quarta-feira, 13 de junho de 2012

A Eucaristia: Sacramento da aproximação de Deus



JOÃO PAULO II

30ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 13 de Junho de 1979

1. «Pange, lingua, gloriosi / Corporis mysterium / Sanguinisque pretiosi ...» (São Tomás, Hino nas I Vésp. da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo).

Eis que se aproxima o dia, e praticamente já teve início, em que a Igreja falará, mediante a sua solene liturgia, em veneração deste mistério, de que ela vive todos os dias: a Eucaristia.Gloriosi Corporis mysterium. Sanguinisque pretiosi. O fundamento e, ao mesmo tempo, o ápice (Cfr. Const. sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium, 10). da vida da Igreja. A sua festa incessante e, ao mesmo tempo, a sua «santa quotidianidade».

Todos os anos a Quinta-Feira Santa, o início do Tríduo Sacro, reúne-os no cenáculo, onde celebramos a Memória da Última Ceia. E seria precisamente este, o dia mais adequado para meditar com veneração em tudo aquilo que para a Igreja constitui a Eucaristia, o Sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor. Manifestou-se porém, no decurso da história, que este dia mais adequado, único, não basta. Está, além disso, inserido organicamente no conjunto da Recordação pascal; toda a Paixão, a Morte e a Ressurreição ocupam então os nossos pensamentos e os nossos corações. Não podemos, por conseguinte, dizer da Eucaristia tudo aquilo de que estão repletos os nossos corações. Assim, desde a Idade Média, precisamente desde 1264, a necessidade da oração ao mesmo tempo litúrgica e pública do Santíssimo Sacramento, encontrou a sua expressão numa solenidade à parte, que a Igreja celebra na primeira quinta-feira depois do domingo da Santíssima Trindade, isto é, precisamente amanhã, começando com as vésperas do dia anterior, ou seja hoje. Desejo que esta meditação nos introduza na plena atmosfera da festa eucarística.

2. «Non est alia natio tam grandis, quae habeat deos appropinquantes sibi, sicut Deus noster adest nobis»: Não há outra nação tão grande que tenha a Divindade tão perto, quanto nós temos presente o nosso Deus» (São Tomás, Officium SS. Corporis Christi, II Nocturni; cfr. Opuscúlo 57).

Pode falar-se em diversos modos da Eucaristia. Em diversos modos já se falou dela no curso da história. É difícil dizer alguma coisa que não tenha sido já dita. E ao mesmo tempo, seja o que for que se diga, qualquer que seja a parte donde nos aproximemos deste grande Mistério da fé e da vida da Igreja, descobrimos sempre alguma coisa de novo. Não porque as nossas palavras revelem esta novidade. Ela encontra-se no mistério mesmo. Cada tentativa de viver com Ela no espírito da fé, traz consigo nova luz, nova admiração e nova alegria.

«E maravilhando-se disto, o filho do trovão, considerando a sublimidade do amor divino (...), exclamava: 'Deus amou de tal modo o mundo' (Jo. 3, 16) (...). Diz-nos, pois, ó bem-aventurado João, qual o sentido de tal modo? Diz-nos a medida, diz-nos a grandeza, ensina-nos a sublimidade. Deus amou de tal modo o mundo ...» (São João Crisóstomo, In cap. Genes. VIIIHomilia XXVII, 1; Opera omnia (Migne), 4, 241).

A Eucaristia aproxima-nos de Deus de modo estupendo. E é Sacramento da vizinhança d'Ele em relação ao homem. Deus, na Eucaristia, é precisamente este Deus que desejou entrar na história do homem. Quis aceitar a humanidade mesma. Quis fazer-se homem. O Sacramento do Corpo e do Sangue recorda-nos continuamente a Sua Divina Humanidade.

Cantamos «Ave, verum corpus, natum ex Maria Virgine». E vivendo com a Eucaristia, encontramos de novo toda a simplicidade e profundidade do mistério da Encarnação.

É o Sacramento da descida de Deus até ao homem, da aproximação de tudo o que é humano. É o Sacramento da divina «condescendência» (Cfr. São João Crisóstomo, In Genes. 3, 8; HomiliaXXVII, 1; PG 53, 134). A divina entrada na realidade humana atingiu o próprio auge mediante a paixão e a morte. Mediante a paixão e a morte na Cruz, o Filho de Deus Encarnado tornou-se, de maneira particularmente radical, o Filho do Homem, participou até ao fundo no que é a condição de cada homem. A Eucaristia, Sacramento do Corpo e do Sangue, recorda-nos sobretudo esta morte, que sofreu Cristo na cruz; recorda-a e renova em certo modo, isto é, de modo incruento, a sua realidade histórica. Testemunham-no as palavras pronunciadas no cenáculo sobre o pão e o vinho separadamente, as palavras que, na instituição de Cristo, realizam o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue; o Sacramento da morte, que foi sacrifício expiatório. O Sacramento da morte, em que se exprimiu todo o poder do amor. O Sacramento da morte, que esteve em dar a vida para reconquistar a plenitude da vida.

«Manduca vitam, bibe vitam: habebis vitam, et integra est vita» (come a vida, bebe a vida: terás a vida, e é a vida total) (Santo Agostinho, Sermones ad populum, Series I, Sermo CXXXI, I, 1).

Mediante este Sacramento é continuamente anunciada, na história do homem, a morte que dá a vida (Cfr. 1 Cor. 11, 26).

Continuamente se realiza naquele sinal simplicíssimo, que é o sinal constituído pelo Pão e o Vinho. Deus está nele presente e perto do homem com aquela penetrante vizinhança da sua morte na cruz, da qual brotou o poder da Ressurreição. O homem, mediante a Eucaristia, torna-se participante deste poder.

3. A Eucaristia é Sacramento da Comunhão. Cristo dá-se a si mesmo a cada um de nós, que O recebemos sob as espécies eucarísticas. Dá-se a si mesmo a cada um de nós, que comemos o Alimento eucarístico e bebemos a eucaristia Bebida. Este amor é sinal da Comunhão. É sinal da união espiritual, em que o homem recebe Cristo, é-lhe oferecida a participação no Seu Espírito, encontra n'Ele, particularmente íntima, a relação com o Pai; sente particularmente íntima a relação com o Pai; sente particularmente próximo o acesso a Ele.

Diz um grande poeta (Mickiewicz, Colóquios da tarde):

«Contigo falo eu, que reinas no céu e ao mesmo tempo és hóspede / na casa do meu espírito ... / Contigo falo eu! as palavras faltam-me para Ti; / o Teu pensamento escuta cada pensamento meu; / reinas longe e serves perto, / Rei nos céus e no meu coração na cruz ...».

Aproximamo-nos, de facto, da Comunhão eucarística rezando antes o «Pai nosso».

A Comunhão é laço bilateral. Convém-nos portanto dizer que não só recebemos nós a Cristo, não só cada um de nós O recebe neste sinal eucarístico, mas dizer também que recebe Cristo a cada um de nós. Ele aceita sempre, por assim dizer, o homem neste Sacramento, torna-o seu amigo, assim como disse no cenáculo: Vós sois meus amigos (Jo. 15, 14). Este acolhimento e a aceitação do homem por parte de Cristo é benefício inaudito. O homem sente profundissimamente o desejo de ser aceite,. Toda a vida do homem se orienta nesta direcção, para ser acolhido e aceite por Deus; e isto exprime-o sacramentalmente a Eucaristia. Todavia o homem deve, como diz São Paulo, examinar-se a si mesmo (Cfr. 1 Cor. 11, 26), se é digno de ser aceite por Cristo. A Eucaristia é, em certo sentido, um desafio constante para o homem procurar ser aceite, para adaptar a sua consciência às exigências da santíssima Amizade divina.

