leonardo, eplica que, com esta Campanha da Fraternidade, a Igreja quer sensibilizar as pessoas sobre a “dura realidade de irmãos e irmãs que não têm acesso à assistência de saúde pública condizente com suas necessidades e dignidade”.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Em coletiva, presidente da CNBB fala sobre Ficha Limpa, CNJ e povos indígenas



Na manhã desta quinta-feira, 16, a presidência da CNBB abriu as portas de sua sede para uma entrevista coletiva. Estiveram presentes o presidente da CNBB, cardeal Raymundo Damasceno Assis, o vice-presidente, dom José Belisário da Silva, e o secretário geral, dom Leonardo Ulrich Steiner. A entrevista teve o objetivo de abordar os temas discutidos no Conselho Episcopal Pastoral (Consep), que aconteceu nos dias 14, 15 e 16 de fevereiro.

Os bispos falaram sobre a Lei da Ficha Limpa, cuja constitucionalidade está sendo julgada desde ontem, 15, pelo Superior Tribunal Federal (STF); a situação dos povos indígenas Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, e a atuação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que teve seus plenos poderes reconhecidos pela Suprema Corte do país no início do mês.

Dom Damasceno destacou, também, que a Lei da Ficha Limpa surgiu a partir de uma iniciativa popular, com o recolhimento de 1,5 milhão de assinaturas. “Tive a oportunidade de estar ontem no plenário do STF para dar uma demonstração de apoio a esta lei complementar”, disse o cardeal, mencionando que a CNNB foi uma das principais entidades que promoveram a coleta de assinaturas a favor da lei.

Povos indígenas

O secretário geral da CNBB, dom Leonardo Ulrich Steiner, visitou algumas aldeias e comunidades indígenas Guarani Kaiowá, na região sul do estado de Mato Grosso do Sul. O bispo falou à imprensa sobre a situação degradante em que vivem esses povos tradicionais. “Para os povos indígenas a terra é fundamental. Conversando com eles, me chocou a afirmação que alguns adolescentes se enforcam por não terem perspectivas. É um povo que não pode manifestar sua cultura”, descreveu.

Uso de preservativos

Dom Leonardo falou, ainda, na entrevista sobre o uso e distribuição de camisinhas pelo Ministério da Saúde no período do carnaval. “Essa política pública de distribuição de camisinhas, penso não ser a mais adequada. É preciso, sim, veicular o sentido da própria sexualidade e da relação entre as pessoas”, disse.

Justiça

Sobre o CNJ, o secretário geral da CNBB afirmou que o STF prestou um serviço ao Brasil. “É mais uma vez o STF dando ao Brasil a oportunidade de ter instituições que ajudem a dar maior transparência também quanto à justiça. Quem ganhou com isso foi o próprio Supremo, foram os magistrados, e a sociedade brasileira”, afirmou.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

7º DOMINGO DO TEMPO COMUM



Leituras: Is 43,18-19.21-22.24-25; Sl 40(41); 2Cor 1,18-22; Mc 2,1-12

"Confiei, Senhor, na vossa misericórdia; meu coração exulta porque me salvais. Cantarei ao Senhor pelo bem que me fez” (Sl 12,6).

Vamos refletir como tema central deste sétimo domingo do Tempo Comum a misericórdia de Deus, o Senhor da Vida, que perdoa nossos pecados e nos convida à graça da amizade com Deus.

Iniciamos uma unidade nas leituras destes domingos seguintes. A cura do paralítico (Mc 2,1-12) introduz hoje a chamada “disputa da Galiléia”. São cinco enfrentamentos entre Jesus e os chefes do povo. Marcos aponta para a cruz, ou seja, tudo o que vai acontecer ao longo do Evangelho leva ao Calvário. O evangelista ensina que a cruz não é um acidente na vida e missão de Jesus, mas tudo se encaminha para ela, como um rio para o mar.

Hoje, somos convidados a refletir a pergunta: quem é Jesus de Nazaré? Qual é a sua missão?

Marcos procura mostrar que Jesus é o que se encarnou como um de nós para fazer-se homem, para que os homens cressem no Filho do Homem, dizendo ainda que não é a Lei que salva, mas o espírito da Lei que vivifica o homem, ou seja, a salvação das almas e Reino de Deus.

Meus irmãos,

A Liturgia deste domingo mostra Jesus vencendo uma exclusão maior do que a do leproso do domingo passado: a do pecado. Jesus, hoje, ao invés de curar o leproso, perdoa os seus pecados. E quando os teólogos da primeira fila começam a protestar, dizendo que só Deus pode perdoar o pecado, Jesus realiza o sinal da cura para mostrar sua autoridade: autoridade do “Filho do Homem”.

A história não contou que o aleijado era pecador. Mas Jesus o sabia. Aliás, quem não é pecador? E essa deficiência pode ser, ainda, interpretada como a deficiência que o pecado nos causa, privando-nos da graça. Somos todos deficientes, suplicando a misericórdia de Nosso Senhor para que nos resgate e nos conceda, pelos méritos de sua Paixão e Morte, as graças que nos permite uma vivência íntima e elevada com Ele.

Jesus se revela como detentor do poder-autoridade de Deus. Ele é mais que um curandeiro. Ele tem poder sobre o pecado e a morte. Ele é o “Filho do Homem”. O que ele veio fazer não era tanto tirar as doenças físicas, mas cassar o pecado. Deus não quer nem mais se lembrar do pecado do povo (cf. Is 43,18-19.21-22.24-25). Curar, até os médicos conseguem. Perdoar, só Deus... e seu Filho Jesus. A história de Israel nos mostra a justiça de Deus, mas também a fidelidade de seu amor. É uma mensagem ao povo exilado, que não sabe se tem ainda um porvir. Deus mesmo agirá, abrirá um caminho pelo deserto, como no tempo do Êxodo, e seu povo poderá de novo proclamar a sua glória.

Irmãos e Irmãs,

Rezar é muito bom, diria até, excelente. Porém, mais do que rezar, temos que ter atitudes e obras de caridade. Devemos superar os fariseus que rezavam o dia todo, cumpriam toda a lei, mas não tinham caridade e não conheciam o perdão e o amor.

Será o paralítico, enfermo e entrevado numa cama, que reconhecerá Jesus, o Messias, o Filho de Deus, pedindo a cura para salvar-se. O auto-suficiente, o orgulhoso, não reparte os espaços de seu coração, de sua vida. E só pode saber “quem é Jesus” quem lhe faz lugar num coração necessitado, humilde, receptivo, porque o Senhor esconde essas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revela aos pobres e pequeninos. O contraste entre os escribas e os quatro que trouxeram o paralítico podemos vê-lo, ainda, nos dias de hoje em inúmeras situações.

O paralítico curado por Jesus significa todos os excluídos da vida social e religiosa. Os leprosos eram mortos e vivos. O paralítico, falto de forças, incapaz de caminhar sozinho e dependente de uma vontade alheia, é o símbolo da criatura humana, sobretudo depois do paraíso perdido. Jesus curou o paralítico por compaixão.

Irmãos e Irmãs,

Estamos diante da porta da casa de Pedro e André e ali o povo se reuniu. O paralítico foi levado em uma cama. Quem tem fé são os quatro que carregavam o paralítico; este fica mudo. Isso quer dizer que a pessoa de fé assume o comportamento de levar quem está fora da Igreja para conhecer a Jesus e aderir ao seu seguimento. Jesus perdoa os pecados do paralítico, reconstituindo-o ao grêmio social. Trata-se da inauguração de uma nova teologia, do Deus-Misericórdia, do Deus-ternura, do Deus-Pai carinhoso. Deus se distingue por sua generosidade, pela partilha de sua graça, por seu perdão incondicional, por estar exclusivamente voltado para a vida: “Toma seu leito, vai para casa”. Jesus nos perdoa, nos salva e nos manda voltar para casa e para a vida, uma vida nova, cheia de graça e encantamento pelo seu Evangelho e pelo seu Reino. Jesus nos envia feito-nos discípulos, com a missão de evangelizar pelo exemplo que devemos dar na vida fraterna em família, na comunidade, no trabalho, como lídimos mensageiros da Paz.

