terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Música como "diaconia da beleza"


O cantor e compositor Daniel Facérias propõe uma reconciliação entre os artistas e a Igreja


ROMA, sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012 (ZENIT.org) - Graças a um "serviço da beleza" ou "diaconia da beleza", o cantor francês Daniel Facérias visa promover a "reconciliação" entre os artistas e a Igreja.

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Entrevistado por ZENIT, Facérias propôs uma iniciativa que poderia ser chamado de Kaïré.

O músico francês - escreveu uma tese sobre os trovadores do século XII - realizou performances inspiradas na vida de Maria, Bernardo de Claraval, João da Cruz, Francisco de Assis, Teresa de Lisieux, o Batismo de Clóvis e a “Dança dos Excluídos" para as Jornadas Mundiais da Juventude.

Ele também produziu shows sobre o Beato Frederico Ozanam, Giorgio Frassati e Pier Tekatwita Kateri.

Este novo projeto nasce na Fondation pour l'Evangelização par les média (FEM). O cantor e produtor francês fez a proposta depois de anos de discussão com o bispo da diocese de Fréjus-Toulon, Dom Dominique Rey , e após uma reunião decisiva, em 1 de Outubro, com o cardeal Antonio Cañizares, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, que estava preocupado com a perda do sentido do sagrado e do "divórcio" entre os artistas contemporâneos e a Igreja.

O músico está convencido da necessidade de "reconciliar os artistas com a Igreja", porque "a Igreja não pode ficar sem o artista" e o artista é um "liturgista por natureza" que precisa da Igreja.

Segundo Facérias a beleza que procuram "está na verdade e na caridade."

Desta reconciliação poderia surgir a "diaconia da beleza", ou seja, "serviço de amor através da beleza", não apenas para a evangelização dos "artistas", mas também para a evangelização "através dos artistas”.

Desde o final de 2011, “um grupo de oração de artistas e para artistas” se reúne na quinta-feira à noite em Paris. "O objetivo - disse o cantor - é multiplicar esses grupos em várias cidades da França e em outras grandes cidades como Roma, Madrid, Barcelona, ​​Cidade do México, Nova York e Los Angeles”.

Os grupos de oração são o "núcleo" do movimento e, concretamente, devem "organizar um encontro mensal com o testemunho de um artista" para "propor e promover a formação espiritual para os artistas."

Facérias visa a criação de uma estrutura eclesial em torno de "lugares de apoio", como mosteiros, que se tornariam "lugares de vida" e de "criação".

O cantor afirma que Kaïré é uma "resposta a um apelo da Igreja", e acrescentou que "o artista se encontra em uma postura romântica e solitária, e muitas vezes perde seu ponto de referência e sentido”. Procuram "uma causa para apoiar" e "a Igreja, muitas vezes, é ausente deste ambiente", por isso eles não pensam que podem se inspirar no Evangelho, “como anúncio e celebração do Amor, do Deus do Amor".

Facérias manifestou sua preocupação com a "dificuldade existencial dos artistas em todos os níveis - humano, espiritual, econômico -" porque "o isolamento é a ferida do artista, que precisa de um apoio fraterno". "Seria um grave erro não dar a eles uma resposta."

Por Anne Kurian

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

São Paulo Miki, Pedro Batista e seus companheiros mártires



Foi através do trabalho evangelizador de São Francisco Xavier, que o Japão tomou conhecimento do cristianismo, entre 1549 e 1551. A semente frutificou e, apenas algumas décadas depois, já havia pelo menos trezentos mil cristãos no Império do sol nascente. Mas se a catequese obteve êxito não foi somente pelo árduo, sério e respeitoso trabalho dos jesuítas em solo japonês. Foi também graças à coragem dos catequistas locais, como Paulo Miki e seus jovens companheiros. 

Miki nasceu em 1564, era filho de pais ricos e foi educado no colégio jesuíta em Anziquiama, no Japão. A convivência do colégio logo despertou em Paulo o desejo de se juntar à Companhia de Jesus e assim o fez, tornando-se um eloqüente pregador. Ele porém, não pôde ser ordenado sacerdote no tempo correto porque não havia um bispo na região de Fusai. Mas isso não impediu que Paulo Miki continuasse sua pregação. Posteriormente tornou-se o primeiro sacerdote jesuíta em sua pátria, conquistando inúmeras conversões com humildade e paciência. 

Paciência, essa que não era virtude do imperador Toyotomi Hideyoshi. Ele era simpatizante do catolicismo mas, de uma hora para outra, se tornou seu feroz opositor. Por causa da conquista da Coréia, o Japão rompeu com a Espanha em particular e com o Ocidente em geral, motivando uma perseguição contra todos os cristãos. Inclusive alguns missionários franciscanos espanhóis que tinham chegado ao Japão através das Filipinas e sido bem recebidos pelo Imperador. 

Os católicos foram expulsos do país, mas muitos resistiram e ficaram. Só que a repressão não demorou. Primeiro foram presos seis franciscanos, logo depois Paulo Miki com outros dois jesuítas e dezessete leigos terciários. 

