sexta-feira, 15 de junho de 2012

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS



Leituras: Os 11,1.3-4.8c-9; Is 12,2-3.4bcd.5-6 (R/.3); Ef 3,8-12.14-19; Jo 19,31-37

Não se trata do amor de Deus em geral, como aquele de que nos falam os profetas, mas do amor de Deus feito carne. O Coração de Jesus é o que há de mais profundo na humanidade assumida pelo Verbo. É o “ponto” onde toda a humanidade de Jesus se recolhe e encontra com a divindade, realizando, assim, o grande mistério de Deus feito homem. Se toda a humanidade de Jesus é o sacramento primordial da salvação, o seu Coração é-o de modo muito especial.

A espiritualidade do Coração de Jesus, como forma distinta, nasceu no século XIII, quando os burgos se libertavam do feudalismo... É nesse momento que nasce a nova corrente espiritual. Originariamente trata-se de uma espiritualidade monástica, sobretudo dos mosteiros femininos. Esta via monástica fez da espiritualidade do Coração de Cristo uma escola mística, uma escola de santidade, algo de exigente e de profundo. Trata-se de uma espiritualidade que é contemplação e não devoção. Fala-se do Crucificado de Lado aberto, e não tanto de Coração trespassado... É preciso voltar à mística, que fala à antropologia atual e, ultrapassando as práticas devocionais e outras incrustações dos últimos séculos, apoiando-a na sólida rocha do mistério do Verbo encarnado, voltar à espiritualidade do Coração de Jesus, fonte sempre válida de salvação e de santidade.

O Coração de Jesus é nosso berço: “Todos lá nascemos... Uns e outros lá nasceram”, como diz um Salmo de Sião (Sl 87, 4-6). O Coração de Jesus é a nossa Sião: “todas as nossas fontes estão em Ti”. Nascemos d´Ele: “Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito e unido aos seus irmãos na comunidade de amor, que é a Igreja” (Cst. 3; cf. Pe. Dehon, Études sur le Sacré-Coeur, I, p. 114).

Porque é que a Igreja nos propõe o Coração como sinal concreto do amor divino-humano de Jesus, como expressão mais evocadora do amor com que Deus nos ama? Porque, na Bíblia, o coração é a parte mais nobre e mais importante do homem. É o “núcleo íntimo da pessoa”, sede da sua vida espiritual, lugar por excelência do encontro com Deus. Do coração nasce o que inquina o homem, mas também o que o santifica. O coração representa, pois, aquilo que, hoje, chamamos o “eu” profundo, o “eu” secreto. No culto ao Coração de Jesus, honramos toda a pessoa do Redentor e somos conduzidos à fonte dos seus sentimentos e das suas ações salvíficas. Esta concentração de interesse à volta do Coração de Jesus remonta já ao Novo Testamento, ao momento da morte de Cristo. S. João, com a extraordinária – e, quase diríamos, desproporcionada – importância que dá à transfixão de Jesus na cruz, abre o caminho que conduzirá à contemplação do Lado aberto e ao culto do Coração de Jesus. O seu comentário ao episódio: “Hão-de olhar para aquele que trespassaram”, revelar-se-á uma profecia.

Para nós, hoje, o coração já não representa o que representava para o homem bíblico. Todavia ainda encontramos na linguagem comum e no sentimento popular expressões que se aproximam do conceito bíblico: “tem bom coração”, “tem mau coração”, “é um homem de coração”... Hoje, as funções mais nobres do homem são atribuídas ao cérebro, à inteligência, à vontade... Mas ainda há uma coisa que nos ajuda a compreender, por analogia, o significado do Coração de Jesus: o coração é o motor de todo o corpo; a vida e a morte são assinaladas por ele; está presente em todo o organismo e fá-lo vibrar com o seu próprio movimento; a ele aflui o sangue venoso, que é regenerado, reciclado e reenviado a todos os membros do corpo. É o que faz, a nível espiritual, o Coração de Jesus no grande corpo que é a Igreja! No Coração de Jesus aconteceu a primeira purificação de todos os pecados, a regeneração da esperança e do amor humano. Todo o perdão, toda a graça, toda a inspiração, toda a esperança e toda a alegria, todo o impulso de unidade e de fraternidade que experimentamos na nossa vida, parte do centro que é o Coração de Jesus. Foi esse o desígnio do Pai: que nele habitasse “toda a plenitude”, graça sobre graça (cf. Col 2, 9; Jo 1, 16). A razão de tudo isto é que, naquele Coração, sobre a cruz, se consumou um ato de obediência total e perfeita a toda a vontade de Deus; por isso, Deus O exaltou e colocou nas suas mãos a salvação de todos os homens. O Coração de Jesus é a mina em que se encontram “todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (cf. Col 2, 3).

Conforta-nos saber que este Coração continua vivo. Há quem acuse a devoção ao Coração de Jesus de se fixar demasiado no mistério da Paixão, no Jesus histórico, esquecendo o mistério da Ressurreição. O próprio Pe. Dehon dá essa impressão a quem se aproxima superficialmente das suas obras. Na verdade, o Pe. Dehon, como toda a espiritualidade do Coração de Jesus, não esquece a Ressurreição. Fala dela ao falar da Eucaristia, onde Cristo está ressuscitado e glorioso. O Ressuscitado, para o Pe. Dehon, não é um conceito mais ou menos abstrato. É algo de muito real: vive na Eucaristia. Daí a importância do culto eucarístico na espiritualidade e do culto do Coração de Jesus.

O Coração de Jesus vive “no Espírito” como todo o Cristo. Vive também no coração daqueles que n´Ele acreditam e O amam. O Coração de Jesus é aquele “coração novo”, que Deus nos prometeu por meio de Ezequiel (11, 19), e que nos foi dado no batismo. É o “coração de carne” que, pouco a pouco, deve assumir o lugar do “coração de pedra” que levamos dentro de nós desde o nascimento e que tornámos mais duro com o nosso pecado.

S. Paulo recomenda: “Tende em vós os mesmos sentimentos que estavam em Cristo Jesus(Fil 2, 5). Ter os mesmos sentimentos, quer dizer ter o mesmo coração, amar, pensar, agir como Ele amou, pensou, agiu. Amar o próximo, como nos recomenda o Evangelho, é amar com o Coração de Jesus, é permitir a Jesus continuar a amar por meio de nós. Viver a nossa vocação de oblatos, unindo toda a nossa vida religiosa e apostólico à oblação reparadora de Cristo ao Pai, pelos homens (cf. Cst n. 6) é “inserir-nos no movimento de amor redentor” (Cst 21) suscitado por Cristo na sua Encarnação, Paixão, Ressurreição, obra do seu amor, do seu Coração.

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