A assertiva de Jesus mandando o paralítico “vai para a sua Casa” é um chamamento à conversão e à mudança de vida para que todos nós caminhemos para as nossas casas, para a santidade. Todos somos convidados à conversão e à mudança de vida, livres do pecado, mas em paz com Deus. Esta é a mensagem de amor, de solidariedade, de saúde e paz que o Deus da vida nos dá para a semana que inicia.

Meus irmãos,

A segunda leitura (2Cor 1,18-22) é do início da segunda Carta de São Paulo aos Coríntios. Paulo se defende da acusação de inconstância. Paulo deve explicar por que lhes prometeu uma visita e não a realizou. A razão não é a inconsistência. O “sim” de Deus é o “sim” mesmo e igualmente deve ser também o “sim” do apóstolo, cuja atuação deve ilustrar o conteúdo da pregação.

A razão é que Paulo não quis visitar os Coríntios com o coração magoado por causa das polêmicas, que alguém lá estava conduzindo contra ele. Portanto, o adiamento da visita confirmava o “sim” do carinho de seu coração. Este era constante. Paulo atribui sua firmeza a Deus, que nos sela com o Espírito. Sua firmeza é dom divino, não mérito humano, é graça.

Caríssimos,

Num tempo de inconsistência, provocada por uma cultura de consumo e de alta rotatividade, convém pedir a Deus o dom da firmeza. Firmeza como instrumento de amor, para poder amar e servir de modo coerente. Firmeza também como fortaleza permanente na resistência à injustiça, sobretudo quando ela se aninha firmemente na própria estrutura da sociedade.

Nesta Eucaristia, somos convidados a dizer sim a Deus, conforme o ensinamento de Paulo. Ao recebermos o perdão de nossos pecados, pela ação do Cristo na Igreja, Jesus que perdoa nossos pecados, na missão do sacerdote, mostra que o paralítico não é alguém rejeitado por Deus.

Uma concepção demasiada restrita da sacramentalidade levou o católico a limitar indevidamente ao sacramento da penitência o exercício do poder sacramental do perdão confiado à Igreja. Por isso devemos redescobrir hoje o valor originalmente penitencial da Eucaristia no seu conjunto e em alguns de seus ritos particulares.

Aprendamos, pois, a redescobrir o sacramento da confissão, na forma auricular, como uma forma especial de ação de graças e de intimidade com o Deus da Vida. Amém.

Pe. Wagner Augusto Portugal
Vigário Judicial da Diocese da Campanha - MG

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sofrer num "contexto válido" e sofrer "por causa de" algo ou alguém



O desafio do sofrimento segundo o pensar de Viktor Frankl

ROMA, quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012 (ZENIT.org) – Por ocasião da Jornada Mundial dos Enfermos, é particularmente significativo repropor o pensamento do psiquiatra austríaco Viktor E. Frankl, fundador da logoterapia e da análise existencial, considerada a Terceira Escola Vienense de Psicoterapia, focada na procura do sentido da vida e nas atitudes a serem assumidas perante situações de sofrimento.

É indicativo um episódio que Viktor Frankl narrou muitas vezes aos seus ouvintes. Um homem encontra na rua o médico de família, que lhe pergunta sobre o seu estado de saúde. Imediatamente, o médico percebe que o paciente demonstra alguma dificuldade para ouvir. "Provavelmente, você está bebendo demais. Pare de beber e se sentirá melhor", aconselha. Alguns meses mais tarde, os dois se encontram novamente na rua e, para saber do estado atual de saúde do paciente, o médico levanta a voz, mas o homem responde: "Não há necessidade de gritar, doutor. Eu escuto perfeitamente". "Certamente você parou de beber, não é? Continue nesse tratamento". Depois de mais um tempo, eles se encontram pela terceira vez. E, novamente, o médico precisa levantar a voz para se fazer ouvir. "Provavelmente, você começou a beber de novo", diz ao paciente. E este lhe explica: "Veja, doutor. Antes eu bebia e a minha audição era ruim. Depois, parei de beber e estava me sentindo melhor. Mas o que eu sentia não era tão bom quanto o uísque".

Frankl comenta: "Na ausência de um sentido da vida, cuja realização o teria feito feliz, ele tentou chegar a um sentimento de felicidade eludindo toda realização de significado, apoiando-se num elemento bioquímico. O sentimento de felicidade, que normalmente nunca é proposto como o fim da aspiração humana, mas parece ser uma manifestação lateral do ter-alcançado-o-próprio-escopo, um "efeito" secundário, se deixa ‘perseguir’, e isso foi possibilitado justamente pelo álcool etílico" (Frankl, 2005, pág. 17).

Para Frankl, ser homem significa ser fundamentalmente orientado para algo que nos transcende, para algo que está além e acima de nós, algo que nos atrai profundamente. Só aquele que crê na sua "vontade de significação" pode construir uma hierarquia de valores capaz de atribuir ao prazer e ao poder, à auto-afirmação e à satisfação dos próprios instintos o seu verdadeiro lugar, que é o de ser produtos secundários, efeitos de uma realização do sentido da própria existência.

Hoje é um verdadeiro desafio falar de procura de sentido, porque se é imediatamente reconduzido à capacidade radical do homem de descobrir os significados das situações individuais que abarrotam a vida cotidiana, de tomar decisões que correspondam ao seu dever-ser, de descobrir as possibilidades que estão inseridas na sua existência única.

Se a vida do homem é sempre específica, por referir-se a um ser singular, concreto, individual, a sua tarefa não pode ser algo geral, válida para todos e para qualquer um, permanente em qualquer momento, mas varia de homem para homem, porque corresponde à singularidade e à individualidade de cada um.

Ao mesmo tempo, no entanto, a tarefa varia de situação para situação, porque a singularidade das situações traz consigo uma caracterização diferente, com exigências e condições próprias, nunca repetíveis. E o homem deve observar atentamente, portanto, a situação em que se encontra, e que não apresenta nenhum desencontro com o que acontece consigo mesmo ou com outros, agora ou anteriormente.

Com a voz da consciência, o homem é capaz de perceber qual é o sentido que está escondido por trás de uma situação e assim agir em conformidade e com responsabilidade. "Numa época em que parece que os dez mandamentos estão perdendo a sua validade incondicional para muitos homens, o homem deve aprender a perceber os dez mil mandamentos que surgem das dez mil situações únicas que enchem a sua vida" (Frankl, 1992, págs. 29-30). Isto significa que somos constantemente interpelados pela realidade, pelas situações em que nos encontramos e que nos pedem uma resposta. É por isso que John F. Kennedy, em 20 de janeiro de 1961, no discurso de posse como presidente dos Estados Unidos da América, disse aos seus compatriotas: "Não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês, mas o que vocês podem fazer pelo seu país" (citado em Dallek, 2004, pág. 366). E, quase como complemento, Frankl aconselhava aos seus ouvintes norte-americanos: "Depois de ter construído a Estátua da Liberdade na costa leste, seria de se construir a estátua da responsabilidade na costa oeste" (Frankl, 2010, pág. 63).

Em nossa era científica, o progresso humano é calculado com dados que podem ser facilmente medidos, inseridos no computador e analisados. No entanto, as respostas do computador indicam apenas como o homem se comporta na média e em amostras de grupos, mas nunca como ele deveria se comportar em situações específicas. "A nossa vida não é regulada em cada cruzamento por uma luz vermelha que manda parar, nem por uma luz verde que manda seguir em frente. Nós vivemos em uma era de luz amarela intermitente, que deixa para cada indivíduo o peso da decisão" (Fabry, 1970, pág. 80). Viver, basicamente, significa ter a responsabilidade de "responder" exatamente aos problemas vitais, de cumprir as tarefas que a vida coloca para cada indivíduo, de atender às necessidades do momento.

As tarefas que o homem é chamado a realizar têm um sentido tríplice: o trabalho, o amor e o sofrimento. Se no trabalho o homem pode se expressar imprimindo a sua marca pessoal à realidade, e se no amor ele pode viver as mais fortes e íntimas experiências, é no sofrimento que ele manifesta a sua grandeza, pois só no sofrimento ele se acha tragicamente confrontado consigo mesmo, com a sua capacidade não só de trabalhar e de desfrutar, mas também de sofrer.

