domingo, 20 de novembro de 2011

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO



Leituras: Ez 34, 11-12; 15-17; 1 Cor 15, 20-26;28; Mt 25, 31-46

Na ábside de várias igrejas européias dos séculos 11 e 12, se apresenta em toda sua beleza artística e transparência espiritual, a imagem em mosaico do “Cristo, Senhor de todas as coisas – Rei do universo”, o Cristo “Pantocrator”, segundo a clássica expressão da linguagem da arte cristã antiga e medieval, e dos ícones. É também muito comum encontrar nas paredes interiores das igrejas cenas do AT e do NT; da criação (Gênesis) até a multidão dos redimidos sem número, que seguem o Cordeiro imolado e vivente rumo ao trono do Pai, celebrando a glória do Altíssimo (Apocalipse).

O Cristo é normalmente representado em atitude majestosa e severa, e ao mesmo tempo compassiva e acolhedora, os braços abertos para acolher o mundo inteiro, os olhos cheios de luz e compaixão, na mão esquerda o livro aberto da vida, e a mão direita abençoando, segundo o uso ortodoxo[1].

A linguagem da beleza exprime com grande potência a intuição profunda da fé da Igreja, resumida, em maneira simbólica, na carta de Paulo aos Colossenses: “Tudo foi criado por ele e para ele..... É a cabeça da Igreja que é seu corpo. É o principio, o primogênito dos mortos, tendo em tudo a primazia, pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e reconciliar por ele todos os seres, os da terra e os dos céus, realizando a paz pelo sangue da sua cruz” (Cl 1, 16-20).

“Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a Vós, Deus Pai onipotente na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda a glória, agora e para sempre”, canta, ou proclama em voz alta o Presidente da celebração, na solene Doxologia ao final da Oração Eucarística. Em seguida, a assembléia dos fieis proclama seu assenso com o canto poderoso do “Amém!”.

A imagem do Cristo Pantocrator das antigas igrejas e a doxologia solene da Oração eucarística exprimem, com a linguagem da beleza e da adoração, o sentido mais profundo da liturgia do domingo de “Cristo Rei do universo”, com o qual a Igreja vai concluir a celebração do mistério pascal de Cristo, que foi desenvolvendo-se através do inteiro ano litúrgico.

De fato, este 34o domingo é o último do ano litúrgico. Em maneira surpreendente, seu horizonte espiritual coincide com o do primeiro domingo de Advento, que é também o primeiro do novo ano litúrgico. Jesus Cristo, o Verbo encarnado, crucifixo e ressuscitado, agora glorificado à direita do Pai, é a meta e o fim da história da nossa salvação e, ao mesmo tempo, é seu fundamento e início.

Um ciclo litúrgico inicia onde o primeiro acaba, de um ano para outro, num movimento em espiral ascendente sem cessar, na interação recíproca, até que o dinamismo transformador da páscoa manifeste todas suas potencialidades na vida dos homens e das mulheres que estão caminhando na espera da vinda gloriosa do Senhor.

O ano litúrgico, com sua linguagem ritual e sacramental, manifesta e nos faz experimentar, através das variadas celebrações que articulam seu movimento ao redor da páscoa, o dinamismo do Espírito que atua no seio escondido e fecundo da história, até, e na espera, da vinda gloriosa de Cristo.

A espiritualidade, alimentada pelo Advento e pela celebração do Cristo, Rei do universo, constitui uma realidade articulada e indivisível. É o âmago da espiritualidade cristã. É a espiritualidade da encarnação e da tensão escatológica. Do compromisso na história do hoje, e da liberdade de quem exerce o discernimento no Espírito, e enxerga mais à frente como o profeta.