4. Desejamos exprimir, no quadro desta solenidade de hoje, como também no próximo domingo e em cada dia, esta particular e pública veneração e amor, com que rodeamos sempre o Santíssimo Sacramento. Permiti que, neste momento, os meus pensamentos voltem, uma vez mais, à Polónia, donde voltei há poucos dias. Foram dias aqueles, de especial peregrinação pela terra em que nasci e fui educado entre os homens, a que não deixo de estar ligado com os laços mais profundos da fé, da esperança e da caridade. Desejo, uma vez mais, agradecer cordialissimamente a todos os meus Compatriotas. Agradeço às Autoridades estatais; agradeço aos meus Irmãos no Episcopado; agradeço a todos.

Pois, lá precisamente, na minha terra natal, aprendi a fervorosa veneração e o amor da Eucaristia. Lá aprendi o culto ao Corpo do Senhor. Na festa do «Corpus Domini» realizam-se de há séculos as procissões eucarísticas, em que os meus Compatriotas procuravam exprimir comunitária e publicamente o que representa para eles a Eucaristia. E também hoje o fazem. Uno-me pois espiritualmente a eles, quando pela primeira vez tenho a alegria de celebrar a solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo aqui, na Cidade Eterna, na qual Pedro, de geração em geração, responde em certo modo a Cristo: Senhor ..., tu sabes que te amo ... Senhor, tu sabes que te amo (Jo. 21, 15-17). A Eucaristia é, em certo modo, o ponto culminante desta resposta. Desejo repeti-la, juntamente com toda a Igreja, Àquele que manifestou o seu amor mediante o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, permanecendo connosco até ao fim do mundo (Mt. 28, 20).

***

Saudações

Aos Missionários do Burundi

Não posso ocultar-vos, irmãos e irmãs caríssimos, o sentimento de aguda e profunda dor que sentiu o meu coração ao receber as graves noticias das expulsões de 70 missionários da República do Burundi, que se deram na semana passada enquanto eu estava na Polónia. São sacerdotes, religiosos e leigos, de instituições e iniciativas missionárias, conhecidas e estimadas pelo zelo de evangelização no mundo inteiro. A minha solidariedade vai, antes de tudo, para as comunidades católicas das dioceses, e em primeiro lugar para os seus Pastores, privados dum momento para o outro de auxílios válidos e qualificados em vários sectores da vida pastoral, da formação do clero, de escolas e obras de caridade e de promoção humana; o meu pensamento afectuoso vai para esses missionários arrebatados à vinha do Senhor a que se tinham dedicado. Do mesmo modo, fico profundamente entristecido com o pensamento de que a Igreja — universal na sua missão e na solicitude para com todos os povos, e que, mesmo entre dificuldades, não pode deixar de "sentir-se de casa" em qualquer País do mundo (o Burundi, além disso, tem número importante de população católica) — não teve tempo de examinar em que ponto cada um pode ter faltado — se faltou à lealdade e ao respeito que a nossa missão religiosa requer e que em toda a parte observamos para com Autoridades e instituições civis. Se acontece que alguém erre no seu comportamento, penso que a Autoridade da Igreja tem motivo para esperar confiança por parte da Autoridade civil, especialmente quando mantém com esta relações oficiais. A Igreja deu prova de espírito de colaboração e saberá, se necessário, intervir e corrigir, enquanto por seu lado Ela não pode deixar de confiar no espírito de compreensão e diálogo das autoridades civis.

Filhos caríssimos, rezai comigo para que à Igreja no Burundi seja conservado o auxílio espiritual dos Missionários, a ferida possa curar-se e o diálogo se retome e continue para vantagem da comunidade católica e de toda a Nação burundense a mim tão querida.

Aos Doentinhos

Dirijo a minha habitual e afectuosa saudação a Vós, caríssimos enfermos, participantes na Audiência Geral de hoje.

Neste mês de Junho, consagrado ao Sagrado Coração de Jesus, é para mim natural e agradável exortar-vos a que dirijais o vosso ânimo, as vossas esperanças e as vossas orações a esse Coração "que tanto amou os homens" e continua a amá-los com o seu duplo amor, divino e humano, sobretudo aqueles que têm maiores tribulações, lágrimas e dores.

Do Coração de Cristo, "cheio de bondade e amor", podereis vós receber apoio e conforto para o vosso sofrimento, paz para o vosso espírito e mérito para todas as vossas penas.

Aos jovens Casais

Também a Vós, caríssimos Jovens Casais, ao mesmo tempo que transmito a expressão da minha cordial e augural saudação e do meu intenso gosto pela vossa agradável presença, dirijo a paternal exortação a que tenhais sempre fixo o vosso olhar no Sagrado Coração de Jesus, "rei e centro de todos os corações".

D'Ele aprendereis as grandes lições do amor, da bondade, do sacrifício e da piedade, tão necessárias a todo o lar cristão.

D'Ele recebereis força, serenidade, alegria autêntica e profunda para a vossa vida conjugal. Atraireis a Sua bênção se a Sua imagem, além de estar impressa nas vossas almas, estiver sempre exposta e honrada entre as vossas paredes domésticas.

À juventude

Desejo agora dirigir uma saudação especial aos rapazes e aos jovens que estão no meio de vós. Eles, como são objecto de amor para os seus pais, assim o são para o Papa. E como são levados por natureza a procurar e amar a verdade sem ficções, eu exorto-os vivamente a uma busca sempre profunda e amorosa de Jesus "Caminho, Verdade e Vida", e a abraçarem com entusiasmo a Sua mensagem. Com a minha afectuosa Bênção.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A IGREJA NO BRASIL, SEMPRE MAIS COMUNICATIVA - 3º ENCONTRO NACIONAL DA PASCOM (PRIMEIRA PARTE)



Entrevista com Ir. Élide Fogolari, assessora da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB

BRASÍLIA, terça-feira, 06 de março de 2012 (ZENIT.org)- “Identidade e Missão” é o tema do 3º Encontro Nacional da Pascom (pastoral da comunicação) que se realizará em Aparecida do Norte dos dias 19 a 22 de Julho desse ano. O evento é promovido pela CNBB e contará com a presença de ilustres comunicadores. 

Entre os muitos temas a serem tratados destacamos principalmente: O que é a Pastoral da Comunicação e como se organiza, webjornalismo, Redes sociais, Crimes na Internet, RIIBRA (rede de informática da Igreja no Brasil) e Linguagem específica da Web Rádio.

Sua Eminência, o Cardeal Dom Raymundo Damasceno Assis, presidente da CNBB, presidirá a missa de clausura do evento no dia 22.

É um evento para “todas as pessoas que fazem comunicação católica no Brasil e que desejam aprimorar o ser e o fazer evangelização através da comunicação”, afirma a irmã Élide Fogolari, religiosa Paulina, assessora da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB.

Na tarde de ontem, Zenit pôde entrevistar brevemente a irmã Élide na sede da CNBB em Brasília para que ela nos informasse um pouco mais sobre o significado e a importância da pastoral da Comunicação e do 3º Pascom para a Igreja do Brasil.

Para obter maiores informações sobre o 3º Pascom, ver a programação completa, palestrantes, hospedagem e inscrição acesse o site da CNBB www.cnbb.org.br ou o blog do encontrowww.encontropascombrasil.blogspot.com. 

Publicamos hoje a primeira parte da entrevista.

O que é a Pastoral da Comunicação (Pascom)?

Ir. Élide Fogolari: Veja bem, a Pastoral da Comunicação parece ser uma outra dimensão da comunicação. Mas, a melhor definição é: a comunicação na Igreja é denominada pastoral. Porque toda ação comunicativa da Igreja sempre tem a intenção de evangelizar, de anunciar a boa nova de Jesus Cristo a todos, etc. Isso vai dar sentido à pastoral. Então, toda comunicação na Igreja é denominada Pastoral da Comunicação.

Como nasceu a Pascom na CNBB?

Ir. Élide Fogolari: Há uns 30 anos atrás, quando a CNBB veio para Brasília, um grupo de bispos com Dom Eugênio Sales deram início a uma estruturação da comunicação aqui na CNBB. E ali foram se desdobrando todas as atividades da comunicação, inclusive a pastoral da comunicação.