Os vinte e seis cristãos sofreram terríveis humilhações e torturas públicas. Levados em cortejo de Meaco a Nagasaki foram alvo de violência e zombaria pelas ruas e estradas, enquanto seguiam para o local onde seria executada a pena de morte por crucificação. Alguns dos companheiros de Paulo Miki eram muito jovens, adolescentes ainda, mas enfrentaram a pena de morte com a mesma coragem do líder. Tomás Cozaki tinha, por exemplo, catorze anos; Antônio, treze anos e Luis Ibaraki tinha só onze anos de idade. 

A elevação sobre a qual os vinte e seis heróis de Jesus Cristo receberam o martírio pela crucificação em fevereiro de 1597 ficou conhecida como Monte dos Mártires. Paulo Miki e seus companheiros foram canonizados pelo Papa Pio IX, em 1862. 

Os crentes se dispersaram para escapar dos massacres e um bom número deles se estabeleceu ao longo do rio Urakami, nas proximidades de Nagasaki. Lá eles continuaram a viver sua fé, apesar da ausência de padres. A partir do momento em que o Japão se abriu novamente aos europeus, os missionários voltaram e as igrejas voltaram a ser construídas, inclusive em Nagasaki, a poucos quilômetros da comunidade cristã clandestina. Ela havia perdido todo contato com a Igreja Católica, mas guardava preciosamente três critérios de reconhecimento recebidos dos ancestrais: "Quando a Igreja voltar ao Japão, vocês a reconhecerão por três sinais: os padres não são casados, haverá uma imagem de Maria e esta Igreja obedecerá ao papa-sama, isto é, ao Bispo de Roma". E foi assim que aconteceu dois séculos e meio depois, quando os cristãos do Império do sol nascente puderam se reencontrar com sua Santa Mãe, a Igreja.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM



Leituras: Jó 7,1-4.6-7; Sl 146(147); 1Cor 9,16-19.22-23; Mc 1,29-39

Estamos na primeira parte (cf. Mc 1,14-8,30) do Evangelho de Marcos. Aí, Jesus é apresentado pelo evangelista como o Messias que proclama essa realidade de um mundo novo – uma realidade que o próprio Jesus chama “Reino de Deus”.

Com o chamamento dos primeiros discípulos (cf. Mc 1,16-20), começa a constituir-se a comunidade do “Reino” – isto é, a comunidade dos que escutam a proposta de Jesus e aderem a essa proposta. Em seguida, Marcos mostra a realidade do “Reino” a atuar no mundo como salvação e libertação, nas palavras e nos gestos de Jesus: com a autoridade que Lhe vem do Pai (cf. Mc 1,21-22) e em comunhão total com o Pai, Jesus vence o mal e a dor que escravizam o homem e anuncia um mundo novo de liberdade e de vida plena.

A atuação de Jesus no sentido de fazer aparecer o “Reino” é uma atuação que não se limita ao espaço da sinagoga (cf. Mc 1,21-28); estende-se, também, a outros ambientes e âmbitos, porque o “Reino de Deus” que Jesus veio propor dirige-se ao homem em todas as suas dimensões e situações.

O Evangelho deste domingo situa-nos em Cafarnaum, uma cidade situada na margem norte do Lago de Tiberíades, na Galileia.

MENSAGEM

O texto que nos é proposto apresenta-nos Jesus a atuar no sentido de tornar o “Reino” uma realidade presente no meio dos homens. O evangelista propõe-nos dois quadros; eles apresentam realidades diversas mas complementares do “ministério de Jesus”.

O primeiro quadro (vers. 29-34) situa-nos na “casa de Pedro”. Na narração de Marcos – com uma forte preocupação catequética – o objetivo fundamental é sugerir que a missão de Jesus consiste em oferecer aos homens a vida nova, a vida definitiva.

No primeiro momento, Jesus cura a sogra de Pedro que “estava de cama com febre” (vers. 30). O episódio é descrito com simplicidade e sobriedade, sem gestos teatrais desnecessários. Três pormenores sobressaem na descrição (vers. 31). O primeiro pormenor significativo é a indicação de que Jesus “aproximou-Se” da sogra de Pedro. Naturalmente, a iniciativa de Se aproximar de quem está prisioneiro do sofrimento, da doença, da opressão, é sempre de Jesus. Jesus toma a iniciativa, pois a missão que recebeu do Pai consiste em realizar a libertação do homem de tudo aquilo que o faz sofrer e lhe rouba a vida. O segundo pormenor importante aparece na indicação de que Jesus tomou a doente pela mão e “levantou-a”. O verbo utilizado pelo evangelista (o verbo grego “egueirô” – “levantar”) aparece frequentemente em contextos de “ressurreição” (cf. Mc 5,41;6,14.16;9,27;12,26;14,28;16,6). A mulher está prostrada pelo sofrimento que lhe rouba a vida; mas o contacto com Jesus devolve-lhe a vida e equivale a uma ressurreição. O terceiro pormenor significativo é a indicação de que a mulher “começou a servi-los”. O efeito imediato do contacto com Jesus e da experiência da vida que brota d’Ele é a atividade que se concretiza no serviço dos irmãos.

