domingo, 8 de junho de 2008

Testamento

O Senhor deu a mim, frei Francisco, começar a fazer penitência assim: pois, como estivesse em pecados, parecia-me demasiadamente amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu entre eles e fiz misericórdias com eles. E afastando-me deles, aquilo que me pareceu amargo, se me converteu em doçura da alma e do corpo; e, em seguida, me detive por um pouco e saí do século.

E o Senhor me deu tal fé nas igrejas para rezar e dizer simplesmente assim: Nós te adoramos Senhor Jesus Cristo, em todas as tuas igrejas, que estão no mundo inteiro, e te bendizemos porque pela tua santa cruz redimiste o mundo. Depois, o Senhor me deu e me dá tanta fé nos sacerdotes, que vivem segundo a forma da santa Igreja Romana, por causa da ordem dos mesmos, que se me perseguissem, ainda assim, quero recorrer a eles. E se tivesse tanta sabedoria quanta teve Salomão (1Rs 4,30-31) e encontrasse sacerdotes pobrezinhos deste século, nas paróquias onde moram, não quero pregar além da vontade deles. E a ele e a todos os outros quero temer, amar e honrar como meus senhores. E neles não quero considerar pecado, porque neles diviso o Filho de Deus, e são meus senhores. E assim faço porque nada vejo corporalmente do próprio altíssimo Filho de Deus, neste século, senão o santíssimo corpo e o seu santíssimo sangue que eles mesmos recebem e somente eles ministram aos outros. E esses santíssimos mistérios quero honrar, venerar acima de todas as coisas e colocar em lugares preciosos. Onde quer que eu encontre os santíssimos nomes e suas palavras escritas em lugares ilícitos, quero recolhê-los. E rogo que sejam recolhidos e colocados em lugar honesto. E devemos honrar e venerar todos os teólogos e os que nos ministram as santíssimas palavras divinas como aqueles que nos ministram espírito e vida.

E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrava o que deveria fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho. E eu o fiz escrever com simplicidade e com poucas palavras o senhor Papa mo confirmou. Os que vinham para receber esta vida, davam aos pobres tudo o que podiam ter; e estavam contentes com uma só túnica, remendada por dentro e por fora, com um síngulo e bragas. E mais não queríamos ter. Nós, clérigos, rezávamos o Ofício como os outros clérigos; os leigos rezavam o Pai-Nosso; e de muito boa vontade ficávamos nas igrejas. E éramos idiotas e súditos a tudo.

E eu trabalhava com minhas mãos e quero trabalhar; e quero que todos os outros irmãos labutem num labor pertinente à honestidade. Os que não sabem trabalhar o aprendam, não pela cobiça de receber recompensa do trabalho, mas por causa do exemplo e para repelir a ociosidade. E se não nos derem a recompensa do trabalho, recorramos à mesa do Senhor, pedindo esmola de porta em porta. O Senhor me revelou que disséssemos a saudação: O Senhor te dê a paz! Cuidem-se os irmãos de receber, de modo algum, igrejas, pequenas e pobres habitações e tudo o que for construído para os irmãos, a não ser que sejam como convém à santa pobreza, que prometemos na regra, hospedando-se sempre aí como estrangeiros e peregrinos. Ordeno firmemente pela obediência a todos os irmãos, onde estiverem, que não ousem pedir algum rescrito à cúria Romana, nem através de si ou de pessoa intermediária, nem em favor de alguma igreja, ou de outro lugar, nem em vista de pregação, nem diante da própria perseguição corporal. Mas, onde não forem recebidos, fujam para outra terra, para fazer penitência com a bênção de Deus.

E quero obedecer firmemente ao ministro geral desta fraternidade e ao guardião que lhe aprouver dar-me. E quero estar cativo em suas mãos assim que não possa ir ou fazer além da obediência e da sua vontade, porque ele é o meu senhor. E ainda que simples e enfermo, quero, todavia, ter sempre um clérigo que me reze o ofício, como está contido na regra. E todos os irmãos atenham-se em obedecer assim a seus guardiões e a rezar o ofício segundo a regra. E se encontrarem irmãos que não rezem o ofício conforme a regra e querem variá-lo de outro modo e não forem católicos, então, todos os irmãos, onde quer que se acharem, estejam obrigados pela obediência, lá onde depararem com um deles a apresentá-lo ao custódio mais próximo daquele lugar. E o custódio esteja firmemente obrigado por obediência a guardá-lo fortemente, dia e noite, como um prisioneiro, de tal modo que não possa arrancar-se de suas mãos, até que o apresente pessoalmente às mãos de seu ministro. O ministro, então, esteja firme na obrigação de enviá-lo por obediência através de tais irmãos que, dia e noite, o guardem como um prisioneiro, até apresentarem-no ao senhor de Óstia, senhor, protetor e corretor de toda fraternidade. E não digam os irmãos: Essa é outra regra! Pois, esta é a recordação, a admoestação, a exortação e o meu testamento que eu, frei Francisco pequenino, faço a vós, meus irmãos benditos para que mais católicamente observemos a regra que prometemos ao Senhor.

O ministro geral e todos os demais ministros e custódios por obediência estão na obrigação de nada acrescentar a estas palavras nem tirar algo delas. E tenham sempre consigo este escrito junto à regra. E em todos os capítulos que fazem, quando lêem a regra, leiam também estas palavras. E ordeno firmemente por obediência a todos os meus irmãos, clérigos e leigos, que não façam glosas na regra nem nestas palavras dizendo: Assim devem ser entendidas. Mas, como o Senhor me deu dizer e escrever simples e puramente a regra e estas palavras, assim entendei-as de modo simples e sem glosas observai-as até o fim em santa obra.

E todo aquele que observar estas coisas, seja no céu repleto com a bênção do altíssimo Pai, e na terra, repleto com a bênção do seu dileto Filho, com o santíssimo Espírito Paráclito e com todas as virtudes dos céus e com todos os santos. E eu, frei Francisco, pequenino, vosso servo, por tudo quanto posso, vos confirmo dentro e fora esta santíssima bênção.

Frei Francisco de Assis
Assis - Itália, Setembro de 1226.

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