Dos dias 19 a 22 de Julho desse ano se terá em Aparecida o 3º Encontro Nacional da PASCOM. Qual é a contribuição que esse evento dará para um comunicador católico?

Ir. Élide Fogolari: Contribui de vários modos. Primeiro o sentido do lugar onde está sediado o evento, que é um sentido bastante pastoral, motivador. Eu sempre digo que é aos pés de Maria que nós vamos aprender a ser comunicadores como ela foi e continua sendo, dando Jesus ao mundo.

Em segundo lugar ou como segunda motivação é convocar todas as pessoas que trabalham com a comunicação da Igreja no Brasil, sejam eles profissionais, sejam eles amadores, sejam pessoas não comprometidas ou pessoas que desejam se comprometer. Para que? Para que essas pessoas durante esses dias através de seminários, oficinas e mesas redondas possam discutir a comunicação nos seus vários aspectos; seja ela impressa, seja ela visual... Um outro momento é dar a oportunidade da troca de experiências que se realizam na Igreja do Brasil. E é por isso que estamos realizando esse 3º PASCOM, pois se percebe esse resultado: as pessoas se animam, se entusiasmam, se motivam e querem isso.

Então não será restrito só para os comunicadores profissionais?

Ir. Élide Fogolari: Não. Se reunirão os profissionais, os especialistas da comunicação que trabalham com a comunicação, e também estarão aquelas pessoas que estão na prática, mas que não tem tanta formação. E eles vão lá porque é uma troca de experiência, e é isso que os motiva a ir.

E os bispos estão enviando seus leigos?

Ir. Élide Fogolari: Os bispos estão muito interessados em enviar seus leigos, porque eles percebem que essas pessoas, quando regressam para as suas dioceses, desde o primeiro Pascom até esse terceiro, contribuem muito porque percebem que vale a pena trabalhar com a comunicação. E isso porque não é só para anunciar o Reino de Deus, mas também para construir uma sociedade mais humana, mais justa e fraterna.

Então, o PASCOM não quer só contribuir para a comunicação da Igreja no Brasil, mas também quer contribuir para a comunicação do Brasil?

Ir. Élide Fogolari: Sim. Queremos que também a comunicação institucional possa usufruir do Pascom. As pessoas vão perceber que vão para esse encontro, não somente para que depois estejam continuando na comunicação em quanto anunciar a Boa Nova. Mas, voltando, eles motivam também os profissionais que estão nas suas cidades a se engajarem numa comunicação que seja mais justa, mais digna, numa comunicação que é um direito nosso, na verdade, na justiça, no social.

Por Thácio siqueira

segunda-feira, 11 de junho de 2012

São Barnabé, Apóstolo



São Barnabé segundo fontes antigas nos referem que Barnabé, chamado apóstolo pelos próprios Atos, embora não pertencesse aos Doze, teria sido um dos setenta discípulos de que fala o Evangelho. Como São Paulo Apóstolo, foi discípulo de Gamaliel: "José a quem os apóstolos haviam dado o cognome de Barnabé, que quer dizer "filho da consolação ", era um levita originário de Chipre. Sendo proprietário de um campo, vendeu-o e trouxe o dinheiro, depositando-o aos pés dos apóstolos" (At 4.36-37).

Foi a figura de primeira grandeza na fervorosa comunidade cristã, que floresceu em Jerusalém após o dia de Pentecostes. Barnabé era muito considerado entre os Apóstolos, que o escolheram para a evangelização de Antioquia. É o homem das felizes intuições.Em Antioquia percebeu que aquele era o terreno preparado para receber a palavra de Deus. Foi a Jerusalém relatar isso e pedir para levar consigo o recém-convertido Saulo. Começou assim a extraordinária dupla.

Saulo que desde então preferia ser chamado com o nome romano de Paulo e Barnabé, contentes por terem aberto o caminho para o anúncio do Evangelho entre os pagãos, partiram para outras incumbências. Começaram por Chipre, pátria de Barnabé, que havia levado consigo o jovem primo João Marcos, o futuro evangelista. Depois continuaram seguindo a mais arriscada viagem missionária, Paulo achou melhor separar-se de Barnabé, que ficou em Chipre. Paulo e Barnabé, duas personalidades diferentes, que se completavam reciprocamente.

Não temos notícias dele depois da separação de Paulo. Escritos apócrifos falam de uma viagem sua a Roma e do seu martírio acontecido mais ou menos no ano 70, em Salamina, pelas mãos dos judeus da diáspora, que o teriam apedrejado.

domingo, 10 de junho de 2012

10º DOMINGO DO TEMPO COMUM


Leituras: Gn 3,9-15; Sl 129(130),1-2.3-4ab.4c-6.7-8 (R/.7); 2Cor 4,3-18-5,1; Mc 3,20-35

Tive a curiosidade de contar quantas vezes aparece o verbo dizer no evangelho de hoje. Conte para você ver. Parece que o evangelista quer salientar aqui o que o povo anda dizendo de Jesus. Jesus toma posição e funda uma nova família. 

1. O QUE ANDAM DIZENDO OS PARENTES DE JESUS? 

A “casa” de Jesus anda cercada de carentes, aleijados, doentes etc. É nesse meio que Jesus se sente “em casa”. Mas os parentes de Jesus não o compreendem, não conseguem entender sua ação libertadora. Eles diziam que Jesus estava fora de si, e queriam agarrá-lo, ou seja, impedir a realização de seu projeto libertador. 

2. O QUE ANDAM DIZENDO OS DOUTORES DA LEI? 

Eles vinham de Jerusalém, centro da oposição ao projeto de Jesus. Eles diziam que Jesus está possuído por Beelzebu e que é pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios. Duas fortes acusações a Jesus, a de seus parentes carnais e a de sua família religiosa. 

3. JESUS RESPONDE COM TRÊS IMAGENS 

Nas duas primeiras, ele diz que o reino, ou a família de Satanás, não pode brigar contra si mesma, pois assim ela seria destruída. A 3ª é a do assalto à casa. É Jesus que é o homem forte, que amarra Satanás e rouba-lhe os seus bens. Satanás é o chefe supremo dos demônios. Os bens de Satanás são as pessoas oprimidas, despersonalizadas e marginalizadas pelo sistema social, político e religioso da época. Na verdade, estas pessoas foram aprisionadas por Satanás e Jesus vem libertá-los. 

4. O PECADO CONTRA O ESPÍRITO SANTO 

É o pecado de não aceitar que é o Espírito Santo quem atua em Jesus. É não aceitar sua libertação física e espiritual através da doação de sua vida e do perdão. É fechar-se em si mesmo e não querer ser perdoado por Jesus. É não acreditar na força e no poder de Jesus. 

5. A NOVA FAMÍLIA DE JESUS 

Jesus rejeita aqueles que querem estar ligados a ele apenas pelo parentesco de sangue, ou de nacionalidade ou de religião. Ele funda uma nova família, constituída daqueles que estão AO REDOR DELE, daqueles que têm a coragem de passar DO LADO DE FORA para o LADO DE DENTRO, ou seja, para dentro do seu projeto libertador dos pobres e oprimidos. É essa a vontade de Deus, e só quem se dispõe a fazer a vontade de Deus é que faz parte da nova família de Jesus. Será que todos os que frequentam a Igreja fazem parte da nova família de Jesus?


