Rádio

sábado, 31 de março de 2012

São Basílio e a fé no Espírito Santo



CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 23 de março de 2012 (ZENIT.org) - Publicamos o texto da terceira pregação de Quaresma do padre Raniero Cantalamessa, O.F.M.Cap., pregador da Casa Pontifícia, tida nesta manhã na Capela "Redemptoris Mater” no Vaticano.

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1. A fé termina nas coisas

O filósofo Edmund Husserl resumiu o programa da sua fenomenologia no lema: Zu den Sachen selbst!, dirigir-se para as mesmas coisas, para as coisas como elas realmente são na realidade, antes da conceituação e formulação delas. Outro filósofo, vindo depois dele, Sartre, diz que "as palavras e, com elas, o significado das coisas e os modos do seu uso” são apenas “os sinais sutis de reconhecimento que os homens têm traçado na superfície deles": é necessário superá-los para ter a súbita revelação, que tira o fôlego, da "existência" das coisas (J.-P. Sartre, La Nausea, trad. ital, Milano 1984, p. 193 s, Tradução Portuguesa nossa).

Santo Tomás de Aquino tinha formulado muito antes um princípio análogo em referência às coisas ou aos objetos da fé: "Fides non terminatur ad enunciabile, sed ad rem”: a fé não termina nos enunciados, mas na realidade (Tomas de Aquino, Suma teologica, II-IIae , q. 1,a.2,ad 2.). Os Padres da Igreja são modelos insuperáveis ​​desta fé que não para nas fórmulas, mas vai até a realidade. Tendo passado esta era de ouro dos grandes padres e doutores, vemos quase que imediatamente o que um estudioso do pensamento patrístico define “o triunfo do formalismo" [Cf. G. Prestige, God in Patristic Thought, London 1936, chap. XIII( trd. Ital., Dio nei pensiero dei Padri, Bologna, il Mulino, 1969, pp. 273 ss), Tradução portuguesa nossa]. Conceitos e termos, como substância, pessoa, hipóstase, são analisados ​​e estudados por si mesmos, sem a constante referência à realidade que com eles os criadores do dogma tinham tentado expressar.

Atanásio é talvez o caso mais exemplar de uma fé que está mais preocupada com o conteúdo do que com o seu enunciado. Por algum tempo, depois do Concílio de Nicéia, ele parece quase ignorar o termo homousios, consubstancial, embora defendendo com a tenacidade que vimos na última vez o seu conteúdo, ou seja, a plena divindade do Filho e a sua igualdade com o Pai. Também está pronto para acolher termos equivalentes para ele, desde que ficasse claro que se pretendia manter firme a fé de Nicéia. Só mais tarde, quando ele percebeu que aquele termo era o único que não deixava brechas para as heresias, fez cada vez mais uso dele.

Destacamos isto porque conhecemos os danos que causados à comunhão eclesial o fato de dar mais importância ao acordo dos termos do que ao conteúdo da fé. Nos últimos anos tem sido possível restaurar a comunhão com algumas igrejas orientais, as assim chamadas monofisitas, tendo reconhecido que o contraste deles com a fé de Calcedônia estava no significado diferente atribuído aos termos ousia e hipóstase, e não na substância da doutrina. Também o acordo entre a Igreja Católica e a Federação Mundial das Igrejas Luteranas sobre o tema da justificação pela fé, assinado em 1998, mostrou que o conflito secular sobre este ponto estava mais nos termos do que na realidade. As fórmulas, uma vez inventadas, tendem a fossilizar-se, tornando-se bandeiras e sinais partidárias, ao invés de expressões de fé vivida.

2. São Basílio e a divindade do Espírito Santo

Hoje subimos nos ombros de um outro gigante, São Basílio o Grande (329-379), para analisar com ele, uma outra realidade da nossa fé, o Espírito Santo. Veremos em breve como também ele é um modelo da fé que não pára nas fórmulas mas vai até a realidade.

Sobre a divindade do Espírito Santo, Basílio não fala nem a primeira e nem a última palavra, ou seja não é aquele que abre o debate e nem sequer aquele que o conclui. Quem abriu a discussão sobre o estatuto ontológico do Espírito foi Santo Atanásio. Até ele, a doutrina sobre o Paráclito permaneceu na sombra, e entendemos o motivo: naõ era possível definir a posição do Espírito Santo na divindade, antes de ter definido aquela do Filho. Somente se limitava a dizer no símbolo de fé: “e creio no Espírito Santo”, sem outros acréscimos.

Atanásio, nas Cartas a Serapião, inicia o debate que levará à definição da divindade do Espírito Santo no Concílio de Constantinopla em 381. Ensina que o Espírito é plenamente divino, consubstancial com o Pai e com o Filho, que não pertence ao mundo das criaturas, mas ao do criador e a prova, também aqui, é que o seu contato nos santifica, nos diviniza, coisa que não poderia fazer se não fosse ele mesmo Deus.

Eu disse que Basílio não falou nem sequer a última palavra. Ele se abstém de aplicar ao Paráclito o título de "Deus" e aquele de "consubstancial". Afirma claramente a fé na plena divindade do Espírito usando expressões equivalentes, como a igualdade com o Pai e o Filho na adoração (a isotimia), a sua homogeneidade e não heterogeneidade, no que diz respeito a eles. São os termos nos quais a divindade do Espírito Santo foi definida no Concílio Ecumênico de Constantinopla do ano 381 e que constroem o artigo de fé sobre o Espírito Santo que professamos ainda hoje no credo.

Essa atitude prudencial de Basílio, dirigida a não distanciar ainda mais o partido adversário dos Macedonianos, provocou-lhe a crítica de Gregório Nazianzeno que coloca o amigo entre aqueles que tiveram bastante coragem para pensar que o Espírito Santo seja Deus, mas não o bastante para proclamá-lo tal explicitamente. Quebrando todo atraso, ele escreve: "O Espírito é portanto Deus? Certamente! É consubstanciais? Sim, se é verdade que é Deus" (Gregorio Nazianzeno, Oratio 31, 5.10; cf. também Oratio6: “Até quando esconderemos a lâmpada debaixo do móvel e não proclamaremos em alta voz a plena divindade do Espírito Santo?”).

Se, portanto, Basílio não fala, sobre a teologia do Espírito Santo, nem a primeira nem a última palavra, por que escolher justamente ele como nosso mestre de fé no Paráclito? É que Basílio, como já Atanásio, está mais preocupado pela “coisa” do que pela sua formulação, mais pela plena divindade do Espírito do que pelos termos com os quais expressar essa fé. O que mais lhe interessa, para colocá-lo nos termos de Tomás de Aquino, é a coisa e não a sua enunciação. Ele nos transporta no coração da pessoa e da ação do Espírito Santo.

Basílio tem uma Pneumatologia concreta, vivida, não escolástica, mas “funcional” no sentido mais positivo do termo, e é aquele que a faz particularmente atual e útil para nós hoje. Por causa da conhecida questão do Filioque, a pneumatologia acabou restringindo-se nos séculos, quase que exclusivamente, ao problema do modo da procissão do Espírito Santo: se somente do Pai como dizem os orientais, ou também do Filho, como professam os latinos. Algo da pneumatologia concreta dos Padres foi passada nos tratados sobre "Os Sete Dons do Espírito Santo", mas limitado ao âmbito da santificação pessoal e à vida contemplativa.

O Concílio Vaticano II iniciou uma renovação neste campo, por exemplo, quando passou os carismas da hagiografia, ou seja da vida dos santos, para a eclesiologia, ou seja para a vida da Igreja, falando deles na Lumen Gentium (Cfr. Lumen gentium, 12.). Mas foi apenas um começo; ainda há muito a ser feito para destacar a ação do Espírito Santo em toda a vivência do povo de Deus. Na ocasião do XVI centenário do Concílio Ecumênico de Constantinopla do 381, o Beato João Paulo II escreveu uma carta apostólica na qual entre outras coisas dizia: "Todo o trabalho de renovação da Igreja que o Concílio Vaticano II tão providencialmente propôs e começou ... não pode ser realizado a não ser no Espírito Santo, isto é, com a ajuda da sua luz e da sua força" (João Paulo II. “Em Concílio Costantinopolitano I”, em AAS 73, 1981, p. 521.). Basílio, veremos, será nosso guia neste caminho.

3. O Espírito Santo na história da salvação e na Igreja

É interessante conhecer a origem do seu tratado sobre o Espírito Santo. Curiosamente está ligada à oração do Gloria Patri. Durante uma liturgia, Basílio tinha pronunciado a doxologia às vezes na forma: "Glória ao Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo”, às vezes sob a forma: "Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo". Esta segunda forma esclarecia mais que a primeira a igualdade das três pessoas, coordenando-as, ao invés de subordiná-las, entre si. Na atmosfera superaquecida das discussões sobre a natureza do Espírito Santo, a coisa provocou protestos e Basílio escreveu a sua obra para justificar as suas ações; na prática, para defender contra os hereges macedonianos a plena divindade do Espírito Santo.

Mas vamos direto ao ponto que faz a doutrina de Basílio especialmente atual: a sua capacidade de destacar a ação do Espírito em cada momento da história da salvação e em cada setor da vida da Igreja. Começa da obra do Espírito na criação.

"Na criação dos seres a causa primeira de tudo o que existe é o Pai, a causa instrumental o Filho, a causa aperfeiçoadora é o Espírito. É pela vontade do Pai que os espíritos criados subsistem; é pela força operativa do Filho que são conduzidos ao ser e pela presença do Espírito que chegam à perfeição... Se tentas tirar o Espírito da criação, todas as coisas se misturarão e a vida delas aparece sem lei, sem ordem, sem qualquer determinação" (Basílio, Sobre o Espírito Santo, XVI, 38 (PG 32, 137B); trad. ital. di E. Cavalcanti, L’esperienza di Dio nei Padri Greci, Roma 1984, Tradução portuguesa nossa).

