terça-feira, 13 de março de 2012

ESPIRITUALIDADE DA QUARESMA



Origem e história da quaresma 

A celebração da Páscoa nos primeiros três séculos de vida da Igreja não tinha um período de preparação. Limitava-se a um jejum que se fazia nos dias anteriores. A comunidade cristã vivia tão intensamente o compromisso até o testemunho do martírio (vivia-se então em tempos de perseguição), que não sentiam a necessidade de um período de tempo maior para renovar a conversão que já havia tido lugar no batismo. Porém, sim, se prolongava a alegria da celebração Pascal por cinquenta dias (Pentecostes). Quando se registrou uma menor tensão no compromisso de vida cristã depois da paz de Constantino, começou a sentir-se a necessidade de um conveniente período de tempo para chamar aos fiéis a uma maior coerência com o batismo. Nascem assim as prescrições relacionadas com um período de preparação para a Páscoa. 



Duração de quarenta dias 

O caráter original da Quaresma, segundo a força expressiva da mesma palavra, foi posto na penitência de toda a comunidade e dos indivíduos ao longo de quarenta dias. Na determinação da duração de quarenta dias, para que os cristãos se preparem para celebrar a solenidade Pascal, é mais do que certo que teve grande peso a tipologia bíblica dos quarenta dias, a saber: o jejum de quarenta dias de Jesus Cristo; os quarenta anos que passou o Povo de Deus no deserto; os quarenta dias passados por Moisés no Monte Sinai; os quarenta dias durante os quais Golias, o gigante filisteu, afrontou Israel, até que Davi avançou contra ele, abateu-o e o matou; os quarenta dias durante os quais o Profeta Elias, fortificado pelo pão assado e pela água, chegou ao Monte de Deus, o Horeb; os quarenta dias que o Profeta Jonas pregou a penitência aos habitantes de Nínive. 



Finalidade e estrutura da quaresma 

O Tempo da Quaresma tem a finalidade de preparar a Páscoa: a Liturgia Quaresmal conduz para a celebração do mistério pascal tanto os catecúmenos, através dos diversos graus da iniciação cristã, quanto aos fiéis, por meio da recordação do batismo e da penitência. O Tempo da Quaresma transcorre desde a Quarta-feira de Cinzas, que é dia de jejum e abstinência e de imposição das cinzas, até a Missa da Ceia do Senhor, exclusive. Desde o início da Quaresma até a Vigília Pascal não se canta (diz) o Aleluia nem o Glória. Os domingos deste Tempo são chamados 1°, 2°, 3°, 4° e 5º Domingos da Quaresma. O 6º Domingo, com o qual se inicia a Semana Santa, é chamado Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. A Semana Santa recorda a Paixão de Cristo, desde sua entrada messiânica em Jerusalém. 



Leituras bíblicas quaresmais 

Nos cinco domingos precedentes à Semana Santa, no ciclo trienal, se proclamam quarenta e cinco textos bíblicos. As leituras do Antigo Testamento podem ser reduzidas em três grupos: 1°) textos que apresentam a história da salvação (a aliança original, a vocação de Abraão; o êxodo, o deserto, a história posterior de Israel); 2º) textos que proclamam a lei, e portanto, os deveres morais impostos pela aliança; 3º) os chamamentos dos profetas à conversão e ao arrependimento. As Epístolas foram escolhidas para prolongar a mensagem contida nas leituras do Antigo Testamento e mostrar sua profundidade, e para preparar a escuta do Evangelho. Os Evangelhos dos dois Primeiros Domingos, nos três anos (A,B,C), estão concentrados sempre em Cristo tentado e transfigurado; os outros três Domingos preparam mais diretamente para o batismo ou para a renovação das promessas batismais na Noite de Páscoa. O ANO A propõe textos com um forte caráter batismal (Quaresma Batismal). O ANO B propõe uma série de textos centrados no mistério da cruz gloriosa de Cristo segundo São João (Quaresma Cristocêntrica). O ANO C, com os textos de São Lucas, destaca a misericórdia de Deus com seu correspondente convite a acolhê-la (Quaresma Penitencial). 