O homem tem o direito à vida, à alegria, ao trabalho, à paz. Mas também tem um direito fundamental que ninguém pode lhe arrebatar, por nenhum preço: o direito de sofrer a sua própria dor, de inundar de significado uma vida aparentemente destruída, economicamente sem sucesso. O sofrimento "não é simplesmente uma possibilidade qualquer, mas a possibilidade de realizar o valor supremo, a oportunidade de dar plenitude ao significado mais profundo da vida" (Frankl, 2001, pág. 190).

Este sentido brilha na atitude que o homem assume diante de um destino de dor, diante das forças adversas, diante de situações irreparáveis. É por isso que o imperador austríaco Francisco José II, em 1784, quis que à entrada do Hospital Policlínico de Viena fosse escrita a frase latina Saluti et solatio aegrorum. Quem cuida da saúde física e mental de outro também é chamado a ajudá-lo a suportar com aceitação e compreensão os sofrimentos inevitáveis que a vida lhe reserva e a recuperar não apenas a capacidade de trabalhar e desfrutar, mas também a de sofrer.

Eugenio Fizzotti

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Arturo Mari fala sobre o Papa Wojtyla aos jovens poloneses



O testemunho do fotógrafo em Czestochowa

ROMA, quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012 (ZENIT.org) - "Czestochowa ocupa um lugar especial na minha vida, aqui me sinto em casa." Disse Arturo Mari, o fotógrafo do Beato João Paulo II, que na noite de ontem encontrou-se com os moradores de Czestochowa e com a comunidade acadêmica na igreja de Santo Irineu. Na reunião participaram cerca de 300 pessoas, a maioria estudantes.

Perguntado sobre como ele vê Czestochowa, sete anos após a morte de João Paulo II, Mari disse que "se todos os dias vocês participam do apelo de Jasna Gora, tradicional oração mariana, e se aqui em Czestochowa tem o Museu das Moedas de João Paulo II, o único do seu tipo no mundo, ele, João Paulo II, está aqui com vocês. "

O fotógrafo do Papa Wojtyla disse que "o verdadeiro poder do papado de João Paulo II foram os jovens. Vocês foram a sua esperança, a sua força ", disse Mari.

"O amor pelos jovens era o seu estilo de vida. Queria que os jovens vivessem com dignidade e em armonia com a Verdade. Os jovens têm procurado daquele homem de branco, nas suas vidas, os seus caminhos", continuou o fotógrafo.

Mari lembrou "a grande importância que tinham na vida de João Paulo II, a oração, a humildade, o amor por outro ser humano, mas também o sofrimento."

"A Cruz de Cristo era para ele um ponto de referência. Na Cruz João Paulo II procurou a força espiritual. A sua vida estava inserida no mistério da cruz ", disse o fotógrafo.

"João Paulo II fazia tudo com humildade. Tinha uma fé profunda. Com as palavras do Evangelho tem fortalecido os jovens ", disse Mari.

O famoso fotógrafo também lembrou a sua amizade com o cardeal Stefan Wyszynski, o Primaz do Milênio. "Wyszynski, no Concílio Vaticano II apresentou-me o jovem Karol Wojtyla", disse Arturo Mari.

Lembrou também seu último encontro com João Paulo II, oito horas antes da sua morte. "Virou a cabeça para mim, tocou meu rosto e disse baixinho:" Arturo, obrigado '", disse o fotógrafo.

Arturo Mari também participou da Santa Missa, celebrada pelo Pe. Marek Bator, capelão universitário e pároco da paróquia acadêmica de Santo Ireneu. "Este é um dia importante para a nossa comunidade: está no meio de nós um testemunho do pontificado do Beato João Paulo II", disse Don Marek.

Arturo Mari veio a Czestochowa nos últimos dias, a convite de Krzysztof Witkowski, fundador do Museu de moedas e medalhas do Papa João Paulo II.

Durante a sua estada em Czestochowa, Mari conheceu, entre outros monsenhor Wacław Depo, Arcebispo Metropolitano de Czestochowa, visitou Jasna Gora e o Museu das moedas e das medalhas do Papa João Paulo II.

O fotógrafo também teve tempo para se encontrar com uma família em Blachownia perto de Czestochowa. "Foi uma verdadeira alegria para nós quando Arturo Mari quis encontrar-nos. Ele é testemunha do Beato João Paulo II. Este dia permanece em nossos corações para sempre ", disse à Zenit a Sra. Jowita Kostrzewska. "Estou muito feliz", disse Wojciech Kostrzewski, o marido de Jowita.

Arturo Mari foi o fotógrafo de seis papas, desde março de 1956, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, o Beato João Paulo II e Bento XVI. Durante o pontificado de João Paulo II tirou quase seis milhões de fotos.

Pe. Mariusz Frukacz

[Tradução Thácio Siqueira]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A fé ajuda a dar sentido para a dor?

Entrevista com o Dr. Francesco Morrone, especialista em Pediatria e Neonatologia

ROMA, quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012(ZENIT.org) -O médico Francesco Morrone, 34 anos, especialista em Pediatria e Neonatologia falou ao ZENIT sobre o papel da fé no desenvolvimento de seu trabalho. Dr Morrone atende na UTI Pediátrica da Policlínica Umberto I, na cidade de Roma. 

***

O senhor trabalha com as crianças, mas como se desenvolve a relação médico-pais?
Dr.Morrone: A relação com os pais, mais do que a patologia comprovada de seus filhos, requer grande capacidade de comunicação e acima de tudo uma grande sensibilidade em relação ao ser humano por parte do médico. Eu poderia até dizer que na maioria das vezes, em situações críticas, a comunicação com os pais é a parte mais difícil do meu trabalho. No começo, eu pensava que deveria apenas explicar bem e com um pouco de cuidado, o que a criança estava vivendo e dizer quais eram os riscos que iria enfrentar; mas quanto mais o tempo passa, mais eu percebo que cada pai é diferente e traz consigo a bagagem de suas próprias ansiedades e frustrações, especialmente quando se trata de um ser tão indefeso como o recém-nascido que necessita de cuidados intensivos. Devemos, portanto, aproximarmo-nos dos pais na ponta dos pés, tentando sempre que possível, dar uma imagem realista da situação e, ao mesmo tempo assegurando-lhes que você está fazendo o possível para a saúde da criança.

O que é mais importante nesta comunicação?
Dr.Morrone: Um elemento importante na relação médico-pais é a maneira pela qual os pais são sensibilizados para expressar suas preocupações sobre a criança, seus próprios medos, levando em consideração os sentimentos deles. 
Em minha opinião, um médico que não tem a força para partilhar esta dor e assumi-la, não pode realizar este trabalho, por mais que seja cientificamente preparado.

Ser católico ajuda a dar sentido para esta dor?
Dr.Morrone: Ser católico me ajuda a pensar que tenho diante de mim pessoas sofridas e indefesas, que são a parte mais fraca da nossa sociedade, ou seja, o próprio Cristo. Para dar sentido ao sofrimento deles, devemos respeitar o sofrimento e dar a eles a dignidade que merecem; depois, você tem que falar sobre Cristo e isso não é tarefa fácil em um hospital público como o meu, na verdade, não é fácil, nem mesmo nos hospitais religiosos porque as pessoas, hoje em dia, acham difícil acreditar nEle. Neste sentido posso e devo crescer. Quando estou diante de casos desesperadores, em que o recém-nascido corre risco de vida, posso testemunhar que a fé é uma importantíssima ancora para estes pais, é a única coisa que pode dar sentido à dor de uma perda tão grande.

É possível ver alguma diferença entre o tratamento de quem tem fé e de quem não tem fé?
Dr.Morrone: Devo dizer que os pais que crêem enfrentam a dor com muita serenidade, às vezes com uma força surpreendente que pode ser obtida somente a partir do Altíssimo, e são para mim um grande testemunho de fé na onipotência do Senhor, o único verdadeiro médico das almas e dos corpos. Os que não crêem, com muita freqüência, abandonam-se ao desespero e não aceitam a dor, que termina por esmagá-los. Isso faz com que a relação médico-pais se torne mais delicada, mais complicada e muitas vezes conflitante.