Santo Ambrósio retomará de Basílio este pensamento tirando dele uma conclusão sugestiva. Referindo-se aos primeiros dois versos do Gênesis (“a terra estava deserta e sem forma e as trevas cobriam o abismo”) ele observa:

"Quando o Espírito começou a pairar sobre isso, o criado não tinha ainda nenhuma beleza. Em vez disso, quando a criação recebeu a operação do Espírito, obteve todo este esplendor de beleza que a fez brilhar como 'mundo' " (Ambrogio, Sobre o Espírito Santo, II, 32.).

Em outras palavras, o Espírito Santo é aquele que faz o criado passar do caos para o cosmos, que faz dele algo belo, ordenado, limpo: um “mundo” (mundus) precisamente, de acordo com o significado original desta palavra e da palavra grega cosmos. Agora nós sabemos que a ação criadora de Deus não se limita ao instante inicial, como se acreditava na visão deísta ou mecanicista do universo. Deus não “foi” uma vez, mas sempre “é” criador. Isso significa que Espírito Santo é aquele que faz passar o universo, a Igreja e cada pessoa, do caos ao cosmos, ou seja: da desordem à ordem, da confusão à harmonia, da deformidade à beleza, do velho ao novo. Não, é claro, mecanicamente e abruptamente, mas no sentido de que está trabalhando nela e guia a sua evolução para uma finalidade. Ele é aquele que sempre “cria e renova a face da terra” (cf. Sl 104,30).

Isso não significa, explicava Basílio naquele mesmo texto, que o Pai tinha criado algo imperfeito e “caótico” que tinha necessidade de correções; simplesmente, era o plano e a vontade do Pai de criar por meio do Filho e conduzir os seres à perfeição por meio do Espírito.

Da criação o santo Doutor passa a ilustrar a presença do Espírito na obra da redenção:

"No que diz respeito ao plano de salvação (oikonomia) para o homem por obra do nosso grande Deus e salvador Jesus Cristo, estabelecido segundo a vontade de Deus, quem poderia negar que se realiza por meio da graça do Espírito?" (Basílio, Sobre o Espírito Santo, XVI, 39.).

Chegando aqui, Basílio se abandona a uma contemplação da presença do Espírito na vida de Jesus que está entre as passagens mais bonitas da obra e abra à pneumatologia um campo de pesquisa que só recentemente começou a ser reconsiderado (J.D.G.Dunn, Jesus and the Spirit, London 1988.). O Espírito Santo está em ação já no anúncio dos profetas e na preparação para a vinda do Salvador; é pelo seu poder que se realiza a encarnação no seio de Maria; é ele o crisma com o qual Jesus foi ungido por Deus no batismo. Toda obra sua foi realizada com a presença do Espírito. Este "estava presente quando foi tentado pelo diabo, quando fazia milagres, não o deixou quando ressuscitou dos mortos, e no dia da Páscoa o derramou sobre os discípulos (cf. Jo 20, 22 s.). O Paráclito foi "o companheiro inseparável" de Jesus ao longo da sua vida.

Da Vida de Jesus, São Basílio passa a ilustrar a presença do Espírito na Igreja:

"E a organização da Igreja, não é claro e indiscutível que é obra do Espírito? Ele próprio deu à Igreja, diz Paulo, 'em primeiro lugar os apóstolos, depois os profetas, depois os mestres ... Esta ordem está organizada de acordo com a diversidade dos dons do Espírito" (Basilio, Sobre o Espírito Santo, XVI, 39).

Na anáfora que leva o nome de São Basílio - que a nossa atual Oração Eucarística IV tem seguido de perto -, o Espírito Santo tem um lugar central.

A última imagem retrata a presença do Paráclito na escatologia: "Também no momento do evento da esperada manifestação do Senhor aos céus – escreve Basílio – não está ausente o Espírito Santo”. Neste momento haverá, para os salvos, a passagem das “primícias” para a posse plena do Espírito” e para os réprobos a separação definitiva, o corte claro, entre a alma e o Espírito (Ib. XVI, 40.).

4. A alma e o Espírito

São Basílio não fica, porém, com a ação do Espírito na história da salvação e na Igreja. De ascético e homem espiritual, o seu principal interesse é pela ação do Espírito na vida de cada batizado. Embora ainda sem estabelecer a distinção e a ordem das três vias que se tornarão clássicas mais tarde, ele destaca maravilhosamente a ação do Espírito Santo na purificação da alma do pecado, na sua iluminação e na divinização que ele chama também “intimidade com Deus” (Ib. XIX, 49.).

Só podemos ler a página na qual, em referência constante com as Escrituras, o santo descreve essa ação e deixar-nos conquistar pelo seu entusiamo:

"A relação de familiaridade do Espírito com a alma, não é uma aproximação no espaço – de fato, como poderia aproximar-se o incorpóreo corporalmente? – mas, em vez disso, consiste na exclusão das paixões, as quais, como consequência da sua atração pela carne, chegam à alma e a separam da união com Deus. Purificados da imundicie da qual tinha se sujado por meio do pecado e voltado para a beleza natural, como tendo restituido à uma imagem real a antiga forma por meio da purificação, só assim é possível aproximar-se do Paráclito. Ele, como um sol, reconhecendo o olho purificado, te mostrará em si mesmo a imagem do invisível. Na beata contemplação da imagem, verás a inefável beleza do arquétipo. Por meio dele se elevam os corações, os fracos são levados pela mão, aqueles que progridem atingem a perfeição. Ele, iluminando aqueles que foram purificados de toda mancha, torna-os espirituais através da comunhão com ele. E como os corpos claros e transparentes, quando um raio os atinge, tornam-se eles próprios brilhantes e refletem um outro raio, assim as almas portadoras do Espírito são iluminadas pelo Espírito; elas mesmas se tornam plenamente espirituais e transmitem aos outros a graça. Daqui vem a presciência das coisas futuras; a compreensão dos mistérios; a percepção das coisas ocultas; as distribuições dos carimas, a cidadania celeste; a dança com os anjos; a alegria sem fim; a permanência em Deus; a semelhança com Deus; o cumprimento dos desejos: tornar-se Deus” (Ib. IX,23.)

Não foi difícil para os estudiosos descobrir por detrás do texto de Basílio imagens e conceitos derivados da Enéade de Plotino e falar, a este respeito, de uma infiltração estranha no corpo do cristianismo. Na verdade, trata-se de um tema puramente bíblico e paulino que se expressa, como era correto, em termos familiares e significativos para a cultura do tempo. Na base de tudo Basílio não coloca a ação do homem – a contemplação – , mas a ação de Deus e a imitação de Cristo. Estamos na antítese da visão de Plotino e de toda filosofia. Tudo, para ele, começa com o batismo que é um novo nascimento. O ato decisivo não está no fim mas no início do caminho:

"Como na corrida dupla dos estados, uma parada e um descanso separam os caminhos em sentidos opostos, assim também na mudança de vida é necessário que uma morte se coloque no meio das duas vidas para colocar fim ao que precede e para começar as coisas sucessivas. Como conseguir descer aos infernos? Imitando a sepultura de Cristo por meio do batismo" (Ib. XV,35.).

O esquema básico é o mesmo de Paulo. No capítulo sexto da Carta aos Romanos o Apóstolo fala da purificação radical do pecado que acontece no batismo e no capítulo oitavo descreve a luta que, sustentado pelo Espírito, o cristão deve levar pelo resto da sua existência, contra os desejos da carne, para avançar na vida nova:

"Os que vivem de acordo com a carne aspiram às coisas da carne; mas os que vivem de acordo com o Espírito aspiram às coisas do Espírito. De fato, a carne aspira ao que conduz à morte; mas o Espírito aspira ao que dá vida e paz. É que a carne aspira à inimizade com Deus, uma vez que não se submete à lei de Deus; aliás nem sequer é capaz disso. Os que vivem sob o domínio da carne são incapazes de agradar a Deus [...]. Portanto, irmãos, somos devedores, mas não à carne, para vivermos de acordo com a carne. É que, se viverdes de acordo com a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis". (Rm 8, 5-13).

Não devemos admirar-nos se para ilustrar a tarefa descrita por São Paulo, Basílio tenha usado uma imagem de Plotino. Ela está na origem de uma das metáforas mais universais da vida espiritual e hoje fala a nós o mesmo que aos cristãos daquela época:

"Vamos, retornes a ti mesmo e olhes; e se ainda não te ves bonito, imita o autor de uma estátua que tem que conseguir a sua beleza: em parte bate com o cinzel, em parte aplaina; aqui engrossa, ali afina, até quando tenha conseguido expressar um belo rosto na estátua. Igualmente também tu tires o supérfluo, endireita o que está torto, e, por força de purificar o que é escuro, faça que se torne brilhante e não deixe de atormentar a tua estátua até que o divino esplendor da virtude não brilhe diante de ti" [(Plotino, Enneadi I, 9 (trad. ital. di V. Cilento, vol. I, Laterza, Bari 1973, p. 108, tradução portuguesa nossa].

Se a escultura, como dizia Leonardo da Vinci, é a arte de remover, tem razão o filósofo quando compara a purificação e a santidade com a escultura. Para o cristão não se trata porém de alcançar uma beleza abstrata, de construir uma bonita estátua, mas de trazer à luz e tornar mais brilhante a imagem de Deus que o pecado tende constantemente a cobrir.

Conta-se que um dia Miquelângelo, passeando em um pátio de Florênça, viu um bloco de mármore bruto coberto de poeira e lama. Parou de repente para contemplá-lo, depois, como iluminado por um súbito clarão, disse aos presentes: "Nesta massa de pedra está escondido um anjo; quero tirá-lo daí!" E começou a trabalhar com um cinzel para moldar o anjo que havia vislumbrado. Assim é também conosco. Somos ainda massa de pedra bruta, tendo acima muita “terra” e muitos pedaços inúteis. Deus Pai nos olha e diz: “Neste pedaço de pedra se esconde a imagem do meu Filho; quero tirá-la daí, para que brilhe eternamente do meu lado no céu!” E para fazer isso usa o cinzel da cruz, nos poda (cf. Jo 15,2)

Os mais generosos, não só suportam os golpes do cinzel que vêm de fora, mas também colaboram, o quanto lhes seja concedido, impondo-se pequenos, ou grandes, mortificações voluntárias e quebrando a vontade velha deles. Dizia um padre do deserto: "Se queremos ser completamente livres, aprendamos a quebrar a nossa vontade, e assim, aos poucos, com a ajuda de Deus, avançaremos e chegaremos à plena liberação das paixões. É possível quebrar dez vez a própria vontade em brevíssimo tempo e lhes digo como. Você está passeando e vê algo; o seu pensamento lhe diz: ‘Olha lá’, mas ele responde ao seu pensamento: ‘Não, não olho!’, e quebra a sua vontade” (Doroteo di Gaza, Insegnamenti 1,20 (SCh 92, p. 177).