Itinerário quaresmal 

Quem nos fala deste itinerário é o Bem-aventurado João Paulo II em sua homilia do dia 28/02/01 em Roma: “A quaresma é certamente, ao longo do ano litúrgico, um ‘tempo favorável’ para acolher com maior disponibilidade a graça de Deus. Precisamente por isto, ela é definida ‘sinal sacramental da nossa conversão’. O caminho para o qual a Quaresma nos convida realiza-se, em primeiro lugar, na oração: as comunidades cristãs devem tornar-se, na quaresma, autênticas ‘escolas de oração’. Depois, outro objetivo privilegiado é a aproximação dos fiéis ao Sacramento da Reconciliação, para que cada um possa voltar a ‘descobrir Cristo como mysterium pietatis, no qual Deus nos mostra o seu coração compassivo e nos reconcilia plenamente consigo’. A experiência da misericórdia de Deus, além disso, não pode deixar de suscitar o empenho da caridade, estimulando a comunidade cristã a ‘apostar na caridade’”. 



Quaresma e Campanha da Fraternidade 2012 

O tempo da Quaresma é tempo privilegiado na vida da Igreja. É o chamado tempo forte, de conversão e de mudança de vida. Sua palavra-chave é: "metanóia", ou seja, conversão. Nesse tempo se registram os grandes exercícios quaresmais: a prática da caridade e as obras de misericórdia. O jejum, a esmola e a oração são exercícios bíblicos de piedade, até hoje recomendáveis, na imitação da espiritualidade judaica. No Brasil, durante a Quaresma, realiza-se a Campanha da Fraternidade, com sua proposta concreta de ajuda aos irmãos, na vivência evangélica, focalizando sempre um tema da vida social. Foi aberta, na Quarta-Feira de Cinzas, a 49ª Campanha da Fraternidade (CF), cujo tema é “Fraternidade e Saúde Pública”, com o lema “Que a saúde se difunda sobre a terra”. A solenidade de abertura, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília (DF), foi dirigida pelo secretário geral da entidade, dom Leonardo Steiner, e contou com a participação do ministro da Saúde, Alexandre Padilha; do secretário executivo da CF, padre Luiz Carlos Dias, além de outros convidados. 



Quaresma: 40 dias de CONVERSÃO ao amor de Cristo! 

A Quaresma é uma oportunidade para «voltar a ser» cristãos, através de um processo constante de mudança interior e de avanço no conhecimento e no amor de Cristo. A conversão não acontece nunca de uma vez por todas, mas é um processo, um caminho interior de toda nossa vida. Certamente, este itinerário de conversão evangélica não pode limitar-se a um período particular do ano: é um caminho de todos os dias, que tem de abarcar toda a existência, cada dia de nossa vida. 

Desde este ponto de vista, para cada cristão e para todas as comunidades eclesiais, a Quaresma é a estação espiritual propícia para treinar-se com maior tenacidade na busca de Deus, abrindo o coração a Cristo. 

Santo Agostinho disse, em uma ocasião, que nossa vida é um exercício único do desejo de aproximar-nos de Deus, de ser capazes de deixar Deus entrar em nosso ser. «Toda a vida do cristão fervoroso – diz – é um santo desejo». Se isso é assim, na Quaresma somos convidados, ainda mais, a arrancar «de nossos desejos as raízes da vaidade» para educar o coração no desejo, ou seja, no amor de Deus. «Deus - diz santo Agostinho - é tudo o que desejamos» (cf. «Tract. In Iohn», 4). E esperamos que realmente comecemos a desejar Deus, e deste modo, desejar a verdadeira vida, o próprio amor e a verdade. 

É particularmente oportuna a exortação de Jesus, referida pelo evangelista Marcos: «Convertei-vos e crede na Boa Nova» (cf. Mc 1,15). O desejo sincero de Deus nos leva a rejeitar o mal e a realizar o bem. Esta conversão do coração é antes de tudo um dom gratuito de Deus, que nos criou para si e em Jesus Cristo nos redimiu: nossa felicidade consiste em permanecer n’Ele (cf. João 15,3). Por este motivo, Ele mesmo previne nosso desejo com sua graça e acompanha nossos esforços de conversão. 