Num segundo momento, o quadro apresenta-nos “a cidade inteira” reunida diante da porta da casa de Pedro. “Jesus” – diz Marcos – “curou muitas pessoas que eram atormentadas por várias doenças e expulsou muitos demônios” (vers. 32-34). Os enfermos e os possessos do demônio representam, aqui, todos aqueles que estão privados de vida, que estão prisioneiros do sofrimento, da injustiça, do egoísmo, do pecado. O evangelista convida-nos a ver em Jesus Aquele que tem poder para libertar o homem das suas misérias mais profundas e para lhe oferecer uma vida nova, uma vida livre e feliz.

A “casa de Simão Pedro” (onde Jesus atua e diante da qual se reúne “toda a cidade” à procura da libertação que Jesus veio oferecer) pode ser – nesta catequese que Marcos nos propõe – uma representação da Igreja. É aí que Jesus está oferecendo à “família de Pedro” (isto é, à sua comunidade) vida em abundância. Nesse espaço familiar, Jesus aproxima-Se dos homens, liberta-os do sofrimento que escraviza e aliena, dá-lhes vida definitiva e capacita-os para o serviço dos irmãos. A multidão que se reúne “à porta” da casa de Pedro representa, provavelmente, essa humanidade que busca a libertação e a vida verdadeira e que, dia a dia, olha ansiosamente para a “casa de Pedro” (a Igreja) à procura de Jesus e da sua proposta libertadora.

No segundo quadro (vers. 35-38), Marcos apresenta-nos Jesus retirado num lugar solitário, em oração. A oração faz parte do ministério de Jesus. Está na agenda da sua atividade e dos seus compromissos. É significativo que a atividade de Jesus termine na oração e que a atividade de Jesus em favor das multidões parta, de novo, da oração. A oração é, para Jesus, o cume e a fonte da ação.

Dessa forma, a oração aparece, também, como condição para o surgimento do “Reino”. É na oração que Jesus encontra a motivação para a sua ação em prol do “Reino”; é na oração que Jesus encontra a força para se libertar da tentação da popularidade fácil e para centrar, de novo, a sua atenção em Deus e nos seus projetos. O encontro a sós com Deus não é uma alienação, uma fuga dos problemas do mundo, mas é um momento de encontro com Deus, com os seus projetos e planos para o mundo, e um ponto de partida para o compromisso com a transformação do mundo. O encontro pessoal com Deus significa uma paragem na atividade e um momento de tomada de consciência daquilo que Deus quer e do compromisso que Deus pede aos seus enviados.

O nosso texto termina com uma espécie de resumo, no qual se explicita o sentido do ministério de Jesus: do seu encontro com o Pai, brota uma vontade renovada de concretizar o projeto de Deus e de atuar no meio dos homens a fim de lhes oferecer a libertação e a vida definitiva. Por isso, quando Jesus reencontra os discípulos, dispõe-se a palmilhar “toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demônios” (vers. 39).

No texto que nos é proposto neste domingo, os “milagres” de Jesus ocupam um espaço significativo. É preciso ver esses gestos de Jesus, não como gestos espetaculares, destinados a impressionar as multidões, mas como “sinais do Reino”. São gestos que anunciam a irrupção, nesta terra, desse mundo novo, sem exclusão, sem sofrimento, sem maldição, onde todos – e de uma forma especial os pobres e marginalizados – têm a possibilidade de ser felizes. Anunciam que Deus quer criar um mundo novo, onde não há impuros, nem proscritos, nem condenados; anunciam uma nova era, de homens novos, vivendo a plenitude da vida e da felicidade. É isso que Jesus veio fazer, e é essa a missão que os discípulos de Jesus devem procurar concretizar na terra.

ATUALIZAÇÃO

• As Ações de Jesus em favor dos homens que o Evangelho deste domingo nos apresenta mostram a eterna preocupação de Deus com a vida e a felicidade dos seus filhos. O projeto de Deus para os homens e para o mundo não é um projeto de morte, mas de vida; o objetivo de Deus é conduzir os homens ao encontro desse mundo novo (o “Reino de Deus”) de onde estão ausentes o sofrimento, a maldição e a exclusão, e onde cada pessoa tem acesso à vida verdadeira, à felicidade definitiva, à salvação. Talvez nem sempre entendamos o sentido do sofrimento que nos espera em cada esquina da vida; talvez nem sempre sejam claros, para nós, os caminhos por onde se desenrolam os projetos s de Deus… Mas Jesus veio garantir-nos absolutamente o empenho de Deus na felicidade e na libertação do homem. Resta-nos confiar em Deus e entregarmo-nos ao seu amor.

• O encontro com Jesus e com o “Reino” é sempre uma experiência libertadora. Aceitar o convite de Jesus para O seguir e para se tornar “discípulo” significa a ruptura com as cadeias de egoísmo, de orgulho, de comodismo, de auto-suficiência, de injustiça, de pecado que impedem a nossa felicidade e que geram sofrimento, opressão e morte nas nossas vidas e nas vidas dos nossos irmãos. Quem se encontra com Jesus, escuta e acolhe a sua mensagem e adere ao “Reino”, assume o compromisso de conduzir a sua vida pelos valores do Evangelho e passa a viver no amor, no perdão, na tolerância, no serviço aos irmãos. É – na perspectiva da catequese que o Evangelho de hoje nos apresenta – um “levantar-se”, um ressuscitar para a vida nova e eterna. O meu encontro com Jesus constituiu, verdadeiramente, uma experiência de libertação e levou-me a optar pelos valores do Evangelho?