Este antigo Padre tem outros exemplos tirados da vida monástica. Se está falando mal de alguém, talvez do superior; o teu homem velho diz: “Participes também tu; diga aquilo que sabes. Mas tu respondes: “Não”. E mortificas o homem velho... Mas não é difícil alongar a lista com outros atos de renúncia, próprios do estado ao qual se vive e do trabalho que se faz.

Enquanto se vive favorecendo os desejos da carne nós nos parecemos aos dois famosos “Bronzes de Riace”, quando foram encontrados no fundo do mar, todo cobertos de crustáceos e quase irreconhecíveis como figuras humanas. Se também nós queremos brilhar, como estas duas obras-primas após a sua restauração, a Quaresma é o momento oportuno para colocar mãos à obra.

5. Uma mortificação "espiritual"

Existe um ponto em que a transformação do ideal de Plotino em ideal cristão permaneceu incompleta, ou pelo menos pouco explícita. São Paulo, ouvimos, diz: "Se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, vivereis." O Espírito não é, portanto, só o fruto da mortificação, mas também o que a torna possível; não está só no final do caminho, mas também no início. Os apóstolos não receberam o Espírito em Pentecostes porque se tornaram fervorosos; tornaram-se fervorosos porque receberam o Espírito.

Os três Padres Capadócios, eram basicamente ascetas e monges; Basílio, em particular, com as suas Regras monásticas (Asceticon!), foi o fundador do monaquismo cenobítico. Isso os levou a destacar fortemente a importância do esforço humano. O irmão e discípulo de Basílio, Gregório de Nissa, vai escrever nesta linha: "Na medida em que desenvolvas tuas lutas pela piedade, nesta mesma medida se desenvolve também a grandeza da alma por meio destas lutas e destes esforços”[(Gregório Nisseno, De instituto christiano (ed. W. Jaeger, Two Rediscovered Works, Leida 1954, p.46)].

Na geração seguinte, esta visão da ascese será retomada e desenvolvida por autores espirituais, como João Cassiano, mas separada da sólida base teológica que tinha em Basílio e em Gregório de Nissa. "É a partir deste ponto – nota Bouyer – que o pelagianismo, colocando o esforço humano antes da graça, terá o seu início"( L. Bouyer,La spiritualità dei Padri, Edizioni Dehoniane, Bologna 1968, p. 295.) Mas este resultado negativo dificilmente pode ser atribuído a Basílio e aos Capadócios.

Voltemos para concluir o motivo que faz com que a doutrina de Basílio sobre o Espírito Santo seja perenemente válida e hoje, dizia, mais do que nunca atual e necessária: a sua praticidade e adesão à vida da Igreja. Nós latinos temos um caminho privilegiado para fazer nossa e transformar em oração este mesmo tipo de pneumatologia: o hino do Veni Creator.

Ele é do início ao fim uma contemplação orante daquilo que o Espírito concretamente faz: em toda a terra e na humanidade como Espírito Criador; na Igreja, como Espírito de santificação (dom de Deus, água viva, fogo, amor e unção espiritual) e como Espírito carismático (multiforme nos seus dons, dedo da mão direita de Deus, que coloca sobre os lábios a palavra); na vida individual do fiél, como luz para a mente, amor para o coração, cura para o corpo; como nosso aliado na luta contra o mal e guia no discernimento do bem.

Invoquemo-Lo com as palavras da primeira estrofe, pedindo-lhe para fazer passar também o nosso mundo e a nossa alma do caos para o cosmos, da dispersão para a unidade, da feiúra do pecado para a beleza da graça.

Veni, Creator Spiritus, Ó vinde Espírito criador;

Mentes tuorum visita, visita os teus fiéis no profundo,

Imple superna gratia, derrama a plenitude da graça,

Quae tu creasti pectora, corações que tu criastes somente para ti

[Tradução Thácio Siqueira]

sexta-feira, 30 de março de 2012

"Vinde, Espírito Criador"


Pe. Cantalamessa explica o trabalho ordenador do Espírito Santo


Por Antonio Gaspari

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira 23 de março de 2012 (ZENIT.org) – Na sua terceira pregação de Quaresma Padre Raniero Cantalamessa mostrou a obra iluminante e criadora do Espírito Santo.

Referindo-se aos ensinamentos de São Basílio, o Grande, (329-379), o pregador da Casa Pontifícia explicou que o Espírito Santo "não pertence ao mundo das criaturas, mas ao do Criador e a prova é que o seu contato nos santifica, nos diviniza, o que não poderia fazer se não fosse ele mesmo Deus".

Ambrósio disse a este respeito que "Quando o Espírito começou a pairar sobre ele, o criado ainda não tinha nenhuma beleza. Em vez disso, quando a criação recebeu a operação do Espírito, obteve todo este esplendor de beleza que a fez brilhar como 'mundo' ".

"Em outras palavras - disse o padre Cantalamessa - o Espírito Santo é aquele que transforma a criação, do caos para o cosmos, que faz dela algo belo, ordenado, limpo: um “mundo" (mundus), precisamente, segundo o significado original desta palavra e desta palavra grega cosmos".

Segundo o Pregador da Casa Pontifícia “a ação criadora de Deus não se limita ao instante inicial, como se acreditava na visão deísta ou mecanicista do universo. Deus não 'foi' uma vez, mas sempre "é" criador ".

"Isso significa - acrescentou - que o Espírito Santo é aquele que muda continuamente o universo, a Igreja e cada pessoa, do caos para o cosmos, isto é: da desordem para a ordem, da confusão para a harmonia, da deformidade para a beleza, do velho para o novo".

Em breve, o Espírito Santo é aquele que sempre "cria e renova a face da terra" (cf. Sl 104, 30).

São Basílio diz que através do Espírito Santo "os corações se elevam, os fracos são levados pela mão, aqueles que progridem chegam à perfeição".

"Ele - escreveu São Basílio – iluminando os que foram purificados de toda mancha, torna-os espirituais através da comunhão com ele. E como os corpos claros e transparentes, quando um raio os atinge, se tornam eles próprios brilhantes e refletem outro raio, assim as almas portadoras do Espírito Santo são iluminadas pelo Espírito; elas mesmas se tornam plenamente espirituais e repassam sobre os outros a graça”.

Para explicar o trabalho de purificação conduzido pelo Espírito Santo, o padre Cantalamessa usou o exemplo da escultura.

Leonardo da Vinci dizia que a escultura é a arte do tirar. Conta-se que Michelangelo viu um bloco de mármore bruto coberto de poeira e lama. Parou para observá-lo, depois, como que iluminado súbitamente por um clarão, disse aos presentes: "Nesta massa de pedra está escondido um anjo: quero retirá-lo daí!" E começou a trabalhar com um cinzel para moldar o anjo que havia vislumbrado.

Assim é também conosco, sublinhou o Pregador da Casa Pontifícia: "Nós ainda somos massas de pedra bruta, com muita “terra” encima e muitos pedaços inúteis. Deus Pai nos olha e diz: "Neste pedaço de pedra está escondida a imagem do meu Filho; quero tirá-la daí, para que brilhe para sempre comigo no paraíso!" E para isso usa o cinzel da cruz, nos poda ( cf. Jo. 15,2)

"Se queremos brilhar também nós, como os Bronzes de Riace depois da sua restauração – comentou – a Quaresma é o tempo oportuno para colocar mãos à obra na empresa”.

No final da Pregação de Quaresma, padre Cantalamessa propôs recitar o primeiro verso do hino "Veni Creator" pedindo ao Espírito Santo "para fazer passar também o nosso mundo e a nossa alma do caos para o cosmos, da feiura do pecado para a beleza da graça".

[Tradução Thácio Siqueira]

quinta-feira, 29 de março de 2012

Levar Cristo ao centro da história para levar o homem ao centro da vida

Diálogo de Bento XVI com os jornalistas durante o vôo papal

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 23 de março de 2012(ZENIT.org) – O Papa olha para o México e Cuba, mas seus pensamentos se dirigem a todo o continente latino americano. Explicou Bento XVI aos jornalistas que seguem sua visita pastoral. O objetivo de sua viagem é levar Cristo e seu amor ao centro da história, para levar o homem ao centro da vida.

Como sempre- informa o jornal L ´Osservatore Romano- em um clima cordial aconteceu o encontro com 72 jornalistas representantes da imprensa internacional no inicio da viagem. Durante o vôo até a cidade mexicana de León o papa se reuniu com os jornalistas às 11 da manhã, acompanhado pelo diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi.

As perguntas ao pontífice fizeram referência à difícil situação do México, atormentado pela violência destrutiva do narcotráfico; ao papel da Igreja no continente entre contrastes sociais e debates sobre a influência da “teologia da libertação”; à questão dos direitos humanos em Cuba e os reflexos persistentes da precariedade do equilíbrio internacional em relação à ilha caribenha; os numerosos desafios que se apresentam no horizonte da Igreja latino- americana empenhada na missão internacional iniciada na Conferência de Aparecida.

Nas pegadas de João Paulo II

O primeiro pensamento foi para o papa Wojtyla, em cujas pegadas disse querer caminhar Bento XVI. Em sinal de continuidade. Os tempos são diferentes e também as situações resultam diferentes do ponto de vista social e político, mas não muda a mensagem que Bento XVI leva consigo. E desejava tornar ao México como papa. Conhece o país por já ter visitado, mas também por muitas pessoas – recordou – que toda quarta-feira se fazem ouvir durante a Audiência Geral.

