Rádio

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Insatisfação nas Criaturas

Deus das virtudes, convertei-nos, mostrai-nos a vossa face, e seremos salvos. Para qualquer parte que se volte a alma humana, é à dor que se agarra, se não se fixa em Vós, ainda mesmo que se agarre às belezas existentes fora de Vós e de si mesma. Estas nada teriam de belo, se não se proviessem de Vós. Nascem e morrem. Nascendo, começam a existir; crescem para se aperfeiçoarem; e, quando perfeitas, envelhecem e morrem. Nem tudo envelhece, mas tudo morre. Por isso, os seres, quando nascem se esforçam por existir, quanto mais depressa crescem para existir tanto mais se apressam a não existir. Tal é sua condição. Só isso lhes destes, porque são partes de coisas que não existem simultâneamente, e que, desaparecendo e sucedendo-se, perfazem todas juntas um todo de que são partes. É assim que as conversas se completam por meio de sinais sonoros. Não existiriam na sua totalidade se cada palavra, depois de emitidas as sílabas, não se extinguisse, para outra lhe suceder.


Que minha alma Vos louve por tudo isso, ó meu Deus, Criador de todas as coisas. Que não se agarre a elas pelo visco do amor que entra pelos sentidos do corpo. Também as coisas caminham para não existirem, e dilaceram a alma com desejos pestilenciais, porque ela quer existir e gosta de descansar no que ama. Mas não tem onde, porque as coisas não são estáveis: fogem. Quem as pode seguir com a sensibilidade? Quem as pode alcançar mesmo quando presentes? A sensibilidade é vagarosa porque é sensibilidade. Tal é a sua condição. É suficiente para aquilo para que foi criada; mas não o é para reter as coisas que transitam de um princípio devido para um fim que lhes é devido, porque, no vosso Verbo, que as criou, ouvem estas palavras: "Daqui até ali".
(AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999, p.109)

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