• A história da sogra de Pedro que, depois do encontro com Jesus, “começou a servir” os que estavam na casa, lembra-nos que do encontro libertador com Jesus deve resultar o compromisso com a libertação dos nossos irmãos. Quem encontra Jesus e aceita inserir-se na dinâmica do “Reino”, compromete-se com a transformação do mundo… Compromete-se a realizar, em favor dos irmãos, os mesmos “milagres” de Jesus e a levar vida, paz e esperança aos doentes, aos marginalizados, aos oprimidos, aos injustiçados, aos perseguidos, aos que sofrem. Os meus gestos são sinais da vida de Deus (“milagres”) para os irmãos que caminham ao meu lado?

• Na multidão que se concentra à porta da “casa de Pedro” podemos ver essa humanidade que anseia pela sua libertação e que grita, dia a dia, a sua frustração pela guerra, pela violência, pela injustiça, pela miséria, pela exclusão, pela marginalização, pela falta de amor… A Igreja de Jesus Cristo (a “casa de Pedro”) tem uma proposta libertadora que vem do próprio Jesus e que deve ser oferecida a todos estes irmãos que vivem prisioneiros do sofrimento… O que é que nós, discípulos de Jesus, temos feito no sentido de oferecer a proposta libertadora de Jesus aos nossos irmãos oprimidos? Ao olhar para a Igreja de Jesus, eles encontram solidariedade, ajuda, fraternidade, preocupação real com os seus dramas e misérias, ou apenas discursos teológicos abstratos e virados para o céu? Os nossos irmãos idosos, doentes, marginalizados, esquecidos encontram nos nossos gestos o amor libertador de Jesus que dá esperança e que aponta no sentido de um mundo novo, ou encontram egoísmo, indiferença, marginalização?

• O exemplo de Jesus mostra que o aparecimento do “Reino de Deus” está ligado a uma vida de comunhão e de diálogo com Deus. Rezar não é fugir do mundo ou alienar-se dos problemas do mundo e dos dramas dos homens… Mas é uma tomada de consciência dos projetos de Deus para o mundo e um ponto de partida para o compromisso com o “Reino”. Só na comunhão e no diálogo íntimo com Deus percebemos os seus projetos e recebemos a força de Deus para nos empenharmos na transformação do mundo. É preciso, portanto, que o discípulo encontre espaço, na sua vida, para a oração, para o diálogo com Deus.


Fonte: Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Animais no Altar 181



Extraordinário em simbologia é o mosaico da abside da Basílica de São Clemente, em Roma. Toda a História da Salvação está representada, tanto as criaturas racionais quanto as irracionais, celestes e terrestres, beneficiárias do amor infinito de Deus, manifestado na pessoa de Jesus Cristo pregado na Cruz e glorioso ao mesmo tempo. Os quatro braços da cruz estão ornados com doze pombas brancas, símbolo dos Doze Apóstolos que levaram aos quatro cantos da terra a redenção nascida do Cristo crucificado. O mosaico é do século XII e XIII, bem anterior, portanto, ao adestramento do pombo-correio, cuja ideia está aqui presente, unida à figura do Espírito Santo que desceu em forma de pomba e impulsionou Jesus à vida pública.

Frei Clarêncio Neotti, OFM

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

São Brás, bispo e mártir



O santo de hoje nasceu na cidade de Sebaste, Armênia, no final do século III. São Brás, primeiramente, foi médico, mas entrou numa crise, não profissional, pois era bom médico e prestava um ótimo serviço à sociedade. Mas nenhuma profissão, por melhor que seja, consegue ocupar aquele lugar que é somente de Deus. Então, providencialmente, porque ele ia se abrindo e buscando a Deus, foi evangelizado. Não se sabe se já era batizado ou pediu a graça do Santo Batismo, mas a sua vida sofreu uma guinada. Esta mudança não foi somente no âmbito da religião, sua busca por Nosso Senhor Jesus Cristo estava ligada ao seu profissional e muitas pessoas começaram a ser evangelizadas através da busca de santidade daquele médico.

Numa outra etapa de sua vida, ele discerniu que precisava se retirar. Para ele, o retiro era permanecer no Monte Argeu, na penitência, na oração, na intercessão para que muitos encontrassem a verdadeira felicidade como ele a encontrou em Cristo e na Igreja. Mas, na verdade, o Senhor o estava preparando, porque, ao falecer o bispo de Sebaste, o povo, conhecendo a fama do santo eremita, foi buscá-lo para ser pastor. Ele, que vivia naquela constante renúncia, aceitou ser ordenado padre e depois bispo; não por gosto dele, mas por obediência.

Sucessor dos apóstolos e fiel à Igreja, era um homem corajoso, de oração e pastor das almas, pois cuidava dos fiéis na sua totalidade. Evangelizava com o seu testemunho.

São Brás viveu num tempo em que a Igreja foi duramente perseguida pelo imperador do Oriente, Licínio, que era cunhado do imperador do Ocidente, Constantino. Por motivos políticos e por ódio, Licínio começou a perseguir os cristãos, porque sabia que Constantino era a favor do Cristianismo. O prefeito de Sebaste, dentro deste contexto e querendo agradar ao imperador, por saber da fama de santidade do bispo São Brás, enviou os soldados para o Monte Argeu, lugar que esse grande santo fez sua casa episcopal. Dali, ele governava a Igreja, embora não ficasse apenas naquele local. 