A violência no México

A atenção foi centralizada exatamente sobre a dramática questão da violência no México. Argumento que não é novidade para o papa, que falou sobre ela em diversas ocasiões com representantes diplomáticos, chefes de estado, bispos. A última ocasião foi na celebração da missa em 12 de dezembro de 2011, na basílica de São Pedro por ocasião do bicentenário da independência dos povos latino americanos. Não mudou, portanto, o sentido da condenação de qualquer forma de violência expressada esta manhã em relação ao papel destrutivo do narcotráfico. A droga, disse o pontífice, destrói o homem, destrói sobretudo os jovens. O papel da Igreja neste contexto é de desmascarar o mal onde quer que esteja. Por isso é necessário continuar anunciando Deus para torná-lo conhecido em todo o mundo. Se não o conhece, o homem constrói seus paraísos artificiais e não descobre a via de salvação.

Nova teologia da libertação?

Mais articulada foi a reflexão sobre o papel de apoio da Igreja na perpetuação desse estranho fenômeno que ainda hoje – duzentos anos depois da conquista da independência e, no entanto o inegável salto à frente de muitas economias continentais – está a aumentar o abismo entre ricos e pobres. A Igreja retirou a relevância de não ter se engajado demasiadamente neste setor. E foi evocada uma nova “teologia da libertação”, sem os excessos que a marcaram no início.

A Igreja, respondeu o papa, deve naturalmente interrogar-se sobre o que faz, para avaliar como faz e se é suficiente. Deve ser lembrado, no entanto, que não é um partido político, mas uma realidade moral que educa o indivíduo, é também verdade que a política implica de alguma maneira a moral. E, portanto a Igreja termina entrando em contato com a política. Mas sua missão continua sendo sempre a de educar as consciências. Neste campo, declarou o pontífice, se nota entre os católicos certa dicotomia, no sentido de que há uma profunda diferença entre a maneira de comportar-se individual e seu modo de expressar e viver em público. Como se a fé fosse algo para ser vivida somente na esfera privada e renegada na esfera pública.

Neste sentido, a missão da Igreja é ajudar o homem a superar este comportamento esquizofrênico. Sobretudo é necessário educar para construir uma moral pública. Certamente, sublinhou o papa, para os que crêem é mais fácil, pois se trata de expressar a força registrada na fé. Quanto à possibilidade de uma "teologia da libertação" purificada, o pontífice sublinhou que a questão é simplesmente educar na moral.

Liberdade em Cuba

Em relação a atualidade da exortação com que João Paulo II cumprimentou os cubanos, ao fim de sua viagem em 1998 – “ Que Cuba se abra ao mundo, que o mundo se abra a Cuba” – e sobre as vozes dos opositores ao regime que se fizeram ouvir na véspera da viagem, Bento XVI, talvez, antecipou algumas coisas que dirá diretamente a os cubanos, tanto no que diz respeito à situação interna, como no que diz respeito à posição da comunidade internacional. Também neste caso o papa sublinhou sua vontade de seguir o caminho traçado pelo papa Wojtyla.

Ele, disse que, abriu o caminho, um longo caminho, e nós pretendemos seguí-lo. Certamente nos encontramos hoje diante - observou - de novas convicções, de ideologias que se adequam mais às necessidades do mundo, que exige uma colaboração para uma sociedade mais justa. Mas a Igreja, concluiu, está sempre do lado da liberdade, de toda liberdade.


Um olhar sobre a América Latina

E finalmente, um olhar sobre a América Latina e a missão continental da Igreja. Ao papa foi pedido uma leitura à luz dos próximos grandes encontros eclesiais : o Sínodo sobre a nova evangelização e a celebração do Ano da fé, em um contexto marcado por profundos desafios como o secularismo emergente e as ameaças das seitas . A nova evangelização- recordou o papa - começou com o Concílio Vaticano II. João XXIII percebeu a necessidade de levar Cristo ao mundo para muitos que não o conheciam. João Paulo II fez deste um motivo para o seu pontificado. Nós hoje – observou Bento XVI - estamos em um contexto de racionalização extrema e muitos não conhecem a Deus ou se recusam a conhecê-lo. Nossa tarefa é proclamar aquele Deus que responde às perguntas de nossa razão.


Presentes mexicanos para o Papa

O encontro com os jornalistas foi concluido com a incomum cerimônia de entrega de alguns presentes que os colegas da imprensa mexicana quiseram oferecer ao papa. Entre os mais originais, um iPod com músicas mexicanas e músicas clássicas. "Santidade - foi dito no momento da entrega - sabendo de seu amor e conhecimento pela tecnologia, por Twitter e muito mais, pensamos em agregar isso aos seus conhecimentos.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A «esmola» e a «justiça»



JOÃO PAULO II

20ª AUDIÊNCIA GERAL

Sala Paulo VI
Quarta-feira, 28 de Março de 1979

1. Paenitemini et date eleemosynam (Cfr. Mc. 1, 15 e Lc. 12, 33)

A palavra «esmola» não gostamos hoje de a ouvir. Encontra-mos nela alguma coisa de humilhante. Esta palavra parece supor um sistema social em que reina a injustiça, a desigual distribuição dos bens, um sistema que deveria ser mudado com reformas adequadas. E se tais reformas não fossem realizadas, delinear-se-ia no horizonte da vida social a necessidade de mudanças radicais, sobretudo no campo das relações entre os homens. A mesma convicção encontramo-la nos Profetas do Antigo Testamento, a que muitas vezes recorre a liturgia no tempo da Quaresma. Os Profetas consideram este problema a nível religioso: não há verdadeira conversão a Deus, não pode haver «religião» autêntica sem reparar injúrias e injustiças nas relações entre os homens, na vida social. E mesmo neste contexto, exortam os Profetas à esmola.

Não usam sequer a palavra «esmola», que aliás em hebraico é «sedaqah», isto é precisamente «justiça». Pedem auxílio para aqueles que sofrem injustiça e para os necessitados: não tanto em virtude da misericórdia, quanto preferentemente em virtude do dever da caridade activa. Sabeis qual é o jejum que eu aprecio?... É romper as ligaduras da iniquidade, desatar os nós do jugo, deixar ir livres os oprimidos e quebrar toda a espécie de jugo; é repartir o próprio pão com o esfomeado, dar abrigo aos infelizes sem abrigo, vestir o nu e não desprezar o teu irmão (Is. 58, 6-7).

A palavra grega «esmola» encontra-se nos livros tardios da Bíblia, e a prática da esmola é prova de religiosidade autêntica. Jesus faz da esmola uma condição da entrada no Seu reino (Cfr. Lc. 12, 32-33) e da verdadeira perfeição (Mc. 10, 21 e paral). Por outro lado, quando Judas — diante da mulher que ungia os pés de Jesus — pronunciou a frase: Porque não se vendeu este perfume por 300 denários e não se deram aos pobres? (Jo. 12, 5), Cristo defendeu a mulher respondendo: Pobres, sempre os tereis convosco, mas a mim nem sempre me tereis (Jo. 12, 8). Uma e outra frase oferecem motivo para longa reflexão.

2. Que significa a palavra «esmola»?

A palavra grega «eleemosyne» provém de «eleos» que significa compaixão e misericórdia; inicialmente indicava a atitude do homem misericordioso e, em seguida, todas as obras de caridade para com os necessitados. Esta palavra, transformada, ficou em quase todas as línguas europeias.

Em francês: «aumône»; espanhol: «limosna»; português: «esmola»; alemão: «almosen»; e inglês: «alms». Até o termo polaco «jalmuzna» é a transformação da palavra grega.

Devemos agora distinguir o significado objectivo deste termo, do significado que lhe damos na nossa consciência social. Como resulta do que já dissemos, ao termo esmola» atribuímos muitas vezes, na nossa consciência social, um significado negativo. Diversas as circunstâncias que para isso contribuíram e ainda hoje contribuem. Pelo contrário, o termo «esmola» em si mesmo, como ajuda a quem dela precisa, como fazer participar os outros dos próprios bens, não desperta nada de tais associações desfavoráveis. Podemos não estar de acordo com quem dá a esmola, pelo modo como a dá. Podemos também não concordar com quem estende a mão pedindo esmola, se não se esforça por ganhar a vida por si mesmo. Podemos não aprovar a sociedade, o sistema social, em que haja necessidade de esmola. Todavia, o facto mesmo de prestar auxílio a quem precisa, o facto de repartir com os outros os próprios bens deve merecer respeito.

Vemos quanto, na interpretação das expressões linguísticas, é necessário libertarmo-nos da influência das várias circunstâncias acidentais: circunstâncias muitas vezes impróprias, que pesam sobre o significado fundamental. Estas circunstâncias são aliás positivas às vezes, em si mesmas (por exemplo, no nosso caso: a aspiração a uma sociedade justa, em que não haja necessidade de esmola, por nela reinar a justa distribuição dos bens).

Quando o Senhor Jesus fala de esmola, quando pede que a demos, sempre o faz no sentido de prestarmos auxílio a quem dele precisa, de repartirmos os próprios bens com os necessitados, isto é, no sentido simples e essencial, que não nos permite duvidar do valor do acto designado pelo termo «esmola», pelo contrário nos leva a que o aprovemos; como acto bom, como expressão de amor para com o próximo e como acto salvífico.

Além disso, num momento de especial relevo, pronuncia Cristo estas palavras significativas:Pobres, sempre os tereis convosco (Jo. 12, 8). Com tais palavras não pretende dizer que as mudanças das estruturas sociais e económicas nada valham e que não se hajam de tentar caminhos diversos para eliminar a injustiça, a humilhação, a miséria e a fome. Só quer dizer que no homem haverá sempre necessidades, a que não se poderá prover senão com a ajuda ao necessitado e com levar a que os outros participem dos bens meus ... De que ajuda se trata? De que participação? Acaso só de «esmola» entendida sob forma de dinheiro, de socorro material?

3. Certamente Cristo não tira a esmola do nosso campo visual. Pensa também na esmola pecuniária, material, mas pensa a Seu modo. Mais eloquente que qualquer outro é, a este propósito, o exemplo da viúva pobre, que deitava no tesouro do templo alguns trocos: do ponto de vista material, era oferta que dificilmente se poderia comparar com as ofertas que davam os outros. Todavia Cristo disse: essa viúva ... deitou tudo o que tinha para viver (Lc. 21, 3-4). Conta portanto sobretudo o valor interior do que se dá: a disponibilidade para repartir tudo, a prontidão para nos darmos a nós mesmos.

