quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A colegialidade episcopal na Conferência de Puebla



JOÃO PAULO II

14ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 1979


Caríssimos Irmãos e Irmãs

1. A terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano é acontecimento em que se concentra a atenção de toda a Igreja e suscita grande interesse mesmo nos ambientes extra-eclesiais. O facto de ser já a terceira Conferência testemunha que a sua história, embora breve, é contudo muito indicativa e frutuosa.

Em 1955 o Papa Pio XII quis convocar a I Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano — celebrada no Rio de Janeiro de 25 de Julho a 4 de Agosto de 1955 — para fazer um exame dos problemas religiosos, que despertavam então graves angústias em todo o Continente: foi como perscrutar os sinais dos tempos, para daí tirar indicações de caminhos cada vez mais apropriados para a renovação e o revigoramento da actividade apostólica da Igreja. Em particular, a penúria de Clero, verificada com dramática evidência, levou a que se procurasse mais estreita colaboração a nível continental, de que devia ser instrumento um conselho representativo de todos os Episcopados nacionais. A instituição do CELAM foi o primeiro e mais importante resultado da Conferência: resultado dinâmico, aberto a desenvolvimentos que assumiram um ritmo e importância crescentes.

Em 1968 o Papa Paulo VI, para conseguir adaptar melhor a missão da Igreja às necessidades da América Latina à luz dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, convocou a II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, celebrada em Medellín de 24 de Agosto a 6 de Setembro (1968). Finalidade principal do encontro foi o estudo do tema «A Igreja na presente transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II».

As particularidades supra-indicadas informam suficientemente acerca do modo como se formou e desenvolveu, no decurso dos decénios, este esplêndido órgão de colegialidade do Episcopado actual no Continente Latino-Americano, o qual, neste momento, é o primeiro agente do acontecimento, chamado por brevidade «Puebla». no edifício do Seminário Maior, em Puebla.

Desejaria chamar a atenção sobretudo para o método de trabalho e para o modo muito perspicaz e exacto de preparação da mesma Conferência. Antes de chegar à formulação das principais teses indicadas no «Documento de trabalho», que enche 172 páginas ao todo, cada uma das Conferências Episcopais, da América Latina, seguindo o «Documento de consulta», trabalhou preparando os próprios pareceres, observações e propostas, quanto ao argumento da terceira Conferência, que assim foi formulado: «A Evangelização no presente e no futuro da América Latina». Fácil é reconhecer que as fontes deste argumento se encontram principalmente nos trabalhos das Assembleias ordinárias do Sínodo dos Bispos, realizadas em Roma nos anos de 1974 e 1977: recordemos que o tema dessas Assembleias foi respectivamente a «Evangelização no mundo contemporâneo» e a «Catequese com particular referência aos jovens».

O fruto da troca das experiências, das propostas e das sugestões do Sínodo dos Bispos de 1974 foi a Exortação Apostólica de Paulo VI, Evangelii nuntiandi, um dos documentos mais característicos e frutuosos do Seu pontificado.

Tal é— e como se vê muito límpida — a génese da actual Conferência do CELAM, no que diz respeito ao tema. A iniciativa de tratar este argumento de carácter universal-eclesiástico, isto é a «Evangelização» com referência à América Latina, sobe ao ano de 1976. Todo o ciclo da preparação ocupou dois anos inteiros. Neste período, as Conferências Episcopais Nacionais, aproveitando também os contributos oferecidos por cada elemento das comunidades eclesiais locais, prepararam a sua contribuição para se redigir o «Documento de Trabalho», isto é, aquele Documento que devia servir como ponto de referência dos trabalhos da Conferência de Puebla, e seguindo o qual se devia proceder à troca das experiências, das propostas e das sugestões: exactamente o que agora se está fazendo em Puebla.

Cada Conferência Episcopal, além de estar representada pelo respectivo Presidente, nomeou um número de Delegados proporcional ao número total dos Bispos que fazem parte da mesma Conferência. Além disso, foram enviados a Puebla representantes dos vários elementos do Povo de Deus: sacerdotes, religiosos, religiosas, diáconos e leigos.

3. Pode ser que os supra-indicados dados particulares, relativos à Conferência de Puebla, sejam já conhecidos a alguns dos meus ouvintes de hoje. Julguei todavia oportuno sintetizá-los agora, por dois motivos:

Primeiro que tudo, atendendo à importância do acontecimento que tem o nome de «Puebla». Ao mesmo tempo, para exprimir a minha alegria por a doutrina sobre a colegialidade do Episcopado, recordada pelo Concílio Vaticano II, se encarnar, de modo tão esplêndido, na vida, e frutificar nos nossos dias.

