terça-feira, 29 de abril de 2014

Santa Catarina de Sena, virgem e doutora da Igreja


Catarina era apenas uma irmã leiga da Ordem Terceira Dominicana. Mesmo analfabeta, talvez tenha sido a figura feminina mais impressionante do cristianismo do segundo milênio. Nasceu em 25 de março de 1347, em Sena, na Itália. Seus pais eram muito pobres e ela era uma dos vinte e cinco filhos do casal. Fica fácil imaginar a infância conturbada que Catarina teve. Além de não poder estudar, cresceu franzina, fraca e viveu sempre doente. Mas, mesmo que não fosse assim tão debilitada, certamente a sua missão apostólica a teria fragilizado. Carregava no corpo os estigmas da Paixão de Cristo.

Desejando seguir o caminho da perfeição, aos sete anos de idade consagrou sua virgindade a Deus. Tinha visões durante as orações contemplativas e fazia rigorosas penitências, mesmo contra a oposição familiar. Aos quinze anos, Catarina ingressou na Ordem Terceira de São Domingos. Durante as orações contemplativas, envolvia-se em êxtase, de tal forma que só esse fato possibilitou que convertesse centenas de almas durante a juventude. Já adulta e atuante, começou por ditar cartas ao povo, orientando suas atitudes, convocando para a caridade, o entendimento e a paz. Foi então que enfrentou a primeira dificuldade que muitos achariam impossível de ser vencida: o cisma católico.

Dois papas disputavam o trono de Pedro, dividindo a Igreja e fazendo sofrer a população católica em todo o mundo. Ela viajou por toda a Itália e outros países, ditou cartas a reis, príncipes e governantes católicos, cardeais e bispos, e conseguiu que o papa legítimo, Urbano VI, retomasse sua posição e voltasse para Roma. Fazia setenta anos que o papado estava em Avignon e não em Roma, e a Cúria sofria influências francesas.

Outra dificuldade, intransponível para muitos, que enfrentou serenamente e com firmeza, foi a peste, que matou pelo menos um terço da população européia. Ela tanto lutou pelos doentes, tantos curou com as próprias mãos e orações, que converteu mais algumas centenas de pagãos. Suas atitudes não deixaram de causar perplexidade em seus contemporâneos. Estava à frente, muitos séculos, dos padrões de sua época, quando a participação da mulher na Igreja era quase nula ou inexistente.

Em meio a tudo isso, deixou obras literárias ditadas e editadas de alto valor histórico, místico e religioso, como o livro "Diálogo sobre a Divina Providência", lido, estudado e respeitado até hoje. Catarina de Sena morreu no dia 29 de abril de 1380, após sofrer um derrame aos trinta e três anos de idade. Sua cabeça está em Sena, onde se mantém sua casa, e seu corpo está em Roma, na Igreja de Santa Maria Sopra Minerva. Foi declarada "doutora da Igreja" pelo papa Paulo VI em 1970.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Homilia do Santo Padre Francisco na missa diaria celebrada na capela da Casa Santa Marta


CIDADE DO VATICANO, 21 de Maio de 2013 (Zenit.org) - Para um cristão, progredir significa rebaixar-se, a exemplo de Jesus. É o que o papa Francisco destacou na missa desta manhã na Casa Santa Marta. O papa também reiterou que o verdadeiro poder está em servir e que não deve existir a luta pelo poder na Igreja.

Na missa, concelebrada pelo diretor de programação da Rádio Vaticano, pe. Andrzej Koprowski, SJ, participou um grupo de funcionários da emissora e outro grupo do Gabinete vaticano de Peregrinos e Turistas.

Também estavam presentes o diretor da revista Civiltà Cattolica, pe. Antonio Spadaro, SJ, e Maria Voce e Giancarlo Faletti, presidente e vice-presidente do movimento dos Focolares. As informações são da Rádio Vaticano.

O poder do serviço

Jesus está falando da sua paixão, mas os discípulos começam a discutir sobre quem é o melhor entre eles. Este é o amargo episódio narrado pelo evangelho de hoje, que ofereceu a oportunidade ao papa de propor uma meditação sobre o poder e o serviço. "A luta pelo poder na Igreja não é coisa dos nossos dias", disse ele. “Ela começou ainda no tempo de Jesus”.

Francisco destacou também que, "na perspectiva evangélica de Jesus, a luta pelo poder na Igreja não deve existir", porque o poder real, aquele que o Senhor "nos ensinou com o exemplo", é "o poder do serviço".

"O verdadeiro poder é o serviço. Ele não veio para ser servido, mas para servir, e o serviço dele foi o serviço da cruz. Jesus se humilhou até a morte e morte de cruz por nós, para nos servir, para nos salvar. E não existe outro jeito na Igreja de irmos para frente”.

Rebaixar-se para progredir

“Para o cristão, ir para frente, progredir, significa rebaixar-se. Se não aprendermos esta regra cristã, nunca seremos capazes de entender a verdadeira mensagem de Jesus sobre o poder”.