Mas, o que é, na verdade, converter-se? Converter-se quer dizer buscar Deus, caminhar com Deus, seguir docilmente os ensinamentos de seu Filho Jesus Cristo; converter-se não é um esforço para realizar a si mesmo, porque o ser humano não é o arquiteto do próprio destino. Nós não criamos a nós mesmos. Por isso, a auto-realização é uma contradição e é muito pouco para nós. Temos um destino mais alto. Poderíamos dizer que a conversão consiste precisamente em não se considerar «criadores» de si mesmos, descobrindo deste modo a verdade, porque não somos autores de nós mesmos. 

Conversão consiste em aceitar livremente e com amor que dependemos totalmente de Deus, nosso verdadeiro Criador, que dependemos do amor. Isso não é dependência, mas liberdade. Converter-se significa, portanto, não perseguir o êxito pessoal, que é algo que passa, mas, abandonando toda segurança humana, seguir com simplicidade e confiança o Senhor, para que Jesus se converta para cada um, como gostava de dizer a beata Teresa de Calcutá, em «meu tudo em tudo». Quem se deixa conquistar por Ele não tem medo de perder a própria vida, porque na Cruz Ele nos amou e se entregou por nós. E precisamente, ao perder por amor nossa vida, voltamos a encontrá-la. 

A Cruz também é para nós, homens e mulheres de nossa época, que com demasiada frequência estamos distraídos pelas preocupações e os interesses terrenos e momentâneos, a revelação definitiva do amor e da misericórdia divinos. Deus é amor e seu amor é o segredo de nossa felicidade. Agora, para entrar neste mistério de amor, não há outro caminho senão o de perder-nos, entregar-nos, no caminho da Cruz. «Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me» (Mc 8,34). Por este motivo, a liturgia quaresmal, ao convidar-nos a refletir e rezar, estimula-nos a valorizar mais a penitência e o sacrifício, para rejeitar o pecado e o mal e vencer o egoísmo e a indiferença. A oração, o jejum e a penitência, as obras de caridade para os irmãos se convertem, deste modo, em caminhos espirituais que devem ser percorridos para voltar a Deus em resposta aos repetidos chamados à conversão (cf. Gl 2,12-13; Mt 6,16-18). 

O período quaresmal seja para todos uma renovada experiência do amor misericordioso de Cristo, que na Cruz derramou seu sangue por nós. Coloquemo-nos docilmente à sua escuta para aprender a «voltar a dar» seu amor ao próximo, especialmente aos que sofrem e atravessam dificuldades. Esta é a missão de todo discípulo de Cristo, mas para realizá-la é necessário permanecer na escuta de sua Palavra e alimentar-se assiduamente de seu Corpo e de seu Sangue. Que o itinerário quaresmal, que na Igreja antiga é itinerário para a iniciação cristã, para o Batismo e para a Eucaristia, seja para nós, batizados, um tempo «eucarístico», no qual participemos com maior fervor do sacrifício da Eucaristia. 

Bento XVI, 21 de fevereiro de 2007.



Pequenas notas sobre a espiritualidade quaresmal 

1) A Quaresma não é tempo negativo, como muitas vezes pensam os que vivem longe do Evangelho, mas tempo dinâmico, de renovação da vida e de volta aos valores da vida, tendo como meta definitiva o valor perene da páscoa eterna, na comunhão com o Senhor Ressuscitado. 

2) O importante, na Quaresma, não é, porém, aquilo que fazemos, mas o que deixamos Deus fazer em nós e por nós. É tempo de graça e de salvação (Cf. 2Cor 6,2), tempo, pois, de abrir espaço para Deus em nossa vida e, como consequência, abrir o coração para os nossos irmãos e irmãs. 

3) Tudo na Quaresma, como na liturgia, tem sentido simbólico. Assim, o jejum e a abstinência de carne, por exemplo, não podem reduzir-se a mera redução ou abstenção de alimento, mas tal atitude deve acenar para uma vida sóbria, diante de tantas comodidades e prazeres que o mundo moderno e consumista nos apresenta. É a afirmação do “SER”, ontológico, diante do “ter”, do “poder” e do “prazer”, como procedeu Cristo no evangelho das tentações (1º domingo da Quaresma). 

4) Faz parte da espiritualidade quaresmal, e com grande ênfase, como no passado, a tomada de consciência da fé batismal, a qual se renova na terceira parte da Vigília Pascal do Sábado Santo, como celebração solene. 