Dom Emanuel Messias de Oliveira
Bispo Diocesano de Caratinga

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A nossa solidariedade com Cristo que sofre



PAPA JOÃO PAULO II

22ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 11 de Abril de 1979

1. Durante a Quaresma, a Igreja, referindo-se às palavras de Cristo, ao que ensinaram os profetas do Antigo Testamento, e à própria tradição de séculos, exorta-nos a uma especial solidariedade com todos quantos sofrem e experimentam dalgum modo a pobreza, a miséria, a injustiça e a perseguição. Disso falámos na quarta-feira passada, continuando as nossas reflexões quaresmais sobre o actual significado da penitência que se exprime por meio da oração, do jejum e da esmola. A exortação à solidariedade, em nome de Cristo, com todas as tribulações e as necessidades dos nossos irmãos, e não apenas com aqueles que entram no raio do nosso olhar e da nossa mão, mas com todos, mesmo com os gritos das almas e dos corpos atormentados, é quase a essência mesma de viver espiritualmente o período da Quaresma na existência da Igreja. Na última semana da Quaresma — depois de tais preparações (e só depois delas) — a Igreja exorta-nos a uma particular e excepcional solidariedade com o próprio Cristo que sofre. Embora nos acompanhe, durante todas as semanas deste período, o pensamento da paixão de Cristo, só todavia esta semana, a única no sentido pleno da palavra, é a semana da Paixão do Senhor. É a Semana Santa. A chamada a uma particular e excepcional solidariedade com Cristo que sofre faz-se sentir no fim do período quaresmal. Faz-se sentir quando está já desenvolvida em nós a atitude de conversão espiritual, e particularmente o sentido de solidariedade com todos os nossos irmãos que sofrem. Corresponde isto à lógica da revelação: o amor de Deus é o primeiro e maior mandamento, mas não pode cumprir-se fora do amor do homem. Não se cumpre sem este.

2. Ao mesmo tempo os mais profundos e mais fortes impulsos do amor devem brotar desta Semana, na qual somos chamados a uma particular e excepcional solidariedade com Cristo, na sua paixão e morte na Cruz. Deus de facto amou tanto o mundo — o homem no mundo—que lhe deu o seu Filho único (Jo. 3, 6). Deu-o à paixão e à morte. Contemplando esta revelação de amor que parte de Deus e se estende até ao homem no mundo, não podemos deter-nos mas devemos retomar o caminho «do regresso»: o caminho do coração humano que vai até Deus, o caminho do amor. A Quaresma — e sobretudo a Semana Santa - deve ser, cada ano da nossa vida na Igreja, um novo início deste «caminho do amor». A Quaresma identifica-se, como vemos, com o ponto culminante da revelação do amor de Deus para com o homem.

Portanto a Igreja exorta-nos a determo-nos, de modo particularíssimo e excepcional, ao lado de Cristo, só junto d'Ele. Exorta-nos — como São Paulo — (pelo menos nesta semana) a não sabermos coisa alguma ... a não ser Jesus Cristo e Este crucificado (1 Cor. 2, 2). Esta exortação dirige-a a Igreja a todos: não só à inteira comunidade dos crentes, a todos os seguidores de Cristo, mas também a todos os outros. Parar diante de Cristo que sofre, encontrar a pessoa em si mesma a solidariedade com Ele — eis o dever e a necessidade de todo o coração humano, eis a verificação da sensibilidade humana. Nisto se manifesta a nobreza do homem. A Semana Santa é pois o tempo da mais larga abertura da Igreja para a humanidade e juntamente o tempo-vértice da evangelização: através de tudo o que durante estes dias a Igreja pensa e diz de Cristo, através do modo com que vive a Sua paixão e morte, através da sua solidariedade com Ele, a Igreja volta, ano após ano, às raízes mesmas da sua missão e do seu anúncio salvador. E se nesta Semana Santa a Igreja, mais que falar, se cala, fá-lo para que possa tanto mais falar o próprio Cristo. Aquele Cristo a quem o Papa Paulo VI chamou o primeiro e perene Evangelizador (Cfr.Evangelii Nuntiandi, 7).

3. A evangelização pratica-se com a ajuda das palavras. Precisamente as palavras de Cristo pronunciadas durante a Sua paixão têm força enorme de expressão. Pode-se também dizer que elas são lugar de especial encontro com cada homem; são a ocasião e o motivo para manifestar grande solidariedade. Quantas vezes voltamos àquele que os Evangelistas registaram como fio condutor da oração de Cristo no jardim das Oliveiras: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálix (Mt. 26, 39)? Não sente deste modo cada homem no sofrimento, na tribulação, diante da cruz: «Passe de mim»? Quão profunda verdade humana está encerrada nesta frase! Cristo como verdadeiro homem, sentiu repugnância diante do sofrimento: Começou a entristecer-se e a angustiar-se (Mt. 26, 37) e disse: «Passe de mim ...», não venha, não se encontre comigo! É necessário aceitar toda a expressão humana, toda a verdade humana destas palavras, para as saber unir com as de Cristo: Se é possível, passe de mim este cálix, todavia não seja como eu quero mas como tu queres (Mt. 26, 39). Todo o homem, encontrando-se diante do sofrimento, encontra-se diante dum desafio ... É este apenas um desafio da sorte? Cristo dá a resposta dizendo: «Como tu queres». Não se dirige a uma sorte, a uma «sorte cega». Fala a Deus. Ao Pai. As vezes esta resposta não nos basta, porque não é a última palavra, mas a primeira. Não podemos compreender nem o Getsémani nem o Calvário, senão no contexto do acontecimento pascal completo. De todo o mistério.

4. Nas palavras da paixão de Cristo há um encontro particularmente intenso do humano com odivino. Já o demonstram as palavras do Getsémani. Depois, Cristo calar-se-á sobretudo. Dirá uma frase a Judas. Depois àqueles que Judas conduziu ao jardim do Getsémani para o prenderem. Depois ainda a Pedro. Diante do Sinédrio não se defende, mas dá testemunho. Assim também diante de Pilatos. E diante de Herodes não respondeu nada (Lc. 23, 9). Durante o suplício realizam-se as palavras de Isaías: Era como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha emudecida nas mãos do tosquiador, não abriu a sua boca (Is. 53, 7). As suas últimas palavras caem do alto da Cruz. Explicam-se no seu conjunto com o decurso do acontecimento, com o horrível suplício e ao mesmo tempo, por meio delas, apesar da sua brevidade e concisão, transparece o que é «divino» e «salvífico». Compreendemos o sentido «salvífico» das palavras dirigidas a sua Mãe, a João, ao bom ladrão, como também das palavras que se referiam•aos que o crucificaram. Perturbadoras são as últimas palavras dirigidas ao Pai: último eco e juntamente quase continuação da oração do Getsémani. Cristo diz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste(Mt. 27, 46), repetindo as palavras do Salmista (Cfr. Sl. 21 (22), 1). No Getsémani dissera: Se é possível, passe de mim este cálix (Mt. 26, 39). E agora, do alto da cruz, confirmou publicamente que o «cálix» não foi afastado, que tem de o beber até ao fundo. Tal é a vontade do Pai. De facto, o eco da oração do Getsémani é esta palavra: Tudo está consumado (Jo. 19. 30). E, por fim, esta só: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito (Lc. 23, 46).

A agonia de Cristo. Primeiro, a moral no Getsémani. Depois, a moral e física ao mesmo tempo, na Cruz. Ninguém, como Cristo, manifestou tão profundamente o tormento humano de morrer, exactamente porque era Filho de Deus; porque o «humano» e o «divino» constituíam n'Ele uma unidade misteriosa. Por isso, também aquelas palavras da paixão de Cristo, tão penetrantemente humanas, constituirão sempre uma revelação da «divindade» que em Cristo se ligou à humanidade, na plenitude da unidade pessoal. Pode-se dizer: era necessária a morte de Deus-Homem, para que nós, herdeiros do pecado original, víssemos o que é o drama da morte do homem.

Devemos, nesta Semana Santa, chegar a uma solidariedade particular com Cristo que sofre, que é crucificado e agoniza, para reencontrar na nossa vida a proximidade do que é «divino» e do que é «humano». Deus decidiu falar-nos com a linguagem do amor que é mais forte que a morte. Recebamos tal mensagem.