São Brás foi preso e sofreu muitas chantagens para que renunciasse à fé. Mas por amor a Cristo e à Igreja, preferiu renunciar à própria vida. Em 316, foi degolado.

Conta a história que, ao se dirigir para o martírio, uma mãe apresentou-lhe uma criança de colo que estava morrendo engasgada por causa de uma espinha de peixe na garganta. Ele parou, olhou para o céu, orou e Nosso Senhor curou aquela criança.

Peçamos a intercessão do santo de hoje para que a nossa mente, a nossa garganta, o nosso coração, nossa vocação e a nossa profissão possam comunicar esse Deus, que é amor.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

APRESENTAÇÃO DO SENHOR



Leituras: Ml 3,1-4; Sl 23(24); Lc 2,22-32

«Hoje, com Simeão e Ana, contemplamos o Divino Menino,
o Verbo feito Carne, que é conduzido ao Templo. 
Aquele que foi dar cumprimento à Antiga Lei, 
como plenamente homem, fez alegrar o coração do povo 
que esperava o Messias prometido, como Divino Filho Encarnado.»

(S. João Crisóstomo)

Quarenta dias após o nascimento, completados os dias da purificação de Maria, conforme prescrito nas Leis de Israel, o Menino Jesus foi apresentado no Templo para ser consagrado ao Senhor, manifestando a abertura de seu coração à vontade de Deus e à cultura do seu povo. A apresentação do Primogênito equivale a um ato de consagração ao Senhor acompanhado da oferta sacrificial de um par de rolas ou de pombinhos, a oferenda dos pobres.

«Maria, a Virgem Mãe, a primeira a ser verdadeiramente o Templo Santíssimo de Deus vivo, aquela que é toda pura e toda santa, sem necessidade cumpriu o ritual da purificação, levou o Primogênito de Deus ao templo para realizar o que foi prometido a Simeão.» (São Basílio)


A Festa da Purificação e da Apresentação do Senhor no Templo é também conhecida como a «Festa da Candelária», devido à procissão de velas que é realizada neste dia, principalmente na Igreja de Jerusalém e nas de tradição eslava. Este rito das velas tem origem nas palavras de Simeão referindo-se ao Menino, «Luz que brilhará sobre todas as nações, e glória do teu povo, Israel.».

São Cirilo de Alexandria exortava que «celebremos o mistério deste dia com lâmpadas flamejantes.». Jesus é a Luz do mundo que ilumina a todos que estão nas trevas. É fonte e principio da luz eterna que faz brilhar no coração de seus filhos a Luz que não se extingue.

A Festa da Apresentação também recebe o nome de "Festa do Encontro" ou "Hypapántê" sublinhando o encontro do velho Simeão com Jesus. É a humanidade que se reconcilia com a Divindade. É as bodas entre Deus e seu povo. Movido pelo Espírito, Simeão veio ao templo onde encontrou José e Maria que conduziam o Menino, cumprindo desta forma, a Lei. Simeão tomou-O em seus braços e bendisse a Deus:

«Agora Senhor, deixa teu servo ir em paz, segundo a tua palavra, porque meus olhos viram a salvação que preparaste ante face de todos os povos, luz que brilhará sobre todas as nações, e glória do teu povo, Israel" . (Lc 2, 29-33)

Deste modo, Cristo é apresentado por Simeão ao mundo como Sacramento do encontro e da reconciliação com Deus. Logo, tal encontro passa necessariamente pela mediação da humanidade de Jesus. A aceitação deste mistério dá nova dimensão à fé. Constitui-se na absoluta necessidade de se encontrar Deus, único Autor da Salvação, na pessoa humano-divina de Jesus. O Santo Encontro entre o velho Simeão e o Menino Jesus representa o encontro entre o Antigo Testamento (Hebreu) com o Novo Testamento (Cristão):

«Na pessoa do Menino, acontece a convergência entre a Antiga e a Nova Lei. É o ponto de chegada daqueles que tanto esperavam o Messias e o ponto de partida para aqueles que vivem a plenitude dos tempos, onde o Reino de Deus se faz presente entre os homens.» São Clemente de Alexandria.

A idade avançada daquele que recebe o Menino nos braços indica a longa espera do povo hebreu frente à novidade recente da promessa cumprida. Por isso, durante a festa canta-se: «O velho Simeão leva o Menino, mas o Menino é quem o conduz.»

Contemplando o Ícone da festa, observamos que resplandece a pessoa do Menino que é apresentado como Senhor e Redentor. Seu rosto não está voltado para a sua mãe, mas para Simeão. Este O recebe em seus braços e seu corpo está inclinado, formando como que um receptáculo que acolhe o Rei de Israel.

De pé sobre um estrado, para simbolizar sua dignidade sacerdotal, tem as mãos cobertas em sinal de veneração e humildade, formando um pequeno trono para o Menino. Um pouco mais atrás, está a profetisa Ana que aponta com o dedo para o menino, simbolizando que também ela contempla o Salvador aguardado por tantas gerações.