Progredir, agregou o papa, significa "estar sempre a serviço". Na Igreja, "o maior é aquele que serve, aquele que está mais a serviço dos outros". Esta “é a regra”. E, no entanto, desde o princípio até agora, tem havido "lutas pelo poder na Igreja", inclusive "na nossa forma de falar".

Porque "quando uma pessoa recebe um cargo, que, aos olhos do mundo, é um cargo superior, as outras pessoas dizem: 'Ah, essa mulher subiu de cargo para presidente daquela associação, ou esse homem foi promovido'... Este verbo, promover, é, sim, um belo verbo, e ele deve ser usado na Igreja. Sim, ele subiu à cruz, foi promovido à humilhação. Esta é a verdadeira promoção, aquela que nos ‘assemelha’ mais a Jesus!".

O papa recordou que Santo Inácio de Loyola, nos exercícios espirituais, pedia ao Senhor Crucificado "a graça da humilhação". Este, reiterou Francisco, é "o verdadeiro poder do serviço da Igreja". Este é o verdadeiro caminho de Jesus, a verdadeira promoção.

"O caminho do Senhor é o seu serviço. Ele fez o seu serviço, nós também temos que ir atrás dele pelo caminho do serviço. Este é o verdadeiro poder na Igreja. Eu gostaria de orar hoje por todos nós, para que Nosso Senhor nos dê a graça de compreender que o verdadeiro poder na Igreja é o serviço. E também para compreender aquela regra de ouro que Ele nos ensinou com o exemplo: para um cristão, progredir, avançar, significa rebaixar-se, abaixar-se... Peçamos esta graça".

quarta-feira, 1 de maio de 2013

São José Operário

A Igreja, providencialmente, nesta data civil marcada, muitas vezes, por conflitos e revoltas sociais, cristianizou esta festa, isso na presença de mais de 200 mil pessoas na Praça de São Pedro, as quais gritavam alegremente: "Viva Cristo trabalhador, vivam os trabalhadores, viva o Papa!" O Papa, em 1955, deu aos trabalhadores um protetor e modelo: São José, o operário de Nazaré.

O santíssimo São José, protetor da Igreja Universal, assumiu este compromisso de não deixar que nenhum trabalhador de fé – do campo, indústria, autônomo ou não, mulher ou homem – esqueça-se de que ao seu lado estão Jesus e Maria. A Igreja, nesta festa do trabalho, autorizada pelo Papa Pio XII, deu um lindo parecer sobre todo esforço humano que gera, dá a luz e faz crescer obras produzidas pelo homem: "Queremos reafirmar, em forma solene, a dignidade do trabalho a fim de que inspire na vida social as leis da equitativa repartição de direitos e deveres." 

São José, que na Bíblia é reconhecido como um homem justo, é quem revela com sua vida que o Deus que trabalha sem cessar na santificação de Suas obras, é o mais desejoso de trabalhos santificados: "Seja qual for o vosso trabalho, fazei-o de boa vontade, como para o Senhor, e não para os homens, cientes de que recebereis do Senhor a herança como recompensa... O Senhor é Cristo" (Col 3,23-24).

São José Operário, rogai por nós!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Nossa Senhora do Natal




A reflexão sobre a festa do Natal nos leva a contemplar a figura de Maria a partir de uma ótica ao mesmo tempo divina e histórica e, em ambas, percebemos a beleza de um Deus que não assume apenas a realidade humana, mas também todo um projeto de salvação que envolve todos os homens e todas as mulheres de todos os

tempos. O Natal é, neste sentido, o momento mais importante para nos darmos conta de que Jesus Cristo é o centro da História, tudo converge para ele e tudo encontra, nele, o sentido. É Ele o motivo do Natal porque Ele é Deus que entra na História para dar-lhe luz e sentido profundo.

Um fato, entretanto, nos enternece com a mesma força com que nos faz pensar de maneira mais antropológica. Jesus chega ao mundo e se deixa adorar pela primeira vez nos braços de uma MÃE. É bonito percebermos que a Mãe, na noite de Natal, não é apenas a imagem protetora do Filho recém nascido, ela é, isto sim, o candelabro escolhido pelo Pai para trazer ao mundo a luz da verdade e a própria verdade.

Ao lado de Jesus menino, os pastores e os reis não encontraram anjos, embora os anjos também estivessem lá; mas encontraram José a Maria que enfrentavam as dificuldades reais da vida para serem fiéis aos planos de Deus. Maria, dedicada ao menino, é mãe e é filha, é Rainha e é serva, é pequena e pobre e ao mesmo tempo imensamente feliz! O que é interessante notarmos é que Jesus, centro do Natal é, Ele mesmo, Deus. 

Mas Maria é a primeira e a maior representante da humanidade redimida. Ela não é Deus, mas no centro da História ela está ao lado de Deus. Ali, no presépio existe a mensagem da presença de Deus que se aproxima da humanidade, e o mistério da humanidade que se aproxima de Deus de modo a gerá-lo e protegê-lo, numa relação que assume o grau de uma proximidade tão íntima como a de uma mãe com seu filho. Ela o sabe: “É meu Filho e é meu Deus!”