Recordemos aqui São Paulo: Ainda que distribua todos os meus bens em esmolas ..., se não tiver caridade, de nada me aproveita (1 Cor. 13, 3). Também Santo Agostinho escreve sabiamente a este propósito: «Se estendes a mão para dar, mas no coração não tens misericórdia, nada fizeste; se, pelo contrário, no coração tens misericórdia, mesmo que nada tenhas para dar com a mão, Deus aceita a tua esmola» (Santo Agostinho, Enarrat. in Ps., CXXV, 5) .

Tocamos assim o núcleo central do problema. Na Sagrada Escritura e segundo as categorias evangélicas, «esmola» significa, primeiro que tudo, dom interior. Significa a atitude de abertura «para o outro». Precisamente esta atitude é factor indispensável da «metánoia», isto é, da conversão, do mesmo modo que são também indispensáveis a oração e o jejum. Na verdade, bem se exprime Santo Agostinho: «Como são ouvidas depressa as orações de quem pratica o bem! Esta é a justiça do homem na vida presente: o jejum, a esmola, e a oração» (Santo Agostinho,Enarrat. in Ps., XLII, b): a oração, como abertura para Deus; o jejum, como expressão do domínio de si próprio mesmo em privar-se dalguma coisa, em dizer «não» a si mesmo; e, por fim, a esmola, como abertura «para os outros». Este quadro descreve-o claramente o Evangelho quando nos fala da penitência, da «metánoia». Só com uma atitude totalizante — nas relações com Deus, consigo mesmo e com o próximo — atinge o homem a conversão e permanece no estado de conversão.

A «esmola» assim entendida tem um significado, em certo sentido, decisivo para tal conversão. Para disso nos convencermos, basta recordar a imagem do Juízo final que nos deu Cristo:

«Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber; era peregrino e recebestes-me; estava nu e destes-me de vestir; adoeci e visitastes-me; estive na prisão e fostes ter comigo». Então, os justos responder-lhe-ão: «Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?». E o Rei dir-lhes-á em resposta: «Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt. 25, 35-40).

E os Padres da Igreja dirão depois com São Pedro Crisólogo: «A mão do pobre é o gazofilácio de Cristo, porque tudo o que o pobre recebe é Cristo que o recebe» (São Pedro Crisólogo, SermoVIII), e com São Gregório de Nazianzo: «O Senhor de todas as coisas quer a misericórdia, não o sacrifício; e nós damo-la por meio dos pobres» (São Gregório Nazianzo, De pauperum aurore, XI).

Portanto, esta abertura para os outros, que se exprime com o «auxílio», com o «repartir» a comida, o copo de água, a palavra amável, o conforto, a visita, o tempo precioso, etc., este dom interior oferecido ao outro homem chega directamente a Cristo, directamente a Deus. Decide do encontro com Ele. É a conversão.

No Evangelho, e mesmo em toda a Sagrada Escritura, pode-mos encontrar muitos textos que o vêm confirmar. A «esmola» entendida segundo o Evangelho, segundo o ensinamento de Cristo, tem na nossa conversão a Deus um significado definitivo, decisivo. Se falta a esmola, a nossa vida não chega ainda plenamente a Deus.

4. No ciclo das nossas reflexões quaresmais, será necessário retomar este tema. Hoje, antes de concluir, detenhamo-nos ainda um momento no verdadeiro significado da «esmola». E facílimo, de facto, falsificar-lhe o significado, como já notámos no princípio. Jesus dava também recomendações a respeito da atitude superficial, «exterior», da esmola (Cfr. Mt. 6, 24; Lc. 11, 41) Este problema está sempre vivo. Se nos damos conta do significado essencial que a «esmola» tem para a nossa conversão a Deus e para toda a vida cristã, devemos evitar, à viva força, tudo quanto falsifica o sentido da esmola, da misericórdia, das obras de caridade: tudo o que pode deformar a imagem delas em nós mesmos. Neste campo, é importantíssimo cultivar a sensibilidade interior para com as necessidades reais do próximo, para saber em que o devemos ajudar, como proceder para não o ferir e como comportar-nos para aquilo que damos, que levamos à sua vida, ser um dom autêntico, dom não agravado pelo sentido ordinário negativo da palavra «esmola».

Vemos portanto o campo de trabalho, como é amplo e ao mesmo tempo profundo. a abrir-se diante de nós, se queremos pôr em prática o conselho: Paenitemini et date eleemosynam (Cfr.Mc. 1, 15 e Lc.12, 33). É campo de trabalho não só para a Quaresma, mas para todos os dias. Para toda a vida.

***

Saudações

Às crianças das escolas romanas

Caríssimos alunos e alunas das Escolas Elementares e das Escolas Médias de Roma, que viestes com os vossos condiscípulos doutras cidades italianas e ainda com outros rapazes e meninas pertencentes a associações católicas.

O Papa recebe-vos com paternal afecto e agradece-vos de todo o coração a visita que quisestes fazer-lhe. Este encontro, como sabeis, realiza-se na estação litúrgica da Quaresma, que tem por fim a fervorosa preparação para a Páscoa.

Estou certo que os vossos Professores e Assistentes vos instruíram acerca da importância deste período, exortando a que mediteis no mistério da nossa Redenção: Jesus, nosso irmão, tomou o nosso lugar para satisfazer pelo pecado, e para isto teve de sofrer a paixão e a morte da Cruz. Desejo-vos que, reflectindo sobre o infinito amor de Deus, sintais cada vez mais o dever da oração e da mortificação: Purificados, mediante estas, no espírito e no corpo, unimo-nos mais intimamente ao Pai do céu.

E agora é necessário completar a obra: reviver, do modo mais digno, o acontecimento único, irrepetível, da história do género humano — a Ressurreição do Divino Salvador — utilizando os meios colocados por Ele mesmo à nossa disposição, quer dizer, os sacramentos da Penitência e da Eucaristia, que procuram a inefável alegria de participarmos no triunfo de Cristo. Assim dareis execução fiel ao convite de São Paulo: Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima e não às da terra (Col 3, 1-2.).

E com estes votos dou-vos a Bênção Apostólica, que desejo tornar extensiva a todos os que vos são queridos.

Às Religiosas de Santa Doroteia (Frassinetti)

Às Irmãs de Santa Doroteia, Frassinetti, que nestes dias estão aqui : em Roma para tomar parte no seu Capítulo Geral, desejo, segundo as palavras do Concílio Vaticano II, que possam verdadeiramente "cumprir com segurança e guardar fielmente a profissão religiosa e avançar com júbilo pelo caminho da caridade" (cfr. Lumen Gentium, 43).

Aos Doentinhos

Desejo certificar todos os doentes e todos os que sofrem que estou especialmente perto deles com o coração e com a oração.

Caríssimos convido-vos a unir, sobretudo neste período de quaresma, os vossos sofrimentos aos de Cristo suspenso da cruz, e a oferece-los pela salvação de todos os homens.

Acompanho-vos com a minha palavra de ânimo e a minha bênção, que tenho o prazer de tornar extensiva aos vossos familiares e A todos quantos vos prestam assistência.

Aos participantes na XIX Reunião dos Ecónomos católicos da Itália

Desejo agora fazer chegar a minha bênção e saudação aos Religiosos e Religiosas, que hoje estão em número especialmente grande nesta Sala. Vá primeiramente uma especial menção aos Sacerdotes e às Religiosas que participam na XIX Reunião dos Ecónomos católicos da Itália: estou-vos muito reconhecido, caros filhos e filhas, pelo vosso serviço, às vezes desconhecido, mas preciosíssimo e meritório diante de Deus. O Senhor vos conforte no vosso trabalho.

Às participantes no Congresso sobre Comunicações Sociais e no Curso para "Mestras de Formação"

Dirijo um pensamento de bons votos às participantes no Encontro Nacional sobre as Comunicações Sociais e ainda às que seguem o Curso de "Mestras de formação levai a toda a parte o sinal sorridente da vossa bondade operosa, como revérbero do espírito mesmo de Cristo e do seu Evangelho. Fazei que seja sentida em toda a parte a vossa presença cristã.

Aos participantes no Encontro para a "Assistência Espiritual às Forças Armadas da Itália"

Também aos participantes no Encontro das Secções para a "Assistência Espiritual às Forças Armadas da Itália" desejo que o seu esforço — de animação cristã e de promoção dos valores supremos da paz e do respeito recíproco entre os indivíduos - seja coroado de bom êxito, que só: na força do Senhor encontra a sua plena realização.

A Associação dos Regressados da prisão e dos campos de concentração

Reservo, por fim, uma saudação especialmente afectuosa para a peregrinação da Associação dos Regressados da prisão e dos campos de: concentração, aqui presentes em companhia dum grupo de familiares e parentes de militares dispersos na campanha da Rússia. Caríssimos, vós, que trazeis ainda, nas vossas almas e nos vossos corpos, os sinais de antigas e ainda dolorosas feridas, tendes lugar especialíssimo no coração do Papa, que vos recorda constantemente na oração. A todos vos concedo uma Bênção especial.

Aos Jovens Casais

Vão agora para vós, jovens casais, uma especial saudação e os meus paternais votos: a vossa vida matrimonial — iniciada com a cerimónia sacra, de que estão ainda cheios os olhos e mais ainda a vossa alma — proceda ainda melhor de dia para dia, reforçada pelo amor recíproco e por um mútuo e activo sentimento de responsabilidade. Conservai longamente, conservai sempre, a carga de vitalidade que hoje vos alenta e vos leva a olhar para a frente com alegre esperança. Deus vos abençoe, como, em Seu nome, eu de coração vos abençoo.