A Mãe de Deus, ligeiramente inclinada, eleva suas mãos, também cobertas, num gesto de oferenda. Importante que observemos que o Salvador não se encontra em seus braços. Esta estranha distância entre o Menino e sua Mãe, estão iconografadas na cena de Belém, onde o menino se encontra deitado na manjedoura, e na Festa da Apresentação. Todos os demais ícones de Maria com o Menino mostram a Virgem segurando a Divina criança em seus braços. São João Crisólogo se refere a este fato dizendo:

«Os braços da Mãe que antes era Trono do Salvador, oferecendo o mais precioso dos Dons ao Altíssimo, sente saudades de portar o Rei da Glória. O Cordeiro, ciente que sua vida é pura oblação em prol da humanidade que veio regenerar, deixa os braços calorosos da Mãe e se entrega aos braços da Antiga Lei, como obediente servo de Deus.» São João Crisólogo.

A disposição das figuras ao fundo acentua a relevância daqueles que aparecem em primeiro plano. O templo central indica o lugar donde acontece o encontro. Os dois edifícios laterais, unidos por um véu vermelho, simbolizam que as bodas entre Deus e a humanidade se realizaram com a vinda do Salvador.

«Sião, adorna tua câmara nupcial e recebe o Cristo Rei. 
Acolhe com amor a Maria, Porta do Céu, 
pois ela tem em seus braços o Rei da glória, 
luz nova que resplandece. 
A Virgem avança, apresentando a seu Filho, 
engendrado antes da Aurora. 
Simeão O recebe em seus braços 
e anuncia ao povo que é o Senhor da vida e da morte, 
o Salvador do Mundo.»

(Canto de Procissão da Candelária)

Ao ver o Filho de Deus em seus braços, Simeão se certificou que os homens receberiam a filiação divina e estavam salvos. (Gl 4,4-7). Somos assim agraciados com o título de filhos no Filho e por isso podemos chamar a Deus de Pai. (Ef 1,5;2,18).

Que possamos nesta festa da Igreja ser apresentados ao Senhor, plenamente renovados pelas luzes do Espírito Santo, e que Ele realize em nós a obra da sua Misericórdia como fez com Simeão, dando-nos a alegria de ter, não somente nos braços, mas em nossos corações, o próprio Cristo, Pão Vivo que desceu do Céu. 


Fontes de Consulta:

WEITZMANN, Kurt. Revista Fuentes: "Las Doce Fiestas", Anuário 1994;
GOMES, C. Folch, Antologia dos Santos Padres, Ed. Paulinas. 3ª Ed. São Paulo.

Pe. Pavlos Tamanini, Sacerdote da Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau
Florianópolis - SC


«Luz para se revelar às nações»

Saúdo-Te e louvo-Te, ó cheia de graça; trouxeste ao mundo a Misericórdia que veio sobre nós. Foste Tu quem preparou este círio que hoje recebo em minhas mãos. Foste Tu quem deu a cera a esta chama… porque, Mãe sem corrupção, revestiste de carne sem corrupção o Verbo incorruptível.

Vamos, irmãos! Vede o círio que hoje arde entre as mãos de Simeão! Vinde buscar nele a luz, vinde acender nele as vossas velas, quero dizer, as lâmpadas que o Senhor quer ver entre as vossas mãos (Lc 12, 35). «Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes» (Sl 33, 6). Não tanto por levardes círios nas mãos como por serdes vós mesmos círios que brilham por dentro e por fora, para vosso bem e para o dos outros: … Jesus iluminará a vossa fé, fará brilhar o vosso exemplo, inspirar-vos-á uma palavra de bem, tornará ardente a vossa oração, purificará a vossa intenção…

E para ti que possuis interiormente tantas lâmpadas acesas, quando se extinguir a chama desta vida, brilhará a luz da vida que não se extingue. Aparecerá para ti, no ocaso, o esplendor do meio-dia. No momento em que julgues extinguir-te, erguer-te-ás como a estrela da manhã (Jb 11, 17) e as trevas brilharão como a luz em pleno dia (Is 38, 10). Já não haverá sol durante o dia nem a luz da lua te iluminará, mas o Senhor será a tua luz eterna (Is 60,19), porque a lâmpada da nova Jerusalém é o Cordeiro (Ap 21, 23), a Ele a bênção e a glória pelos séculos dos séculos! Amém.

B. Guerrico de Igny (c. 1080-1157), abade cisterciense 
1º Sermão para a Purificação, 5-5 (SC 166, p. 313s) 


«Homilia para a festa das luzes»

«Eu vim como a luz ao mundo, 
para que todo aquele que crê em Mim
não permaneça nas trevas» (Jo 12, 46)

Vamos ao encontro de Cristo, todos nós que veneramos o Seu mistério com fervor, avancemos para Ele de todo o coração. Quando todos, sem excepção, participarem neste encontro, que todos levem as suas luzes. Se os nossos círios dão semelhante luz, é antes de mais para mostrar o esplendor divino Daquele que vem, Daquele que faz resplandecer o universo e o mundo com uma luz eterna, que afasta as trevas do mal. É também, e sobretudo, para manifestar com que esplendor da nossa alma devemos ir ao encontro de Cristo. Com efeito, tal como a Mãe de Deus, a Virgem puríssima, trouxe nos seus braços a luz verdadeira, para ir ao encontro “daqueles que se encontravam nas trevas” (Is 9, 1; Lc 1, 79), assim também nós, iluminados pelos seus raios, e tendo na mão uma luz visível para todos, apressemo-nos a ir ao encontro de Cristo.