5) É preciso viver a Quaresma na espiritualidade evangélica, caminhando com Cristo rumo à Páscoa. Em outras palavras, é preciso fazer de nossa vida uma caminhada com Cristo para Jerusalém, assumindo a cruz de cada dia (Cf. Lc 9,23), para ser com ele crucificado e com ele ressuscitar no domingo da Páscoa, voltando ao seio do Pai, ao eterno “hoje” de Deus, ao “dia que não tem ocaso”. 

6) Quaresma é tempo para a conversão, para melhorar no processo de humanização pessoal e comunitário. A Quaresma coincide com a própria vida de todo crente, com o ser e missão de toda a Igreja e com a vocação da comunidade humana inteira. 

7) Quaresma é um convite a mudar aquilo que temos de mudar na busca de ser melhores e mais felizes, um convite a construir em vez de destruir e a olhar e voltar para formas de vida mais justas, mais solidárias, mais humanas. 

8) Quaresma é um convite a buscar diligentemente novas formas de ser e fazer Igreja, sendo melhores e mais autênticos discípulos do Crucificado Ressuscitado. 

9) O tempo litúrgico da Quaresma – como nossa própria existência – é percorrido com o olhar dirigido à Páscoa da Ressurreição e à Páscoa definitiva em Deus. Páscoa de vida abundante que se opõe a toda forma de discriminação e de envelhecimento do ser humano, de sua dignidade, a toda forma de atropelo e violência, a toda forma de mentira, maldade e morte, a toda forma de corrupção e divisão, a toda forma de marginalização e opressão. Porque a Páscoa, como ponto de chegada, cume e superação da Quaresma, é absoluta novidade de vida, da vida abundante que Deus nos oferece e à qual Deus nos convida neste tempo e em todo momento. 

10) A Quaresma não é um tempo muito exigente se o consideramos unicamente em termos de observâncias exteriores. As práticas penitenciais que adotemos devem ser sinal de nossa atitude de mente e coração. Cada um deve tentar estabelecer qual é a vontade de Deus para ele. Cada um deve perguntar-se em sua oração: “Senhor, que queres que eu faça?” E já que a vida proporciona circunstâncias apropriadas para a penitência, pode ser que o melhor seja aceitá-las com generosidade e paciência. 

11) Não é fácil aceitar a necessidade da conversão do coração, e este é um chamado contínuo do tempo da Quaresma: o chamado de confrontar nossa vida com as exigências do Evangelho! 

12) A conversão não necessita ser repentina e nem dramática. Pode ser gradual e imperceptível e desenvolver-se ao longo da vida. O chamado à conversão é permanente; portanto, nossa resposta deve ser contínua. 

13) Se pensamos que não temos nada que reprovar em nossa vida, convém que escutemos as terminantes palavras de São João: “Se dizemos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a Verdade não está em nós” (1Jo 1,8). 

14) A penitência, no sentido de conversão, nunca é opcional. Não pensar que pelo fato de ser quem somos – pessoas consagradas – já estamos convertidos. Nossa conversão nunca é completa e total. Sempre há pequenos espaços de nosso coração não convertidos ao Evangelho, zonas de resistência à graça de Deus; além disso, temos de lutar constantemente com nossos limites e nossas falhas. Somente Deus pode criar em nós um coração novo; e isso é certo inclusive na vida de pessoas muito piedosas, bondosas e santas. 





DOMINGOS DA QUARESMA 



Mais uma vez, no caminho de preparação para a mais importante festa do calendário cristão, a Igreja nos propõe um tempo de preparação – de penitência e de escuta da palavra, de acolhimento do plano de Deus e de atenção aos irmãos. 

Neste ano de 2012, os textos que nos serão apresentados ao longo destas cinco semanas, mostram-nos um percurso claro e definido: Deus quer oferecer-nos um mundo onde a felicidade é possível (1º domingo = Mc 1,12-15) e a sua Palavra ensina-nos o caminho (2º domingo = Mc 9,2-10), Palavra que nos chama à conversão e à renovação (3º domingo = Jo 2,13-25). Aceitar esta Palavra implica, pois, mudar de vida. Fiquemos, contudo, certos do amor de Deus, gratuito e incondicional (4º domingo = Jo 3,14-21). Quanto a nós, temos de estar atentos ao seu plano de salvação e ir ao encontro dos outros, no amor e no serviço (5º domingo = Jo 12,20-33). 