Ao Séquito do Presidente da República do Zaire

Algumas palavras de boas vindas dirigidas às 70 pessoas que, na sua visita, acompanham o Presidente do Zaire. Terei o prazer de receber amanhã o General Mobutu Sese Seko e de lhe manifestar a minha solicitude pelo povo zairense. A vós dirijo as minhas saudações mais cordiais, prometendo-vos as minhas orações por vós, pelas vossas famílias e por todos os vossos compatriotas.

terça-feira, 27 de março de 2012

Beatificação do cardeal Van Thuan pode ocorrer em breve


Bispos do Vietnã estão esperançosos


ROMA, quinta-feira, 22 de março de 2012 (ZENIT.org) - A Igreja no Vietnã manifestou a esperança de que em breve aconteça a beatificação do cardeal Van Thuan.

“Os bispos, os fiéis e toda a Igreja do Vietnã têm grandes esperanças no sucesso do processo de beatificação do nosso querido cardeal Xavier Van Thuan. Ele era uma pessoa especial, que viveu o evangelho como o único critério da sua vida”. Quem fala é Paul Nguyen Thai Hop, OP, bispo de Vinh e presidente da Comissão Justiça e Paz da Conferência Episcopal do Vietnã, na véspera da chegada de uma delegação vaticana do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz.

A delegação permanecerá no Vietnã de 23 de março a 9 de abril, coletando testemunhos sobre a vida e a obra do cardeal Francis Xavier Nguyen Van Thuan, que deverão ser úteis para a causa de beatificação.

Dom Paul Nguyen Thai Hop declarou à Fides: “Os fiéis vivem a visita da delegação do Vaticano com grande alegria e esperança, com a certeza de que o caminho para a beatificação do cardeal chegará a bom termo. O cardeal Van Thuan é uma figura muito amada. Sua história e testemunho são muito importantes para os fiéis vietnamitas. Bispos, sacerdotes, religiosas, leigos: uma grande lista de pessoas serão recebidas pela delegação vaticana. A comunidade católica vive com grande expectativa, emoção e entusiasmo esta histórica visita”.

O bispo fala ainda sobre o cardeal: “Quando eu era professor no Angelicum de Roma, o encontrava muito. Era uma pessoa especial, muito humilde, um homem que tinha como único critério de vida o evangelho. Ao lembrar dos dias escuros de cativeiro, ele não sentia ódio, mas falava com amor dos inimigos e perseguidores”.

Entre os testemunhos que a delegação escutará, tem destaque especial o do atual arcebispo de Hue, Stephen Nguyen Nhu Thê, amigo pessoal do cardeal. A delegação visitará Saigon, no sul do Vietnã, onde Van Thuan foi arcebispo coadjutor, e continuará o trabalho na diocese de Nha Trang, onde o cardeal foi bispo em 1967, aos 39 anos. Depois, partirá para Hue, cidade natal do cardeal, onde ele foi ordenado sacerdote e vigário geral antes de continuar os estudos em Roma. A pesquisa terminará em Hanói, onde o cardeal ficou tanto na cadeia quanto em prisão domiciliar.

A causa de beatificação foi aberta em 22 de outubro de 2010, por proposta do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz, do qual Van Thuan foi presidente. O prelado tinha sido preso sem julgamento e passou treze anos no campo de prisioneiros. Exilado em Roma, foi ordenado cardeal um ano antes da morte, em 2002.

Atualmente, um Observatório sobre a Doutrina Social da Igreja traz o seu nome: http://www.vanthuanobservatory.org.

segunda-feira, 26 de março de 2012

SOLENIDADE DA ANUNCIAÇÃO DO SENHOR



Leituras: Is 7,10-14;8-10; Sl 39(40),1.2.3.4; Hb 10,4-10; Lc 1,26-38

"Ao entrar no mundo, Cristo disse: Eis-me aqui, ó Pai, para fazer a tua vontade" (Hb 10,5.7)

Neste dia, a Igreja festeja solenemente o anúncio da Encarnação do Filho de Deus. O tema central desta grande festa é o Verbo Divino que assume nossa natureza humana, sujeitando-se ao tempo e espaço. 

Hoje é o dia em que a eternidade entra no tempo ou, como afirmou o Papa São Leão Magno: "A humildade foi assumida pela majestade; a fraqueza, pela força; a mortalidade, pela eternidade."

Com alegria contemplamos o mistério do Deus Todo-Poderoso, que na origem do mundo cria todas as coisas com sua Palavra, porém, desta vez escolhe depender da Palavra de um frágil ser humano, a Virgem Maria, para poder realizar a Encarnação do Filho Redentor:

"No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem e disse-lhe: ‘Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.’ Não temas , Maria, conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Maria perguntou ao anjo: ‘Como se fará isso, pois não conheço homem?’ Respondeu-lhe o anjo:’ O Espírito Santo descerá sobre ti. Então disse Maria: ‘Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tu palavra’" (cf. Lc 1,26-38).

Sendo assim, hoje é o dia de proclamarmos: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1,14a). E fazermos memória do início oficial da Redenção de TODOS, devido à plenitude dos tempos. É o momento histórico, em que o SIM do Filho ao Pai precedeu o da Mãe: "Então eu disse: Eis que venho (porque é de mim que está escrito no rolo do livro), venho, ó Deus, para fazer a tua vontade" (Hb 10,7). Mas não suprimiu o necessário SIM humano da Virgem Santíssima.

Cumprindo desta maneira a profecia de Isaías: "Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco" (Is 7,14). Por isso rezemos com toda a Igreja:

"Ó Deus, quisestes que vosso Verbo se fizesse homem no seio da Virgem Maria; dai-nos participar da divindade do nosso Redentor, que proclamamos verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Por nosso Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo".

Quem celebra? (CIC n. 1136-1144)



A ação litúrgica então não termina na sua dimensão meramente histórica. Ela é, pelo contrário, uma degustação (cf. João Paulo II, Audiência Geral, 28.06.2000), um pálido reflexo da realidade (cf. Bento XVI, Homilia na celebração das Vésperas na Catedral de Notre-Dame em Paris, 12.09.2008), daquela que incessantemente se celebra no alto dos céus. A Liturgia eclesial, portanto, não constitui simplesmente uma imitação mais ou menos fiel da Liturgia celeste, nem sequer uma celebração paralela ou alternativa. Pelo contrário, ela significa e representa uma concreta epifania sacramental da Liturgia eterna.

Uma das imagens bíblicas que está na base de tudo isso é proposta pelo Livro do Apocalipse, que descreve um luminoso ícone de Liturgia celeste (cf. Ap 4-5; 6,9; 7,1-9; 12; 14,1; 21; 22,1; e também CIC, nn. de 1137- 1138).

É toda a criação que eleva a Deus um louvor incessante. E é nessa Liturgia contínua do céu que a comunidade constituída pelo povo santo de Deus, reunida em fraternal alegria na assembléias litúrgica, misticamente se associa nas celebrações eclesiais. Céu e terra se reunem numa sublime communio sanctorum.

Não é então difícil de entender a verdade de fé exposta pelo Catecismo quando ensina que a Liturgia é ação do “Cristo todo inteiro” (CIC n. 1136), ou seja da Cabeça inseparavelmente unida ao Seu Corpo Místico, que é a Igreja no seu conjunto: celeste, purgante, peregrinante.

A ação litúrgica que é realizada, além disso, não representa somente uma celebração dos membros de uma comunidade eclesial. É sempre a Igreja toda, aquela universal, que se envolve realmente. De fato, é na Liturgia que a descrição escultural da Igreja como "sacramento da unidade" se concretiza no seu apogeu. Nela, de fato, a íntima unidade que vigora entre os fiéis se torna expressão viva, real e concreta.

Neste contexto, o CIC, no n. 1140, também fala da preferência que, no culto litúrgico, deve ser dada à celebração comunitária com relação àquela individual e quase privada. Isto se explica principalmente devido ao valor "epifânico" da liturgia: o rito comunitário, ou seja, não é um rito que "vale" mais, mas certamente é um rito que expressa melhor o caráter eclesial de toda celebração litúrgica.

No mesmo número do Catecismo se especifica também que nem todos os ritos litúrgicos envolvem uma celebração comunitária: isso vale particularmente para o Sacramento da Reconciliação (cuja celebração – com exceção de casos muito excepcionais – tem que ser individual!), para a Unção dos enfermos, e para muitos Sacramentais. O Sacrifício eucarístico representa ao invés o máximo grau que pode expressar a celebração comunitária: é oferecido de fato em nome de toda a Igreja, é o principal sinal da unidade, o maior vínculo da caridade.

Devemos ainda dizer que, também quando a ação litúrgica é realizada de acordo com a modalidade individual, nunca perde o seu caráter essencialmente eclesial, comunitário e público.

É necessário, então, que a participação na Ação Litúrgica seja “ativa”, ou seja, que o fiél individual não garanta somente uma presença exterior, mas também um envolvimento interior por meio de uma atenção consciente da mente e de uma predisposição do coração, que são, seja resposta do homem suscitada pela graça, seja frutuosa cooperação com ela.

A dimensão essencialmente comunitária, da ação litúrgica não exclui, porém, que coexista a dimensão hierárquica (ao contrário, o conceito mesmo de “Comunidade eclesial” requer e inclui aquele de “Hierarquia eclesial”). O Culto litúrgico, de fato, refletindo a natureza teândrica da Igreja, é ação de todo o povo santo de Deus, que é ordenado e age sob a orientação dos ministros sagrados. A menção explícita dos Bispos (cf. CIC, n. 1140) é um lembrete da centralidade constitutiva da figura episcopal, em torno da qual gira a vida litúrgica da Igreja local. Em palavras mais simples, embora a celebração seja de toda a Igreja, ela não pode acontecer sem os ministros sagrados. Particularmente vale para a Eucaristia, cuja celebração está reservada aos sacerdotes por direito divino.

Dentro da ação litúrgica, entendida como uma clara manifestação da unidade do Corpo da Igreja, em virtude do próprio Batismo, cada fiél faz a própria tarefa, de acordo com o seu estado de vida e da função que desenvolve dentro da comunidade (cf. CIC, nn. 1142; 1144). Além dos ministros consagrados (bispos, presbíteros e diáconos), há também uma variedade de ministérios litúrgicos (sacristão, coroinha, leitor, salmista, acólito, comentaristas, músicos, cantores, etc.) cuja tarefa está normatizada pela Igreja, ou determinada e especificada pelo bispo diocesano segundo as tradições litúrgicas ou as necessidades pastorais da Igreja particular à qual é preposto.