Quando olhamos para o presépio, observamos Deus que se revela e nesta revelação explicita sinais inequívocos do seu amor pelo ser humano. Ele não está sozinho na gruta de Belém, estão com ele seu pai e sua MÃE. Vínculos por Ele escolhidos para entrar na história com características humanas, culturais, envolvidos num contexto concreto do ponto de vista político, cultural e social. A Nossa Senhora do Natal é o símbolo mais bonito da união real que Jesus veio estreitar conosco, seres humanos.

A pobreza daquele lugar é semelhante a pobreza da nossa condição humana, mas a sua presença naquela gruta é a mensagem de que no âmago da nossa pobreza pessoal, Deus se faz a nossa força e a nossa vida. Lá no presépio, como em nossos corações, é Maria quem nos trás Jesus e, com simplicidade, no-lo dá, de presente, não só na noite de Natal, mas em todos os dias de nossas vidas.

Anselmo Cabral, isga

domingo, 16 de dezembro de 2012

3º DOMINGO DO ADVENTO - ANO C - 16/12/2012


“Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto!”. (cf. Fl. 4,4.5).

A Alegria é o tema fundamental deste Terceiro Domingo do Advento, que a antiga liturgia latina chamava de Domingo Gaudete. Quando a esperada vinda está finalmente para se realizar e todos os sinais a confirmam, a esperança e a preparação se transformam em alegria e júbilo. A curto prazo, a perspectiva da vinda transforma-se em antecipação da presença. Por isso o espírito deste domingo é de Alegria, que vem de “Gaudete”, ou seja, “Alegrai-vos”(cf. Fl. 4,4-7). A Alegria que brota do sentimento de viver sempre na presença do Senhor e que assim produz em todos os cristãos não só o sentimento que por si só já deve dizer muito, mas deve produz um novo efeito de vida: o epieikes, ou seja, o bom grado – o cristão não apenas tem alegria, mas é uma alegria para quem o encontra. Isso seria verdade?

Por isso, o Santo Evangelho(Lc 3,10-18), nos ensina que aqueles que acolhem a pregação de João, o Batista, lhe pedem normas de comportamento em vista da vinda do Messias. Essas normas se resumem em uma só palavra: ser gente. O profeta João Batista faz uma pregação muito direta, muito simples e muito objetiva: repartir aquilo que temos. Adverte aos fiscais do governo que devem ser honestos. Para os homens das forças de segurança e do exército de então ensina que não devem molestar as pessoas e contentar-se com o seu soldo. Ser gente para a Sagrada Escritura é viver o Reino de Deus, que deve se realizar no dia a dia de nossas realizações, no chamado cotidiano.

O Profeta João Batista diz que viver o seu código de fé, os seus “sacramentos”, que iluminam a vida de um Profeta mais importante do que ele está no batismo. É um sinal do verdadeiro batismo, que um mais forte do que ele vem administrar: o batismo no Espírito e no fogo: no Espírito, para os justos, que serão impelidos pelo espírito de Deus, transformados em profetas(cf. Jl 3) e santos; no fogo, para os ímpios, que queimarão como o refugo na hora da ceifa. Para o “mais forte” já está a pá na mão para limpar o grão no terreiro.

Meus caros irmãos,

O Evangelho de hoje responde à pergunta que normalmente nasce de um coração arrependido e com boa vontade: “O que devo fazer?” Todos devem fazer-se essa pergunta. Mas cabe a cada um corrigir seu próprio caminho para que se encontre pessoalmente com o caminho do Senhor.

Somos chamados a conversão. Conversão profunda, dinâmica, renovadora, como deu pistas e ensinou João Batista. Reconhecer-se pecador e querer a conversão é reconhecer em Jesus de Nazaré o Messias, que vem na força do Espírito de Deus, repartindo com o convertido o mesmo Espírito Santo.

Por isso Jesus vem no Natal e virá no Juízo final. Durante a primeira vinda, Jesus derrama seu Espírito sobre quantos creram nele. Na segunda vinda, separará o trigo da palha, recolherá o trigo – os bons, que se deixaram fecundar pelo Espírito Santo e produziram furtos de santidade, e queimará a palha – os maus, que se encheram com a própria vontade, estéril para o balanço final. As duas vindas, Natal e Juízo final, são motivo de alegria, tema fortemente presente na Missa de hoje, particularmente nas duas primeiras leituras e no Salmo Responsorial.

Meus irmãos,

Na balança da vida devemos colocar as boas obras e as más inclinações, que são chamados de pecados. Jesus veio para todos. Jesus não quer excluir ninguém, assim veio para os bons, veio para os maus, veio para os justos e veio, também para os pecadores. Não é por acaso que, no Evangelho Lucas cita duas classes sociais desprezadas e tidas como pecadoras, que deviam ser evitadas pelos “bons”, embora estivessem presentes na vida de cada dia de toda a sociedade. A primeira classe é a dos publicanos, que são os cobradores de impostos. Os publicanos cobravam os impostos para os romanos e ganhavam sobre a quantidade arrecadada. Eram odiados pelo povo. Fariseus e saduceus não mantinham nenhuma convivência com eles. A segunda classe é a dos soldados. Eram mercenários, considerados permanentemente impuros pela possibilidade de haverem derramado sangue e de estarem a serviço do poder estrangeiro. Como no tempo de Jesus era proibido aos judeus o serviço militar, esses soldados que foram escutar João Batista deviam ser pagãos a serviço de Herodes Antipas. A todos, indistintamente, João pregava a chegada do Senhor: “Todos, verão a salvação de Deus”. (cf. Lc. 3,6).