É evidente que, dado que a luz veio a este mundo (Jo 1, 9), iluminando os que estavam nas trevas, porque nos visitou a “luz do alto” (Lc 1, 78), esse mistério é o nosso mistério. […] Corramos, pois, todos juntos, vamos todos ao encontro de Deus. […] Deixemo-nos iluminar a todos por Ele, meus irmãos, tornemo-nos todos resplandecentes. Que nenhum de nós permaneça afastado desta luz, como se fosse um estrangeiro; que nenhum se obstine em permanecer mergulhado na noite. Pelo contrário, avancemos para a claridade; caminhemos, iluminados, ao seu encontro, e recebamos, com o velho Simeão, esta luz gloriosa e eterna. Com ele exultemos de todo o coração e cantemos um hino de acção de graças a Deus, Pai da luz (Tg 1,17), que nos enviou a claridade verdadeira, para nos tirar das trevas e nos tornar resplandecentes.

Graças a Cristo, também nós vimos salvação de Deus, que Ele preparou “em favor de todos os povos”, e que manifestou para “glória de Israel” (Lc 2, 30-32). E também nós fomos libertados da noite do nosso pecado, como Simeão o foi dos laços da vida presente, ao ver Cristo.

São Sofrônio de Jerusalém (?-639), monge, bispo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A colegialidade episcopal na Conferência de Puebla



JOÃO PAULO II

14ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 1979


Caríssimos Irmãos e Irmãs

1. A terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano é acontecimento em que se concentra a atenção de toda a Igreja e suscita grande interesse mesmo nos ambientes extra-eclesiais. O facto de ser já a terceira Conferência testemunha que a sua história, embora breve, é contudo muito indicativa e frutuosa.

Em 1955 o Papa Pio XII quis convocar a I Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano — celebrada no Rio de Janeiro de 25 de Julho a 4 de Agosto de 1955 — para fazer um exame dos problemas religiosos, que despertavam então graves angústias em todo o Continente: foi como perscrutar os sinais dos tempos, para daí tirar indicações de caminhos cada vez mais apropriados para a renovação e o revigoramento da actividade apostólica da Igreja. Em particular, a penúria de Clero, verificada com dramática evidência, levou a que se procurasse mais estreita colaboração a nível continental, de que devia ser instrumento um conselho representativo de todos os Episcopados nacionais. A instituição do CELAM foi o primeiro e mais importante resultado da Conferência: resultado dinâmico, aberto a desenvolvimentos que assumiram um ritmo e importância crescentes.

Em 1968 o Papa Paulo VI, para conseguir adaptar melhor a missão da Igreja às necessidades da América Latina à luz dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, convocou a II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, celebrada em Medellín de 24 de Agosto a 6 de Setembro (1968). Finalidade principal do encontro foi o estudo do tema «A Igreja na presente transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II».

As particularidades supra-indicadas informam suficientemente acerca do modo como se formou e desenvolveu, no decurso dos decénios, este esplêndido órgão de colegialidade do Episcopado actual no Continente Latino-Americano, o qual, neste momento, é o primeiro agente do acontecimento, chamado por brevidade «Puebla». no edifício do Seminário Maior, em Puebla.

Desejaria chamar a atenção sobretudo para o método de trabalho e para o modo muito perspicaz e exacto de preparação da mesma Conferência. Antes de chegar à formulação das principais teses indicadas no «Documento de trabalho», que enche 172 páginas ao todo, cada uma das Conferências Episcopais, da América Latina, seguindo o «Documento de consulta», trabalhou preparando os próprios pareceres, observações e propostas, quanto ao argumento da terceira Conferência, que assim foi formulado: «A Evangelização no presente e no futuro da América Latina». Fácil é reconhecer que as fontes deste argumento se encontram principalmente nos trabalhos das Assembleias ordinárias do Sínodo dos Bispos, realizadas em Roma nos anos de 1974 e 1977: recordemos que o tema dessas Assembleias foi respectivamente a «Evangelização no mundo contemporâneo» e a «Catequese com particular referência aos jovens».

O fruto da troca das experiências, das propostas e das sugestões do Sínodo dos Bispos de 1974 foi a Exortação Apostólica de Paulo VI, Evangelii nuntiandi, um dos documentos mais característicos e frutuosos do Seu pontificado.

Tal é— e como se vê muito límpida — a génese da actual Conferência do CELAM, no que diz respeito ao tema. A iniciativa de tratar este argumento de carácter universal-eclesiástico, isto é a «Evangelização» com referência à América Latina, sobe ao ano de 1976. Todo o ciclo da preparação ocupou dois anos inteiros. Neste período, as Conferências Episcopais Nacionais, aproveitando também os contributos oferecidos por cada elemento das comunidades eclesiais locais, prepararam a sua contribuição para se redigir o «Documento de Trabalho», isto é, aquele Documento que devia servir como ponto de referência dos trabalhos da Conferência de Puebla, e seguindo o qual se devia proceder à troca das experiências, das propostas e das sugestões: exactamente o que agora se está fazendo em Puebla.