* Padre Natale Scarpitta, sacerdote da Arquidiocese de Salerno – Campagna – Acerno, é doutorando em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma

domingo, 25 de março de 2012

5º DOMINGO DA QUARESMA


Leituras: Jr 31,31-34; Sl 50(51), 1.2.3.; Hb 5,7-9; Jo 12,20-33 

“Cristo, nos dias de sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte; e foi atendido por causa da sua submissão.

E embora fosse Filho, aprendeu, contudo, a obediência pelo sofrimento; e levado à perfeição, se tornou para todos os que lhe obedecem princípio de salvação eterna.” (Hb 5, 7-9).

“Naquele tempo, ... Jesus lhes respondeu: “É chegada a hora em que será glorificado o Filho do Homem. Em verdade, em verdade, vos digo: Se o grão de Trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto. Quem ama sua vida a perde e quem odeia sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna. Se alguém quer servir-me, siga-me; e onde estou eu, aí também estará o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. (...) e, quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim”. (Jo 12, 20-33).

“Porei minha lei no fundo de seu ser,...” (Jer 31,33): a maravilhosa promessa da “nova aliança” parece já aludir ao destino do grão de Trigo, que o camponês lança no campo e enterra para que possa germinar e dar fruto.

Começando por Moisés, os profetas continuavam a chamar os Israelitas para a fidelidade à aliança do Senhor: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz! Não endureçais vossos corações...” (Sl 95, 7-8), mas o grito deles permanecia sem escuta todas as vezes.

E eis que Jeremias anuncia algo impensável, absolutamente novo: acabará a obediência impossível, muito difícil; não será mais necessário se esforçar para praticar a Lei de Deus, e não só não se rebelarão contra ela, mas a obedecerão com todo o coração.

Então todo mandamento divino suscitará uma resposta dócil, fácil, espontânea; cada Palavra da Lei será escutada com prazer, porque coincidirá com o desejo do nosso mesmo coração: “...Porei minha lei no fundo de seu ser e a escreverei em seu coração” (Jer 31,33).

Busquemos atualizar tudo isso.

Então: nós queremos ser pessoas novas, capazes de amar a Deus e ao próximo como Jesus, com o seu mesmo sentir, a sua compaixão, a sua mansidão e humildade, a sua maravilhosa generosidade. Conhecemos o bem que devemos fazer e nos fascina a beleza e a pureza do amor verdadeiro. Sabemos que isso é a alegria e a energia da vida, a sua vitalidade irresistível, como testemunham sem parar o prodígio do útero e a explosão da primavera.

Mas infelizmente a nossa natureza – o coração, a vontade prática, a liberdade – ferida pelo pecado, se comporta quase sempre como uma semente refratária para entrar na terra, com a amargurada existencia do egoísmo, muitas vezes experimentado.

Esta lacuna entre o ideal e a prática do amor, está tão enraizada nos comportamentos, também nas pequenas coisas, que não raramente, nos encontramos resignados dizendo: “não há nada a fazer, sou assim”.

Então, a fé nos ensina que o homem não é capaz, sozinho, de viver radicalmente o Evangelho do amor. Jesus de fato declarou: “ Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu nele, leva muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer!” (Jo 15, 5).

Estas palavras não se referem à circunstância concreta na qual somos desafiados pelo amor, mas principalmente à eficácia redentora da paixão, morte e ressurreição do Senhor em ordem ao mandamento novo do amor.

É Ele o “grão de trigo” primogênito, do qual descende e depende a intrínseca vocação de cada cristão para ser o que é em virtude do Batismo: um grão de trigo predestinado a morrer em Cristo para levar muito fruto.

Jesus foi o primeiro que conheceu a relutância inata da natureza humana para amar “até o fim” (Jo 13,1). E Ele “… aprendeu a obediência pelo sofrimento; e levado à perfeição, se tornou para todos os que lhe obedecem princípio de salvação eterna” (Hb 5, 7-9). Era a nossa natureza humana que aprendia em Jesus, e se tornou finalmente capaz de vencer aquele amor próprio que nos separa de Deus e da sua vida eterna.

Na fragilidade da nossa natureza assumida, também Jesus não era perfeito e, ainda querendo ser obediente até a morte, no horto das Oliveiras não conseguiu sozinho vencer o instinto de sobrevivência: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice!” (Lc 22, 42). Aprendeu a obediência prática do que sofreu, e se tornou dessa forma perfeito na vontade humana.

Sofreu o que não queria, sofreu o que não queria sofrer. Era o grão de trigo obediente que não conseguia entregar-se à morte; por isso “apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte; e foi atendido por causa da sua submissão” (Hb 5, 7-9).

Tendo rezado intensamente, recebeu a força de aceitar e cumprir a vontade do Pai, e a transmitiu para cada um de nós por meio da comum natureza humana por Ele assumida.

Transmitiu assim à humanidade a lei do grão de trigo, a lei pascal: vence-se perdendo, conquista-se doando, vive-se morrendo, ama-se sofrendo.

Para que o amor puro substitua o amor próprio no coração do homem é necessário o trabalho, aparentemente mortal, do parto.

“Mais uma vida está assinalada pelo amor por este desprezo de si, das próprias forças, das próprias energias, mais está caracterizada pelo morrer, mais a vida é levada a esse rebento novo, incorruptível” (M. I. Rupnik, Le bende della carità, em Anche se muore vivrà”).

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* Padre Angelo del Favero, cardiólogo, em 1978 co-funfou um dos primeiros Centros de Ajuda à Vida junto à Catedral de Trento. Tornou-se carmelita em 1987. Foi ordenado sacerdote em 1991 e esteve como conselheiro spiritual no santuário de Tombetta, perto de Verona. Atualmente se dedica à espiritualidade da vida no convento Carmelita de Bolzano, junto à paróquia Madonna del Carmine

sábado, 17 de março de 2012

Quero amor, não sacrifício!

1“Vinde, voltemos para o Senhor, 
ele nos feriu e há de tratar-nos, 
ele nos machucou e há de curar-nos. 
2Em dois dias, nos dará vida, 
e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, 
e viveremos em sua presença. 
3É preciso saber segui-lo 
para reconhecer o Senhor. 
Certa como a aurora 
é a sua vinda, 
ele virá até nós como as primeiras chuvas, 
como as chuvas tardias que regam o solo”.
4Como vou tratar-te, Efraim?
 Como vou tratar-te, Judá? 
O vosso amor é como nuvem pela manhã, 
como orvalho que cedo se desfaz. 
5Eu os desbastei por meio dos profetas, 
arrasei-os com as palavras de minha boca, 
mas, como luz, 
expandem-se meus juízos;
6quero amor, e não sacrifícios, 
conhecimento de Deus, mais do que holocaustos."

Os 6,1-6

sexta-feira, 16 de março de 2012

Conversão

Assim fala o Senhor: 2“Volta, Israel, para o Senhor, teu Deus, 
porque estavas caído em teu pecado. 
3Vós todos, encontrai palavras 
e voltai para o Senhor; dizei-lhe: ‘Livra-nos de todo o mal 
e aceita este bem que oferecemos;
o fruto de nossos lábios. 
4A Assíria não nos salvará; 
não queremos montar nossos cavalos, 
não chamaremos mais ‘Deuses nossos’ 
a produtos de nossas mãos; 
em ti encontrará o órfão misericórdia”. 
5Hei de curar sua perversidade 
e me será fácil amá-los, 
deles afastou-se a minha cólera. 
6Serei como orvalho para Israel; 
ele florescerá como o lírio 
e lançará raízes como plantas do Líbano.
7Seus ramos hão de estender-se; 
será seu esplendor como o da oliveira, 
e seu perfume como o do Líbano.
8Voltarão a sentar-se à minha sombra
 e a cultivar o trigo, 
e florescerão como a videira, 
cuja fama se iguala à do vinho do Líbano. 
9Que tem ainda Efraim a ver com ídolos? 
Sou eu que o atendo e que olho por ele.
Sou como o cipreste sempre verde: 
de mim procede o teu fruto. 
10Compreenda estas palavras o homem sábio, 
reflita sobre elas o bom entendedor! 
São retos os caminhos do Senhor e, 
por eles, andarão os justos, 
enquanto os maus ali tropeçam 
e caem”.

Os 14,2-10

quinta-feira, 15 de março de 2012

És muito precioso para mim!

1 E agora , assim diz o SENHOR,
aquele que te criou, Jacó, aquele que te modelou, Israel:
“Não tenhas medo que fui eu quem te resgatou, 
chamei-te pelo próprio nome, tu és meu!
2 Se tiveres de atravessar pela água, 
contigo estarei 
e a inundação não te vai submergir! 
Se tiveres de andar sobre o fogo, 
não te vais queimar, 
as chamas não te atingirão!
3 Pois eu sou o SENHOR, o teu Deus, 
o Santo de Israel, o teu Forte! 
Para pagar tua liberdade eu dei o Egito! 
Para ficar contigo, entreguei a Etiópia e Sabá!
4 Pois és muito precioso para mim, 
e mesmo que seja alto o teu preço, 
é a ti que eu quero! 
Para te comprar, eu dou, seja quem for; 
entrego nações, para te conquistar!
5 Não tenhas medo, estou contigo! 
No Oriente vou buscar tua semente 
e do Ocidente vou reunir a tua gente.
6 Direi ao Norte: “Devolve!” 
e ao Sul: “Não segures! 
Traze de longe os meus filhos, 
traze minhas filhas dos confins do mundo,
7 todos os que são conhecidos por meu nome, 
os que, para minha glória, eu criei, 
modelei e fiz!” 