***

Saudações

Aos jovens

Dirijo-me agora, de modo especial, a vós rapazes e meninas, adolescentes e jovens, que vejo tão alegres e numerosos como sempre, nesta audiência:

Saúdo-vos com profundo afecto e agradeço a vossa presença, cheia de vida e entusiasmo. E ao mesmo tempo que a vós, desejo saudar os vossos pais e professores. Estamos na Semana Santa e meditamos a Paixão de Jesus, que terminará com a sua Ressurreição gloriosa: e por isso podemos também dizer que estamos na "Semana da Esperança". O mundo de hoje tem necessidade de esperança, encontra-se cada vez mais na dramática busca da "esperança que não engana". A vós pertence, caros jovens, serdes no mundo de hoje os mensageiros da verdadeira esperança que é Cristo. Diga cada um de vós a si mesmo: quero ser apóstolo da esperança. Com estes votos, cheguem até vós o meu augúrio mais afectuoso e a minha Bênção Apostólica.

Aos Doentinhos

Neste encontro da Semana Santa, quero sobretudo saudar os doentes e os que sofrem, os que estão nesta Praça e os que — todos muito queridos ao meu coração — vivem, em grande número e muitas vezes na solidão, sobre a face da terra. Para eles dirige o seu olhar Jesus que sofre, Jesus crucificado, para infundir conforto e coragem, para tornar preciosa a cruz deles, não só para que se purifiquem e santifiquem pessoalmente mas ainda para bem da Igreja e da humanidade atribulada. Isto; amados filhinhos, vos diz hoje o Papa, rezando por vós.

Aos jovens Casais

Um momento de especial e afectuosa "atenção desejo dirigir em seguida aos esposos aqui presentes. Obrigado por virdes ter com o Papa: é sinal de fé, e a fé vos acompanhe sempre a vós e às vossas famílias; porque a fé é presença de Deus, e Deus é a fonte da alegria, do amor e sobretudo daquelas virtudes que tornam e sempre tornarão sólida, segura e serena a vossa união.

A esmola: sinal universal de justiça e solidariedade




JOÃO PAULO II

21ª AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 4 de Abril de 1979

Irmãs e Irmãos caríssimos

1. Desejo voltar mais uma vez aos assuntos das nossas três meditações quaresmais: oração, jejum e esmola; sobretudo a esta última. Se a oração, o jejum e a esmola formam a nossa conversão a Deus, conversão que é expressa de modo mais exacto com o termo grego «metánoia», se elas constituem o principal tema da liturgia quaresmal, um estudo penetrante desta liturgia persuade-nos que a «esmola» ocupa nesta um lugar especial. Procurámos explicá-lo brevemente na quarta-feira passada, apoiando-nos no ensinamento de Cristo e dos Profetas do Antigo Testamento, que ressoa muitas vezes na liturgia quaresmal.

Existe porém a necessidade de actualizar esta matéria, de a traduzir, por assim dizer, não só em linguagem de termos modernos, mas também em linguagem da realidade humana actual: interior e social, ao mesmo tempo. Como se referem à realidade actual as palavras pronunciadas há milhares de anos, num contexto histórico-social completamente diverso, palavras dirigidas a homens duma mentalidade tão diversa da de hoje? Como é possível então aplicá-las a nós mesmos? Que pontos nevrálgicos da nossa actual injustiça, das iniquidades humanas e das várias desigualdades, não eliminadas na vida da humanidade — embora tantas vezes a palavra de ordem «igualdade» tenha sido escrita em várias bandeiras —, que pontos devem as nossas palavras combater?

Ressoam com energia insólita as discretas palavras de Cristo dirigidas um dia ao apóstolo traidor:Pobres sempre tereis convosco; mas a mim nem sempre me tereis (Jo. 12, 8).

«Vós tereis sempre pobres convosco». Depois do abismo desta palavra, nenhum homem pôde nunca dizer o que é a Pobreza. (...) Quando se pergunta a Deus, Ele responde que é Ele precisamente o Pobre: «Ego sum pauper» (Léon Bloy, La femme pauvre, II.1, Mercure de France 1948).

2. A chamada à penitência, à conversão, significa chamada à abertura interior «para com os outros». Nada pode substituir, na história da Igreja e na história do homem, esta chamada. Esta chamada tem infinitos destinatários. Dirige-se a todos os homens e dirige-se a cada um pelos motivos próprios a ele mesmo. Cada um deve portanto ver-se nos dois aspectos do destino desta chamada. Cristo exige de mim uma abertura para com o outro. Mas para com que outro? Para com aquele que está aqui, neste momento. Não se pode «adiar» esta chamada de Cristo para um momento indefinido em que aparecerá aquele mendigo «qualificado» a estender a mão.

Devo estar aberto para cada homem, disposto a «oferecer-me». A oferecer-me levando quê? E sabido que às vezes com uma só palavra podemos «dar um presente» ao outro; mas com uma palavra só, podemos também golpeá-lo dolorosamente, injuriá-lo e feri-lo; podemos até «matá-lo» moralmente. É necessário portanto aceitar esta chamada de Cristo naquelas ordinárias situações quotidianas de convivência e de contacto, onde cada um de nós é sempre aquele que pode «dar» aos outros e, ao mesmo tempo, aquele que sabe aceitar o que os outros podem oferecer-lhe.

Responder à chamada de Cristo para me abrir interiormente para os outros, significa viver sempre pronto a encontrar-me do outro lado do destino desta chamada. Eu sou quem dá aos outros, mesmo quando sei receber, quando sou agradecido por todo o bem que me chega doutrem. Não posso ser fechado e ingrato. Não posso isolar-me. Aceitar o chamamento de Cristo para abrir-me aos outros exige, como se vê, uma reelaboração de todo o estilo da nossa vida quotidiana. É necessário corresponder a esta chamada nas dimensões reais da vida. Não adiar para outras condições e circunstâncias, para quando se apresentar a necessidade. Urge perseverar continuamente nessa atitude interior. Sem isso, quando se apresentar a ocasião «extraordinária», poderá acontecer-nos que não tenhamos a correspondente disposição.

3. Entendendo assim, de maneira prática, o significado da chamada de Cristo a «oferecermo-nos» aos outros na vida de cada dia, não queremos restringir o sentido desta doação apenas aos factos quotidianos, por assim dizer de pequenas dimensões. O nosso «oferecermo-nos» deve referir-se também aos factos longínquos, às necessidades do próximo com quem não estamos em contacto cada dia, mas de cuja existência somos conhecedores. Sim, hoje sabemos muito melhor quais as necessidades, os sofrimentos e as injustiças dos homens que vivem noutros países, noutros continentes. Estamos longe deles geograficamente, estamos separados por barreiras linguísticas, por fronteiras levantadas por cada um dos Estados ... Não podemos entranhar-nos directamente na fome deles, nas indigências, nos maus-tratos, nas humilhações, nas torturas, na prisão, nas discriminações sociais que os amarguram, nas condenações a um «exílio interior» ou à «proscrição» a que se vêem sujeitos; sabemos todavia que sofrem, e sabemos que são homens como nós, nossos irmãos. A «fraternidade» não foi escrita só nas bandeiras e nos estandartes das modernas revoluções. Já há muito a proclamou Cristo: ... vós sois todos irmãos (Mt. 23, 8). E mais ainda: a esta fraternidade deu Ele um ponto indispensável de referência: ensinou-nos a dizer «Pai nosso». A fraternidade humana pressupõe a paternidade divina.

A chamada de Cristo a abrirmo-nos «ao outro», ao «irmão», precisamente ao irmão, tem um raio de extensão sempre concreto e sempre universal. Diz respeito a cada um, porque se refere a todos. A medida deste «abrirmo-nos» não é só — e não é tanto — a proximidade do outro, quanto o são exactamente as suas carências: tinha fome, tinha sede, estava nu, na prisão, doente ... Respondamos a esta chamada procurando o homem que sofre, seguindo-o até além-fronteiras dos Estados e dos Continentes. Deste modo cria-se — através do coração de cada um de nós — aquela dimensão universal da solidariedade humana. A missão da Igreja está em guardar esta dimensão: Não limitar-se a algumas políticas e a alguns sistemas. Guardar a universal solidariedade humana sobretudo com aqueles que sofrem; conservá-la com respeito a Cristo que formou, duma vez para sempre, essa dimensão de solidariedade com o homem. O amor de Cristo nos constrange, persuadidos que, se um só morreu por todos, então todos estão mortos. Cristo morreu por todos para que os que vivem já não vivam para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou (2 Cor. 5, 14 s). E deu-no-la como missão, uma vez para sempre. Deu-a a cada um. Quem é fraco, sem que eu também o seja? Quem tropeça, que eu não me consuma com febre? São palavras de São Paulo (2 Cor. 11, 29).