A “nova evangelização” a que a Igreja nos convida a todos nesta Quaresma impele-nos a não guardarmos este segredo do amor misericordioso de Deus e a partilhá-lo à nossa volta. 

Uma santa Quaresma para todos nós. 

Pe. Antônio Lúcio, ssp 

Retiro mensal dos Institutos Anunciatinas, Gabrielinos e Santa Família 

São Paulo, 10 de março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

Reflexões sobre a Campanha da Fraternidade

Entrevista à Sua Excelência Dom Luiz Bergonzini, bispo emérito de Guarulhos

BRASILIA, sexta-feira, 9 de março de 2012 (ZENIT.org) - No contexto da Campanha da Fraternidade Zenit entrevistou Sua Excelência Dom Luiz Bergonzini, bispo emérito de Guarulhos, perguntando-lhe sobre como se está vivendo a Campanha na sua diocese e algumas opiniões sobre a situação da saúde no Brasil.

Como o senhor está vivendo a Campanha da Fraternidade na sua diocese?

Dom Luiz Bergonzini: Com muita preocupação. O tema é saúde pública, que só pode ser proporcionada por prefeitos, governadores e presidente da república. A presidente Dilma cortou 5,4 bilhões da saúde neste ano. Temos conhecimento que há distribuição de abortivos nos postos de saúde, que há recomendação para laqueaduras e outros atentados contra a vida. A CF, infelizmente, não faz alusão ao aborto. Os políticos não dão a menor importância para a saúde do povo.

Qual é a área da saúde que, no seu ponto de vista, está sendo mais afetada no Brasil, começando pela sua diocese? 

Dom Luiz Bergonzini: O atendimento precário aos pacientes do SUS. Veja em nosso blog a notícia dos 22 casos de morte materna em BH. 21 seriam salvas se tivessem atendimento adequado. Sou superintendente do Hospital Stella Maris, que passa por dificuldades em razão dos prejuízos causados pelo SUS, que paga R$10,00 por uma consulta, sendo R$6,00 para o médicos R$4,00 para o hospital. Essa política dificulta a contratação de médicos, pois irrisória, para não dizer escandalosa, essa "remuneração". 

A estrutura da sua Igreja diocesana tem conseguido apoiar na área da saúde? Como? 

Dom Luiz Bergonzini: Fizemos uma representação ao Ministério Público e temos uma Casa da Gestante, que acolhe as gestantes em dificuldades. Além disso, tem a Pastoral da Criança e nas paróquias uma pastoral da saúde, que visita os doentes de suas regiões. 

O senhor é Vice-presidente da irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Guarulhos. O que é uma Santa Casa? Qual é a diferença de uma Santa Casa para um hospital particular, ou para um hospital público?

Dom Luiz Bergonzini: As Santas Casas são centros de atendimento médico geralmente dirigidos por religiosas ou por pessoas misericordiosas, muitas vezes com recursos de doações das pessoas da cidade. Geralmente, não cobram dos pacientes. O Hospital particular cobra dos pacientes todos os atendimentos. O Hospital público tem os seus custos cobertos com o dinheiro do povo, muito embora esses atendimentos sejam muito precários. 

Na sua opinião, qual deveria ser a atitude de um católico nessa Campanha? 

Dom Luiz Bergonzini: Nós, católicos, devemos cobrar dos prefeitos, dos governadores e da presidente da república a destinação de mais verbas para a saúde, para aparelhar os hospitais, as santas casas adequadamente e remunerar dignamente os funcionários e médicos.

Por Thácio Siqueira

domingo, 11 de março de 2012

3º DOMINGO DA QUARESMA



Leituras: Ex 20,1-17 ou Ex 20,1-3.8-8.12-17; Sl 18(19b), 8.9.10.11 (r/. Jo 6,68c); 1Cor 1,22-25; Jo 2,13-25

O coração não é uma Praça mas um Templo

"Naqueles dias, Deus pronunciou todas estas palavras, dizendo: “Eu sou Iahweh teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim (...).

Jo 2,13-25

"Estando próxima a Páscoa dos judeus, Jesus subiu a Jerusalém. No Templo, encontrou os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados. Tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do Templo, com as ovelhas e com os bois; lançou ao chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas e disse aos que vendiam pombas: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio”. Recordaram seus discípulos do que está escrito: “O zelo por tua casa me devorará”.