Assim, João Batista nos ensina a corrigir nossos defeitos e vícios: apego aos bens materiais, simbolizados na posse de duas túnicas ou no armazenamento de comida. A conversão exige o desapego, que se expressa muitas vezes no repartir o que se tem e o que se é com os necessitados. Nossa fé cristã é uma fé da partilha, por isso o apego generalizado que se fé é um contra-testemunho.

A ganância é combatida porque ela provoca a fraude e o roubo. Devemos mudar de mentalidade, de caminho, e rumar para a justiça, que nunca explora nem extorque, mas prepara a consciência para a caridade fraterna.

O abuso da força é um grave pecado a ser extirpado, como condição para receber o Messias que vem. A violência do tempo de Jesus é a mesma que, infelizmente, nós contemplamos em nossos dias. Violência política, econômica, estrangeira, familiar, abuso de toda a violência que não gera a paz e a concórdia tão necessária no seio da sociedade injusta que se instala o capital em vez da solidariedade, da partilha e do amor.

Os três pecados apontados por João costumam andar juntos. O egoísmo não deixa repartir, a ganância, que exige sempre, mais pedem a violência para a sua defesa. Os três tornam o coração humano impermeável à graça santificante de Deus.

Caros irmãos,

A Primeira Leitura(Sf 3,14-18a) nos apresenta uma mensagem central: “O Senhor está no meio de ti”(Sf 1) exorta à alegria, consola. Deus revogou sua “sentença” – a ameaça dos assírios contra Judá, no final do século VII a.C). Agora é preciso ter coragem. O profeta pede alegria por causa da presença de Javé, Rei de Israel. Em Jesus, Messias, é que esta realidade chega à plenitude.

A Segunda Leitura(Fl 4,4-7) nos aponta a proximidade de Deus: “Alegrai-vos sempre no Senhor: ele está perto”. A proximidade de Deus é razão de alegria e de carinho para com todos os homens e mulheres. Enviado para levar a Boa Nova aos pobres e oprimidos, o apóstolo Paulo, acorrentado, alegra-se com o s seus pela proximidade do Senhor. A certeza de estar em Cristo o torna realmente livre.

Meus irmãos,

Qual é a diferença fundamental entre João Batista e Jesus? Ela está na diferença entre o Batismo com água e o Batismo com o Espírito Santo. João é um profeta. Jesus é o Filho de Deus. João recebe tudo de Deus. Jesus é tudo, porque é Deus. Santo Agostinho nos ensinou que João é a voz no tempo, Jesus é a Palavra eterna, que existe desde o princípio. Se tiramos a palavra, prossegue Agostinho, que sentido teria a voz? O batismo com água era o símbolo de conversão, o símbolo de purificação. O batismo com o Espírito Santo é a santificação, a divinização, a participação na vida nova de Deus.

O Batismo com o fogo significa o calor e a luz, simbolizando a majestade e a força divina, limpando o coração humano, separando o ouro da graça das muitas impurezas. Jesus é o Juiz Supremo que dá o céu aos bons e o inferno aos maus. Jesus vem com a força divina para purificar e para salvar. A criatura humana aceita a salvação, se quiser.

A salvação vem para todos. Bela a palavra de João Batista que disse que ele não era digno de “desamarrar a correia das sandálias” daquele que viria depois dele. Jesus é, claramente, Salvador e Juiz, Juiz benigno e misericordioso, acolhedor e paterno. A esperança/esperança do Advento alimenta a nossa fé.

Que o Domingo Gaudete, seja o momento de conversão, justiça, amor, paz e alegria, para constituir como sinais concretos de renovação em nossa vida para esperarmos pelo Cristo, colocando-nos do jeito que Jesus quer que nós esperemos por Ele: servindo ao irmão e nos amando-nos na diversidade. Amém!

Pe. Wagner Augusto Portugal
Vigário Judicial da Diocese da Campanha - MG

sábado, 15 de dezembro de 2012

Como podemos manifestar de maneira concreta a conversão à qual o Senhor nos chama?


RIO DE JANEIRO, sexta-feira, 14 de dezembro de 2012 (ZENIT.org) - É a pergunta que as diversas situações fazem a João Batista diante da pregação da chegada do Messias, Salvador do Mundo. E João convida a todos à mudança concreta de vida. Essa mudança é para nós demonstrada com a celebração penitencial.

Aproximamo-nos da grande solenidade do Natal do Senhor, quando a liturgia nos fará penetrar no mistério do Salvador, que se faz homem para nos redimir e elevar-nos à Sua divina dignidade. Como na noite de Natal, há dois mil anos passados, somos chamados a reconhecer a luz que ilumina as trevas da humanidade, e, reconhecendo-a, acercar-se dela e contemplá-la, a fim de que ela nos ilumine e nos faça partícipes da sua graça.