O senhor acredita que podemos oferecer nossos sofrimentos ao Senhor e Ele os utiliza para realizar milagres? 
Dr.Morrone: Tenho algumas experiências, mas não sei se seriam milagres, pelo menos do ponto de vista científico, não posso ir tão longe, embora houvesse alguns casos muito difíceis, que parecem ter sido resolvidos de maneira excepcional, sem que a criança sofresse algumas deficiências como resultado específico ou danos causados ​​pela doença.

O Senhor já teve pacientes que viveram esta experiência?
Dr.Morrone: Recordo-me de um caso que encheu meu coração: Gian Michele, um bebê prematuro que nasceu com baixo peso e teve vários problemas; mais do que uma vez foi milagrosamente salvo pelos médicos de plantão (uma vez por mim mesmo). Depois de um período internado em nosso setor, quando a situação era muito crítica e pensávamos o pior, os pais pediram para batizá-lo, em preparação para uma possível despedida. Eles me escolheram como o padrinho de batismo. Isso realmente tocou meu coração e a cerimônia foi muito bonita. Aos poucos e para grande surpresa de todos, Gian Michele ganhou peso e força, ele começou a respirar por conta própria e não teve mais que utilizar máquinas de apoio. Agora, tem quase um ano de idade, e cresceu muito, começa a pegar objetos e é muito vivaz. Este é um pequeno milagre para mim!

A Igreja celebrou dia 11 de fevereiro, a Festa de Nossa Senhora de Lourdes, e o XX Dia Mundial do Doente. O tema deste ano foi “Levanta-te e anda, a tua fé te salvou”. O que isto significa para o senhor?
Dr.Morrone: Bem, a pergunta introduz o grande tema da salvação que é uma cura muito maior. Na verdade, eu acredito que seja a cura definitiva. O Senhor como médico da alma é o nosso Salvador, aquele que muitas vezes sana a dor e a doença do corpo, mas certamente cura as doenças da alma, as doenças mais graves, as únicas que podem levar à morte, com M maiúscula, a morte eterna.

O Papa lançou “O ano da fé” que terá inicio em outubro de 2012. Seria uma boa oportunidade para redescobrir a força e a beleza da fé?
Dr.Morrone: O ano da fé deveria ser todos os anos, porque sem fé não há relação com Deus. Chamar a atenção para a nossa fé, dedicando um determinado ano pode ser uma grande oportunidade, ajuda a redescobrir o valor da oração. Somente quem reza realmente tem fé e quando a tempestade chega, o sofrimento; se não temos raízes profundas, a nossa fé vacila e a nossa casa é destruída! Não existem culturas católicas que se mantém: o crer genericamente em Deus não basta. Se não o buscamos quotidianamente, se não confiamos plenamente nEle, e se, as vezes, não “brigamos” com Ele, não amadurecemos na fé.

O senhor poderia deixar uma mensagem aos leitores de ZENIT?
Dr.Morrone: A fé é um dom maravilhoso da bondade de Deus e não uma conquista pessoal gloriosa. Um dom que Deus dá a todos, basta estar disponível e abandonar-se nEle.

Por Maria Emilia Marega

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A libertação nasce da verdade de Cristo



JOÃO PAULO II

16ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 1979

1. Ainda hoje desejo referir-me ao tema da terceira Conferência do Episcopado Latino-Americano: à evangelização. É tema fundamental, tema que é sempre de actualidade. A Conferência, que a 13 de Fevereiro terminou os seus trabalhos em Puebla, dá testemunho disso. É, além disso, o tema «do futuro», o tema que a Igreja deve viver continuamente e prolongar no futuro. O tema constitui, por isso, a perspectiva permanente da missão da Igreja.

Evangelizar quer dizer tornar presente Cristo na vida do homem enquanto pessoa, e ao mesmo tempo na vida da sociedade. Evangelizar significa fazer todo o possível, segundo as nossas capacidades, para que o homem «creia»; para que o homem se encontre a si mesmo em Cristo; para que encontre n'Ele o sentido e a dimensão adequada da própria vida. Este encontro é, ao mesmo tempo, a fonte mais profunda da libertação do homem. Exprime-o São Paulo quando escreve: Foi para que ficássemos livres que nos libertou Cristo (Gál. 5, 1). Assim a libertação é certamente uma realidade de fé, um dos fundamentais temas bíblicos, inscritos profundamente na missão salvífica de Cristo, na obra da Redenção e no Seu ensinamento. Este tema não deixou nunca de constituir o conteúdo da vida espiritual dos cristãos. A Conferência do Episcopado Latino-Americano testemunha que este tema volta em novo contexto histórico; por isso deve ele retomar-se no ensinamento da Igreja, na teologia e na pastoral. Deve retomar-se na sua profundidade própria, e na sua autenticidade evangélica.

Muitas circunstâncias fazem que ele seja muito actual. Difícil é, aqui, mencioná-las todas. Recorda-o certamente aquele «universal desejo da dignidade» do homem, de que fala o Concílio Vaticano II. A «teologia da libertação» é frequentemente relacionada (algumas vezes demasiado exclusivamente) com a América Latina; é necessário porém dar razão a um dos grandes teólogos contemporâneos (Hans Urs von Balthasar), que justamente exige uma teologia da libertação de dimensão universal. Só são diversos os contextos, mas a realidade mesma da liberdade «para que nos libertou Cristo» (Cfr. Gál. 5, 1). é universal. A missão da teologia é encontrar o seu verdadeiro significado nos diversos e concretos contextos históricos contemporâneos.

2. O próprio Cristo relaciona, de modo especial, a libertação com a consciência da verdade: Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (Jo. 8, 32). Esta frase garante sobretudo o significado íntimo da liberdade para a qual nos liberta Cristo. Libertação significa transformação interior do homem, que é consequência do conhecimento da verdade. A transformação é portanto processo espiritual, em que o homem se aperfeiçoa na justiça e na santidade verdadeira (Ef. 4, 24). O homem, assim amadurecido internamente, torna-se representante e porta-voz dessa «justiça e santidade verdadeira» nos diversos meios da vida social. A verdade tem importância não só para o crescimento da consciência humana, aprofundando deste modo a vida interior do homem; a verdade tem ainda significado e força profética. Constitui o conteúdo do testemunho e requer um testemunho. Encontramos esta força profética da verdade no ensinamento de Cristo. Como Profeta, como testemunha da verdade, Cristo opõe-se repetidamente à não-verdade; fá-lo com grande força e decisão e muitas vezes não hesita em deplorar o que é falso. Tornemos a ler cuidadosamente o Evangelho; nele encontraremos não poucas expressões severas, por exemplo sepulcros caiados (Mt. 23, 27), guias cegos (Mt. 23, 16), hipócritas (Mt. 23, 13.15; 23.25.27.29), expressões que pronuncia Cristo, consciente das consequências que O esperam.

Portanto, este serviço prestado à verdade, como participação no serviço profético de Cristo, é missão da Igreja, que procura cumpri-la nos diversos contextos históricos. É necessário chamar com os devidos nomes a injustiça, a exploração do homem pelo homem, ou a exploração do homem por parte do Estado, das instituições, dos mecanismos dos sistemas económicos e dos regimes, que operam algumas vezes sem sensibilidade. É preciso chamar com os devidos nomes toda a forma de injustiça social, discriminação e violência, infligidas ao homem contra o corpo, contra o espírito, contra a sua consciência e contra as suas convicções. Cristo ensina-nos especial sensibilidade para com o homem, para com a dignidade da pessoa humana, para com a vida humana e o corpo humano. É esta sensibilidade que dá testemunho do conhecimento daquela verdade que nos torna livres (Jo. 3, 32). Não é permitido ao homem esconder esta verdade diante de si mesmo. Não é permitido «falsificá-la». Não é permitido fazer desta verdade objecto de «luta pelo exclusivo». É necessário falar dela de modo claro e simples. E não para «deplorar» os homens, mas para servir a causa do homem. A libertação, também no sentido social, parte do conhecimento da verdade.

3. Limitamo-nos a este ponto. É difícil num breve discurso exprimir tudo o que encerra este tema longo, que tem muitos aspectos e sobretudo muitos níveis. Repito: muitos níveis, porque neste tema é preciso ver o homem segundo os diversos elementos de toda a riqueza da sua entidade pessoal e ao mesmo tempo social: entidade «histórica», e dalgum modo, «supratemporal». (Desta «supratemporalidade» do homem dá testemunho também a história). A entidade que é a «cana pensante» (Cfr. B. Pascal, Pensées, 347). — é sabido como é frágil a cana — exactamente porque «pensante», supera-se sempre a si mesma; leva dentro de si o mistério transcendental e uma e uma «inquietação criativa», que dele promana.