Cada Conferência Episcopal, além de estar representada pelo respectivo Presidente, nomeou um número de Delegados proporcional ao número total dos Bispos que fazem parte da mesma Conferência. Além disso, foram enviados a Puebla representantes dos vários elementos do Povo de Deus: sacerdotes, religiosos, religiosas, diáconos e leigos.

3. Pode ser que os supra-indicados dados particulares, relativos à Conferência de Puebla, sejam já conhecidos a alguns dos meus ouvintes de hoje. Julguei todavia oportuno sintetizá-los agora, por dois motivos:

Primeiro que tudo, atendendo à importância do acontecimento que tem o nome de «Puebla». Ao mesmo tempo, para exprimir a minha alegria por a doutrina sobre a colegialidade do Episcopado, recordada pelo Concílio Vaticano II, se encarnar, de modo tão esplêndido, na vida, e frutificar nos nossos dias.

Valeria a pena abrir agora de novo o texto da constituição dogmática Lumen Gentium, no capítulo III, e ler com atenção todos os seus parágrafos.

Seria necessário recordar muitas passagens do decreto Christus Dominus, sobre os deveres pastorais dos Bispos.

Detenhamo-nos nalgumas frases: «Assim como, por instituição do Senhor, São Pedro e os restantes Apóstolos formam um colégio apostólico, assim de igual modo estão unidos entre si o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e os Bispos, sucessores dos Apóstolos. A natureza colegial da ordem episcopal, claramente comprovada pelos Concílios ecuménicos celebrados no decurso dos séculos, manifesta-se já na disciplina primitiva, segundo a qual os Bispos de todo o orbe comunicavam entre si e com o Bispo de Roma no vínculo da unidade, da caridade e da paz; e também na reunião dos Concílios, nos quais se decidiram em comum coisas importantes, depois de ponderada a decisão pelo parecer de muitos» (Cfr. Lumen Gentium, 28).

O Concílio é a mais plena expressão da colegialidade do múnus episcopal na Igreja. As suas outras manifestações não têm significado tão fundamental. São todavia muito necessárias, úteis e algumas vezes absolutamente indispensáveis. Isto refere-se quer às instituições colegiais entre estas, agora, na Igreja ocidental desenvolvem-se principalmente as Conferências Episcopais — quer ainda às diversas formas de actividade colegial.

A presente Conferência em Puebla é exactamente essa forma de actividade colegial do Episcopado Latino-Americano. Certamente, seja cada instituição colegial sejam mesmo as formas da actividade colegial dos Episcopados correspondem, de modo especial, às exigências dos nossos tempos.

4. A Constituição dogmática Lumen Gentium, falando da colegialidade dos Bispos, usa também a expressão «corpo episcopal» (corpus episcopale). Parece incluir-se nela uma analogia ainda mais profunda relativamente a toda a Igreja, que São Paulo, como bem sabemos, chamava «o corpo de Cristo» (Cfr. Rom. 12, 5; 1 Cor. 1, 13; 6, 12-20; 10, 17; 12, 12; 27; Gál. 3, 28; Ef. 1, 22-23; 2, 16; 4, 4; Col. 1, 24; 3, 15). Por esta última analogia entramos já profundamente no mistério íntimo da Igreja: na união da vida, que ela recebe de Cristo.

O «Corpus episcopale» diz respeito à estrutura exterior mais importante da Igreja: a sua unidade hierárquica. Todavia, esta estrutura exterior fica ao serviço do mistério interior da Igreja: do Corpo Místico de Cristo. Exactamente pela mesma razão e pela mesma finalidade, esta estrutura é também «corpo»: o corpo, ou seja, o colégio episcopal.

No período em que este colégio, isto é, o «corpo», dedica os seus trabalhos ao problema da evangelização «no presente e no futuro» do continente sul-americano, devemos fazer votos por que esteja presente, no meio dos seus membros e por meio deles, o próprio Senhor Jesus. Porque assim lemos na citada constituição Lumen Gentium:

«Na pessoa dos Bispos, assistidos pelos presbíteros, está presente no meio dos fiéis o Senhor Jesus Cristo, pontífice máximo. Sentado à direita de Deus Pai, não deixa de estar presente ao corpo dos seus pontífices, mas, antes de mais, por meio do seu exímio ministério, prega a todas as gentes a palavra de Deus administra continuamente aos crentes os sacramentos da fé, incorpora por celeste regeneração e graças à sua actividade paternal (cfr. 1 Cor. 4, 15) novos membros ao Seu corpo e, finalmente, com sabedoria e prudência, dirige e orienta o Povo do Novo Testamento na peregrinação para a eterna felicidade. Estes pastores escolhidos para apascentar o rebanho do Senhor, são ministros de Cristo e dispensadores dos ministérios de Deus (cfr. 1 Cor. 4, 1); a eles foi confiado o testemunho do Evangelho da graça de Deus (cfr. Rom. 15, 16; Act. 20, 24) e a administração do Espírito e da justiça em glória (cfr. 2 Cor. 3, 8-9)» (Lumen Gentium, 21).

A vós todos a minha Bênção Apostólica.

LEITURA ORANTE: A perda é salvação

Quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. Preparo-me para a Leitura Orante, rezando com todos os que, nesta rede da...