Nessa perspectiva, somos chamados a olhar para o nosso interior e perceber o quanto cada um de nós, de maneira tanto particular quanto comunitária, vive o momento propício que o Tempo do Advento nos proporciona, no qual realizamos a caminhada do Povo de Deus da antiga Aliança, que, na expectativa do Messias, vivencia uma caminhada de penitência, a fim de se preparar para a chegada d’Ele.

Precisamente por isso, no tempo do Advento a Igreja celebra o Mistério do Senhor revestida da cor litúrgica roxa, remetendo-nos à penitência e à conversão, chamando-nos a corresponder a esse sinal e a manifestar desse modo que, assim como o povo de Deus de outrora, nós também estamos na expectativa pela chegada do Senhor e desejamos que ela aconteça mediante nossa pureza de coração.

No Evangelho do domingo passado, vimos o clamor de João Batista incitando o povo a “aplainar os caminhos do Senhor” e “endireitar suas veredas”. Esse brado veemente que o precursor do Messias exclamava por onde passava, precisamente na iminência da chegada d’Ele, também hoje é dirigido a todo o povo de Deus. Diante dessa certeza, precisamos assumir a nossa responsabilidade e reconhecermo-nos como sendo esse povo, e, desse modo, mergulhar nesse processo de penitência e conversão a que o Senhor, pelos lábios de João Batista, nos convoca.

Todavia, como podemos manifestar de maneira concreta a conversão à qual o Senhor nos chama? Certamente é preciso tomar parte de um processo de reconciliação que se inicia no íntimo de cada um de nós. A conclusão desse processo, onde se manifesta a graça salvífica de Cristo, é o Sacramento da Confissão. É por ele que somos reconduzidos ao Senhor e, desta forma, reabilitados na vida da graça.

Assim sendo, somos todos convidados a voltar sua atenção para a figura dos pastores, como apresentada na noite de Natal pelos evangelhos. Eles, sempre vigilantes, estavam prontos para caminharem até o Salvador quando da Sua chegada. Precisamente a eles, o anjo do Senhor dirigiu de modo primordial o anúncio alegre e solene da Sua chegada. E este anúncio primordial que os pastores receberam certamente tem sua razão de ser na vigilância em que eles se encontravam na noite em que o Senhor chegou para nós.

E nós, até que ponto somos vigilantes? O próprio Senhor, no Evangelho, nos alerta para a necessidade de mantermos tanto a vigilância quanto a oração, pois não sabemos nem o dia nem a hora em que Ele virá. Exatamente por isso, somos todos convidados a observar a importância do Sacramento da Confissão nesse contexto de penitência e conversão que o tempo do Advento nos proporciona.

Iniciemos por fazer nosso devido exame de consciência e observemos a figura de Maria, mulher da pureza e da oração, sempre confiante nas promessas do Senhor e a primeira a aderir de todo o coração ao convite do próprio Deus que a escolhera para ser a mãe do Salvador e, assim, colaborar com a salvação de toda a humanidade. Em seguida, olhemos para dentro de nós mesmos e observemos até que ponto nos configuramos ao Senhor, tendo por exemplo a figura de Maria.

Nesse sentido, o nosso convite para que todos reconheçamos no tempo litúrgico do Advento o momento propício para reconciliarmo-nos com Deus, para poder assim acolher generosa e dignamente o Salvador. Os sacerdotes são convidados a assumir o papel de João Batista, anunciando a chegada do Salvador e a necessidade de uma conversão verdadeira, que faça de cada cristão verdadeiras manjedouras onde se reclina o Salvador não só na noite de Natal, mas durante toda a caminhada da vida. Os padres assumem o papel de “aplainar a caminho do Senhor” na vida de quantos lhes são confiados, tendo a viva consciência de que são os mediadores da graça sacramental e de que depende largamente de sua eficiente ação pastoral a reconciliação do povo com o seu Deus.

Precisamente por isso, sabendo do valioso momento dos “mutirões de confissões” em todas as paróquias, seria muito importante neste tempo que em todas as paróquias, institutos religiosos, oratórios, comunidades diversas seja ministrado de modo mais frequente o sacramento da Penitência, de maneira auricular, criando-se para isso horários condizentes com as realidades pastorais em que estão inseridos, não se medindo os esforços necessários para que o maior número de fiéis aproxime-se desse sacramento por meio do qual são reconduzidos à vida da graça. Ainda mais neste Ano da Fé será importante essa missão nas Igrejas de “peregrinação” para obter as indulgências.

