quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA



Mais uma festa de Nossa Senhora a figurar no calendário civil de feriados. Alguém se pergunta:onde está a famigerada secularização da Sociedade moderna que relegou para os rincões privados das Igrejas as festas e celebrações? A história não caminha linearmente e os fatos não recebem de todos a mesma interpretação. 

No interior da fé cristã, a festa mariana adquire sentido próprio, só inteligível e vivenciado por quem participa da vida da comunidade religiosa. Em termos católicos, descortina-se belíssimo significado na celebração litúrgica. No fundo da reflexão teológica, está o plano salvador de Deus. Somos humanidade, livre, consciente, entregue às próprias decisões. Os caminhos permanecem abertos. Deus não nos criou e nos determinou para realizar um projeto de antemão traçado, mas dotou-nos de liberdade. E liberdade implica risco. E aconteceu o pior. A história nos ensina como andamos perdidos com projetos loucos até o dia de hoje. Nos cálculos generosos dos paleontólogos, a humanidade já conta com milhões de anos de racionalidade. E imperam por todos os lados infinitas irracionalidades. Basta parar um minuto sequer e indagar: por que as guerras? Por que tanta violência nas cidades? Por que a fúria consumista que nos coisifica, especialmente em tempos natalinos? Por que a loucura destruidora da natureza, da biodiversidade? E por que a insânia das megalópoles cuja vida se faz sempre mais desumana e ameaçada? Poderíamos multiplicar ao infinito a história e geografia de nossas irracionalidades. 
E que faz Deus? Pela revelação e ação profunda, misteriosa põe-se continuamente a incentivar-nos a caminhar noutra direção. Seu plano de salvação resume-se num só mandamento: amar a Deus como fonte última de amor, pois Deus é amor, e embalado por este amor amar os demais seres humanos. Projeto maravilhoso, ousado, implantado no fundo coração de toda criatura, mas freqüentemente obscurecido pelo egoísmo pessoal e social. Não contente com a silenciosa ação no íntimo humano, enviou o Filho para traduzir em pessoa, mensagem e ações a concretização desse plano de amor. E as pessoas se medirão em bondade, em pureza, em grandeza de alma pela maior ou menor proximidade do amor. 

Quando falamos de Imaculada Conceição não nos restringimos a um privilégio da intimidade de Maria, mas proclamamos que uma mulher, como ninguém, se associou ao projeto divino do amor em tal grau de identificação que não lhe tisnou o coração, desde o alvorecer da existência, nenhuma mancha. Anuncia-nos, sendo ela pura criatura, a beleza de podermos também nós, não na mesma medida por culpa de nossas misérias, assumir o projeto de criar uma sociedade em que a lei fundamental seja o amor. 

Por mais secularizada que se torne a sociedade, nunca afetará a grandeza espiritual de alguém que consagrou toda a vida, sem desvio, sem regatear, a realizar em si e em todos os que a cercavam a maravilha de uma sociedade de comunhão e justiça amorosa. E que essa criatura seja mulher adquire ainda maior relevância cultural. 

A tradição grega e semita, fundida na cultura ocidental, traz a pecha de machista. Nos grandes projetos imaginamos sempre um homem à frente. Para enxertar o desígnio salvífico na árvore da história, o sim de Maria se fez necessário e o primeiro dado. Depois dele viemos nós. Esta festa ultrapassa os redutos restritos da Igreja católica e se torna momento cultural de chamado para os homens dedicarem-se à construção da civilização do amor, já que uma mulher lá no albor de tal projeto disse sim tão fecundo que até hoje ressoa no símbolo do dia santo e feriado.

Pe. João Batista Libânio , sj

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