Por agora detemo-nos neste ponto. A teologia da libertação deve sobretudo ser fiel a toda a verdade sobre o homem, para evidenciar— não só no contexto latino-americano mas em todos os contextos contemporâneos — a realidade que é esta liberdade «para que nos libertou Cristo».

Cristo! É necessário falar da nossa libertação em Cristo, é necessário anunciar esta libertação. É necessário inseri-lo em toda a realidade contemporânea da vida humana. Requerem-no muitas circunstâncias, muitas razões. Exactamente nestes tempos — em que se pretende que a condição da «libertação do homem» seja a sua libertação «de Cristo», isto é, da religião — precisamente nestes tempos deve tornar-se, para nós todos, cada vez mais evidente e cada vez mais plena a realidade da nossa libertação em Cristo.

4. Para isto nasci e para isto vim ao mundo, para dar testemunho da verdade (Jo. 18, 37).

A Igreja, olhando para Cristo que dá testemunho da verdade, em toda a parte e sempre deve perguntar a si mesma, e em certo sentido também ao «mundo» contemporâneo, de que modo se há-de fazer sobressair o bem do homem: para que ele seja mais forte que o mal, que qualquer mal moral, social, etc. A terceira Conferência do Episcopado Latino-Americano dá testemunho da disponibilidade para assumir este encargo. Queremos não só recomendar a Deus este encargo, mas também i-lo conseguindo para o bem da Igreja e de toda a família humana.

***

Saudações

A uma Peregrinação de Ferrara e Comacchio (Itália)

Dirijo uma cordial e afectuosa saudação à numerosa peregrinação da Arquidiocese de Ferrara e da Diocese de Comacchio, presidida pelo Arcebispo Dom Filipo Franceschi. Tenho presente neste momento, caríssimos irmãos e irmãs, a gloriosa história das vossas cidades, as suas muitas e benéficas instituições para serviço do homem, e sobretudo conheço a fé sincera que anima as vossas Comunidades eclesiais, e é vida do Seminário e ele todas as formas do apostolado cristão, que aplicam com felicidade as indicações do Concílio Vaticano li. Ao agradecer-vos esta vossa visita, que tanto apreciei, exorto-vos e animo-vos a cada vez mais generosa fidelidade às vossas nobres e genuínas tradições, a que a façais progredir continuamente nuns clima de aberta e leal solidariedade. A todos concedo a minha Bênção Apostólica.

A Peregrinos de Patti (Itália)

Uma saudação também aos peregrinos da Diocese de Patti, aqui reunidos com o seu Pastor Dom Carmelo Ferraro, não só para demonstrarem ao sucessor de Pedro o seu amor, mas também para levarem benzida a "primeira pedra" do "Centro de promoção pela vida", que será levantado junto do célebre santuário de Nossa Senhora de Tíndari. Ao manifestar-vos reconhecimento, caríssimos irmãos e irmãs, por este duplo testemunho de respeito, e ao abençoar a "primeira pedra", desejo exprimir votos de que a obra, que vai começar, seja sustentada generosamente por todos vós, a fim de que não só se erga de modo que seja digno da importância da nobre finalidade em vista, mas sobretudo contribua para a valorosa defesa do homem, fazendo ressaltar os seus valores sagrados e o inalienável direito à vida. A vós e às vossas famílias a minha Bênção Apostólica propiciadora da divina assistência.

Ao Capítulo Geral das Franciscanas de Salzkotten (República Federal da Alemanha)

Desejo dirigir uma saudação particular ao Capítulo geral das Franciscanas de Salzkotten. A vossa comunidade tem conto carisma próprio seu a oração pela Igreja. juntamente com o serviço social pelos necessitados e os doentinhos. Mantende-vos fiéis à missão que vos foi confiada pela vossa fundadora, missão actual e bastante urgente também hoje.

A missão da vossa Congregação, que não conhece fronteiras de países nem culturas, é algo de precioso. O equilíbrio entre unidade e pluralismo que vos propondes sempre restabelecer com inteligência, realismo e não raro mesmo com sacrifícios, constitui um grande auxílio para toda a Igreja, cuja unidade universal se reflecte na vossa comunidade. De coração desejo ao vosso Capitulo geral a bênção e assistência de Deus a fim de chegar a resultados que sejam dons para a Igreja em louvor do Senhor.

As Irmãzinhas de Jesus

Entre tantos outros grupos, tenho o gosto de saudar o grupo das Irmãzinhas de Jesus, com a sua querida Fundadora. As vossas fraternidades asseguram no coração do mundo uma presença de Cristo, num clima de oração e de amizade. Acompanham-vos os meus votos e a minha Bênção onde quer que vos encontreis.

Aos Ugandeses residentes em Roma

Tenho hoje especial prazer em dirigir boas-vindas aos Ugandeses que vivem em Roma. A vossa presença aqui é elemento da vossa participação no centenário da evangelização do vosso País. A vossa presença dá-me igualmente oportunidade para expressar de novo a minha estima e amor pela Igreja na vossa terra, e para dar louvor e acção de graças a Deus, que por meio do poder do Espírito Santo produziu abundantes frutos de santidade e justiça na vida de várias gerações do Ugandeses. E nesta ocasião importante, oxalá todos vos renoveis na alegria e na fortaleza de vida em Jesus Cristo, o Filho de Deus e Salvador do mundo.

Aos jovens Casais

Desejo, depois, reservar uma palavra particular de saudação aos jovens casais e aos 150 esposos que participam num curso para animadores de catequese conjugal, promovido pela Acção Católica Italiana.

Obrigado pala vossa presença. Sois portadores dum grande sacramento, que põe o vosso amor em relação misteriosa mas real com o amor mesmo de Cristo pela Igreja: o amor de Deus que, em Cristo, se manifestou plenamente na história humana, deseja tornar-se visível diante do mundo no vosso amor nupcial. Tendes uma alta missão, vós esposos cristãos. Deveis testemunhar diante de todos que é possível, e belo e nobre, o amor fiel em todas as circunstâncias, generosamente aberto à vida, capaz sempre de compreensão e de perdão em diálogo confiante e constante com a paternal bondade de Deus. Acompanhe-vos nesta missão de responsabilidade o meu augúrio e a minha afectuosa Bênção.

Aos Membros da IV Conferência Interparlamentar 
da Comunidade Europeia 
e aos Membros do Parlamento Latino-Americano

Dentre os grupos de língua espanhola que participam nesta audiência quero fazer notar a presença qualificada dos membros da Quarta Conferência Interparlamentar da Comunidade Europeia e dos Membros do Parlamento Latino-Americano. Para todos eles a minha especial e deferente saudação, junta aos meus melhores desejos de bem-estar das suas pessoas e suas respectivas Nações.

Aos Alunos da "Escola da Fé", de Friburgo (República Federal da Alemanha)

Saúdo também os alunos da Escola da Fé, de Friburgo: queridos amigos, aprendei a descobrir melhor a Cristo, no estudo da sua Palavra, na oração litúrgica e na vida fraternal, e sabei repartir em seguida, muito abundantemente, a sua Boa Nova, como verdadeiros discípulos. Animo-vos de todo o coração.

Aos Doentinhos

O meu pensamento dirige-se agora, com afecto paternal, para os doentes aqui presentes, em especial para os internados no Hospital romano de "Santa Maria delta Pietà".

Caríssimos, vós tendes lugar privilegiado no coração do Papa, como bem sabeis. Gostaria, se fosse possível, de me aproximar de cada um de vós, como ainda de todos os outros cristãos provados pelo sofrimento, para lhes ouvir as confidências e dizer-lhes pessoalmente um sincero "obrigado" em nome de toda a Igreja, pois cada um — sofrendo — "está completando na sua carne o que falta aos sofrimentos de Cristo em favor do seu corpo que é a Igreja" (cfr. Col. 1, 24). Ajude-vos o Senhor a dar sentido pleno, mediante a fé e o amor, às quotidianas tribulações, sustenha-vos com o interior conforto da sua fortalecedora presença e conceda-vos chegar depressa, se Lhe aprouver, à cura completa. Para todos vós e para quem vos assiste invoco os dons da divina bondade mediante uma especial Bênção Apostólica.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

São Cirilo, monge, e São Metódio, bispo



São Cirilo

Constantino nasceu em 826 na Tessalonica, atualmente Salonico,Grécia. Seu pai era Leão, um rico juiz grego, que teve sete filhos. Constantino o caçula e Miguel o mais velho, que mudaram o nome para Cirilo e Metódio respectivamente, ao abraçarem a vida religiosa. 