Os Judeus interpelaram-no, então, dizendo: “Que sinal nos mostras para agires assim?”. Disseram-lhe, então, os judeus: “Quarenta e seis anos foram precisos para se construir este Templo, e tu o levantarás em três dias?". Ele, porém, falava do templo do seu corpo. Assim, quando ele ressuscitou dos mortos seus discípulos lembraram-se de que dissera isso, e creram na Escritura e na palavra dita por Jesus".

Bento XVI, comentando o Evangelho de hoje, escreveu: "Na purificação do templo, Jesus agia em harmonia com a lei, evitando um abuso do templo ... a sua reivindicação era mais profunda porque com o seu agir queria dar cumprimento à Lei e aos Profetas"(Jesus de Nazaré, segunda parte, p. 23s).

Sublinhando a ideia do cumprimento da Lei, o Papa quer dizer que cada um dos dez mandamentos (Êxodo 20,1-17), consiste basicamente numa modalidade particular do mandamento do amor. Portanto: cumprimento como plenitude de significado e de observação perfeita, como afirma também Paulo: “A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a plenitude da Lei” (Rom 13,10).

E eis aqui, de forma coerente, a conclusão de Bento XVI: "Jesus não vem como destruidor; não vem com a espada do revolucionário. Vem com o dom da cura. Dedica-se à todos aqueles que, por causa dos seus males são empurrados para as margens da vida e para as margens da sociedade. Ele mostra Deus como Aquele que ama, e o seu poder como o poder do amor "(idem., p. 34).

Entendemos, portanto, que o zelo que devora o coração de Jesus é a urgência irreprimível do amor, irresistível e transformador como o fogo.

Tinha profeticamente anunciado, alguns séculos antes, o profeta Isaías com estas palavras: "Em Sião os pecadores ficaram apavorados: o tremor se apoderou dos ímpios. Quem dentre nós poderá permanecer junto ao fogo devorador? Quem dentre nós poderá manter-se junto aos braseiros eternos?"(Isaías 33,14-16).

Se esta pergunta retórica pode historicamente fazer pensar na inação dos ‘homens do templo’ (guardas e soldados) que não intervieram em Jerusalém para parar com o gesto do Senhor, ela nos orienta hoje na reflexão sobre os "homens do templo" de hoje, sacerdotes e leigos.

Começamos do catecismo.

Todo cristão batizado sabe, ou deveria saber, quem é Aquele cuja ardente Presença eucarística na "casa do Pai" (a igreja) é indicada apenas por uma fina chama, símbolo da "chama de fogo", revelada a Moisés (Êx 3,2).

Ele também sabe que o Senhor Jesus, vivo e presente dia e noite na tenda fixa do tarbernáculo, não renunciou de ser o companheiro, o amigo dos nossos passos, como o foi com os Israelitas, no tempo do êxodo, no deserto.

Instituindo o Batismo, de fato, Deus manifestou a sua vontade de habitar no mesmo coração do homem, como íntima e sagrada “tenda do encontro” onde pode dialogar com Ele.

Somos assim levados de volta para o Evangelho de hoje, que é também o Evangelho da verdade do templo, seja aquele material das nossas igrejas, seja aquele constituído pela pessoa batizada, "Templo do Espírito santo" (1 Cor 6, 19).

E a verdade é esta: o coração do homem não foi criado para ser uma "Praça" pagã, um movimentado mercado de confusão moral e espiritual, mas para ser o sagrado lar, o Templo do Deus vivente. Se em Jerusalém, há dois mil anos, a intenção fundamental da ‘purificação’ feita por Jesus foi aquela de eliminar da praça "o que é contrário ao comum conhecimento e adoração de Deus, (Bento XVI, id.), hoje é o nosso coração que necessita radicalmente da purificação da Palavra de Deus.

Para este fim, por conseguinte, é necessário em primeiro lugar fazer silêncio, dado que:

"Os distúrbios, a escuridão cultural e religiosa que dominam a terra são compostos principalmente do não escutar à Deus, do não acolher a vida que é o Verbo encarnado, aquele que ilumina todo o homem. A sociedade, como tal, rejeita a idéia de um Criador, de um Senhor que nos ama, e pretende organizar a própria vida deixando-o de lado. É a desordem cultural principal do nosso tempo, que resulta em desordem social, injustiças, fome, miséria, perseguições, exploração "(C.M. Martini, Il caso serio della fede, p.88s, tradução minha).