Reconheçamos no Senhor que está para chegar a “luz” que ilumina a nossa escuridão e nos dá a conhecer a maravilha que Ele traz: a felicidade eterna, a nossa Salvação. Nesta perspectiva, observemos como caminha nossa sociedade nesse período de aproximação do Natal e vejamos que em não poucos ambientes o protagonismo de Cristo, como “o esperado” na noite santa, “o aniversariante” que dá sentido a toda esta comemoração, está sendo cada vez mais ofuscado nos corações e nas vidas de tantas pessoas. Esse “pecado social” certamente possui uma dimensão particular que toca a cada um de nós, porquanto nos faz enxergar que se Cristo está sendo esquecido pela nossa sociedade, há uma parcela de culpa em cada cristão. Precisamente por isso, é preciso que nos reconheçamos pecadores, pois indiretamente somos carentes de um testemunho eficaz que manifeste ao mundo a beleza e a razão de ser do Nascimento do Salvador.
Poderíamos, a partir dessa constatação, iniciar o nosso exame de consciência. A nossa pequenez nos convida a uma reflexão aprofundada, por meio da qual devemos eliminar de nossa vida tudo o que reconheçamos nos afastar de Deus. E o façamos de modo concreto, recorrendo ao Sacramento da Confissão.

Enfim, voltemos novamente o nosso olhar para a figura dos pastores e reconheçamos neles a figura do cristão que vive “acordado” e a quem pode chegar a mensagem solene do anjo na noite santa. Precisamente porque os pastores estavam acordados, a eles chegou a notícia que a humanidade esperava, e diante deles os anjos apareceram entoando louvores a Deus por tão grande evento. Estar acordados significa estar despertados para a realidade objetiva, não se fechando em um mundo particular, onde só existe lugar para nossos próprios impulsos e inclinações. Conduzidos por essa visão particular da vida, muitos mergulham no egoísmo e fecham-se para a liberdade própria da boa-nova de Cristo. Estar acordados, ou melhor, “estar vigilantes”, significa sair do mundo particular e abraçar a Verdade que é o próprio Cristo, que caminha ao nosso encontro e chegará de maneira solene e intensa na liturgia do Natal que estamos a esperar.

É neste sentido que o nosso despertar para o Natal do Senhor concretiza-se quando nos conscientizamos da realidade de que é preciso abandonar o pecado, deixar de lado tudo o que nos afasta de Deus, realizar um sincero e compromissado exame de consciência e mergulhar na graça do Sacramento da Confissão. O mesmo Cristo cujo nascimento celebraremos na noite do Natal do Senhor é o que nos espera nos confessionários. E a luz que guiou outrora os magos do Oriente no seu caminho a Belém para adorar o Messias é a mesma que deseja guiar a nossa vida se lhe formos ao encontro.

Deste modo, enquanto povo de Deus que na liturgia do Tempo do Advento caminha rumo à chegada do Salvador, vivenciamos um tempo de penitência que não deve ser próprio somente da liturgia, mas da nossa vida de maneira completa. Por isso, não tenhamos medo, não recusemos tomar parte dentre os que buscam o Sacramento da Confissão, afim de que, iluminados pela estrela de Belém, sejamos manjedouras onde o Senhor dignamente quer se reclinar na noite santa do seu Natal.

† Orani João Tempesta, O. Cist.
  Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Santo Ambrósio, bispo e doutor da igreja




Luiz Francisco Beccari

De importante família romana, Ambrósio nasceu em 340, na Gália, da qual seu pai era governador. Ainda jovem, viu sua irmã, Santa Marcelina, beijar a mão de um Bispo e deu-lhe a sua a beijar, dizendo: "Também eu serei Bispo um dia".

Estudou direito e retórica em Roma, e fez brilhante carreira: Advogado Consular, Conselheiro do Imperador e Governador das províncias de Emília e Ligúria, com sede em Milão.

Uma singular eleição
No ano 374, morreu o Bispo dessa cidade. Para eleger seu sucessor, a população se dividiu em dois partidos. Os católicos queriam eleger um homem fiel ao Papa, os arianos propugnavam por um sequaz de Ario. A exaltação dos ânimos ameaçava degenerar em guerra civil.

O Governador Ambrósio viu-se obrigado a intervir para manter a ordem. Dispôs suas tropas na praça e fez cessar o tumulto. Em seguida, acompanhado de uma escolta, entrou na Catedral para garantir o bom andamento da eleição. Graças à sua eficaz ação, logo se acalmaram os ânimos exaltados. Então ele postou-se em lugar bem visível a todos os presentes, com olhar vigilante sobre a assembléia. Nesse momento, ouviram-se uns brados partidos do fundo do grandioso templo:

- Ambrosius episcopus! (Ambrósio seja o Bispo!)

Como surgiu essa surpreendente aclamação?

Um menino, tão novo que ainda não sabia falar, foi quem deu o primeiro brado. Altamente admirada de ver o filho pronunciar suas primeiras palavras - e que palavras! - a mãe fez coro com ele, e logo se lhes juntaram outras vozes. Em pouco tempo, todos na Catedral, inclusive os arianos, bradavam em uníssono:

- Ambrosius episcopus! Ambrosius episcopus!

- Sou um pecador! Sou um pecador! - replicava o Governador.

- Não importa, não importa! Invocamos sobre nós os teus pecados! - gritava o povo, a uma só voz.