Portanto, na nossa consciência — na consciência individual do cristão —, na consciência social dos vários ambientes e das nações, devem formar-se, diria eu, zonas especiais de solidariedade precisamente com aqueles que mais sofrem. Devemos trabalhar sistematicamente para que as zonas de especiais carências humanas, dos grandes sofrimentos, dos agravos e das injustiças, se tornem zonas de solidariedade cristã de toda a Igreja e, por meio da Igreja, de cada sociedade e da humanidade inteira.

4. Se vivemos em condições de prosperidade ou de bem-estar, mais urna razão para termos consciência de toda a geografia da fome no globo terrestre; mais uma razão para dirigirmos a nossa atenção para a miséria humana, como fenómeno de massa; devemos despertar a nossa responsabilidade e estimular a prontidão para um auxílio activo e eficaz. Se vivemos nas condições de liberdade, de respeito dos direitos humanos, mais uma razão para sofrermos pelas opressões das sociedades que estão privadas da liberdade, pelas opressões dos homens que estão privados dos direitos fundamentais humanos. Isto diz respeito também à liberdade religiosa. De modo especial onde há respeito pela liberdade religiosa, devemos participar nos sofrimentos dos homens, às vezes de comunidades religiosas inteiras e de Igrejas inteiras, a quem é negado o direito à vida na religião segundo a própria confissão ou o próprio rito. Devo chamar pelos seus nomes a tais situações? Sem dúvida. É meu dever. Mas não podemos ficar só nisto. É necessário que nós, todos e em toda a parte, nos esforcemos por tomar uma atitude de solidariedade cristã com os nossos irmãos na fé, que sofrem discriminações e perseguições. É necessário, além disso, procurar formas em que esta solidariedade possa exprimir-se. Esta foi sempre, desde os tempos mais antigos, a tradição da Igreja. Na verdade, é bem sabido que a Igreja de Jesus Cristo não entrou «em posição de força» na história da humanidade, mas através de séculos de perseguições sofridas. E foram precisamente estes séculos que estabeleceram a mais profunda tradição da solidariedade cristã.

Também hoje tal solidariedade é a força duma renovação autêntica. É o caminho indispensável para a auto-realização da Igreja no mundo contemporâneo. Foi a verificação da nossa fidelidade a Cristo que levou a dizer: Pobres sempre tereis convosco (Jo. 12, 8. 7), e ainda: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes (Mt. 25, 40). A nossa conversão a Deus só se realiza no caminho desta solidariedade.

Abençoo-vos com muito afecto.

***

Saudações

Apelo

Antes de dirigir a minha palavra aos peregrinos das diversas Nações, nas suas próprias línguas, desejo ocupar o meu pensamento com uma situação particular, que muito me aflige.

Constituem para mim motivo de dor profunda as graves e preocupantes notícias, que chegam nestes dias do Uganda, País que, bem o sabeis, recebeu calorosamente o meu Predecessor Paulo VI, na sua histórica visita à África. Ele é agora teatro de recontros sangrentos, que produzem vítimas e destruições. Convido a que vos unais à minha oração, para que Deus alivie os sofrimentos daquelas provadas populações e lhes assegure, como a todo o Continente africano, o dom ambicionado duma paz justa e estável.

A peregrinações italianas

Saúdo com paternal afecto os Párocos e os fiéis das numerosas peregrinações italianas provenientes das respectivas paróquias perto ou longe, com os seus generosos propósitos de santa Páscoa. Especiais boas-vindas quero dar peregrinação da Diocese de Forlì, composta de mais de mil fiéis, presididos pelo Bispo, D. Giovanni Proni. Congratulo-me com eles pela fervorosa devoção à Santíssima Virgem, venerada com o título de "Madonna del Fuoco"; e peço-Lhe, juntamente com todos vós, que mantenha sempre as nobres tradições cristãs recebidas dos vossos pais, vos inflame de contínuo amor para com Deus e o próximo, e seja animadora de coesão fraterna não só em toda a Diocese a Ela consagrada mas ainda em toda a região da Romanha.

Aos jovens

Desejo agora dirigir urna palavra especial aos numerosíssimos jovens, provenientes de várias partes, que participam neste encontro.

Sede bem-vindos, caríssimos jovens.

A esta imponente Audiência, que deseja ser também festa dos corações, trazeis vós uma nota singular de alegria, de bondade e de esperança. Saúdo-vos cordialmente e expresso-vos a minha gratidão

Como tive já ocasião de dizer muitas vezes, a Igreja tem confiança em vós e no vosso entusiasmo por todas as causas nobres e grandes; deve ter confiança em vós, porque sois os homens de amanhã. Olhando para os vossos rostos, vemos o futuro. Na luz dos vossos alhos, brilha o ano 2000. Espectáculo este impressionante e animador, que, ao mesmo tempo, é também exigência de autêntica formação humana e cristã.

Ao olhar para vós, penso naquilo que sereis e é para mim motivo de conforto o vosso generoso esforço.

Uma só recomendação quero dirigir-vos hoje: recordai-vos que o mundo precisa de inocência. Todos os valores, são importantes e necessários para o desenvolvimento da pessoa e da sociedade e para o bom andamento da vida civil. Mas o cristão sabe que o valor principal e absoluto e a "graça" de Deus, que é participação na vida ,mesma da Trindade Santíssima e presença de Deus na própria alma; numa palavra, o primeiro valor é para todos a inocência de vida, mantida mediante a observância dos Dez Mandamentos, ou seja, da lei moral e mediante a oração e os Sacramentos.

De facto, o próprio Jesus ensinou-nos: Se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a sua alma? Ou que poderá dar o homem em troca da sua alma? (Mt 16, 24-26).

E ainda Jesus nos roga que não nos separemos d'Ele, que é a "Videira verdadeira", quer dizer, que não percamos a "graça", para não nos tornarmos varas secas e inúteis: Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como a vara não pode dar fruto por si mesma se não estiver na videira, assim acontecerá convosco se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer ( Jo 15, 4-6).

Por isso, exorto-vos também eu, como Jesus: conservai a inocência. Vivei na graça de Deus. Não vos deixeis atrair, enredar, arrastar e sufocar pelo mal, que — bem sabeis — existe sempre no mundo e também em nós mesmos, dada a nossa natureza, remida sim, mas ferida pelo pecado original.

Confio-vos a Maria Santíssima, que vos convido a invocar cada dia, e de coração a todos vos abençoo.

Aos doentinhos

Um especial e afectuoso pensamento para vós todos, doentes do corpo e do espírito, que de várias Nações viestes visitar o Papa.

Que encontro significativo, cordial e interessante é este, que se realiza entre todos os que representam a Humanidade sofredora e o Vigário na terra d'Aquele que quis ser o "Homem das dores", com o propósito de dar valor, conforto e esperança ao sofrer de cada existência humana!

O presente tempo litúrgico leva-nos a considerar a Cristo, que, ao agonizar no jardim de Getsémani, aceitou sujeitar-se ao pavor, à angústia e à tristeza profunda (cfr. Mc 14, 33). Orou, entregou-se totalmente à vontade do Pai Celeste e recebeu conforto e força suficiente para beber até ao fundo o cálice da dor (ibid. 14, 36).

Caríssimos enfermos, conservai fixo o olhar em Cristo, vosso Amigo, vosso Modelo e vosso Consolador. Seguindo o seu exemplo, conseguireis que o vosso pavor se transforme em serenidade, a vossa angústia se troque em esperança e a vossa tristeza se mude em alegria, o vosso sofrimento se torne purificação e mérito para as vossas almas, além de precioso contributo para o bem espiritual da Igreja (cfr. Col 1, 24).