A espiritualidade que conjuga os dois pólos do ano litúrgico tem múltiplos aspectos que interagem entre si: compromisso para realizar a novidade do reino de Deus na própria vida e na sociedade; confiante espera da sua plenitude na vinda gloriosa do Senhor ao fim dos tempos; atenção às misteriosas visitas do Senhor na vida cotidiana e obediência generosa às suas exigências (cf Mt 25, 31-46. Evangelho); memória fecunda da vinda do Senhor na humildade da encarnação, alimentada pela consciência que tal processo ainda continua no mesmo estilo, e solicita de nós nossa completa adesão. Nessa linha, Jesus diz que “o reino de Deus não vem ostensivamente... porque está entre vós” (Lc 17, 20-21).Estas atitudes interiores e este estilo de atuar na vida promovem e exigem um autêntico “espírito contemplativo”, atento à realidade profunda da existência, e alimentado pela intimidade com Deus na constante oração.

A oração do dia traduz em termos de invocação a grande contemplação teológica de Paulo, que abre a carta aos Efésios, como uma solene sinfonia de louvor. Ele constata com estupor que a Deus, quando o tempo se cumpriu segundo seu misterioso desígnio, aprouve tomar a decisão de “em Cristo encabeçar todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,9-10). 

“Deus eterno e todo poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, rei do universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente”. (Oração do dia)

A tradução do verbo grego “anakefalein” com “encabeçar” (Bíblia de Jerusalém), diz literalmente “fazer encontrar em Cristo” a cabeça, o princípio vital que alimenta, unifica e orienta a existência de toda a realidade. A tradução do mesmo verbo com “restaurar”, (texto litúrgico), privilegia o sentido de “reconduzir toda a realidade” à seu destino inicial, ao seu fim, segundo o projeto original de Deus. Este é também o sentido profundo do caminho cristão pessoal. Esta orientação para Cristo infunde um dinamismo incessante de conversão do coração e unifica a existência.

No centro da visão expressa pelo apóstolo, na carta aos Efésios, assim como na carta aos Coríntios, proclamada hoje, (segunda leitura), está a primazia de Cristo. Ele exercita seu senhorio sobre a criação, o pecado, a morte, e a história inteira, orientando-a novamente ao Pai com o dinamismo transformador do Espírito Santo. Desde já, os que foram alcançados pela misericórdia de Deus com o dom da fé, participam desta “realeza espiritual” de Jesus: “Mas Deus,... quando estávamos mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo... e com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, em Cristo” (Ef 2, 4-6). 

A vida presente dos cristãos se torna já de fato uma vida de “ressuscitados”, de vencedores da morte, em Cristo. Homens e mulheres capazes de exercitar sua liberdade diante do mal, que continua habitando o coração deles e o mundo, e diante das armadilhas das situações e das coisas que atraem a si e dominam as pessoas, mas se revelam inconsistentes (cf Cl 3, 1-4).

A reconciliação entre judeus e gregos com base na cruz de Cristo, (Ef 2, 11-18), constitui o início e o símbolo do dinamismo universal da páscoa. Este tende, pela energia do Espírito do ressuscitado, a reconduzir tudo e todos à sua vocação original, à unidade e à comunhão nas diversidades. Impele para “encabeçar”, “restaurar”, tudo no amado Filho, e, nele, nos amados filhos e filhas.

Na primeira carta aos coríntios (segunda leitura), Paulo destaca com vigor o início da constituição da nova humanidade em Cristo, a partir da sua ressurreição. O confronto entre Adão, origem de um processo de morte que atinge toda a humanidade, e Cristo, “primícias” do processo de ressurreição que atingirá “todos os que pertencem a Cristo” até sua vinda gloriosa, fortalece a visão de uma progressiva afirmação da “realeza” do próprio Cristo. Ela se torna efetiva na medida em que cada um se abre à sua energia transformadora, “para que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15, 28).

O concílio Vaticano II pôs em evidência como o batismo coloca todos os cristãos na condição de participar à dimensão sacerdotal, profética e real de Cristo. A vida e as atividades concretas pessoais, familiares, profissionais, constituem para cada um o lugar e as condições nas quais é chamado a fazer presente, com suas atitudes interiores e suas escolhas, o senhorio que partilha com o próprio Cristo (LG 36).