Ante essa inesperada manifestação, aquela autoridade do maior império do mundo não encontrou outra saída senão o recurso dos indefesos: fugiu e foi esconder-se no sítio de um amigo.  Os cristãos milaneses não desistiram. Enviaram uma delegação para relatar a Valentiniano I o que havia acontecido e rogar-lhe autorização para o Governador Ambrósio ser sagrado Bispo.

O Imperador consentiu, reconhecendo no eleito um verdadeiro "enviado de Deus". À vista disso, o amigo de Ambrósio indicou o lugar onde ele se encontrava.

Reconduzido a Milão, o Santo acabou por reconhecer naqueles acontecimentos a vontade de Deus.

De catecúmeno a Bispo, em oito dias
O Bispo recém-eleito tinha 34 anos de idade e pertencia a uma família cristã, mas era apenas catecúmeno. Foi batizado, recebeu a ordenação sacerdotal logo em seguida e, oito dias depois, foi sagrado Bispo, a 7 de dezembro de 374. O clero e fiéis de todo o Império acolheram com indizível júbilo a notícia dessa prodigiosa intervenção divina.

Não é difícil, sob impulso do Espírito Santo, ordenar um Bispo apenas oito dias após seu Batismo. Mas como, num curto tempo, transformar em pastor de almas um homem que, uma semana antes, era ainda catecúmeno? Pergunta interessante para se ver como a graça divina, quando bem correspondida, opera maravilhas.

Ambrósio era rico, mas não apegado à riqueza deste mundo. Doou para a Igreja as terras que herdara. Quanto aos outros bens, distribuiu parte aos pobres, dando à Igreja o restante. Altos cargos no governo imperial, posição social brilhante, vida familiar - tudo isto ele sacrificou para se ocupar somente do serviço de Deus.

Assim desembaraçado de qualquer preocupação terrena, o novo Bispo aplicou-se ao estudo das Sagradas Escrituras e dos autores eclesiásticos, sobretudo São Basílio. À medida que estudava, fazia pregações. Apenas três anos haviam decorrido, e já ele inaugurava - com a publicação dos livros "As Virgens" e "As viúvas" - a prodigiosa atividade de escritor que lhe valeu os títulos de Doutor e Padre da Igreja. Em breve tempo, ele brilhava no mundo cristão como o campeão da luta contra o arianismo, muito forte naquela época, e os restos do antigo paganismo. Triunfou sobre ambos, impondo silêncio à heresia e conquistando a Itália inteira para a Fé Católica.

Tinha sempre presente sua alta responsabilidade na escolha dos candidatos ao sacerdócio. Por seu espírito de vigilância nesta matéria, adquiriu uma aguda capacidade de discernir quem estava apto ou não a ser admitido à

Museu de Dijon, França recepção da sagrada Ordem. Por exemplo, pelo simples modo de andar, ele podia recusar um pretendente, pois dizia estar persuadido de que os movimentos desregrados do corpo são efeito do desregramento da alma.

Confronto com o Imperador
Teodósio I, o Grande, ascendeu ao trono imperial em 379.

No ano seguinte, declarou o Cristianismo religião do Estado e proibiu os cultos pagãos. Entretanto, embora muito amigos, não deixou de haver certas divergências entre o Bispo e o Imperador, um propugnando pela inteira independência da Igreja, outro, pela do Estado.

Durante uma rebelião no ano 390, foi assassinado em Tessalônica o comandante militar local.

Por excitação de um camareiro intrigante, Teodósio decretou terrível vingança contra os habitantes dessa cidade. Sem distinguir inocentes de culpados, sem mesmo tomar em consideração idade e sexo, as tropas imperiais massacraram sete mil pessoas.

Um clamor de indignação ressoou por todo o Império. Não podendo calar- se ante essa atrocidade criminosa, o Bispo - com solicitude de amigo e respeito de súdito, mas também com firmeza de representante de Deus - admoestou o Soberano de que nenhum sacerdote de sua Diocese lhe daria a absolvição. E, recordando-lhe o exemplo do Rei Davi, o exortou a fazer sincera penitência.

Como para mostrar que ninguém tinha direito de vituperar-lhe o procedimento, o Imperador se dirigiu à igreja com grande aparato, segundo o costume. À porta do recinto sagrado, Ambrósio barrou-lhe a entrada:
"Vejo que por desgraça, ó Imperador, não medes a gravidade do fato sanguinário ordenado por ti (...) Não acrescentes um novo crime ao que já te pesa. Retira-te e submete-te à penitência que Deus te impõe. Já que imitaste David no crime, imitao também na penitência!"

Com lágrimas nos olhos, o Imperador retirou-se. Oito meses se passaram sem ele se apresentar na igreja, nem o Bispo no palácio.

Por fim, porém, a Fé triunfou sobre o orgulho. Na manhã do dia de Natal, banhado em lágrimas, o Imperador disse a seu camareiro: "Não sentes minha desdita? A Igreja de Deus está aberta até para os escravos e mendigos; porém, para o Imperador está fechada e com ela a porta do Céu, pois Cristo disse: ‘O que atares na terra será atado no Céu'".

Decidido a obter o perdão de Deus, dirigiu-se à igreja, onde o esperava Santo Ambrósio, de pé no alto da escadaria.