De coração vos abençoo, aqueles que vos são queridos e todos os que amorosamente vos assistem.

Aos jovens Casais

Permiti-me, por fim, que me dirija a vós, jovens casais, que, como habitualmente, sois numerosos e vos encontrais animados do vivo desejo de prestar filial homenagem ao Papa, de ouvir a Sua palavra e receber a Sua bênção.

Com grande prazer descubro entre vós o grupo de cônjuges pertencentes ao Movimento dos Focolares, que provêm de vários Países europeus.

Filhos caríssimos, fazei que as novas famílias — nascidas do afecto do coração e do consentimento livre da vossa vontade, selado pela graça divina do Sacramento do Matrimónio — sejam sempre e profundamente penetradas por amor forte e fecundo, se mantenham firmes sobre a rocha da unidade e da fidelidade, e sejam vivificadas por aquelas virtudes cristãs, que fundam e garantem a paz e a prosperidade do lar doméstico que vós acabais de acender.

Sobre as vossas famílias que nascem invoco a assistência contínua do Senhor e a todos concedo de boa vontade a minha Bênção especial.

domingo, 1 de abril de 2012

DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR



Leituras: Is 50,4-7; 21(22); Fl 2,6-11; Mc 14,1-15,47

AMBIENTE

Marcos procura, no seu Evangelho, apresentar a figura de Jesus de acordo com duas grandes coordenadas. Uma, desenvolvida na primeira parte do Evangelho, apresenta Jesus como o Messias, enviado por Deus aos homens para lhes propor o Reino (cf. Mc 1,14-8,30); outra, tratada na segunda parte do Evangelho, apresenta Jesus como o Filho de Deus, que para cumprir a missão que o Pai lhe confiou tem de passar pela morte, mas a quem Deus ressuscitará (cf. Mc 8,31-16,8).
A leitura que hoje nos é proposta é o relato da paixão de Jesus. O relato, inegavelmente fundamentado em acontecimentos concretos, não é uma simples reportagem jornalística da condenação à morte de um inocente; mas é, sobretudo, uma catequese destinada a apresentar Jesus como o Filho de Deus que aceita cumprir o projecto do Pai, mesmo quando esse projecto passa por um destino de cruz. Marcos pretende que os crentes a quem a catequese se destina concluam, como o centurião romano que testemunha a paixão e morte de Jesus: “na verdade, este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). Fica assim demonstrada a tese que Marcos, desde o início do Evangelho (cf. Mc 1,1), se propôs apresentar: Jesus, o Messias, é o Filho de Deus.
Betânia, o cenáculo, o Getsemani, o palácio do sumo-sacerdote, o pretório romano, o Gólgota e o túmulo são os cenários onde se desenrola a acção e onde vai sendo demonstrada a filiação divina de Jesus.

MENSAGEM

A morte de Jesus tem de ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida. Desde cedo, Jesus apercebeu-Se de que o Pai O chamava a uma missão: anunciar esse mundo novo, de justiça, de paz e de amor para todos os homens. Para concretizar este projecto, Jesus passou pelos caminhos da Palestina “fazendo o bem” e anunciando a proximidade de um mundo novo, de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos. Ensinou que Deus era amor e que não excluía ninguém, nem mesmo os pecadores; ensinou que os leprosos, os paralíticos, os cegos não deviam ser marginalizados, pois não eram amaldiçoados por Deus; ensinou que eram os pobres e os excluídos os preferidos de Deus e aqueles que tinham um coração mais disponível para acolher o “Reino”; e avisou os “ricos” (os poderosos, os instalados) de que o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, o fechamento só podiam conduzir à morte.
O projecto libertador de Jesus entrou em choque – como era inevitável – com a atmosfera de egoísmo, de má vontade, de opressão que dominava o mundo. As autoridades políticas e religiosas sentiram-se incomodadas com a denúncia de Jesus: não estavam dispostas a renunciar a esses mecanismos que lhes asseguravam poder, influência, domínio, privilégios; não estavam dispostas a arriscar, a desinstalar-se e a aceitar a conversão proposta por Jesus. Por isso, prenderam Jesus, julgaram-n’O, condenaram-n’O e pregaram-n’O numa cruz.
A morte de Jesus é a consequência lógica do anúncio do “Reino”: resultou das tensões e resistências que a proposta do “Reino” provocou entre os que dominavam o mundo.
Podemos, também, dizer que a morte de Jesus é o culminar da sua vida; é a afirmação última, porém mais radical e mais verdadeira (porque marcada com sangue), daquilo que Jesus pregou com palavras e com gestos: o amor, o dom total, o serviço.
Na cruz, vemos aparecer o Homem Novo, o protótipo do homem que ama radicalmente e que faz da sua vida um dom para todos. Porque ama, este Homem Novo vai assumir como missão a luta contra o pecado – isto é, contra todas as causas objectivas que geram medo, injustiça, sofrimento, exploração e morte. Assim, a cruz mantém o dinamismo de um mundo novo – o dinamismo do “Reino”.
No relato da Paixão na versão de Marcos, não difere substancialmente das versões de Mateus e de Lucas; no entanto, há algumas coordenadas que Marcos sublinha especialmente. De entre elas, destacamos:

1. Ao longo de todo o processo, Jesus manifesta uma grande serenidade, uma grande dignidade e uma total conformação com aquilo que se está a passar. Não se trata de passividade ou de inconsciência, mas de aceitação serena de um caminho que Ele sabe que passa pela cruz. Marcos sugere, desta forma, que Jesus está perfeitamente conformado com o projecto do Pai e que a sua vontade é cumprir fiel e integralmente o plano de Deus, sem objecções ou resistências de qualquer espécie. Esta “dignidade” de Jesus diante do processo que as autoridades religiosas e políticas lhe movem é atestada em várias cenas:
  • Mateus e Lucas põem Jesus a interpelar directamente Judas, quando este o entrega no monte das Oliveiras (cf. Mt 26,50; Lc 22,48); mas na narração de Marcos, Jesus mantém-se silencioso e cheio de dignidade diante da traição do discípulo (cf. Mc 14,45-46), sem observações ou recriminações.
  • Mateus põe Jesus a desautorizar Pedro quando este fere um servo do sumo-sacerdote cortando-lhe uma orelha (cf. Mt 26,52) e, na narração de Lucas, Jesus pede aos discípulos que deixem actuar os seus sequestradores (cf. Lc 22,51); mas Marcos não apresenta, no mesmo episódio, qualquer reacção de Jesus (cf. Mc 14,47). Marcos apenas acrescenta que a prisão de Jesus acontece para que se cumpram as Escrituras (cf. Mc 14,49).
  • No tribunal judaico, quando interrogado pelo sumo-sacerdote acerca das acusações que lhe eram feitas, Jesus manteve um silêncio solene e digno (cf. Mc 14,61a), recusando defender-Se das acusações dos seus detractores.