Só no silêncio poderá ser acolhido o feliz e sempre novo anúncio do Evangelho: Deus não está distante, o homem não é uma Praça, o templo do seu coração foi definitivamente purificado e salvo pelo “Templo do corpo de Cristo” (Jo 2 , 21), e a Glória de Deus não se desviará dele nunca mais, apesar da abominação dos ídolos, que ainda se encontra nele. Jesus não é Deus contra nós, mas Deus conosco!

Devora-o um tal zelo de amor pessoal que cada um pode exclamar espantado: Me amou e se entregou por mim" (Gal 2,20).

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* Padre Angelo del Favero, cardiologista, em 1978, co-fundou um dos primeiros Centros de Ajuda à Vida em torno do Duomo de Trento, Itália. Tornou-se carmelita em 1987. Foi ordenado sacerdote em 1991 e foi conselheiro espiritual no santuário de Tombetta, perto de Verona. Atualmente dedica-se à espiritualidade da vida no convento Carmelita de Bolzano, junto à paróquia Nossa Senhora do Monte Carmelo.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A amizade de Deus



Do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo
(Lib. 4,13,4-14,1: Sch 100, 534-540) 
(Séc. II)


Nosso Senhor, o Verbo de Deus, que primeiro atraiu os homens para serem servos de Deus, libertou em seguida os que lhe estavam submissos, como ele próprio disse a seusdiscípulos: Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai (Jo 15,15). A amizade de Deus concede a imortalidade aos que a obtém.

No princípio, Deus formou Adão, não porque tivesse necessidade do homem, mas para ter alguém que pudesse receber os seus benefícios. De fato, não só antes de Adão, mas antes da criação, o Verbo glorificava seu Pai, permanecendo nele, e era também glorificado pelo Pai, como ele mesmo declara: Pai, glorifica-me com a glória que eu tinha junto de ti antes que o mundo existisse (Jo 17,5).

Não foi também por necessitar do nosso serviço que Deus nos mandou segui-lo, mas para dar-nos a salvação. Pois seguir o Salvador é participar da salvação, e seguir a luz é receber a luz.

Quando os homens estão na luz, não são eles que a iluminam, mas são iluminados e tornam-se resplandecentes por ela. Nada lhe proporcionam, mas dela recebem o benefício e a iluminação.

Do mesmo modo, o serviço que prestamos a Deus nada acrescenta a Deus, porque ele não precisa do serviço dos homens. Mas aos que o seguem e servem, Deus concede a vida, a incorruptibilidade e a glória eterna. Ele dá seus benefícios aos que o servem precisamente porque o servem e aos que o seguem precisamente porque o seguem; mas não recebe deles nenhum benefício, porque é rico, perfeito e de nada precisa.

Se Deus requer o serviço dos homens é porque, sendo bom e misericordioso, deseja conceder os seus dons aos que perseveram no seu serviço. Com efeito, Deus de nada precisa, pias o homem é que precisa da comunhão com Deus.

É esta, pois, a glória do homem: perseverar e permanecer no serviço de Deus. Por esse motivo dizia o Senhor a seus discípulos: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15,16), dando assim a entender que não eram eles que o glorificavam seguindo-o, mas, por terem seguido o Filho de Deus, eram por ele glorificados. E disse ainda: Quero que estejam comigo onde eu estiver, para que eles contemplem a minha glória (Jo 17,24).

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A oração é a luz da alma



Das Homílias do Pseudo-Crisóstomo

(Supp., Hom. 6 de precatione: PG 64,462-466)

(Séc. IV)


A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem inter­rupção.

Com efeito, não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas - como o cuidado dos pobres, as obras úteis de misericórdia ou quaisquer outros serviços do próximo - é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas as nossas obras, tempe­radas com o sal do amor de Deus, se tornarão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível.

A oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus, a mediadora entre Deus e os homens. Pela oração a alma se eleva até aos céus e une-se ao Senhor num abraço inefável; como uma criança que, chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível.

A oração é venerável mensageira que nos leva à presen­ça de Deus, alegra a alma e tranqüiliza o coração. Não penses que essa oração se reduza a palavras. Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não provém dos homens, mas é efeito da graça divina, como diz o Apóstolo: Nós não sabemos o que devemos pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis (Rm 8,26).