- Aqui estou, livra-me do meu pecado - rogou.

- Onde está tua penitência? - perguntou o Santo.

- Suplico-te que me livres desta pena, em consideração da clemência de nossa Mãe a Igreja. Não me feches a porta, dize-me o que hei de fazer.

A decisão de Ambrósio mostra o incansável esforço da Santa Igreja para abrandar os costumes pagãos. Exigiu de Teodósio a promulgação de uma lei determinando que as sentenças de morte e de confisco não seriam executadas antes de 30 dias, e deveriam ser reapresentadas ao Imperador para sua confirmação.

Teodósio fez escrever e assinou imediatamente o decreto. Ato contínuo, recebeu a absolvição.

"Agradavam-lhe mais as repreensões que as adulações"
Despojando-se dos ornamentos imperiais, Teodósio entrou na igreja e, prostrado no chão, recitou o salmo de Davi:

A cena não podia ser mais grandiosa. Diante de tanta humildade, o povo suplicava e chorava com o Imperador.

Cinco anos depois, chegado o momento de comparecer perante o Tribunal de Deus, Teodósio clamou pela presença de seu amigo Ambrósio, de cujas mãos recebeu os últimos Sacramentos antes de falecer.

Em sua célebre oração fúnebre, testemunhou o santo Bispo a respeito dele: "Eu amava este varão, porque lhe agradavam mais as repreensões que as adulações. Como Imperador, não se envergonhou da penitência pública, e depois chorou seu pecado todos os dias que lhe restaram".

A conversão de Santo Agostinho
Era tal o poder de irradiação do Bispo Ambrósio, que a rainha dos marcomanos (povo antigo da Germânia), chamada Fretigila, apenas por ter ouvido um cristão falar a respeito de sua ciência e santidade, acreditou em Jesus Cristo e enviou embaixadores a Milão, rogando ao Santo que lhe informasse por escrito o que devia crer.

Uma dama de alta estirpe insistiu com o Santo para ir celebrar Missa em sua casa. Uma mulher paralítica fez-se transportar até lá, tocou na veste episcopal e, instantaneamente curada, levantou-se e se pôs a andar, na presença de todos.

Outros milagres operou nosso Santo, ainda em vida. Porém, a mais preciosa pedra de sua coroa de glória é a conversão de Santo Agostinho, um dos homens mais inteligentes e cultos de todos os tempos, coluna da Santa Igreja.

Com cerca de 30 anos, o futuro Bispo de Hipona foi levado por Santa Mônica a relacionar-se com Santo Ambrósio. De início hostil à Fé Católica, por causa de más influências dos maniqueus, Agostinho era, entretanto, admirador da cultura e da suave eloqüência do Bispo de Milão. Gostava não somente de ouvir seus sermões, mas também de passar horas inteiras em seu gabinete, em silêncio, vendo esse homem de Deus trabalhar ou estudar.

Não sem grande dose de sagacidade, Ambrósio desfez na mente de seu ouvinte os maléficos sofismas da seita maniqueísta. Quem lê as Confissões, é levado a conjeturar que o grande pregador adaptava suas palavras às dúvidas de Agostinho, quando notava sua presença na igreja. Este narra, inclusive, que ele "muitas vezes, vendo-me quando pregava, prorrompia em louvores a ela [Santa Mônica] e me chamava ditoso por ser filho de tal mãe".

Convertido, Santo Agostinho não esconde seu entusiasmo por Santo Ambrósio. "Insigne pregador e piedoso Prelado", homem cujas palavras eram "fonte de água que corria para a vida eterna", "santo Bispo" - são expressões usadas por ele ao referir-se àquele que o batizou na vigília da Páscoa de 387.

Em resumo, ele considerava Santo Ambrósio o arquétipo do Bispo católico. Opinião confirmada pelo Missal Romano, onde se lê que ele "representa a figura ideal do Bispo". Onde encontrar testemunho mais elogioso, mais credenciado e mais insuspeito?

A recompensa
Em 4 de abril de 397, o Divino Redentor chamou seu servo para receber no Céu a recompensa por sua vida de fidelidade e combates em defesa da Fé. No início desse ano, antes de ser atingido pela mortal doença, predisse que tinha pouco tempo de permanência neste mundo, pois viveria só até a Páscoa.
Estando já prostrado no leito de morte, alguns diáconos conversavam no fundo do aposento, levantando hipóteses sobre quem seria seu sucessor. Um deles mencionou o nome de Simpliciano. Não se sabe como, o Santo ouviu e aprovou: "É muito velho, mas é ótimo!"

Pouco depois disto, enquanto ele rezava em voz baixa, apareceu-lhe Jesus Cristo com o rosto belíssimo. Após cinco horas de oração com os braços em forma de cruz, Santo Honorato, Bispo de Arles, foi chamado para darlhe o viático. Logo que o recebeu, entregou sua alma a Deus.

(Revista Arautos do Evangelho, Dez/2004, n. 36, p. 34 à 37)

LEITURA ORANTE: A perda é salvação

Quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. Preparo-me para a Leitura Orante, rezando com todos os que, nesta rede da...