2. Uma das teses fundamentais do Evangelho de Marcos é que Jesus é o Filho de Deus (cf. Mc 1,1). Esta ideia também está bem presente, bem sublinhada, bem desenvolvida, no relato da Paixão:
  • No jardim das Oliveiras, pouco antes de ser preso, Jesus dirige-Se a Deus (cf. Mc 14,36) e chama-Lhe “Abba” (“paizinho”, “papá”). Esta apalavra não era usada nas orações hebraicas como invocação de Deus; mas era usada na intimidade familiar e expressava a grande proximidade entre um filho e o seu pai. Para a psicologia judaica, teria sido um sinal de irreverência usar uma palavra tão familiar para se dirigir a Deus. O facto de Jesus usar esta palavra, revela a comunhão que havia entre Jesus e o Pai e revela uma relação marcada pela simplicidade, pela intimidade, pela total confiança.
  • Apesar do silêncio digno de Jesus durante o interrogatório no palácio do sumo-sacerdote, há um momento em que Jesus não hesita em esclarecer as coisas e em deixar clara a sua divindade. Quando o sumo-sacerdote Lhe perguntou directamente se Ele era “o Messias, o Filho de Deus bendito” (Mc 14,61b), Jesus respondeu, sem subterfúgios: “Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-poderoso e vir sobre as nuvens do céu” (Mc 14,62). A expressão “eu sou” (“egô eimi”) leva-nos ao nome de Deus no Antigo Testamento (“eu sou aquele que sou” - Ex 3,14)… É, na perspectiva do nosso evangelista, a afirmação inequívoca da dignidade divina de Jesus. A referência ao “sentar-se à direita do Todo-poderoso” e ao “vir sobre as nuvens” sublinha, também, a dignidade divina de Jesus, que um dia aparecerá no lugar de Deus, como juiz soberano da humanidade inteira. O sumo-sacerdote percebe perfeitamente o alcance da afirmação de Jesus (Ele está a arrogar-Se a condição de Filho de Deus e a prerrogativa divina por excelência – a de juiz universal); por isso, manifesta a sua indignação rasgando as vestes e condenando Jesus como blasfemo.
  • Marcos põe um centurião romano a dizer, junto da cruz de Jesus: “na verdade, este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). Mais do que uma afirmação histórica, esta frase deve ser vista como uma “profissão de fé” que Marcos convida todos os crentes a fazer… Depois de tudo o que foi testemunhado ao longo do Evangelho, em geral, e no relato da paixão, em particular, a conclusão é óbvia: Jesus é mesmo o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para lhes apresentar uma proposta de salvação.

3. Apesar de Filho de Deus, o Jesus de Marcos é também homem e partilha da debilidade e da fragilidade da natureza humana:
  • No jardim das Oliveiras, pouco antes de ser preso, o Jesus de Marcos sentiu “pavor” e “angústia” (cf. Mc 14,33), como acontece com qualquer homem diante da morte violenta (Mateus é ligeiramente mais moderado e fala da “tristeza” e da “angústia” de Jesus – cf. Mt 26,37; e Lucas evita fazer qualquer referência a estes sentimentos que, sublinhando a dimensão humana de Jesus, podiam lançar dúvidas sobre a sua divindade).
  • No momento da morte, Jesus reza: “meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste” (Mc 15,34). A “oração” de Jesus é a “oração” de um homem que, como qualquer outro ser humano, experimenta a solidão, o abandono, o sentimento de impotência, a sensação de falhanço… e do fundo do seu drama, não compreende a ausência e a indiferença de Deus.
Não há dúvida: o Jesus apresentado por Marcos é, também, o homem/Jesus que Se solidariza com os homens, que os acompanha nos seus sofrimentos, que experimenta os seus dramas, fragilidades e debilidades.

4. Em todos os relatos da paixão, Jesus aparece a enfrentar sozinho (abandonado pelas multidões e pelos próprios discípulos) o seu destino de morte; mas Marcos sublinha especialmente a solidão de Jesus, nesses momentos dramáticos:
  • Lucas põe um anjo a confortar Jesus, no jardim das Oliveiras (cf. Lc 22,43); Marcos não faz qualquer referência a esse momento de “consolação.
  • Mateus conta que a mulher de Pilatos intercedeu por Jesus, pedindo ao marido que não se intrometesse “no caso desse justo” (cf. Mt 27,19); Marcos não refere nenhuma interferência deste tipo no processo de Jesus.
  • João, além de Pedro, refere a presença de um “outro discípulo conhecido do sumo-sacerdote” no palácio de Anás (Jo 18,15); Marcos, para além de Pedro (que negou Jesus três vezes), nunca refere a presença de qualquer outro dos discípulos.
  • Lucas fala na presença de mulheres, ao longo do caminho do calvário, que “batiam no peito e se lamentavam por Ele” (Lc 23,27-31); Marcos também não conhece ninguém que se lamentasse durante o caminho percorrido por Jesus em direcção ao lugar da execução (só após a morte de Jesus, Marcos observa que algumas mulheres que O seguiam e serviam quando estava na Galileia estavam ali a “contemplar de longe” – Mc 15,40-41).
Abandonado pelos discípulos, escarnecido pela multidão, condenado pelos líderes, torturado pelos soldados, Jesus percorre na solidão, no abandono, na indiferença de todos, o seu caminho de morte. O grito final de Jesus na cruz (“meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste” – Mc 15,34) pode ser o início do Salmo 22 (cf. Sal 22,2); mas é, também, expressão dramática dessa solidão que Jesus sente à sua volta.

5. Só Marcos relata o episódio do jovem não identificado que seguia Jesus envolto apenas num lençol e que fugiu nu quando os guardas o tentaram agarrar (cf. Mc 14,51-52). Para alguns comentadores do Evangelho segundo Marcos, o jovem em causa poderia ser o próprio evangelista… Trata-se, no entanto, de uma simples conjectura.
É mais provável que o episódio tenha sido introduzido por Marcos para representar plasticamente a atitude dos discípulos que, desiludidos e amedrontados diante do falhanço do projecto em que acreditaram, largaram tudo quando viram o seu líder ser preso e fugiram sem olhar para trás. 

ACTUALIZAÇÃO

• Celebrar a paixão e a morte de Jesus é abismar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil… Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites e fragilidades, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a mordedura das tentações, experimentou a angústia e o pavor diante da morte; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir connosco “até ao fim dos tempos”: esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração dos crentes.

• Contemplar a cruz onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus significa assumir a mesma atitude que Ele assumiu e solidarizar-Se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade… Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor… Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição.

• Um dos elementos mais destacados no relato marciano da paixão é a forma como Jesus Se comporta ao longo de todo o processo que conduz à sua morte… Ele nunca Se descontrola, nunca recua, nunca resiste, mas mantém-Se sempre sereno e digno, enfrentando o seu destino de cruz. Tal não significa que Jesus seja um herói inconsciente a quem o sofrimento e a morte não assustam, ou que Ele Se coloque na pele de um fraco que desistiu de lutar e que aceita passivamente aquilo que os outros Lhe impõem… A atitude de Jesus é a atitude de quem sabe que o Pai Lhe confiou uma missão e está decidido a cumprir essa missão, custe o que custar. Temos a mesma disponibilidade de Jesus para escutar os desafios de Deus e a mesma determinação de Jesus em concretizar esses desafios no mundo?

• A “angústia” e o “pavor” de Jesus diante da morte, o seu lamento pela solidão e pelo abandono, tornam-n’O muito “humano”, muito próximo das nossas debilidades e fragilidades. Dessa forma, é mais fácil identificarmo-nos com Ele, confiar n’Ele, segui-l’O no seu caminho do amor e da entrega. A humanidade de Jesus mostra-nos, também, que o caminho da obediência ao Pai não é um caminho impossível, reservado a super-heróis ou a deuses, mas é um caminho de homens frágeis, chamados por Deus a percorrerem, com esforço, o caminho que conduz à vida definitiva.

• A solidão de Jesus diante do sofrimento e da morte anuncia já a solidão do discípulo que percorre o caminho da cruz. Quando o discípulo procura cumprir o projecto de Deus, recusa os valores do mundo, enfrenta as forças da opressão e da morte, recebe a indiferença e o desprezo do mundo e tem de percorrer o seu caminho na mais dramática solidão. O discípulo tem de saber, no entanto, que o caminho da cruz, apesar de difícil, doloroso e solitário, não é um caminho de fracasso e de morte, mas é um caminho de libertação e de vida plena.

• A figura do jovem que, no jardim das Oliveiras, deixou o lençol que o cobria nas mãos dos soldados e fugiu pode ser figura do discípulo que, amedrontado e desiludido, abandonou Jesus. Já alguma vez virámos as costas a Jesus e ao seu projecto, seduzidos por outras propostas? O que é que nos impede, por vezes, de nos mantermos fiéis ao projecto de Jesus?

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)

LEITURA ORANTE: A perda é salvação

Quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. Preparo-me para a Leitura Orante, rezando com todos os que, nesta rede da...