Is 43,1-7

quarta-feira, 14 de março de 2012

A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça




JOÃO PAULO II

18ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 14 de Março de 1979



1. Durante a Quaresma muitas vezes chegam aos nossos ouvidos as palavras «oração, jejum e esmola», que já tive de recordar na Quarta-feira de Cinzas. Estamos habituados a pensar nelas como em obras piedosas e boas, que todo o cristão deve realizar sobretudo neste período. Tal modo de pensar é exacto, mas não completo. A oração, a esmola e o jejum precisam de mais profunda compreensão, se queremos inserir estes actos mais profundamente na nossa vida, e não considerá-los simplesmente como práticas passageiras, que só exigem de nós algo de momentâneo, ou só momentaneamente nos privam dalguma coisa. Com este modo de pensar não chegamos ainda ao verdadeiro sentido e à verdadeira força que a oração, o jejum e a esmola têm no processo da conversão a Deus e da nossa maturação espiritual: uma anda ao mesmo passo que a outra. Chegamos à maturidade espiritual convertendo-nos a Deus, e a conversão realiza-se por meio do jejum e da esmola, devidamente entendidos.

Convém talvez dizer já que não se trata aqui só de «práticas» momentâneas, mas de atitudes constantes, que imprimem na nossa conversão a Deus, forma duradoira. A Quaresma, como tempo litúrgico, dura só 40 dias ao ano: mas para Deus devemos tender sempre; isto significa que é preciso convertermo-nos continuamente. A Quaresma deve deixar marca forte e indelével na nossa vida. Há-de renovar em nós a consciência da nossa união com Jesus Cristo, que nos faz ver a necessidade da conversão e nos indica os caminhos para a realizarmos. A oração, o jejum e a esmola são precisamente os caminhos que nos foram indicados por Cristo.

Nas meditações que irão seguir-se, procuraremos entrever quão profundamente penetram estes caminhos no homem: o que para ele significam. O cristão deve compreender o verdadeiro sentido destes caminhos, se os quer seguir.

2. Primeiro, portanto, o caminho da oração. Digo «primeiro», porque desejo falar deste antes dos outros. Mas, ao dizer «primeiro», quero hoje acrescentar que, na obra total da nossa conversão — isto é, da nossa maturação espiritual — a oração não está isolada dos outros dois caminhos que a Igreja define com o termo evangélico «jejum e esmola». Talvez o caminho da oração nos seja mais familiar. Talvez compreendamos com mais facilidade que sem ela não é possível convertermo-nos a Deus, permanecermos em união com ele naquela comunhão que nos leva à maturação espiritual. Não duvido que entre vós, que agora me ouvis, muitíssimos haja que tenham experiência própria de oração, que tenham conhecimento dos vários aspectos dela e possam torná-los conhecidos também às outras pessoas. De facto, aprendemos a orar, orando. O Senhor Jesus ensinou-nos a orar, primeiro que tudo orando ele próprio: ... e passou a noite em oração (Lc. 4, 23. 2); outro dia, como escreve São Mateus, subiu ao monte, sozinho, para orar. E, chegada a noite, ainda Ele estava só lá em cima (Mt. 14, 23). Antes da sua Paixão e Morte, foi ao monte das Oliveiras e animou os Apóstolos a que orassem; Ele mesmo, ajoelhando-se, pôs-se a orar. Invadido pela angústia, orava mais intensamente (Cfr. Lc. 22, 39-46). Só uma vez — rogado pelos discípulos Senhor, ensina-nos a orar (Lc. 11, 1). — lhes comunicou o mais simples e mais profundo conteúdo de oração: o «Pai nosso».

Sendo impossível resumir num breve discurso tudo o que se pode dizer ou foi escrito sobre o assunto da oração, queria eu hoje realçar uma coisa apenas. Nós todos, quando oramos, somos discípulos de Cristo, não porque repetimos as palavras que Ele uma vez nos ensinou — palavras sublimes, conteúdo completo da oração. Somos discípulos de Cristo, mesmo quando não usamos essas palavras. Somos seus discípulos já, só porque ora-mos: «Escuta o Mestre que ora; aprende tu a orar. Para isto, de facto, orou Ele, para nos ensinar a orar», afirma Santo Agostinho (Sto. Agostinho, Enarrationes in Ps., 56, 5) E um autor contemporâneo escreve: «Uma vez que o termo do caminho da oração se perde em Deus, e ninguém conhece o caminho senão Aquele que vem de Deus, Jesus Cristo — é necessário (...) fixarmos os olhos n'Ele só. É o caminho, a verdade e a vida. Só Ele percorreu o caminho nas duas direcções. É preciso meter-mos a nossa mão na sua e partirmos» (Y. Raguin, Chemins de la contemplation, Desclée de Brouwer, 1969, pág. 179). Orar significa falar com Deus. Atrever-me-ia a dizer mais: orar significa encontrarmo-nos naquele Único eterno Verbo, por meio de quem fala o Pai, Verbo que fala ao Pai. Este Verbo fez-se carne, para nos ser mais fácil encontrarmo-nos n'Ele, mesmo com a nossa palavra humana de oração. Pode esta palavra às vezes ser muito imperfeita, poderá até mesmo faltar-nos de todo. Mas a incapacidade das nossas palavras humanas completa-se continuamente no Verbo que se fez carne para falar ao Pai com a plenitude daquela união mística que forma com Ele cada homem que ora; que todos quantos oram, formam com Ele. Nesta particular união com o Verbo está a grandeza da oração, a sua dignidade, e em certo modo, a sua definição.

É preciso sobretudo compreender bem a grandeza fundamental e a dignidade da oração. Oração de cada homem. E ainda de toda a Igreja orante. A Igreja, em certo modo, chega tão longe como a oração: até onde haja um homem que ore.

3. É preciso orarmos baseando-nos neste conceito essencial da oração. Quando os discípulos pediram ao Senhor Jesus «ensina-nos a orar», Ele respondeu pronunciando as palavras da oração Pai nosso, criando assim um modelo concreto e ao mesmo tempo universal. De facto, tudo quanto se pode e deve dizer ao Pai, está incluído naqueles sete pedidos, que todos sabemos de cor. Há neles tal simplicidade, que até uma criança os aprende, e simultaneamente tal profundidade, que se pode consumar uma vida inteira a meditar o sentido de cada um. Não é porventura assim? Não nos fala cada um deles, um após outro, do que é essencial para a nossa existência, voltada completamente para Deus, para o Pai? Não nos fala do «pão de cada dia», do «perdão das nossas ofensas assim como nós as perdoamos», e juntamente de «não cairmos em tentação» e de «ficarmos livres do mal»?

Quando Cristo, satisfazendo o pedido dos discípulos «ensina-nos a orar», pronuncia as palavras da sua oração, ensina não só as palavras, mas ensina também que no nosso colóquio com o Pai deve haver sinceridade total e plena abertura. A oração deve abraçar tudo o que faz parte da nossa vida. Não pode ser alguma coisa de suplementar ou marginal. Tudo deve encontrar nela a própria voz. Mesmo tudo o que nos pesa; aquilo de que nos envergonhamos; aquilo que por sua natureza nos separa de Deus. Exactamente, sobretudo isto. É a oração que sempre, em primeiro lugar e essencialmente, abate a barreira entre nós e Deus, barreira que o pecado e o mal podem ter levantado.

Por meio da oração, toda a gente deve encontrar a sua referência justa: quer dizer, a referência a Deus: o meu mundo interior e também o mundo objectivo, aquele em que vivemos e tal como o conhecemos. Se nos voltamos para Deus, tudo em nós se dirige para Ele. A oração é exactamente a expressão de nos dirigirmos para Deus; isto é, ao mesmo tempo, a nossa contínua conversão: o nosso caminho.

Diz a Sagrada Escritura:

Assim como a chuva e a neve / descem do céu e já não voltam lá / sem terem regado / e fecundado a terra, / e sem a terem feito germinar / dando o grão ao semeador / e o pão para comer; / o mesmo sucede com a palavra / que sai da minha boca: / não volta a mim sem produzir o seu efeito, / sem executar a minha vontade / e ter cumprido a missão que lhe dei (Is. 55, 10-11. 3).

A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça. Caminho do Verbo eterno que atravessa a profundidade de tantos corações; que reconduz ao Pai tudo quanto n'Ele tem a sua origem.

A oração é o sacrifício dos nossos lábios (Cfr. Heb. 13, 15). É, como escreve Santo Inácio de Antioquia, «água viva que murmura dentro de nós e diz: vem para o Pai» (Cfr. Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, VII, 2).

Com a minha Bênção Apostólica.

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Saudações

Aos Superiores e aos Sacerdotes do Pontifício Colégio Espanhol de Roma

Quero agora saudar com especial afecto os Superiores e os Sacerdotes do Pontifício Colégio Espanhol de Roma, exortando-os vivamente a continuarem a tradição secular da Igreja na Espanha, de manter sempre uma estreita comunhão de sentimentos com a Sé de Pedro e com o Vigário de Cristo.

A Estudantes ingleses.

Desejo dirigir á minha especial saudação também aos estudantes inválidos da "Open University Students' Association" da Inglaterra; juntamente com aqueles que os assistem. Recordai que os esforços que fazeis para superara qualquer dificuldade e para estar ao serviço dos outros têm grande valor. E recordai sempre a parte que Deus nosso Pai tem nas vossas vidas, quanto vos está próximo e o grande amor que tem por cada um de vós.

A grupos de língua alemã

Entre os grupos de língua alemã saúdo cordialmente os Diáconos aqui presentes da Diocese de Paderborn e também os alunos do Seminário de Mainz, acompanhando-os com a minha oração e Bênção Apostólica.

Aos jovens Casais

A vós, jovens Casais, que haveis iniciado uma nova vida sob o signo abençoador do Senhor para tornar sagrado e indestrutível o vosso amor conjugal, desejo do coração que possais sentir cada vez mais a beleza da alegria cristã, vivida nas vossas famílias em plena concórdia e harmonia, à imitação da Família de Nazaré. Para tanto vos abençoo de todo o coração.

Aos Doentinhos

A minha alma abre-se agora, com paternal ternura, para todos os que dentre vós sofrem em consequência de doenças: sabei que não estais sós no calvário a que fostes levados por um misterioso desígnio; a Igreja inteira sofre convosco em fraterna e solidária participação no drama que vos aflige. Vós, por vosso lado, sabei dirigir-vos, nas provas dolorosas, Àquele que venceu o sofrimento com a própria cruz, e sabei oferecer-Lhe o dom das vossas lamentações e das vossas lágrimas, que assim não serão redentoras da humanidade. Assista-vos sempre a minha bênção.