Cirilo tinha catorze anos quando o pai faleceu. Um amigo da família, professor Fócio, que mais tarde ajudou seu irmão acusado de heresia, assumiu a educação dos órfãos em Constantinopla, capital do Império Bizantino. Cirilo aproveitou para aprender línguas, literatura, geometria, dialética e filosofia. De inteligência brilhante, se formou em tudo. 

Rejeitando um casamento vantajoso, ingressou para a vida espiritual, fazendo votos particulares, se tornou bibliotecário do ex-patriarca. Em seguida foi cartorário e recebeu o diaconato. Mas sentiu necessidade de se afastar, indo para um mosteiro, em Bosforo. Seis meses depois foi descoberto e designado para lecionar filosofia. Em seguida, convocado como diplomata para a polemica questão sobre o culto das imagens junto ao ex-patriarca João VII, o Gramático. Depois foi resolver outra questão delicada junto aos árabes sarracenos que tratava da Santíssima Trindade. Obteve sucesso em ambas. 

Seu irmão mais velho, que era o prefeito de Constantinopla, abandonou tudo para se dedicar à vida religiosa. Em 861, Cirilo foi se juntar a ele, numa missão evangelizadora, a pedido do imperador Miguel III, para atender o rei da Morávia. Este rei precisava de missionários que conhecessem a língua eslava, pois queria que o povo aprendesse corretamente a religião. Os irmãos foram para Querson aprender hebraico e samaritano. 

Nesta ocasião, Cirilo encontrou um corpo boiando, que reconheceu ser o papa Clemente I, que tinha sido exilado de Roma e atirado ao mar. Conservaram as relíquias numa urna, que depois da missão foi entregue em Roma. Assim, Cirilo continuou estudando o idioma e criou um alfabeto, chamado "cirílico", hoje conhecido por "russo". Traduziu a Bíblia, os Livros Sagrados e os missais, para esse dialeto. Alfabetizou a equipe dos padres missionários, que começou a evangelizar, alfabetizar e celebrar as missas em eslavo. 

Isto gerou uma grande divergência no meio eclesiástico, pois os ritos eram realizados em grego ou latim, apenas. Iniciando o cisma da Igreja, que foi combatido pelo então patriarca Fócio com o reforço de seu irmão. Os dois foram chamados por Roma, onde o papa Adriano II, solenemente recebeu as relíquias de São Clemente, que eles transportavam. Conseguiram o apoio do Sumo Pontífice, que aprovava a evangelização e tiveram os Livros traduzidos abençoados. 

Mas, Cirilo que estava doente, piorou. Pressentido sua morte, tomou o hábito definitivo de monge e o nome de Cirilo, cinqüenta dias depois, faleceu em Roma no dia 14 de fevereiro de 868. A celebração fúnebre foi rezada na língua eslava, pelo papa Adriano II, sendo sepultado com grande solenidade na igreja de São Clemente. Cirilo e Metódio foram declarados pela Igreja como "apóstolos dos eslavos". O papa João Paulo II, em 1980, os proclamou junto com São Bento de "Patronos da Europa". 


São Metódio

Miguel, primogênito dos sete filhos do juiz grego Leão, nasceu em 814 na Tessalonica, atual Salonico, Grécia. Tinha vinte e seis anos e era prefeito de Constantinopla, capital do Império Bizantino, quando seu pai morreu. Irmão de Constantino, foi aluno de Fócio, que assumiu a educação dos órfãos. Miguel e Constantino mudaram o nome para Metódio e Cirilo, ao se consagrarem sacerdotes. 

Com a morte do pai, em 840, abandonou tudo e se recolheu no convento de Policron, no monte Olímpio, e se fez monge. Foi o imperador Miguel III quem o convocou para a missão evangelizadora da Morávia, da qual participou também seu irmão. Depois os dois foram para Roma, onde Cirilo, doente, acabou falecendo. 

Metódio foi ordenado sacerdote pelo papa AdrianoII em 868 e, depois da cerimônia do sepultamento do irmão, foi nomeado delegado apostólico, consagrado bispo, e estabelecido como arcebispo para a Iugoslávia e Morávia. Uma carta, que o credenciava junto aos principados eslavos, continha a aprovação sem reservas para a liturgia na língua eslava. 

Os acontecimentos políticos impediram que Metódio retornasse a Morávia. Ficou, então nos domínios do principado iugoslavo, que tinham sido evangelizados até Áustria. Alí foram inevitáveis os desencontros entre o clero latino e o novo clero eslavo. Inclusive, Metódio foi preso, traído diante do concílio de Ratisbona e condenado ao exílio na Suécia. 
O então papa João VIII, em 878, interveio energicamente e ele foi solto, mas reprovou as suas novidades lingüísticas na liturgia. Porém, Metódio, estava fortalecido pela aprovação do papa anterior, podendo dar continuidade à evangelização iniciada. Depois de um ano de tranqüilidade, novos protestos se elevaram contra ele, sendo acusado de heresia. 

Convocado a se apresentar em Roma pelo papa João VIII, não só se justificou como o convenceu a lhe dar seu apoio. Com uma carta oficial da Santa Sé, ele foi confirmado nas funções, e autorizado a usar o eslavo na liturgia, mas pedindo que o Evangelho fosse lido em latim antes que em eslavo. Porém o imperador germânico preferia outro bispo, que celebrava a liturgia em latim. A confusão estava formada. Tudo se complicou quando surgiu uma falsa carta do papa, que dizia o oposto da anterior apresentada por Metódio. 

Em 881 a Santa Sé, negou formalmente a falsa carta. Mas isto não pôs fim à dificuldade, o clero alemão continuou sua oposição. Nesta época, Metódio, foi para Constantinopla a convite do imperador, para se juntar ao então patriarca Fócio, seu antigo professor e amigo da família. Assim, continuou com seus discípulos o seu apostolado e a tradução da Bíblia e dos Livros Litúrgicos a quem precisasse. 

Morreu em 6 de abril de 885 em Velehrad, Tchecoslováquia, onde foi sepultado na igreja da Catedral. Atualmente se ignora o local exato onde foram colocadas suas relíquias. Metódio e Cirilo são considerados pela Igreja como "apóstolos dos eslavos" e venerados no dia 14 de fevereiro, dia da morte de Cirilo. Em 1980, o papa João Paulo II os proclamou "Patronos da Europa" ao lado de São Bento.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Disciplina interior



15 de agosto de 1965 - por ocasião dos exercícios em Aríccia

A nossa consideração se refere à disciplina: disciplina pessoal e social, quer porque devemos evitar o mal, quer porque devemos fazer o bem, individual e socialmente. 

Disciplina em nós mesmos. Sabemos que há tendências espirituais e tendências carnais. Há como uma luta em nosso íntimo. Então é necessário que nos guiemos a nós mesmos com disciplina firme e com a ajuda da graça, para que não sejamos vencidos na luta que se trava dentro de nós: deve vencer o espírito e não a carne. 

Disciplina interior. Dominamos os nossos pensamentos e a nossa mente? Pensamentos bons ou pensamentos menos bons? Pensamentos bons que se referem a Deus, que se referem à caridade, à virtude. Os pensamentos podem ser contra a fé, contra a caridade, contra a castidade, e podemos dizer, contra toda virtude. Quanto tempo se perde com pensamentos vãos e inúteis! 