Semelhante oração, quando o Senhor a concede a al­guém, é uma riqueza que não lhe pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma. Quem a experimentou inflama-se do desejo eterno de Deus, como que de um fogo devorador quê abrasa o coração.

Praticando-a em sua pureza original, adorna tua casa de modéstia e humildade, torna-a resplandecente com a luz da justiça. Enfeita-se com boas obras, quais plaquetas de ouro, ornamenta-se de fé e de magnanimidade em vez de paredes e mosaicos. Como cúpula e coroamento de todo o edifício, coloca a oração. Assim prepararás para o Senhor uma digna morada, assim terás um esplêndido palácio real para o receber, e poderás tê-lo contigo na tua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo da sua presença.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A purificação espiritual por meio do jejum e da misericórdia



Dos Sermões de São Leão Magno, papa

(Sermo 6 de Quadragesima, 1-2: PL 54,285-287)

(Séc. V)


Em todo tempo, amados filhos, a terra está repleta da misericórdia do Senhor (SI 32,5). À própria natureza é para todo fiel uma lição que o ensina a louvar a Deus, pois o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe proclamam a bondade e a onipotência de seu Criador; e a admirável beleza dos elementos postos a nosso serviço requer da criatura racional uma justa ação de graças.

O retorno, porém, desses dias.que os mistérios da salva­ção humana marcaram de modo mais especial e que prece­dem imediatamente a festa da Páscoa, exige que nos prepa­remos com maior cuidado por meio de uma purificação espiritual.

Na verdade, é próprio da solenidade pascal que a Igreja inteira se alegre com o perdão dos pecados. Não é apenas nos que renascem pelo santo batismo que ele se realiza, mas também naqueles que desde há muito são contados entre os filhos adotivos.

É, sem dúvida, o banho da regeneração que nos torna criaturas novas; mas todos têm necessidade de se renovar a cada dia para evitarmos a ferrugem inerente à nossa condi­ção mortal, e não há ninguém que não deva se esforçar para progredir no caminho da perfeição; por isso, todos sem exceção, devemos empenhar-nos para que, no dia da reden­ção, pessoa alguma seja ainda encontrada nos vícios do passado.

Por conseguinte, amados filhos, aquilo que cada cristão deve praticar em todo tempo, deve praticá-lo agora com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzin­do os alimentos, mas sobretudo abstendo-se do pecado.

A estes santos e razoáveis jejuns, nada virá juntar-se com maior proveito do que as esmolas. Sob o nome de obras de misericórdia, incluem-se muitas e louváveis ações de bondade; graças a elas, todos os fiéis podem manifestar igualmente os seus sentimentos, por mais diversos que se­jam os recursos de cada um.

Se verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, nenhum obstáculo impedirá nossa boa vontade. Quando os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14), proclamavam bem-aventurado, não só pela virtude da benevolência mas tam­bém pelo dom da paz, todo aquele que, por amor, se com­padece do sofrimento alheio.

São inúmeras as obras de misericórdia, o que permite aos verdadeiros cristãos tomar parte na distribuição de es­molas, sejam eles ricos, possuidores de grandes bens, ou pobres, sem muitos recursos. Apesar de nem todos poderem ser iguais na possibilidade de dar, todos podem sê-lo na boa vontade que manifestam.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2012



"Prestemos atenção uns aos outros, 
para nos estimularmos ao amor e às boas obras" 
(Hb 10,24)

Irmãos e irmãs! 

A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito, este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal. 

Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10,24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal. 

1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão 

O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12,24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6,41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3,1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4,9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o fato de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66). 

A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118,68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16,19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29,7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5,4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança. 

O fato de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje se é muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9,8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18,15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5,11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6,1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24,16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1,8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22,61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós. 

2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade 

O fato de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14,19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15,2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1Cor 10,33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã. 

Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1Cor 12,25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e onipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5,16). 

3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade 

Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1Cor 12,31 – 13,13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4,18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras. 

Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12,21; 1Tm 6,18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12,10). 

Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6,10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica. 

Vaticano, 3 de Novembro de 2011

LEITURA ORANTE: A perda é salvação

Quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. Preparo-me para a Leitura Orante, rezando com todos os que, nesta rede da...