Valeria a pena abrir agora de novo o texto da constituição dogmática Lumen Gentium, no capítulo III, e ler com atenção todos os seus parágrafos.

Seria necessário recordar muitas passagens do decreto Christus Dominus, sobre os deveres pastorais dos Bispos.

Detenhamo-nos nalgumas frases: «Assim como, por instituição do Senhor, São Pedro e os restantes Apóstolos formam um colégio apostólico, assim de igual modo estão unidos entre si o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e os Bispos, sucessores dos Apóstolos. A natureza colegial da ordem episcopal, claramente comprovada pelos Concílios ecuménicos celebrados no decurso dos séculos, manifesta-se já na disciplina primitiva, segundo a qual os Bispos de todo o orbe comunicavam entre si e com o Bispo de Roma no vínculo da unidade, da caridade e da paz; e também na reunião dos Concílios, nos quais se decidiram em comum coisas importantes, depois de ponderada a decisão pelo parecer de muitos» (Cfr. Lumen Gentium, 28).

O Concílio é a mais plena expressão da colegialidade do múnus episcopal na Igreja. As suas outras manifestações não têm significado tão fundamental. São todavia muito necessárias, úteis e algumas vezes absolutamente indispensáveis. Isto refere-se quer às instituições colegiais entre estas, agora, na Igreja ocidental desenvolvem-se principalmente as Conferências Episcopais — quer ainda às diversas formas de actividade colegial.

A presente Conferência em Puebla é exactamente essa forma de actividade colegial do Episcopado Latino-Americano. Certamente, seja cada instituição colegial sejam mesmo as formas da actividade colegial dos Episcopados correspondem, de modo especial, às exigências dos nossos tempos.

4. A Constituição dogmática Lumen Gentium, falando da colegialidade dos Bispos, usa também a expressão «corpo episcopal» (corpus episcopale). Parece incluir-se nela uma analogia ainda mais profunda relativamente a toda a Igreja, que São Paulo, como bem sabemos, chamava «o corpo de Cristo» (Cfr. Rom. 12, 5; 1 Cor. 1, 13; 6, 12-20; 10, 17; 12, 12; 27; Gál. 3, 28; Ef. 1, 22-23; 2, 16; 4, 4; Col. 1, 24; 3, 15). Por esta última analogia entramos já profundamente no mistério íntimo da Igreja: na união da vida, que ela recebe de Cristo.

O «Corpus episcopale» diz respeito à estrutura exterior mais importante da Igreja: a sua unidade hierárquica. Todavia, esta estrutura exterior fica ao serviço do mistério interior da Igreja: do Corpo Místico de Cristo. Exactamente pela mesma razão e pela mesma finalidade, esta estrutura é também «corpo»: o corpo, ou seja, o colégio episcopal.

No período em que este colégio, isto é, o «corpo», dedica os seus trabalhos ao problema da evangelização «no presente e no futuro» do continente sul-americano, devemos fazer votos por que esteja presente, no meio dos seus membros e por meio deles, o próprio Senhor Jesus. Porque assim lemos na citada constituição Lumen Gentium:

«Na pessoa dos Bispos, assistidos pelos presbíteros, está presente no meio dos fiéis o Senhor Jesus Cristo, pontífice máximo. Sentado à direita de Deus Pai, não deixa de estar presente ao corpo dos seus pontífices, mas, antes de mais, por meio do seu exímio ministério, prega a todas as gentes a palavra de Deus administra continuamente aos crentes os sacramentos da fé, incorpora por celeste regeneração e graças à sua actividade paternal (cfr. 1 Cor. 4, 15) novos membros ao Seu corpo e, finalmente, com sabedoria e prudência, dirige e orienta o Povo do Novo Testamento na peregrinação para a eterna felicidade. Estes pastores escolhidos para apascentar o rebanho do Senhor, são ministros de Cristo e dispensadores dos ministérios de Deus (cfr. 1 Cor. 4, 1); a eles foi confiado o testemunho do Evangelho da graça de Deus (cfr. Rom. 15, 16; Act. 20, 24) e a administração do Espírito e da justiça em glória (cfr. 2 Cor. 3, 8-9)» (Lumen Gentium, 21).

A vós todos a minha Bênção Apostólica.

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