Dominar o íntimo: os sentimentos que podem ser bons, em ordem a Deus e em ordem à virtude, à santidade, ao próximo. Mas há sentimentos de orgulho, de inveja, de desejos perigosos. Dominar o coração! Disciplinar o coração e disciplinar a vontade, a qual deve caminhar segundo a vontade de Deus. Se a força das paixões dominasse a vontade, então estaríamos no caminho que leva ao mal. Disciplinar o interior: a fantasia, para recordar ou reproduzir em nós coisas que se leram, se ouviram, se viram. Dominar a memória! Recordar o que aprendemos de bem, as pregações, os conselhos, os avisos do confessor etc... Disciplinar a vontade: às vezes encontram-se pessoas que são como uma anarquia contínua, querem e não querem, querem o bem e querem o mal. Tenhamos caráter e sejamos disciplinados interiormente! É mais fácil descobrir o exterior se somos disciplinados, mas o interior é mais difícil de descobrir. 

Disciplinar os sentidos externos: Os olhos, que devem servir para o que é necessário para a nossa vida e então usar os olhos sempre em ordem ao que é útil, ao que serve para o próximo, para o bem. Disciplinar os olhos para que, vendo o que é mau, não criemos para nós mesmos tentações. 

Disciplinar o ouvido: não escutar o que é mal; escutar e fazer tudo o que é útil para a vida social. 

Disciplinar a língua que pode trazer bens imensos a nós mesmos: como fazer a oração, confessar-se bem e muitas outras coisas. Com a língua podemos levar o bem, iluminar, empregar a fala que o Senhor nos deu. Usemos santamente a língua [cf Tg 1,26]. 

Quanto ao gosto, não é ele que decide se se deve comer ou beber muito ou pouco etc. Tomar o alimento de acordo com a necessidade do bem físico, porque, quando um remédio é amargo, não é segundo o nosso gosto, mas serve para a nossa saúde. Devemos mortificar o tato, o corpo. O descanso seja o necessário. Dominemos as atividades que devemos praticar. Dominemos a nós mesmos. 

Não favoreçamos a paixão, tudo que leva ao mal. Ao contrário, utilizemos todas as nossas forças intelectuais, interiores, dos sentidos internos e externos. Disciplinemos a nós mesmos. Isto significa ser retos e de caráter, ser realmente cristãos em tudo, não somente cristãos na Igreja, mas em todas as coisas e em todos os lugares, ser gente reta e cristã. Se formos consagrados a Deus, é preciso disciplina ainda maior: disciplina que se refere à pobreza, à castidade, à obediência. Disciplinemos-nos: retidão em tudo. 

Alem dessa disciplina individual, pessoal, é preciso também a disciplina social. Adão e Eva viveram em sociedade, em sociedade conjugal. Eva arruinou Adão. É preciso haver disciplina na vida social. Em primeiro lugar, esta disciplina se refere à vida cotidiana. Em qualquer ambiente em que se viva, na família, na sociedade, ou na vida comum, é necessário disciplina, porque a nossa vida exterior impõe mortificação. A vida comum tem as suas vantagens, mas requer a disciplina social, ou na família, ou onde se vive todos os dias. Disciplinemo-nos na sociedade. Sejamos exemplo na vida cristã, não de mau exemplo. Comportemo-nos dignamente, de maneira que sejamos de edificação ao próximo. 

Se já somos consagrado à Deus, então é necessário que a vida religiosa seja bem vivida. Se for bem vivida terá influencia salutar. Se não for bem vivida, será um mau exemplo. Há também escândalos na sociedade, e ai daqueles que dão escândalos aos pequeninos. Diz Jesus no Evangelho: “Melhor lhe fora ser lançado ao mar com uma pedra de moinho enfiada no pescoço do que escandalizar um só destes pequeninos” (Lc 17,2). Devemos ser coerentes no que impõe a vida cristã, a vida religiosa. Na sociedade todos vós vos dedicais a algum apostolado. Devemos disciplinar-nos: não nos carreguemos de mais coisas do que as que podemos atender. Devemos fazer o que podemos, e fazer bem. Também o bem seja bem feito. Na sociedade civil devemos disciplinar tudo, a começar pela roupa até as coisas mais delicadas. É preciso que nos abstenhamos de certos divertimentos, por exemplo, cinema, romance, livro que são perigosos. Devemos evitar o que é perigoso. Que a nossa vida seja exemplo, porque o exemplo vale mais que a palavra, que a própria exortação. 

Na sociedade encontramos, às vezes, ambientes bons, cristãos e é fácil viver santamente. Quando, porém, nos achamos em ambientes não exemplares, até escandalosos e maus, então é preciso a fortaleza para evitar e, quando é possível, também para corrigir. É mais fácil ser arrastado pelo mal do que ser levado ao bem que santifica. Disciplinemos a nossa conduta, o nosso dia, os ambientes em que vivemos e a nossa própria vida, a nossa vida pessoal. Quem ama o perigo, perece nele. Evitemos todas as pessoas que são de mau exemplo e que levam ao mal. Jesus advertia a seus ouvintes, as multidões, que se guardassem de seguir a vida dos fariseus, que queriam passar por mestres, falavam bem, mas agiam mal. 

Devemos concluir os exercícios com o programa de vida, para nos guiar a nós mesmos e nos comportar nos ambientes em que devemos viver, na vida de família, ou na vida religiosa, ou na sociedade civil ou em todos os ambientes em que podemos encontrar-nos. Com o bom exemplo, muitas coisas servem para levar a edificação a todos. Os que conhecem pessoas que são retas, justas, em tudo e servem de bom exemplo, então são como tantas admoestações para quem vê e para quem ouve. 

Vejamos, pois, além de estabelecer a nossa vida social, devemos ainda acrescentar: podemos agir e fazer maior bem em nossa vida? Devemos dar conta de todos os talentos que o Senhor nos deu. Quem tem mais inteligência, que tem mais saúde e quem tem mais qualidades ou meios. Todos os talentos devem ser utilizados, lembrando-se da parábola do Evangelho. 

Portanto, usemos os nossos talentos, e usemo-lo o quanto nos for possível, para a nossa santificação, disciplinando-nos a nós mesmos, e trabalhando para a salvação das almas. 

(Pe. Alberione, Meditações para consagradas seculares


Leia também os dois breves artigos sobre o assunto, podem ajudar. 



Dois artigos úteis 



DISCIPLINA - A CHAVE DE UM FUTURO MELHOR 



Responda rapidamente: o que [Pe. Alberione], Gandhi, Charles Chaplin, Einstein e Churchill tinham em comum? E o que Buda e Santos Dumont compartilhavam? 

É difícil encontrar algum em comum entre figuras tão díspares, não é mesmo? Mas a resposta é muito simples, e nela reside a razão da grandeza de cada um deles. Todos foram pessoas disciplinadas. 

Nenhum deles jamais teria conseguido o que conseguiu se não tivesse realizado um esforço continuado. É certo que Einstein era um gênio - mas de que isso adiantaria se ele não tivesse dedicado horas e horas ao estudo e às questões que permitiram que formulasse a Teoria da Relatividade? 

Buda era um grande que já nasceu diferente? Segundo ele próprio, não era. Sempre afirmou que qualquer um podia alcançar a iluminação - desde que colocasse isso como sua meta de vida e trabalhasse disciplinadamente para tanto. Gandhi exigiu de si mesmo uma disciplina férrea, voltada para o seu ideal de libertação e integração da Índia. Graham Bell, o inventor do telefone, colecionou uma série infindável de fracassos antes de obter sucesso. Mas continuou em frente. 

O fato é que todos nós somos, potencialmente, seres excepcionais. Mas não realizamos esse potencial. Por quê? A resposta, também neste caso, é simples: não queremos aceitar o fato de que, para alcançar o que desejamos, temos que ser disciplinados. 

Quantos de nós sonham em ocupar uma melhor posição no trabalho? Muitos, não? Mas quantos desenvolvem uma estratégia para isso e, mais importante, executam essa estratégia? Poucos, não é mesmo? 

E esse é ponto básico de nossa newsletter de hoje: sem disciplina, você nunca irá a lugar nenhum. O atleta de músculos perfeitos tem que encarar horas e horas de exercício, disciplinadamente.[O exemplo de São Paulo e os atletas] O cientista que descobriram a vacina contra a AIDS terá passado horas e horas trancafiado em um laboratório, disciplinadamente. Todos os que chegaram, estão chegando ou chegarão ao sucesso terão que, de alguma forma, exercer uma enorme força de vontade, e impor uma disciplina rígida a si mesmos. 



COMO FAZER? 