O filho do homem, ao “assentar-se no seu trono glorioso, acompanhado por todos os anjos” (Mt 25, 31), para exercitar o grande juízo escatológico sobre os povos e os indivíduos, fará vir à luz, a verdade que se passou escondida no secreto das consciências e sob as aparências do eventos.

“Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo!” ( Mt 25,34). Cada um gostaria ouvir para si estas palavras abençoadas do Senhor, ao encontrar-se com ele! Na realidade, como já na parábola dos talentos, somos nós a colocarmos as palavras de vida ou as de maldição na boca do juiz e pastor, dependendo se, ao longo da vida, teremos reconhecido e servido com amor ou não o mesmo Senhor, nas pessoas de todos os necessitados.

Como a “vida eterna”, segundo a linguagem mística de João, é por nós participada desde o presente pela fé e o amor aos irmãos, pois neles se manifesta a verdade do único mandamento do amor a Deus e ao próximo, assim a triste exclusão dela, infelizmente, está sendo construída pelo nosso próprio descuido para com eles.

“Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber.... Senhor, quando foi que te vimos com fome....Em verdade eu vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes!.... Todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes” (Mt 25, 35.38.40.45).

O juiz que desvela a verdade de cada um a si próprio é o mesmo pastor que tem cuidado, com ternura e força, de cada ovelha, como se fosse uma filha. Por isso, exige que os chamados a guiar e animar a comunidade tenham a coração antes de tudo as necessidades das ovelhas mais fracas, e não o próprio interesse. Cada um também, ao mesmo tempo, é responsável pelo seu irmão (Ez 34, 11-12. 15-17), e disso irá responder.

No estilo com que é exercitada a autoridade e são vivenciadas as relações recíprocas na comunidade cristã, se manifesta e se atua nela a realeza de Cristo, o crucificado por amor, ou então, ela realeza, é desmentida para dar lugar ao poder mundano, embora este se esconda sob a máscara das estruturas eclesiásticas e dos ritos sagrados.

O Juiz divino destaca, como única justificativa para ter acesso à herança do Pai, o amor para ele, escondido nos necessitados, e a procura do autêntico sentido da vida, mesmo quando a pessoa não conseguir alcançar o conhecimento explícito do próprio Cristo. Quantos hoje, entre nossos irmãos e irmãs em humanidade, vivem esta peregrinação interior rumo à Verdade!

Uma jovem poetisa italiana, Ilaria Bevacqua, interpreta muito bem esta procura incessante da verdade e da vida, que brota do coração sincero. Seu titulo significativo é “Roubei...” (2011).

“Roubei as estrelas ao céu / presenteando aos olhos apagados / a beleza de descobrir.//Roubei a água ao mar / para dar o gosto saboroso /a quem procura na insipidez / o segredo da vida. // Roubei os minutos ao tempo / para doar a lentidão / a quem corre e não acaba de chegar//.Roubei... tudo e nada.... Não satisfeita, porém, ainda... roubarei”.

Com esta meditação sobre a solenidade de Cristo rei do universo, que vai concluir o ano litúrgico 2010-2011, eu mesmo vou despedir-me dos amigos leitores que acompanharam nosso caminho, seguindo o Senhor na progressiva manifestação do seu mistério pascal. 

Agradecendo a todos pela atenção fraternal, desejo para eles e elas e para mim mesmo, que a bondade do mesmo Cristo, bom Pastor, continue nos acompanhando na espera da sua vinda gloriosa.


[1] Um exemplo de particular relevo é o Pantocrator da catedral de Cefalú (ano 1156), na Sicília, Itália. Esta e outras imagens do Cristo Pantocrator podem ser encontradas na rede mundial de computadores através de uma ferramenta de busca colocando os dizeres “cristo pantocrator”.

Dom Emanuele Bargelini, monge Beneditino Camaldolense. Prior do Mosteiro da Transfiguração em Mogi das Cruzes-SP e Doutor em liturgia pelo Pontifício Ateneu Santo Anselmo de Roma.

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