No entanto, algumas pessoas acreditam que essa disciplina é, em si mesma, um dom. Quanto a isso, tenho boas notícias. Não é verdade. Disciplina se aprende. E, como um músculo, pode ser treinada. Veja como: 



1 - Acabe com as desculpas 

Seres humanos são especialistas em desculpas, e em encontrar bodes expiatórios. O fato de que a situação não está boa, ou de que fulano fez algo que o boicotou não é razão suficiente para que você deixe de fazer todo o possível para ter sucesso e ser feliz. 

Lembre-se que cada vez que você atribui um dos seus problemas a uma instituição ou a uma pessoa, você abre mão de seu único poder: o poder sobre si mesmo. Algo ou alguém pode realmente ser a origem dos seus problemas. Mas a solução deles só terá uma origem: você. Portanto, deixe de lado “eles” e o possível mal que lhe causam ou causaram. Pense em como você irá evoluir e vencer. 



2 - Comece devagar 

Nenhum campeão de halterofilismo começou levantando 200 quilos. Nem você vai se transformar no que quer ser em um dia. Você também não irá conseguir ser um exemplo de disciplina em apenas um dia. 

Mirar alto é bom e é necessário. Mas o sucesso é a soma de pequenos passos. Como um atleta em treinamento, você começará andando, depois andando depressa, depois correndo. 

Estabeleça metas modestas - manter seus papéis organizados, ou responder a todos os telefonemas que deve responder. Quando estiver bem treinado, exija mais de si. Como um músculo que se torna mais forte, a disciplina irá se tornar um hábito cada vez mais arraigado a cada vitória sobre si mesmo. 



3 - Não há exceções 

Uma vez que tenha estabelecido sua meta inicial de disciplina, não faça exceções. Quando começamos a fazer exceções, as exceções se tornam a nova regra. E o seu objetivo vai por água abaixo. Por isso que é preciso começar aos poucos, com coisas que você seja efetivamente capaz de fazer. 



4 - Não se considere um messias ou um mártir 

Não existe nada mais incomodo do que um ex-fumante que se dedica a “converter” os fumantes na sua campanha contra o fumo. Da mesma forma, o fato de você ter optado por ser uma pessoa disciplinada — e portanto vencedora — não significa que, a partir de agora, você irá exigir que todos ao seu redor vivam pelos seus novos parâmetros. 

Também não significa que você irá cumprir as tarefas que se impôs como se fossem uma cruz que carrega. Afinal, se você mantiver os olhos no horizonte, verá sempre a meta que tem à frente. E a disciplina diária será apenas um hábito que incorporou para chegar a essa meta. Portanto, faça um favor a si e aos que vivem com você — faça também da alegria uma nova disciplina. 








Outro artigo 

AUTODISCIPLINA 



A autodisciplina pode ser considerada um tipo de treinamento específico, criando-se novos hábitos de pensamento, ação e linguagem para o autoaperfeiçoamento e para ajudar a obter suas metas. A autodisciplina pode também ser alcançada através de pequenas tarefas específicas. Encare a autodisciplina como um esforço positivo e não como negativo (de deixar para lá). 



Planeje uma pequena tarefa para certa hora do dia. Discipline o seu tempo. 

Planeje uma determinada tarefa para a parte da manhã e outra para a parte da tarde. 

A tarefa não deve levar mais que 15 minutos. 

Aguarde a hora determinada para a tarefa. Quando a hora determinada chegar, inicie a tarefa. 

Mantenha o planejamento por, pelo menos, 2 semanas. 

Planeje uma tarefa e siga à risca seu horário. Evite agir por impulsos. 

Monitore seu progresso. No final do tempo alocado, mantenha um registro das realizações obtidas ao longo do tempo. 

Benefício: Mantendo um registro, vai ajudá-lo a saber quanto tempo leva cada tarefa. 

Se você conseguir tempo de sobra, preencha-o com outras pequenas tarefas, faça anotações, planeje outras tarefas, etc. 



Use a rotina para seu benefício 

Em vez de dedicar muitas horas em um dia e nenhuma no outro e algumas no seguinte e assim por diante, determine certo período de tempo em cada dia da semana para aquela tarefa. 

Seja firme. 

Não fixe uma meta exceto pela alocação de tempo. Simplesmente estabeleça o hábito da rotina. 

Aplicando esta técnica em seus trabalhos de escola ou em seus projetos, você estará no caminho certo para a execução e conclusão dos seus objetivos. 

Benefício: Você estará trabalhando com tarefas em pequenos incrementos, não tudo de uma vez. Primeiro você desenvolve um hábito, depois o hábito faz o serviço para você. 



Use a autodisciplina para lidar com o gerenciamento do tempo [Administrar o tempo] 

O gerenciamento do tempo pode se tornar uma tarefa complicada. Quando você não tem controle sobre si mesmo, como pode controlar seu tempo? Comece controlando-se através da autodisciplina com o estabelecimento de tarefas. 

Benefício: Ao passo que você controla suas tarefas, você desenvolve sua autodisciplina. Ao passo que desenvolve sua autodisciplina, você começa a gerenciar seu tempo. Ao passo que começa a gerenciar seu tempo, você desenvolve autoconfiança. 



Mantenha um Diário da Autodisciplina 

Registre o início e término das tarefas. 

Faça uma análise do seu progresso já obtido. 

Benefício: Este Diário pode ser uma ferramenta útil para você ter uma idéia global das suas atividades a fim de colocá-las em ordem de prioridade e também para entender o que é importante e o que não é na utilização do seu tempo. 



Planeje seu dia de trabalho e de seus estudos 

Quando você vai começar seu trabalho ou esteja indo para ele, tome alguns minutos do seu tempo e escreva em uma folha ou pedaço de papel as tarefas que você quer realizar naquele dia. 

Coloque-as em ordem de prioridade. 

Comece imediatamente a trabalhar no item mais importante. 

Faça desta maneira durante alguns dias para ver se este hábito funciona para você. 

Os hábitos se formam com o tempo: quanto tempo vai depender de você e do hábito. 

Benefício: Quando você tiver uma ideia clara do que você quer realizar para o dia que se inicia, as chances serão grandes de que você será capaz de executar as tarefas proativamente. Passando para o papel e esboçando seu dia antecipadamente ajuda muito. 



Desânimo 

Não desanime; não adie as coisas devido ao tamanho do desafio. 

Mas se hesitar, lembre-se de que isto é natural. 

Dê uma descansada para se revigorar contra o desafio. 



Dicas 

Associe um hábito novo com um velho 

Se você bebe café, associe a primeira xícara com a hora ou momento para detalhar e priorizar suas tarefas. 

Benefício: A associação ajuda nas conecções neurais! 



Verifique o andamento e progresso das atividades [Exame de consciência] 

Em um calendário, em uma planilha no seu computador ou mesmo sobre a mesa do café da manhã: Verifique e dê baixa nos dias em que você conseguiu fazer todas as atividades programadas. Se você falhou na rotina, comece de novo! 

Benefício: A visualização é um rápido reforço e estímulo para seu progresso. 



Modelos de exemplo [Os santos] 

Observe as pessoas da sua convivência e veja como a autodisciplina e os hábitos as ajudam na realização de suas metas. Peça conselhos a elas sobre o que realmente funciona e o que não funciona. 

Benefícios: O Planejamento ajuda você a se concentrar em suas prioridades. Concentrando mais em iniciar suas tarefas do que em completá-las, você poderá evitar a procastinação 



Contribuído por Mahanthi Bukkapaptnam, Des Moines, Iowa 



Traduzido por Valdemir Fernandes, Guarulhos, São Paulo, Brasil. Desde 1996 o siteGuias de Estudo e Estratégias“ | Study Guides and Strategies vem sendo elaborado, pesquisado e mantido por Joe Landsberger como um serviço público educacional para o estudante no mundo todo. É dada permissão para que as matérias sejam copiadas, adaptadas e distribuídas, desde que em padrões não comerciais, para que o estudante possa ser beneficiado. Por favor, esteja ciente que nosso site agradece a todos que possam ajudar e que ele está sempre em contínua revisão. Por esta razão, a reprodução de todo o conteúdo na Internet pode ser feita somente com a permissão de um contrato de licenciamento. Não é necessário fazer o “link” para o site. 



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